I

Por mais de um mez procurára tambem saber a historia do tio Joaquim. Havia na tristeza, em que o velho descaia tantas vezes, quando parecia mais alegre, rasão sobeja para me aguçar a curiosidade. Tentára interrogal o; mas debalde sempre.

Não era porque o tio Joaquim deixasse de me estimar devéras.

Conhecêra-me de pequeno e tivera-me sempre por seu companheiro constante nos passeios melancholicos, em que, apoz o seu pensamento, caminhava horas sem dar palavra.

Ia com elle, calado tambem. Respeitava a grande dôr que n’essas occasiões parecia opprimil-o; e não me atrevia a perturbal-o com perguntas indiscretas, ou observações futeis.

Presentia, que um padecimento grande o envelhecêra bem cedo, e receava tanto mergulhar a vista nas profundezas d’aquella magua, como trepidava sempre ao approximar-me de um precipicio. Era o desconhecimento que me sobresaltava, o que quer que era extranho, que me impunha respeito.

O tio Joaquim lembrava-me um d’esses livros antigos de bruxedos e encantamentos, que fechado poder-se-ia confundir aos olhos de um observador qualquer com um ripanço de semana santa; aberto porém espavoria a imaginação povoando a com os quadros temerosos de castellos encantados, florestas magicas, sortilegios infernaes, feiticeiros, trasgos, almas penadas e cemiterios.

Levava-me o desejo a folheal-o; a duvida affastava-me de lhe tocar.

Aventurára perguntas timidas em varias occasiões; mas o velho, sem que empregasse na resposta a natural rudeza, com que despedia os importunos triviaes, affastava-me brandamente do ponto a que eu desejava chegar.

—Quando no jardim ou no prado colhe uma flôr não cuida das profundezas onde as raizes mergulham para a alimentar; quando tira da fonte uma pouca d’agua para abrandar a sede, não indaga por que extensões corre a veia que alimenta a fonte. Não cuide em devassar segredos, que de pouco lhe podem importar; mas que uma vez sabidos lhe hão de trazer desgosto. A amendoa de muitos fructos trava, emquanto elles são dôces, aproveite-se da polpa e não queira saber do caroço.

E assim, mudando rapidamente de assumpto, evitava sempre que insistisse.

Entretanto iamos muitas tardes para um logar da praia, que de preferencia escolhiamos por ser mais recatado e só.

Entre ambos havia como que uma communhão de tristezas. Elle pelo passado, eu pelo futuro; elle por o que já experimentára e sentira; eu porque receava experimentar e sentir tambem.

Emquanto o velho passava horas silencioso e triste a rever as paginas da sua vida, a rememorar dôres, alegrias, saudades, e amores: eu que ia conhecer o mundo, eu que deixava de ser creança e não começára ainda a ser homem, scismava no futuro para que caminhava, e devaneiava conjecturas sobre essa vida nova, que ia encetar. Agradava pois a ambos a solidão, e ambos procuravamos de preferencia os sitios, onde menos nos podiam inquietar os conhecidos.

A praia da nossa predilecção estendia-se desde Cabo-Ruivo e o recolhimento do Moinho. Em frente espraiava-se o Tejo pelos juncaes, que, mesmo em preamar, erguiam os cimos arrouxados sobre as aguas; detraz a costa subia quasi a prumo para os olivaes do Casal das rolas.

Uma ou outra pedra ennegrecida pelo tempo, pelo quebrar das ondas, pelos limos e pelas ostras que a revestiam destacava-se na arêa da praia, ou avultava por meio dos juncos. O rio, n’aquellas alturas quasi sempre só, parecia não terminar no lado opposto; porque a outra margem se confundia com o céo. De cima, como torre de vigia de castello antigo entrava pela agua dentro o pavilhão quadrado e de tecto esguio do antigo recolhimento. Debaixo o cabo a que pela vermelhidão do terreno tinham dado o nome de Ruivo, limitava o horisonte, e tirava a vista da parte do rio mais cheia de navios e de animação.

Tudo alli era silencioso, tudo infundia sentimento, tudo convidava para a meditação.

Torcendo-se por entre os alcantis da ribanceira, escondendo-se umas vezes por detraz de moitas de rosas carrasquinhas e de giestas, outras caminhando entre pequenas mattas de congoças, outras descobrindo-se de todo n’um terreno escalvado e nu, um caminho de pé posto conduzia dos olivaes á praia, e estabelecia communicação entre o mundo e aquelle retiro. Avistavamos pois a grande distancia, quando alli estavamos, qualquer, que do Casal descesse para a praia, e haveria por conseguinte facilidade de mudar de conversação, sem que nos perturbassem d’imprevisto.

A meio do carreiro n’uma lapa gottejava da rocha a agua mais pura das visinhanças e demorava-se n’um berço de relva e musgo verde como esmeralda, macio como velludo, e que forrava a cova, que a agua havia feito. Junto á fonte algumas pedras pulidas pelo roçar continuo dos cantaros das raparigas dos sitios, que alli vinham buscar agua, offereciam um bom poiso para descançar.

Era tambem alli que mais de habito nos sentavamos. O mar deante de nós, o ceu sobre nossas cabeças, as costas dadas ao mundo, e a imaginação a perder-se no espaço.

Depois, quando descaia a tarde, aquelle silencio perturbado apenas pelo surdo marulhar das aguas, aquellas côres sombrias do mar e do ceu, aquelle espectaculo do infinito, que tanto nos confrange e opprime, e a indecisão, que nos baloiça no espirito, as duvidas que se apoderam de nós, sobre o que seremos, sobre o que nos tornará felizes, a lucta com essa terrivel e mysteriosa sphinge que se chama futuro, tudo isso me levava a um estado especial que muitos talvez tenham sentido, mas que poucos poderão definir, em que desejava sem saber o que, em que soffria e agradava-me o soffrimento, em que amava e debalde queria fixar o grande amor que sentia, em que lastimava sem que podesse explicar porque, não estar assim sempre, não passar d’ahi para outro mundo, outra vida, outro que quer que fosse, para mim desconhecido, mas que me parecia fatalmente destinado para me dar a verdadeira felicidade apoz a qual voava a minha imaginação apaixonada.

Estes ataques de uma nostalgia particular traduzil-os-hia eu, se traducção podessem ter, como o chorar da alma infinita dentro da sua tão limitada prisão, pelos espaços e pelos mundos infinitos d’onde veio, e onde deve ir um dia.

Sei, para em duas palavras me exprimir, que soffria muito, mas que era feliz soffrendo assim.

O meu velho companheiro, esse, apenas ali chegava sentava-se n’uma das pedras, carregava o cachimbo, feria lume, accendia o tabaco e entrava a fumar; depois o pau com que começára a traçar arabescos no chão parava gradualmente, os braços caiam-lhe sobre os joelhos, o cachimbo apagava-se, e os olhos cerravam-se-lhe como se tivesse adormecido.

Quando, passado tempo, parecia tornar a si, tinha os olhos vermelhos, o rosto abatido, o corpo quebrado. Levantava-se com muita difficuldade e mal se podia arrastar aos primeiros passos. Depois fazia como que um grande esforço sobre si, compunha a physionomia, chamava um sorriso bastante rebelde n’essas occasiões, e tornava a ser o tio Joaquim da casa da malta e do canto da lareira.

Foi n’uma dessas tardes, e na praia de Cabo Ruivo, que consegui ouvir ao velho narrador a sua historia. Andára triste todo o dia, acabára de jantar, déra conta da obrigação e convidára-me para sair em sua companhia. Não soltára meia palavra pelo caminho e mal chegára perto da fonte atirára comsigo para uma d’aquellas pedras tão desalentado, que parecia não querer mecher-se mais d’ali. Ficara a scismar, como costumava; mas não seria passado ainda um quarto de hora, ao olhar para elle vi que lhe escorregavam as lagrimas pelas faces.

—Chora, tio Joaquim?...

—Não repare, atalhou elle rapidamente limpando as lagrimas, como envergonhado, eu tambem não reparava.

—Anda sempre triste, e assim sem desabafar, bem pelo contrario fingindo-se alegre quasi sempre; ha de padecer muito!

—Muito! Mas não tem duvida.

—Diz-se que as maguas contadas são alliviadas; porque me não dá parte das suas tristezas?

—Para quê? Com o andar do tempo não lhe faltarão proprias; deixe as alheias.

—Cuida que sou alguma creança, tio Joaquim?

—Bem sei que não é, mas...

—Seria a maior prova de amisade que me podesse dar. Ha tanto tempo que desejo saber a sua vida!

—Como deseja ouvir as historias aos serões, não é assim?

—Não. Essas servem para passar o tempo, esta outra para o conhecer bem, e para o poder consolar.

—Pois seja para me conhecer, que para me consolar não, porque não póde. Hoje tambem, parece-me que rebentava, se não repetisse alto o que tem sido a minha vida. Quando conversamos comnosco, a voz faz ecco bem fundo na cabeça e no coração, repercute mais e soffre dobrado. Se não tivesse vindo comsigo parece-me que entrava a fallar só, para ahi a essas pedras e a essas aguas. Oiça-me pois, já que tanto deseja saber a minha vida.

E o tio Joaquim deu começo á sua historia.