VI

Haviam decorrido dois annos depois que viera do campo, e, com toda a sinceridade o confesso, nunca mais me lembrou em Lisboa, nem o guarda do cemiterio, nem a sua historia, que o bom do tio Joaquim me referira.

Tive de voltar áquelles sitios e seguindo o caminho por onde viera da feira, comecei a avivar recordações, a recontar de mim para mim aquellas horas tão felizes, tão descuidadas, tão folgazãs, que me tinham corrido por aquelles descampados, e a vêr por entre as moitas dos vallados, que a primavera perfumava de aromas e esmaltava de flôres, as saudades queridas d’aquelles encantados tempos.

Ao voltar da estrada quasi no mesmo ponto, em que os cavallos se haviam detido dois annos atraz, deteve-se tambem o que eu montava; obrigando-me a abandonar aquellas regiões do idealismo pela realidade de tempo e de logar.

Não conhecia os sitios, tive de me orientar, invocando reminescencias antigas, e confrontando paragens, para me certificar onde estava.

A egreja, a casa do guarda, o proprio cemiterio, pareciam remoçados pelo influxo de alguma divindade bemfazeja. Inspiravam ainda tristeza aquelles logares, mas uma doce e placida melancholia succedia-se agora ao desconforto e desalento, que ao attentar n’aquellas ruinas, nos arrefeciam a alma.

O musgo estendia por partes o seu luxuriante manto de verdura, contrastando com o negrejar das cantarias, e dando e ganhando esplendores com o realce. Bandos de pombos esvoaçavam em roda das escalavradas paredes, casando os arrulhos, beijando-se, perseguindo-se em revira-voltas graciosas, cortando os ares em todos os sentidos com elegantes curvas, affagando-se e brincando, espalhando sobre aquellas ruinas suaves perfumes de alegria e de amor. Perto a casa, alvejando por entre as latadas de jasmineiros e madresilvas, o velho poial limpo e rebocado sob um caramanchão de heliotropos, e até a nogueira velha parecia mais viçosa e risonha.

O cemiterio, que da pequena elevação, onde parára, se avistava todo, tinha as ruas limpas e orladas de alecrim e alfazema, as lapides mais desafogadas de matto, as cruzinhas mais negras, as arvores mais cuidadas, o chão recamado de flôres.

Tudo era novo para mim, mas tudo melhorára com a innovação, e despidas as rugas de uma velhice precoce ou de uma mocidade gasta e devassa, apresentava-se tudo agora com as louçanias de uma virilidade robusta, de uma existencia descançada, serena, quasi festiva.

Aquelle rejuvenescer estendera-se tambem ao antigo habitante, que havia visto outr’ora sujo, maltrapilho, alquebrado, velho até; e que via agora assomar á porta tão aceiado, tão esbelto, tão remoçado, que foi preciso que me cumprimentasse e que eu o ouvisse fallar, para perceber que era o mesmo.

Apeei-me e mais curioso de que uma mulher, ou do que qualquer homem dos que n’este vicio lhes levam as palmas, procurei indagar o porquê d’aquellas mudanças.

Talvez pelo respeito, que todos por aquelles logares me tinham, consegui de Manoel a confissão da sua vida na parte que não conhecia, e em que se operára aquella transformação.

Em resumo foi o seguinte:

Tempos depois da morte do seu antecessor, Manoel acordára uma noite ao bater-lhe á porta o acompanhamento de um enterro, que, como todos sabem, costumam no campo, ser fóra de horas.

Atraz do caixão vinham chorando a viuva, o filho do finado, e alguns visinhos, que os acompanhavam.

E... para que hei de torturar a curiosidade dos meus leitores, se é que a despertei em alguns, a viuva era Martha e o filho, aquella creança que vigiára o somno de Manoel.

Encontravam-se pela terceira vez, mas d’esta finalmente para não mais se apartarem senão no tempo consagrado ao luto. Martha contou-lhe como o Miguel não morrêra das facadas, como se tinham casado depois, e como de Lisboa tinham vindo para aquelles sitios viver na companhia de um tio do marido, dono da fazenda onde foram depositar o nosso naufrago.

Viram ambos n’aquelle inesperado encontro ao pé de um cadaver, a vontade da Providencia que os reunia emfim depois de tantos azares. Esta conclusão, que nem por isso depunha muito a favor da sua logica, pois que o encontro mais naturalmente provinha da occupação de Manoel, recebeu sobejo apoio na mutua affeição, que nunca se sumira de todo e que renascia agora mais valente e duradoira.

Martha justificou-se a seu modo, e uma torrente de lagrimas rematou-lhe a peroração talvez artificial, mas de grande effeito para o seu auditorio. Manoel enterneceu-se, acreditou-a, e chorou tambem. E, regada com as lagrimas de ambos, desabrochou rapida a flôr do hymeneu.

Casaram, não tiveram muitos filhos, não tiveram mesmo nenhum, mas o Miguelsinho, a quem o padrasto estimava como a si proprio, foi cimento mais que bastante para aquelle templo modesto de felicidade conjugal.

Quando Manoel acabava a sua historia, apparecia Martha á janella chamando-o e lançando uns punhados de milho a um rancho de gallinhas, que andavam pela estrada defronte da porta; e por uma azinhaga proxima assomava o Miguel tocando umas vaccas e umas ovelhas, que recolhiam do pasto.

—É feliz!... Disse-lhe eu tão senhor de mim e com uns ares tão sentenciosos e profundos como se fizera uma grande descoberta.

—Sou, graças a estes, e (levando-me á porta do cemiterio para me indicar uma cruz abraçada por uma corôa de perpetuas), graças tambem áquelle que me perdoou o meu crime.

—Ainda pensa em semelhante coisa?

—Se penso, quiz matal-o!

Uma hora depois voltava para Lisboa, se não contricto ao menos pensativo. Aquelle espectaculo tinha-me valido por duzias de sermões.

É verdade que Manoel dizia o que sabia, por experiencia propria: e a maior parte dos nossos padres, não sabem o que dizem.


IX
Como se ganha uma demanda

Era pelos fins de novembro, ao approximar da noite. Soprava rijo o vento das bandas do sul e as nuvens acastelladas e escuras corriam como cavallo á desfilada. Principiavam a cair grossas gottas d’agua, e ao longe já rugia a tempestade. Como é vulgar no inverno, no campo, quasi que não houvera crepusculo da tarde. Apenas se escondera o sol e já a escuridão baixava sobre os campos. No sitio onde começa a acção da historia que se vae lêr, não havia noticia de povoado: era a meio de uma azinhaga, que se contorcia por entre terras cobertas de restevas, e tristes como a nudez mal vestida de farrapos.

Joaquim dos Santos tinha mettido o cavallo a trote para fugir á trovoada proxima e ás trévas eminentes; emquanto debalde procurava orientar-se por meio dos olivaes.

Joaquim dos Santos fôra um dos mais endiabrados rapazes d’aquelles lugares. Deitára fama de si pelas proezas que fizera, e o seu nome não era bem fallado n’aquellas visinhanças, como um dos maiores extravagantes d’este mundo.

Seu pae, que tinha alguns bens e que estimava devéras os seus dois unicos filhos, Joaquim e Raymundo, tratou de lhes dar educação decente, mettendo-os no mais acreditado collegio de Lisboa.

Mas, emquanto Raymundo estudava com a melhor vontade, Joaquim fazia em agua a cabeça dos professores, e peiorava de dia para dia. Não podendo aturar, o director mandou-o para casa do pae, declarando lhe, que assim como não teria duvida de ensinar de graça a Raymundo, visto o seu bom porte e applicação; por dinheiro algum d’este mundo se resolveria a supportar o irmão nem mais um dia.

Foi grande tristeza em casa de José dos Santos. As esperanças todas que depuzera em seu filho mais velho desappareciam-lhe de repente. E o velho que já pensava em o mandar a Coimbra!

Joaquim, pela sua parte, declarou-se em guerra aberta com a lettra redonda. Não nascera para doutor, nem se achava com sabedoria para lettradices. Queria amanhar terras e ser lavrador como seu pae. Seu irmão, que parecia um menino Jesus de freiras, que se desse a semelhantes pieguices: elle era um homem, tinha pulso para guiar a rabiça de um arado, e pernas para se segurar n’um cavallo.

José dos Santos só contava um defeito, ser estremoso pelos filhos como ninguem. Concordou com a vontade do Joaquim, e metteu-o no trabalho debaixo da sua direcção.

Mas, nem mesmo nos primeiros dias, o novo lavrador tomou gosto áquelle modo de vida. Aborrecia-se do trabalho e, mal que podia, furtava-lhe o corpo para ir procurar a companhia dos peiores rapazes da terra. Encontravam-no mais na taberna do que na eira, mais no jogo de bolla do que no pomar, e mais nas patuscadas do que na lavoira.

Ao passo que se ia entregando a não fazer nada, iam-lhe medrando os defeitos e engordando os vicios. Tinha fama de valentão, e tão mau se havia feito, que o proprio pae se temia d’elle.

Ninguem podia ter-lhe mão, não ouvia conselhos, nem fazia caso do que lhe diziam para bem. Um dia que seu irmão Raymundo se lembrou de lhe fallar a preceito para vêr se o fazia chegar á rasão; Joaquim, que não vinha em si, deu-lhe uma sova, que o deixou em lençóes de vinho.

Foi tambem a ultima que seu pae lhe aturou. O bom do velho apenas viu chegar seu filho querido, o seu ai Jesus, que fôra sempre uma joia, e do qual ninguem dizia senão mil bens, em braços, e que soube quem fôra o auctor de tão grande maldade, jurou que nunca mais lhe poria os pés em casa homem de tão mau coração.

Deitou luto em signal de o ter perdido e respondia a todos que lhe perguntavam porque vestia de preto:—é por meu filho Joaquim, que morreu.

Este jurou que se havia de vingar de seu irmão, ao qual attribuia a má vontade do pae, e foi cada vez a peior, passando todo o santo dia na taberna ou no jogo.

Entre os seus companheiros de perdição havia um, que sobre elle tinha mais poder; mesmo por ser o mais depravado. Era João Simões, capaz de lêr de cadeira na patifaria e de passar por doutor na pouca vergonha.

Contribuira mais do que ninguem para estragar o rapaz e fôra quem lhe ensinára melhor o mau caminho. Joaquim, tambem, não resava por outro breviario, e o que João Simões lhe dizia—era para elle um evangelho.

Andavam por aquelles tempos no lugar alguns homens a desenquietar trabalhadores para o Brazil, promettendo-lhes mundos e fundos de felicidade, quando lá estivessem, e passagem paga no navio para os que quizessem ir. João, que entrava em todos os negocios de má condição, travou conhecimento com os taes meliantes, e fez-se dentro em pouco um dos mais espertos alliciadores da companhia.

Como estava corrente com tudo que se passava, pois bem sabem que a occupação do vadio é entreter-se com as vidas alheias, viéra a ser em pouco tempo o perdigueiro de melhor faro para levantar a caça. Conhecia os que tinham menos dinheiro, os que mais desejavam ganhal-o com pouco trabalho, os que tinham melhor embocadura para o vicio, e os que menos duvidavam de abandonar terra e parentes.

Onde deitava a rede tirava peixe, já era sabido. Ninguem como elle acertava tão bem.

Apenas José dos Santos pôz seu filho fóra de casa, logo João tencionou seduzil-o para embarcar, e sem grande difficuldade conseguiu convencel-o de que era o melhor partido que tinha a seguir.

Como elle jurava nas palavras do seu mestre, acreditou em tudo quanto lhe dizia, protestando entretanto, que se fosse desgraçado grande vingança tiraria de seu irmão Raymundo, o causador de tudo, lá no seu modo de vêr. João entretendo-lhe a furia foi acompanhal-o ao embarque, encarregando-se não só de tratar de quantos negocios porventura viesse a ter; mas ainda de realisar os planos vingativos contra o irmão.

Tornou-se assim depositario de todos os seus odios.

João incumbindo-se d’esta vingança, trabalhava tambem por sua conta, pois jurára pela pelle de Raymundo, desde que este o tratou desabridamente, e lhe voltou costas n’um arraial.

O desgosto de vêr seu filho tão mal encaminhado levou o pobre pae á cama: e Raymundo teve de deixar os estudos em meio para vir junto do velho, governar a casa e tratal-o na doença.

Entrementes que estava cuidando em seu pae tomou-se de amores com uma rapariga da terra; e como era boa de caracter e boa de reputação, apesar de pobre, casou-se em breve, ganhando todos com o casamento. Elle porque alcançára uma esposa extremosa, José dos Santos porque ganhava uma enfermeira sollicita, tão desvellada e tão carinhosa como a melhor filha.

Porém quando o mal é de morte triste remedio lhe podem dar o saber dos medicos, ou o cuidado dos enfermeiros. A ferida do doente era mesmo no coração, não tinha cura. Apesar da maneira porque Joaquim para com elle se houvera, estimava-o porventura mais ainda do que ao seu obediente e bom Raymundo.

Caprichos do sentimento, que mais nos fazem prender a affeição, a quem menos nol-a merece; o velho, embora comsigo mesmo o negasse, dera parte maior do seu coração ao filho perdido.

Muitas vezes em piedosa e apaixonada analyse se desculpava d’esta parcial fraqueza. Era a ovelha desgarrada, que cuidados maiores requeria do pastor, era a terra maninha que pedia melhor cultura, era a arvore desviada, que chamava mais attenção para lhe emendar o erro.

A lembrança do filho era o tormento, e a enfermidade mais perigosa, que o definhavam. O barbeiro-sangrador do logar, e o cirurgião visinho tinham feito repetidas juntas sem atinarem com a rasão do mal. Resolveram por fim, que padecia do interior, e acertaram sem saber.

José dos Santos ria-se dos entes de rasão dos dois physicos, e sujeitava-se resignado ao tratamento que lhe applicavam. Seu filho, sua nora, até o netinho de peito, todos se acercavam d’elle inquietos e suspeitosos da verdadeira causa do mal. Porém tão callado se conservára o doente, que não tinham passado de conjecturas.

Á hora da morte apenas se lhes desvaneceram as duvidas, porque, conhecendo como estava, chamou-os a todos, lançou-lhes a benção, e depois erguendo os olhos ao céu, exclamou:

—Compadecei-vos tambem d’elle, Senhor, tocae aquella alma perdida, com um raio da vossa divina graça... Se algum dia tornares a vêr teu irmão, meu Raymundo, dize-lhe, que lhe perdoei tudo, e, que ao despedir-me do mundo, lhe deitei, cá de tão longe mesmo, a minha benção de pae.

Casa onde entra doença, não é o dinheiro que a aguenta: a molestia de José dos Santos foi a ruina d’aquella familia. Durára perto de dois annos o padecer do velho; custára muito áquella organisação robusta o desprender-se do mundo, luctára como um homem; o desgosto, porém, vencera-o por fim.

Tudo estava empenhado, quando o antigo lavrador falleceu: foi mister pedir dinheiro para o enterro, e Raymundo amanheceu um dia sem pae, sem haveres, e com o filho e a esposa para sustentar.

Demais a familia promettia-lhe augmentar-lhe, porque Leonor, sua mulher, estava gravida de tempo: e tanto que em poucos dias deu á luz uma filhinha, formosa como um serafim, e córada como uma rosa de primavera!

Diz-se que os filhos são a riqueza do pobre. Triste ironia!—Para o que padece de necessidade a vista das creanças sem pão é tormento mil vezes maior do que a propria fome. Quantos não sacrificariam a vida de bom grado, se em paga soubessem que garantiam a existencia dos seus!

Supplicio, que se não descreve, é vêr os innocentes, menos soffridos e porventura mais sinceros, não disfarçarem a fome e chorarem pedindo pão.

Emquanto a desgraça o perseguia, Raymundo, sem desanimar, ia trabalhando sempre, amparado pela força de vontade e pelo sentimento do dever.

Pelo contrario a fortuna, caprichosa como sempre, sorrira para Joaquim cujos negocios lá pelo Brazil iam de vento em pôpa.

João Simões, que com elle se correspondia regularmente, não descançava de lhe acirrar os odios contra seu irmão, o qual para de tudo o privar, até lhe roubára a benção paterna, fazendo com que o velho á hora da morte amaldiçoasse o filho mal procedido.

Como já se disse, succedera o contrario; mas o Simões, que era uma alma damnada, queria vingar-se de Raymundo, e não recuava, por conseguinte, deante de uma mentira, ou duas que fossem.

Ao mesmo tempo encarecia lhe a prosperidade da casa e os grandes negocios, que José dos Santos fizera nos ultimos tempos: dizia-lhe, que seu irmão ficára disfructando uma grande fortuna, que se fingia pobre para não fazer partilhas, e que se Joaquim lhe mandasse procuração para tratar d’esse negocio, em breve lhe mostraria, se era ou não verdade, que seu irmão queria enganar toda a gente com a sua mentirosa pobreza.

Conseguiu por fim o que desejava: e mal teve a procuração em seu poder, começou a perseguir o desgraçado Raymundo a quem já devia bastar o seu mal.

A justiça não costuma estar em casa para receber os pobres; João Simões dispunha de dinheiro, e entendia de demandas, fazia o que queria. Taes artes teve, de taes manhas se soccorreu, que conseguiu em pouco, que passassem um mandado de penhora contra Raymundo, como cabeça de casal em nome de seu irmão: emquanto este, lembrando-se com saudades da patria ia liquidando os seus negocios, para poder regressar quanto antes. Tinha ganho algum dinheiro; mas não tinha contrahido amisades: e estava rico; mas só e triste.

Mudára de vida completamente: aquelles annos tinham-no amadurecido, mas tambem o tinham cançado e gasto. Estava velho antes de tempo, precisava descançar e não ha como a terra da patria para alliviar penas de velhice e melancholias de coração. Havia bem pouco que chegára, quando nós o encontrámos, fugindo da tempestade, e orientando-se por entre campos.

Eram recordações, eram saudades, que o tinham demorado, seguindo por aquellas visinhanças, parando diante d’uma arvore, descobrindo-se diante d’uma cruz, apeando-se muitas vezes para ir ajoelhar diante d’uma pedra.

Tudo lhe fallava á memoria, tudo lhe fallava ao coração.

Aqui passára tanto tempo espreitando seus companheiros, que o procuravam, e elle escondido; ali tivera o primeiro encontro apaixonado; mais em baixo estivera com seu pae; mais além descançava este em horas de calor, ou esperava os trabalhadores das suas fazendas, ao recolherem, para lhes perguntar noticias do trabalho.

E uma pedra para junto da qual viera correndo um dia a fugir do cão do tio Fernandes, esconder-se no regaço de sua mãe, toda em sustos de principio; tão enfurecida mais tarde apenas soube que fôra elle, quem desafiára o cão!

Mundo de melancholicos e piedosos phantasmas, mundo, que o alheava á realidade, que o apartava do presente, tão só, tão vasio, tão sem significação, para lhe abrir francas, patentes e compassivas as portas do passado, tudo ali se transformava para elle, e em cada cousa cuidava vêr uma feição querida, uma lembrança, uma alegria ou uma dôr.

Por vezes lhe rebentaram as lagrimas dos olhos, por vezes sentiu-se suffocado, por vezes desejou, emballado pela doce harmonia da saudade, adormecer de todo no dormir, em que já descançavam seu pae e sua mãe.

E, que o explique quem melhor o pensou, nas occasiões, em que o sentimento é em nós mais placido, mas tambem mais profundo; nas horas de amor duvidoso, de aspiração indefinida, de descontentamento irremediavel e infundado, parece que se levanta entre nós o desejo de outra vida, de outro mundo, de outra existencia, não sabemos qual, mas que nos parece ter já vivido, e para o qual nos persuadimos, teremos de voltar.

N’essas horas de extranho e amoravel sentir, como desterrados de regiões bem diversas d’estas, desejamos vêr terminado o desterro e immediata a hora de regressar.

Foi o approximar da tempestade que o distrahiu d’estas melancholicas cogitações; deitou os olhos em roda e não conheceu o sitio. Tinha-se perdido no caminho. Novas estradas, novas mudanças tinham-lhe transformado o mappa, que a memoria lhe estampára no coração, via-se a meio de olivaes e as arvores confundiam se já com as sombras da noite.

Seguira, sem dar por isso, o melhor caminho, a estrada nova, e que por conseguinte não era do seu tempo. Não podia estar longe o povoado, mas a chuva cada vez apertava mais, e o cavallo já não queria andar assombrado com o fuzilar continuo dos relampagos, e atturdido com o ribombo temeroso dos trovões.

Entretanto estava resolvido a seguir á ventura, certo de que em pouco tempo encontraria abrigo; quando deante de si, na quebra de uma azinhaga, lhe pareceu vêr uma sombra rasteirinha coser-se com o muro e seguir a modos de homem, que fosse agachado, como receando ser visto.

—Quem vae ahi? perguntou Joaquim que costumado ás aventuras do sertão não se inquietava muito com um mau encontro.

Mas a sombra seguiu mais apressada, sem dar resposta.

Joaquim chegou esporas ao cavallo e correu sobre o vulto.

Proximo reconheceu duas creancinhas, um rapasito de sete annos, ao mais, e uma menina de seis, que de mãos dadas e tremendo de medo ambos, ajoelharam quando o viram ao pé de si, exclamando o mais velho, e que parecia mais animoso.

—Não nos faça mal, temos o pae doente e vamos levar-lhe este remedio, que lhe receitou o mestre Eusebio.

(Eusebio ainda era sangrador-barbeiro approvado pelo proto-medicato, e facultativo á falta d’elles).

Depois voltando-se para a irmã, que se fazia bem pequenina para se esconder atraz d’elle, disse-lhe, mudando as fraquezas em forças, e n’um tom mais seguro, como para lhe incutir valor.

—Não tenhas medo, Isabel, aquelle senhor não nos ha de fazer mal, não vês que tem cara de boa pessoa!

O pequeno não podia perceber que tal fosse a physionomia de Joaquim; esta amabilidade era pois um argumento ad benevolentiam, aprendido quasi intuitivamente, na rethorica saloia.

—Não faço mal, não, pobres pequenos, com este tempo, tão mal resguardados!

Isto era dito já a pé junto d’elles e detendo se com verdadeira compaixão ao attentar nos farrapitos, que mal os cobriam.

—Nós cá não tem duvida: o pae é que precisa mais, está tão doente.

—Ha tres dias que não come nada.

—E a nossa mãe, coitadinha, ha oito dias que não dorme!

—E o pae, está com uma cara! Nossa Senhora nos valha, parece um defunto.

—Não digas isso, Isabel!... depois approximando-se mais de Joaquim, com quem ia já acostumando-se, e como para lhe provar que não era creança, o rapasito continuou mais de vagar; o pae está muito mal, que eu bem vi a cara que fez hontem o mestre Eusebio, mas a mãe não desconfia e a Isabel nada sabe.

—É muito longe a sua casa?

—Não, meu senhor, é logo alli.

—Pois vamos lá, que eu tambem os acompanho. Já agora... Não temos outra noite, e d’aqui ao lugar ainda ha uma boa meia legua bem puchada. Quando lá chegasse achava tudo fechado.

—Mas o senhor vae ficar muito mal accomodado, exclamou a pequena, que ainda se não affizera muito ao seu novo conhecido, a gente é tão pobre!

—Não tem duvida, minha menina, em qualquer canto me arranjo, sou facil de contentar.

—Oh José, eu tenho medo do homem, elle vem com a gente? perguntou ao ouvido a pequenita a seu irmão.

—Tu tambem, sempre és uma medrosa!... E d’ahi não sabes que lá em casa não ha que levar!

—Sim, mas olha eu sempre tenho medo.

Joaquim comprehendêra pelo conchegar assustadiço da creança para seu irmão, e pelos modos importantes que este assumira, qual tinha sido o dialogo em voz baixa, e sorrindo-se disse á pequena:

—Não tenha medo de mim, não sou nenhum ladrão. Mas bem pelo contrario a prevenção mais assustou a creança, que não atinando com o modo porque elle ouvira a sua conversação, exclamou apressurada, mas sem olhar para o seu interlocutor:

—Eu bem sei que o senhor não é nenhum ladrão; mas... adivinha o que a gente diz!

—Então minha menina, julga-me agora feiticeiro?

—Deixe-a fallar, é uma creança, ainda não fez seis annos.

—E o menino é um homem, não tem medo.

—Eu já tenho sete annos, e d’ahi o senhor não havia de fazer mal a duas creanças, nem a meu pobre pae. Está tão doente!

—Pois deixem estar que eu verei se sei d’algum remedio, que lhe faça bem. Pelas terras, por onde andei, aprende-se muita coisa e eu conheço algumas drogas que talvez aproveitem: e d’ahi eu quero pagar-lhes o agasalho, tenho com quê.

—O senhor dá cura ao pae?—Que bondade seria a sua!

—Não te dizia eu, Isabel.

—Ora pois então vamos lá. Digam-me seu pae é muito velho?

—Não senhor, tem trinta annos e mais alguma coisa, os desgostos é que o acabaram muito.

—Pobre homem!

—Demais a mais um tio, que anda lá por fóra quer tirar-nos tudo. E d’ahi o pae, vive tão apoquentado!

—Um tio?

—Sim, senhor, atalhou a pequena, um tio muito mau! Sempre tenho uma raiva ao meu tio!...

—Calla-te, mana, tu não sabes que o pae diz que o tio não tem a culpa?

—Então o tio anda ha muito por fóra! Como se chama?

—Ora o senhor não o conhece, replicou o rapaz meio desconfiado; está muito longe.

—Quem sabe, ás vezes! Diga-me sempre como elle se chama.

—É o tio Joaquim.

—E está?...

—Lá para o Brazil.

—E seu pae, chama-se?

—Mas o senhor de certo não se importa com a vida da gente, respondeu o Josésito, que já não ia gostando de tanto perguntar e que receava, com aquella giria que parece acompanhar os saloios desde o berço, que lhe podesse porvir algum mal das suas respostas.

—Por amor de Deus diga-me como se chama seu pae.

—Assim, como assim, o senhor sempre o ha de vir a saber, chama-se Raymundo.

—Então os meninos são?...

E a commoção embargou-lhe a voz.

—Somos, sim senhor, somos filhos de meu pae, eu chamo-me José, que era o nome de meu avô, e minha irmã é Isabel, porque nasceu no dia de Santa Isabel.

—Pois eu...

Mas a reflexão cortou-lhe a palavra: queria vêr; queria, antes de se declarar, que aprendessem a abençoal-o. Entretanto, agarrou-os bem para si e abraçou-os muito enternecido.

—O senhor está a chorar, disse Isabel com aquella perspicacia de mulher mesmo pequena, olhe, já vou gostando mais de si!

—Gosta, gosta, minha Isabelinha, que eu tambem gosto muito de ti. E tu lá, José, tambem és meu amigo?

—Eu engracei comsigo logo ao principio. Aqui está a nossa casa; e batendo á porta:—mãe, mãe, aqui vem um senhor, que sabe d’um remedio para curar o pae! Abra a porta, mãe, somos nós.

Effectivamente estavam á porta de Raymundo. A luz que vinha de dentro ao abrir, cegou por momentos a Joaquim, que só depois de se costumar á claridade é que pôde dar fé do interior d’aquella habitação.

Era uma casa terrea, que accumulava as funcções de cosinha, sala, casa de jantar e quarto de dormir dos pequenos. A um canto uma cortina de chita muito remendada resguardava-lhes a alcova; do lado direito uma porta meia aberta dando para o escuro, d’onde saía o som angustiado e sibilante de uma respiração irregular accusava o quarto do enfermo: junto da chaminé, onde ardiam em chamma fraca e incerta alguns cavacos apanhados na estrada, via-se uma cadeira antiga de espaldar de coiro e pregaria amarella. Era o unico movel de algum valor.

Uma meza de pinho, bem tosca e bem pouco segura, umas pratelleiras sobre a meza pregadas na parede, onde se viam uns pratos quasi todos rachados e alguns tachos bem velhos, tres mochos em roda da meza, uma arca carunchosa ao lado da porta de entrada, dois registros por cima da arca, uma palma e um rosario crusando-se sobre os registros, constituiam toda a mobilia, a que accrescentaremos apenas, para que a descripção seja completa, um banquinho proximo á entrada do quarto do doente e junto da arca, d’onde Leonor se levantára para abrir a porta aos recem-chegados.

Sobre a arca uma lamparina allumiava os santos e dava claridade para o trabalho de Leonor, que ali, ora levantando os olhos de supplica para as imagens, ora volvendo-os cuidadosa para o quarto onde jazia o esposo, remendava um capote de Raymundo, sobre o qual de vez em quando caiam as lagrimas da desgraçada.

A luz incerta do brazeiro, sobre o qual e para o escurecer mais ainda estava uma panella de folha, em duas pedras, que suppriam a fornalha; e o clarão mais terno ainda da lamparina, luctando com as sombras e perdendo-se na escuridão, tornavam a casa mais vasta, mais nua e mais triste.

—O pae está descançando, não façam bulha, apressou-se em dizer aos seus dois filhos a attribulada mulher. Depois voltando-se para Joaquim:—Vossa senhoria ha de perdoar, os pequenos é que tiveram a culpa de o cá trazer, bem vê que não temos accommodações para hospedes; depois a doença de meu marido...

—Olhe, mãe, segredou-lhe o José como quem queria dar a entender que não andára de leve, elle tem dinheiro para pagar á gente, e diz que traz um remedio que dá cura ao pae...

—Não venho para encommodar. Estou affêito a tudo, e qualquer coisa me satisfaz, uma pouca de palha e uma manta, uma manta só, coisa nenhuma que seja; mas licença de descançar ahi sentado, e de adormecer com os braços sobre a meza e a cabeça encostada aos braços. Eu sei o que são doenças, e talvez mesmo lhe possa servir de algum prestimo. Nas terras por onde andei nem sempre havia medico á mão, nem boticario ao pé da porta. Ia-se a gente curando conforme podia, e aprendendo á sua custa...

Emquanto Joaquim proseguiu no seu arrasoado, examinava sua cunhada, que pela sua parte aproveitava tambem estes proloquios para observar o hospede que seus filhos lhe traziam.

Leonor era ainda uma formosa mulher, posto que o desgosto lhe tivesse gravado algumas rugas na physionomia e embranquecido alguns cabellos. Morena, olhos pretos e rasgados, nariz recto e fino, labios delgados e vermelhos, rosto oval, um d’estes typos peninsulares, mescla formosa do sarraceno trigueiro e nervoso, como as filhas do norte pallidas e lymphaticas.

Era esbelta e da altura propria de mulher. Tinha sentimento na physionomia e elegancia no corpo. Mostrava o que devera ter sido, antes que as maguas a envelhecessem e os trabalhos a cançassem.

A tristeza espalhava lhe pelo rosto um melancholico mas diaphano véu, atravez do qual transparecia a vermelhidão do pejo ao lembrar-se da má hospedagem, que com difficuldade podia offerecer. E quanto mais olhava para Joaquim mais ia sympathisando com a cara rude mas franca do recem-chegado.

Este mostrava tambem ter muito mais edade do que tinha. Valera-lhe por dez um dos annos que passára no sertão: mas aquella belleza agreste do homem callejado no trabalho, aquella lhaneza não destituida de finura, que se adquire no trato licito, mas laborioso e muitas vezes bastante complicado, davam-lhe relevo ás feições e imprimiam-lhe um cunho particular. Trajava simplesmente e como lavrador abastado.

Apesar da compostura que se notava no traje de Leonor, apesar do cuidado com que vestia e do aceio da sua roupa, a mão da miseria denunciava-se a todo o momento. Da miseria que não faz alarde de si, que se esconde, que se disfarça, que tem pejo do seu estado e receio de que a conheçam. Miseria timorata e desconfiada, a que tudo offende, porque tudo a fere; que de todos foge, porque, sem quererem mesmo, todos a escandalisam. Uns pela ostentação, outros pelo dó, pela indifferença mesmo outros. Miseria que sorri por fóra emquanto chora por dentro, que apparenta desapego emquanto treme pelas consequencias, que encontra perigos sempre diante de si, e que soffre tanto mais, quanto receia que o desabafar seja tido como uma supplica e a franqueza como um rodeio para pedir. Miseria que se roça por nós sem que a conheçamos, e que por um nobre orgulho denomina doença a fome, desleixo o máu vestuario, extravagancia a necessidade.

Tal era entretanto a que se lia no modesto e envergonhado trajar de Leonor, e que Joaquim, com a perspicacia que dá tambem a infelicidade, conheceu á primeira vista.

—Se não fosse a molestia do meu Raymundo, proseguiu ella, melhor agasalho lhe poderiamos offerecer; mas assim... Parece que Deus se esqueceu da gente a alguns annos a esta parte! E tudo por causa de um mano de meu marido... que elle não quer ouvir tal, e pelo contrario sempre defende o irmão, que no seu dizer não tem culpa do que faz um tal João Simões... mas o senhor não se interessa com isto. Vou vêr se lhe posso offerecer alguma cousa de cear, e perdoará a limitação.

E, emquanto fallando e dando voltas, Leonor ia preparando a ceia, e espreitando sempre o quarto de seu esposo, para se certificar se este continuava a dormir; Joaquim ficára á porta, de pé, chapéu na mão e como pasmado a comparar aquella pobreza, com as informações que recebera.

Leonor reparou na posição do seu hospede, e indicando-lhe a cadeira de espaldar, proxima da chaminé:

—Vem molhado, e está ahi em pé, sem se chegar ao menos para o lume, sente-se: ainda assim esta cadeira é a predilecta de meu marido, era onde se sentava quasi sempre meu sogro.

Joaquim já tinha conhecido a poltrona, mas quando Leonor lh’a indicou pedindo-lhe, que se sentasse, não pôde dominar uma visivel commoção. Teve duvida, quasi medo de se sentar. Parecia-lhe vêr seu pae apontando-lhe para aquella casa, para aquella miseria e expulsando-o. Affigurou-se-lhe de repente o quadro, que tantas vezes examinára. O rosto entre severo e indulgente de José dos Santos inquieto por amor do filho, que se demorava, e preparando um sermão, que levava a cabo raras vezes, porque antes de meio lhe desarmava as iras o verdadeiro affecto paternal.

Leonor, que não podia acertar com a causa de semelhante hesitação, attribuiu-a a causa bem differente.

—Não faça cerimonia, se meu marido estivesse aqui, elle mesmo lh’a cederia, que sempre lhe ouvi dizer, que era dever sagrado fazer bom acolhimento aos viajantes. E perdôe vossa senhoria que eu ande no meu trafego.

N’este comenos, remechêra na arca, e bem vermelha de vergonha tirára um panno muito lavado, é verdade, mas cheio de remendos, e que estendera sobre a mesa; desencantára n’um armario velho, que pelo estado em que se achava e pelo pouco vulto que fazia nos esqueceu mencionar, duas brôas de milho e alguns queijos brancos salgados; escolhêra da pratelleira os pratos menos quebrados, a que juntou os talheres, que apesar de serem de chumbo, pareciam de prata pelo brilho, tão limpos estavam: e indo buscar á chaminé a panella onde fervia um caldo de couves e toucinho, convidou o seu hospede a tomar parte d’aquella ceia.

Não era coisa sufficiente, bem o sabia, mas a sua pessoa havia de desculpar, pois que não esperava ninguem de fóra nem estava no auge de o receber como desejava, pois a doença do seu homem a tinha quebrado de pernas e braços.

—E o que diz o facultativo da doença do seu marido?

—Diz, que é uma dôr no interior, que lhe costuma a dar e que é de muito perigo se continua, que elle já é attreito a padecer do figado, que segundo parece é molestia de familia, e que lhe póde subir o mal ao bofe se não puchar abaixo com força. E será assim?

—Não o creio. Deus ha de affastar o agoiro do tal barbeiro.

—Elle tambem diz, que é bom dormir, e o meu Raymundo ha umas quatro horas que está descançando tão socegado, que parece mesmo uma creança.

—Isso sim; o dormir é sempre um excellente remedio, restaura as forças e faz cobrar saude. D’ahi seu marido deve estar amofinado por lhe correr o negocio mal. Não me fallou ha pouco de um irmão?...

—Do Joaquim, fallei, sim senhor.

—Então esse Joaquim?

—É, segundo a minha opinião, a causa de tudo isto. Que o Raymundo diz que não, e jura que não era capaz de fazer uma acção d’estas, se soubesse do estado a que chegámos...

—Que acção, atalhou precipitadamente Joaquim?

—Uma penhora, á gente, n’isto que o senhor ahi vê. Na verdade vale bem a pena de incommodar a justiça, ha de ficar bem rico, não tem duvida nenhuma! Mas ainda assim, Deus sabe a falta que nos faz tudo. Ficamos a pedir esmola. Até agora ainda tinhamos o nosso buraquinho para uma afflicção; mas de hoje em diante...

—Que diz?...

—A verdade. Um tal João Simões, é que tem andado acceso n’este negocio todo, porque tomou asca ao meu Raymundo desde que elle um dia, já de proposito, por saber que era o Simões que lhe desinquietava o irmão, lhe voltou costas no arraial de Nossa Senhora do Rosario. Depois, apresentou-se feito procurador do Joaquim, deu testemunhas... se o senhor soubesse, que testemunhas!... as caras mais atraiçoadas do logar, em como o pae de meu marido tinha deixado muitos bens, que o meu Raymundo estragára tudo, e depois tem andado em demandas para puchar pela legitima do amigo. Legitima!... Só se foi a benção do pae á hora da morte, porque emquanto ao mais! Nem chegou o dinheiro para o enterro, que foi preciso ir pedil o fóra.

N’estas alturas do dialogo um gemido do doente chamou a attenção de Leonor que correu á alcova de seu marido e por lá se deteve. Cançada de lidar, apenas se certificou de que o marido continuava dormindo e que o gemido fôra apenas sobresalto de algum sonho angustiado, sentou-se aos pés da cama, e passando as contas de um rosario, cedeu por fim ao cançasso e adormeceu tambem. Os pequenos logo depois da ceia tinham ido aninhar-se para o seu cantinho, e havia muito que resonavam.

Joaquim ficára entregue ás suas reflexões.

Correram as horas, esmoreceu de todo o lume no brazido, apagou-se a lamparina, ficou a casa em trevas devassadas apenas pela luz diffusa da atmosphera, que passava pelas fendas do tecto: e elle cogitava ainda no passado e no presente, nos seus sonhos, nas suas aspirações, nos seus erros e nas suas culpas.

A solidão d’aquella casa povoava-se-lhe de vultos, todos elles conhecidos, todos eloquentes: alguns severos julgadores, outros saudosos e indulgentes amigos. Uma a uma iam-lhe correndo as scenas da sua infancia, via, como em lanterna magica, recortarem-se nas trévas do aposento as figuras de quantos havia conhecido, de todos com que lidára, e superior a todas como absorvendo-as e substituindo as, a figura veneranda de seu pae, ora exprobando-lhe terrivel o quanto perseguira seu irmão; ora sorrindo-lhe amorosamente na hora derradeira e estendendo-lhe sobre a cabeça as tremulas e enrugadas mãos para o abençoar.

Ao assomar da alvorada pendendo-lhe as palpebras adormecia tambem; não com o somno socegado e reparador, que se segue ás fadigas do corpo; mas com aquella modorra agitada e febril, que é o decair das grandes luctas moraes. Cabecear cortado de sobresaltos, dormir carregado de pesadellos, descanço, que nos deixa mais cançado ainda.

Entre dormindo e acordando começou a ouvir o seguinte dialogo:

—Como te sentes, Raymundo?...

—Melhor, Leonor, muito melhor. Fez-me bem o somno d’esta noite. Já vieram?

—Quem?

—Os officiaes de justiça, os que hão de fazer a penhora.

—Não cuides n’isso, que te amofinas, talvez não venham; talvez fosse tudo palavriado do Simões para assustar a gente. É impossivel que não olhem ao teu estado.

—Qual olham, nem meio olham! Bem se conhece, que não entendes d’estas coisas. Pois tu não sabes que a justiça é cega? Taparam-lhe os olhos para que não visse a desgraça dos pobres.

—Mas teu irmão!

—Não sabe de nada, Leonor, diz-me o coração que não sabe de nada. O Joaquim teve sempre a cabeça levantada; mas no fundo não era mau rapaz. Se elle soubesse o que o Simões tem feito já lhe tinha tirado a procuração.

—Tu tambem sempre o defendes, és a bondade em pessoa, meu pobre Raymundo, não ha para ti ninguem mau n’este mundo.

—Olha, o Joaquim se não fossem as más companhias não teria feito o que fez: não gostava de se chegar para o trabalho, era o seu senão; mas não era capaz de fazer mal a ninguem, nem rapaz de mau interior.

—Foi elle que matou teu pae, e que no fim de contas nos tem levado a este estado com as suas demandas.

—Não digas isso, Leonor, que me affliges. Meu pae morreu, porque lhe tinha chegado a sua hora, custou-lhe muito a partida de Joaquim; mas abençoou-o á hora da morte. Lembras-te, não é assim? Se elle perdoou, porque não havemos nós de perdoar...

—Obrigado, irmão!

Era affogada em lagrimas a voz de Joaquim, que estava entre portas do quarto. Tinha accordado e escutado cada vez com maior attenção o dialogo, que tão de perto lhe dizia respeito. Julgou ao principio que seria sonho, conheceu depois que era realidade, e tremendo todo ergueu-se e, para melhor ouvir, approximou-se do logar d’onde partiam as vozes.

A gratidão, e talvez o remorso fizeram-lhe soltar aquellas duas palavras, que cortaram o dialogo.

Raymundo conheceu a voz, sem que podesse distinguir-lhe o rosto, porque o irmão estava de costas para a claridade; pareceu-lhe que invocára um phantasma, estendeu para elle os braços, exclamando:

—Joaquim!

E caiu desmaiado com o abalo.

Joaquim precipitou-se chorando para junto da cabeceira do irmão, abraçou-o vezes infinitas e teve o indisivel jubilo de o vêr tornar a si em seus braços.

—És tu, meu irmão!... Bem me dizia uma voz cá dentro, que havias de voltar.

—Perdoas-me, Raymundo?

—Perdoei-te sempre. Tu é que tens que me perdoar.

—O que?

—Não te haver já transmittido a benção do pae. Ajoelha, Joaquim.

—Em nome do nosso bom pae que está nos céus, eu te abençôo, meu irmão: sê bom como elle foi, e mais feliz do que eu tenho sido.

—Sel-o hemos todos, Raymundo, porque se me deixas viver comtigo, nunca mais saio da tua companhia.

Escusado é dizer agora como terminou esta historia. João Simões não pôz mais pés na terra; Joaquim tinha-lhe jurado pelo corpo, e elle bem sabia que não era homem de faltar á sua palavra. Declarára que seria a sua ultima extravagancia; mas d’essa não desistia nem por Christo. O caso era encontrar o seu procurador.

A doença de Raymundo desappareceu breve, e a alegria voltou áquella casa, para não a desamparar mais.

Muitas noites, quando se conchegava para o pé do lume, depois de ter contado aos sobrinhitos que o não deixavam por contos, uma historia do Brazil, Joaquim voltava-se para o irmão e para Leonor e dizia-lhes sorrindo:

—Sempre hão de confessar que estes endiabrados pequenos são uns grandes doutores! Como elles nos souberam ganhar a demanda!...


X
O sexto mandamento

O padre prior, que os nossos leitores conhecem já, era um modelo de virtude e um exemplo vivo de caridade christã.

Apenas começára pastoreando aquelle pequeno rebanho, não houvera cuidados nem disvellos, que lhe parecessem de mais para encaminhar nos trilhos escabrosos do bom porte e da honra as suas ovelhas de monte, que, quando se apartavam do bom do parocho, era mais por ignorancia do que por maldade.

Conhecera-o elle tambem desde logo, e empenhára as forças do seu corpo e o poder da sua intelligencia em esconjurar os peores de todos os demonios, a que a natureza humana póde dar albergue; a ignorancia e a rudeza.

Não abria mão d’estes piedosos exorcismos: qualquer logar, qualquer occasião lhe pareciam proprias para travar combate; e apparelhado, como sempre andava para a lucta com as armas da crença e da boa vontade, raramente deixava de contar da victoria.

Não quero dizer, todavia, que o meu parocho fosse um segundo Vieira, ou outro Macedo Polygrapho.

Bem pelo contrario, Deus perdoe á sua alma, e mais ainda á alma dos governos (se é que os governos tem alma), que tão pouco têem cuidado na educação do clero, o bom do padre muitas vezes, brigava com armas eguaes contra a ignorancia dos seus parochianos; e, quando vencia, era substituindo preconceito por preconceito, absurdo por absurdo.

Procediam porém de tão boa origem os erros do velho, fundavam-se em tão verdadeira bondade: e tão piedosa uncção revestia os seus disparatados conceitos, que por amor da singela magestade, e boa tenção da mentira, quasi se malqueria á verdade.

Era falso o arrasoado, bem o sabiam alguns: mas deliciava a alma e commovia o coração, encaminhava para o bem, posto que por transviado caminho. E o padre dizia-o tão de dentro, tão convencido, que chegava a parecer impossivel que não fosse assim.

Mas não era, verdade verdade, não era; que a sciencia fugia espavorida diante das legiões barbaras, que appoiavam algumas considerações do velho.

Não era, porque o pobre homem, que sem maldade nem recalcitramento, mas por simpleza e costume antigo, encommendava a missa pro rege nostro Michaele, resumia a sua instrucção á leitura, um tanto embaraçada, seja dito aqui particularmente, da Biblia, dos Evangelhos, do breviario e da Nação, cujo assignante era desde o principio.

Não aprendia porém do seu periodico senão a doutrina tradiccional e monarchico-absoluta em que fôra creado. Lia o jornal para saber noticias do seu rei e do mais que ia por o mundo: e a maior parte das vezes no meio de um façanhoso artigo ou de uma ateada polemica, no ponto mesmo em que as iras do jornalista trovejavam mais crebas, e os rancores partidarios se desatavam em maiores diatribes; o jornal, como para constrastar com tão ardidas furias, escorregava brandamente das mãos do desattento leitor, e ia voejar por terra com outras folhas suas irmãs, que tendo sido verdes e esperançosas como ella, tinham caído da arvore, como ella tambem caíra das mãos do parocho, e haviam seccado no esquecimento, como, triste sorte do jornalismo diario, ella havia de seccar em breve ao abandono no chão e esquecida tambem.

Ao cabo de meia hora o padre accordava admirado por ter adormecido, apanhava o jornal e recomeçava o mesmo artigo.

Já se vê, pois, que não podia ser larga a instrucção colhida em fontes tão pouco variadas e demais ainda tão mal seguidas.

Mas onde não chegava a cabeça alcançava o coração, e onde não accudia a intelligencia sobejava o sentimento.

Não lhe tomemos conta da sua ignorancia, nem lhe malqueiramos por peccado que não era seu.

A revolução social estabeleceu entre a geração, que findava, e a que ia apparecendo um largo espaço que não soube ou não poude fazer desapparecer.

Uma ficou, symbolo do passado; outra caminhou, annuncio do futuro. A primeira estacionando, conservou os abusos, os erros do seu tempo; mas tambem a poesia, a fé sincera, o culto de suas tradicções, o respeito pelas suas crenças: a outra caminhou sobre ruinas, e caminha ainda, sorrindo, luctando, descrendo, esperando, progredindo sempre, conquistando por fim, mas deixando, quantas vezes, a fé pelo caminho, a esperança na estrada!

Se ambos se tivessem querido comprehender, se mutuamente se tivessem desculpado ou os ardores impacientes, ou as rabujices pertinazes; se não quizessem cavar fossos e levantar trincheiras entre uma e outra; mas, bem pelo contrario, nivellar o terreno, e apagar odios, rancores e desintelligencias, não seria para nós o presente tão cheio de incertezas, de hesitações, de duvidas, de desconfortos e desalentos.

O padre, esse, ia seu caminho, combatendo como sabia a falta de educação, e de conhecimento da sua grei.

Além das lições de moral que espalhava a esmo, conforme se lhe offereciam as occasiões, costumava elle, sempre que podia e que o tempo o deixava, reunir os do logar, de tarde perto da egreja, para lhes fazer alguma leitura da biblia e interpretar em seguida, a seu modo e como melhor lhe parecia, o texto que lhes lêra.

Por vezes assisti a estas leituras, por vezes ouvi as suas explicações, e se mais tarde as commentava tirando desagradaveis conclusões a respeito da illustração e intelligencia do velho, não deixava sempre de me sentir commovido, quando fazia parte d’aquella piedosa reunião.

Sigam-me tambem os meus leitores, que, conforme sei, e segundo me recordo, vou procurar descrever-lhes, como se apresentava a scena, na ultima vez em que, pouco antes de regressar a Lisboa, assisti á prédica do ingenuo parocho.

Estamos no adro da egreja: a parochia é de trezentas almas quando muito. O dia vae declinando e está proximo o sol posto.

A egreja não tem o aspecto sumptuoso d’um grande templo; nem a magestade altiva de uma cathedral do seculo XIII.

É de hontem apenas.

Uma frontaria sem ornatos, uma torre proxima sem enfeites.

É simples e pobre como o presepio do Redemptor.

Sobre o adro espaçoso e plano um velho platano á esquerda braceja largos ramos envolvendo na sua sombra uma cruz musgosa, que se levanta defronte da porta da egreja e que deixa perceber em profundas cicatrizes, rudes combates com o tempo ou com a impiedade dos homens; perto do platano um pequeno regato corre por baixo do parapeito do adro e depois de passar sob uma ponte de pedra que dá serventia á estrada, vae espraiar-se ao longe n’uma pequena bahia, onde as lavadeiras do logar vem bater a roupa ao pé dos choupos e olmeiros, que se debruçam para a corrente.

De um dos lados sóbe a encosta de um pequeno outeiro atapetado de vinhas e oliveiras, corôado de moinhos que desprendem as velas a favor da viração da tarde; do outro a vista divaga por meio dos pomares e terras de vinha, no meio das quaes alvejam as casinhas do logar, e se recortam no puro azul dos céos as oliveiras verdenegras.

Os rumores do campo começam a esmorecer com o largar do trabalho indicando a proximidade da noite.

A tarde tem corrido serena e a natureza sorri na flôr do prado, como na arvore do bosque.

Sentado n’um banco de pedra mal affeiçoado pela mão de rude artista está o parocho, junto a si os evangelhos depostos e ainda abertos: as mãos pousadas sobre os joelhos, a cabeça um pouco inclinada pelos annos; o corpo alquebrado pelos trabalhos. A seus pés, sentadas no chão, em rancho, as creancinhas da terra, em roda as raparigas e as mulheres; mais ao largo, os homens fechando o circulo e encostados aos varapaus.

Um pouco mais affastado do grupo, sentado n’um dos poiaes do adro, e scismando, ao que parece, está o tio Joaquim, commentador e companheiro das homilias da tarde. De quando em quando, em pontos mais subidos da exposição do pastor levanta a cabeça, fita o narrador com gesto expressivo, e com os olhos illuminados por aquelles doces clarões da sympathia e da attenção, segue o fio do discurso para descahir breve nas habituaes meditações.

O padre tem acabado a leitura de um dos sagrados capitulos, e d’accordo com a intelligencia dos ouvintes explica-lhes o texto procurando comparações no campo, na lavoura, nos trabalhos que melhor conhecem, nos instrumentos com que mais de perto lidam.

Todos o escutam em religioso silencio e a palavra sagrada recebe maior uncção na bocca do venerando velho.

Tem apenas acabado de fallar quando no sino proximo começam a bater as melancholicas Avé-Marias. O som vae chorando, como uma saudade do dia que finda, pelas quebradas do monte e pelos arvoredos dos bosques, para voltar amortecido e triste, como recordação de felicidade.

É um momento solemne.

O padre ergue-se, a boa gente do campo ajoelha a seus pés. Por momentos as orações murmuram como o esvaecer do som no bronze sagrado e a oração ergue-se como um côro de harmonias dos labios dos fieis, do murmurio do regato, do ciciar da aragem, do bulir do arvoredo, do tinir dos chocalhos, dos balidos do rebanho que ao longe recolhe da pastagem para o abrigo do curral.

Depois o padre abençôa seus filhos com as mãos tremulas estendidas e a fronte encanecida illuminada pelos reflexos derradeiros do sol já escondido: despedindo-se do parocho, retiram pouco a pouco os aldeões guiados, como os israelitas no deserto, pela espiral de fumo, que se ennovella sobre os tectos de suas casas, o ruido vae pouco a pouco diminuindo, recolhe o rebanho ao curral, os pastores deixam de cantar, a voz dos ultimos camponezes perde-se na volta da estrada. Mas o rio ainda murmura, o vento ainda suspira na rama das arvores, e o padre sósinho, com os olhos fitos na pallida lua, que começa a assomar no céu, não limpa uma lagrima de saudade e de esperança, que lhe escorrega pela face cavada pelos annos, envelhecida pelas maguas. Saudade da terra e dos homens, que vae deixar, esperança na vida eterna, que entrevê tranquillo, crente na misericordia do Senhor, confiado na sua infinita bondade.

Hoje a boa gente do campo volta ao adro a procurar o padre, o platano e a cruz. Tudo tem desapparecido apoz o homem a planta, apoz a planta a pedra, tudo volveu ao nada d’onde veiu. Sobre o cadaver do velho caiu a pedra do cruzeiro, um arrebento do platano deu sombra á sepultura; mas a natureza proseguiu guiada pela civilisação e pelo progresso desfolhando uma saudade sobre a campa e colhendo do novo arbusto a planta sempre viçosa da arvore da liberdade.

A poesia do passado tem-se perdido. Mas o homem, que ficou meditando sobre aquella lapide, disperta das suas meditações ao grito da locomotiva do caminho de ferro, ao retenir da campainha do telegrapho electrico, ao resfolegar das caldeiras da fabrica proxima, ao estrondo magestoso das novas eras, que nas azas do pensamento correm a cumprir a sua missão.

N’aquella tarde fôra a historia de José o texto escolhido; e o velho descrevendo o quanto padecera o patriarcha hebreu por amor dos seus irmãos, e seus compatriotas, fallára tão de leve no sacrificio, prestado á honestidade; como, perdoem-nos a comparação, a raposa discorrera a proposito das uvas que não eram para seu dente.

Muitas virtudes encontrava elle no casto José, mas a de resistir com tanto denodo á mulher de Putiphar, não foi das que mais encareceu. Nem por isso lhe parecia grande façanha. Para o bom do velho nada havia mais natural.

Não assim para grande parte de seus ouvintes. Aquelle rasgo foi o que maior impressão deixou na intelligencia sensual de muitos. No serão d’essa noite não faltaram commentarios e choveram ditos, alguns dos quaes, posto que bastante grosseiros na fórma, não deixavam de ter bom sal, e grande finura no alcance.

Terminada por fim a discussão foi votado por maioria, que tal caso era impossivel; ou pelo menos, se o não era, fôra um grande disparate do patriarcha hebreu.

Protestou o tio Joaquim contra a decisão da assembléa, e para fundamentar o seu protesto pediu a palavra, que lhe foi concedida com o maior prazer.

—Todos, quantos aqui estão, conhecem ou tem ouvido nomear o Luiz Tiburcio, que traz de renda ao Morgado dos Cachorros o Olival grande do Brejo, no alto da estrada da Carrejosa. É um homem de bem e lavrador abastado; tem hoje um bom par de vintens e uma das melhores lavouras dos sitios. Pois vae vinte annos não tinha onde cair morto, nem esperanças de mudar de sorte. Um caso bem parecido com o que hoje ouviram ao sr. padre prior foi o começo da sua fortuna.

Luiz Tiburcio é do Minho. Veiu por ahi abaixo procurar vida e trabalho, quando por morte do pae e da mãe, ficou sósinho na terra, sem ter quem lhe valesse, nem casa que lhe abrisse a porta. Era pelo tempo da guerra, andava tambem a molestia, e cada um cuidava principalmente de si, ou dos seus, e não tinha vagar para saber do mal dos outros.

Curtiu fomes e frios pelo caminho, não poucas vezes estendeu a mão á caridade, e não poucos dias pediu esmola a chorar, perdido de fraqueza, e sem esperanças de ter um bocado de pão. Ninguem cuidava em dar trabalho e era tal a desconfiança, que ninguem queria tomar para casa um rapaz, coberto de farrapos e com cara de padecente.

Tinha uns quinze annos, pouco mais, e já começava a saber o que era mundo. Entrava na vida pela porta da desgraça e principiava a amargar a existencia sem lhe ter provado ainda as doçuras.

Um dia, já sem forças, caiu á porta de uma fazenda, d’onde saíra descoroçoado de todo, porque depois de ter passado um dia sem comer, acabava de ser despedido pelo cazeiro, dizendo-lhe, que a fazenda do seu patrão não era couto de vadios.

Luiz Tiburcio poude, envergonhado e saltando-lhe as lagrimas pelos olhos, andar a alameda e sair o portão que do pateo conduzia á estrada; mas, ao voltar para o caminho, sentiu-se tão quebrado, tão sem animo, que atirou comsigo para o chão, resolvido a não se levantar mais d’alli.

Encommendou-se a Deus e esperou a morte resignado.

O sr. José Matheus, o dono da quinta, que assim se chamava por signal, andava por fóra, quando Luiz fôra pedir trabalho a Valle de Figueiras. De certo, se tivesse visto a lazeira do rapaz o recolheria por alguns dias ao menos, e lhe mandára dar de comer, pois era homem rasgado e de bom coração; mas só tarde voltou de uma outra fazenda, onde fôra, e era já muito escuro, quando se aproximou de casa.

Luiz estava estirado no caminho. José Matheus entretido com os seus pensamentos não deu por semelhante cousa e recolheu passando junto do pobre moço.

Caía geada, como não havia memoria, e o frio era de estalar.

De manhã cedo os primeiros, que sairam encontraram-n’o sem apresentar signal de vida e accudiram á fazenda a dar rebate.

O sr. José Matheus foi o primeiro, que correu junto da pobre creança, viu-a n’aquelle mísero estado e teve dó de tão grande desgraça em tão verdes annos. Elle tambem havia provado do pão que o demonio amassou, e antes de chegar a ser independente fôra um pobre de Christo.

Mandou carregar com o Luiz para uma cama, e cuidou em vêr se lhe dava vida nova.

O rapaz estava enregellado e hirto, os beiços arroxados, os olhos mettidos n’umas covas negras, as mãos inteirissadas, o coração quasi sem bater.

Dir-se-ia morto.

Ao passo, porém, que ia aquecendo e que o esfregavam com pannos quentes e espirito de vinho tornava pouco a pouco a si: e depois de um caldo bem forte e bastante substancial parecia outro.

O sr. José Matheus indagou-lhe da vida e soube que a fome e o desamparo tinham sido a causa d’aquella doença. Compadeceu-se por vêl-o orphão tão moço e sósinho no mundo: era casado havia muito tempo, e não tivera filhos nunca, engraçou com a cara do rapaz, que era de boa feição, e adoptou-o para si.

Desde esse dia começou para o Luiz, a quem dentro em pouco já todos tratavam por sr. Luiz; e a quem o sr. José Matheus chamava—o meu Luizinho—uma vida de principe.

Não lhe faltava nada, aprendia, estudava, trabalhava e desenvolvia-se de dia para dia.

Em poucos tempos fez-se uma flôr. Parecia que medrava a olhos vistos e que cada vez ganhava maiores perfeições.

Perfeito no corpo, e mais perfeito talvez na alma, não havia para elle sol nem lua que valessem o sr. Matheus, nem palavras ou acções que lhe parecessem demais para lhe agradecer o bem que lhe devia. Luiz tinha coração de pomba.

Mas o demonio, que sempre as arma, e que parecia ter tomado o rapaz á sua conta, encarregou-se de entornar o caldo, e de deitar por terra aquellas felicidades todas.

A esposa do sr. José Matheus, apezar dos seus quarenta puchados, era ainda mulher de primor.

Desenxovalhada n’aquelle tempo, devia ter sido linda quando andasse alli pelos vinte annos. Tinha dado brado na terra, e mais de um lhe tinha arrastado a aza, sem que ella lhe desejasse as pernas quebradas.

Casára-se pela rasão, porque se casa a maior parte das mulheres, para mudar de estado; e não conhecera nunca que cousa fosse amor. Extremosa pelo marido, não constava que o tivesse sido: e, segundo se rosnava pelos sitios, se tivesse pé faria pégada.

Se a amisade de Matheus pelo Luizinho era verdadeira amisade de pae, a de Genoveva não se parecia em nada com o amor de mãe. Por mais de uma vez lhe havia deitado uns olhos, que queriam dizer muito, mas que no rapaz eram tempo perdido. Não por innocencia, mas porque não queria acreditar, que fossem o que lhe pareciam.

Genoveva desesperava-se por não ser comprehendida, e tinha jurado que: ou Luiz se chegava á rasão, ou havia de pôr os quartos no meio da rua.

Uma noite, chovia a cantaros, e o sr. José Matheus não recolhera de uma feira a que fôra comprar quatro juntas de bois.

Tinha-se armado uma trovoada de arrancar pinheiros e uma ventania de levar tudo pelos ares. Genoveva estava cosendo junto á mesa de jantar e Luiz proximo d’ella lia alto um livro de romances. Era a historia dos amores derrancados de dois amantes infelizes, que depois de passarem as passas do Algarve, depois do apaixonado ter andado as sete partidas do mundo e corrido perigos de todas as castas, se reuniam por fim; mas quando iam para gosar de um dedicado affecto, o marido da heroina apparecia tanto a proposito, que matava o seductor, se o era, e fazia endoudecer a mulher com a vista do ensanguentado cadaver.

Era uma historia de arripiar defunctos, e que por isso mesmo tinha tido tanta voga que chegára até Valle de Figueiras.

De repente Genoveva, que seguia a leitura com verdadeiro interesse, e que por mais de uma vez sentira calafrios ao ouvir aquella enfiada de horrores, interrompeu o leitor, quando enthusiasmado lia o passo do encontro dos dois n’um casal deserto no meio das serras entre alcatêas de lobos, ao fuzilar dos relampagos, ao estallar dos trovões.

—Gostas d’essa historia, Luiz?

—É triste, senhora Genoveva, gosto muito.

—Andas sempre triste!

—Não é por ser mal agradecido ao bem que me fazem. É genio meu, não está mais na minha mão.

—Volta de amores talvez?

E os olhos acompanhavam a pergunta, procurando seguir o pensamento do moço, como o galgo segue a lebre por meio dos campos.

—Não, minha senhora, não são amores. Tambem quem me havia de querer, orphão, sem fortuna, e só devendo o pão de cada dia á caridade de meus bemfeitores?

—Não digas isso, Luiz, bem sabes que o trabalho que fazes, vale o pão que comes. Tu és bom rapaz e mereces quanto te fazem.

—Não mereço, não, minha senhora, e eu bem conheço as coisas, e sei agradecer tanto favor.

—Creança!

E acompanhando esta palavra, que pelo modo porque fôra proferida, já queria dizer muito, Genoveva correu mão protectora pela cara do Luizito.

Porque é preciso que saibam, rapazes: nós os homens muitas vezes chamamos creança a uma mulher, sem ser por mal, nem com idéa alguma; mas em a mulher chamando creança a um homem, e de um certo feitio, é o mesmo que se lhe dissesse: tu ainda não percebeste, que eu gosto muito de ti, e tu és muito estupido, porque não entendes o que eu te estou dando bem a conhecer.

Pela primeira vez, havia tanto tempo, desconfiou Luiz devéras do caso, e áquella caricia fez-se vermelho como um pimentão.

—Então fazes-te vermelho, tens talvez vergonha de mim? Pois já não devias ter rasão para isso, tenho idade bastante; não é verdade que pareço muito velha, meu Luiz, anda, dize?

E cada vez se aproximava mais d’elle a ponto de o bafejar com o seu halito inflammado; e de sorte, que se confundiam os olhos d’ella ardentes, significativos, cubiçosos, com os d’elle timidos, assustados, quasi envergonhados.

—Não, senhora Genoveva, não tenho vergonha. Desculpe fazer-me córado...

—Dize-me, atalhou violentamente Genoveva, cujo temperamento nervoso e sanguineo estava effervescente, querias estar como Paulo (era o heroe do romance), assim comigo n’um casal deserto...

—Como estamos hoje...

—Como estamos hoje, sim Luiz, e depois...

Era impossivel deixar de perceber tudo. Genoveva parecia ter a cabeça perdida, tudo denotava um desejo desenfreado, e furioso.

Não se riam, rapazes, se vissem uma mulher allucinada pelo amor, arrojar-se como uma leôa, feroz, enraivecida, terrivel até, comprehenderiam bem quanta foi a virtude do Luizito.

Levantou-se a tremer, e cheio senão de medo, ao menos de pudôr...

—Senhora Genoveva, eu não sei se comprehendi; perdoe-me se a vaidade me illude; mas, não me posso esquecer de quanto devo ao sr. José Matheus.

E saiu, sem olhar para traz.

No dia seguinte, de madrugada, com o seu alforge arranjadinho, ia pela estrada fóra, sem saber ainda para onde se encaminhava.

Ia começar de novo a vida, mas era indispensavel. Se cedesse, seria o ingrato mais vil d’este mundo; se resistisse, a furia de Genoveva não o deixaria descançado por muito tempo.

A poucos passos de distancia encontrou a José Matheus, que, tendo feito o seu negocio mais breve do que pensava, recolhia cantarolando, como quem vinha nas horas do Senhor.

Luiz não esperava semelhante encontro. José Matheus já o tinha visto, e não havia remedio. Demais foi o lavrador que encetou a conversação.

—Olá, Luiz, tão cedo, ha por lá alguma novidade?

—Nada, não, sr. José Matheus, não ha novidade nenhuma; eu é que...

—Tu é que... embatucaste? Tens alguma cousa, viste bicho?—Tu não estás em ti, desembucha.

—Eu... vou-me embora.

—Bom, homem, e por isso ficaste assim atarantado, bem te entendo; vae, rapaz, vae, eu sei o que são essas cousas. Quando voltas?

—Eu... vou de vez.

—Hein, endoideceste?

—Não endoideci, não, sr. José Matheus, preciso ir-me embora, deixe-me ir embora, deixa?...

E o rapaz estendia as mãos, convulso como se pedisse a salvação.

—Deixo, deixo. Por onde eu te pegar, te peguem os lobos. Entendo, desenquietaram-te, apanhaste-te ensinado; mas anda que tambem me ensinaste, ingrato!

—Ingrato!... Serei, sou, mas deixe-me ir embora quanto antes.

José Matheus não era de hoje, nem de hontem; desconfiou do caso, e chegando-se mais para o rapaz, deitou-lhe a unha.

—Por mais que me digam, accrescentou elle, tendo-o já seguro, aqui ha o que quer que seja, para tu estares assim tão apressado. Deixo-te ir, mas não sem me dizeres primeiro porque. Que demonio, parece que tens morte de homem!

Vendo-se agarrado, Luiz entrou a clamar para que o deixasse, pedindo-lh’o por quantos santos havia no Paraizo. Por mais que buscasse, não lhe occorria nem meia mentira. Não admira, a falta de costume...

Por fim conseguiu escorregar-se-lhe das mãos como uma enguia, e deitou a correr mais leve que um passaro.

José Matheus voltou ainda o cavallo, para lh’o deitar para cima; depois, como se lhe accudisse a reflexão, exclamou:

—A cheia o trouxe, a cheia o levou. Que vá por onde não faça perca!...

E entestou para Valle de Figueiras, scismando no acontecido.

Ainda bem Luiz lhe não tinha saido a porta, Genoveva, percebendo que era despresada, e incendida pelos lumes do desejo, caía por terra espumando como um damnado, e bracejando como um possesso. Estava com um accidente de raiva.

Accudiram ao motim, que fez, e levaram-na para a cama já sem dar accordo de si, tinha-lhe subido o sangue á cabeça, estava com uma febre cerebral.

Luiz, escusado é dizer, não soubera de coisa alguma. Recolhera a entrouxar o pouco fato, que havia comprado, pois deixou ficar tudo que lhe deram; e embebido nos seus pensamentos, poderiam voltar a casa debaixo para cima, que não era elle que dava por semelhante coisa.

Demais morava n’um quarto no extremo opposto da casa, com porta que deitava para a estrada, e pôde sair por conseguinte, sem saber nada do que se passava no resto da habitação.

Pouco depois da chegada de José Matheus appareceu o facultativo do sitio, que tinham mandado chamar a toda a pressa. Sangrou-a logo, mas já era tarde. O ataque tinha sido tão forte, que a sangria abrandou-lhe um pouco as furias e nada mais. D’ali a pouco tornava á mesma, ou a peior ainda, porque d’esta vez dizia coisas estranhas em palavras soltas.

Estava tresvariada.

José Matheus percebeu logo que as coisas que a mulher ia dizer, não eram para ser ouvidas por toda a gente; mandou sair os que estavam no quarto, e apenas ficou sósinho com ella, deu volta á chave e escutou-a.

Soube tudo.

No meio dos seus excessos, Genoveva chamava por Luiz, accusava-o de frieza, de indifferença, de ingratidão. Dizia-lhe que pensasse no seu marido, porque esse não saberia nada, e depois... haviam de ser tão felizes!

E um poder de coisas que tiraram todas as cataractas dos olhos do marido.

Este sentou-se n’uma cadeira, e, abatido, limpou uma lagrima. Ninguem soube nunca por quem fôra, se por Luiz, se por Genoveva.

Genoveva durou tres dias. Disse o facultativo, que se lhe tinha rompido uma veia na cabeça; rompesse ou não, nos dois ultimos não deu accordo de vida.

José apenas se certificou de que sua mulher não diria mais nada, recolheu-se ao seu quarto, d’onde não saiu senão para a sepultura. Não queria saber de coisa nenhuma, não dava palavra a ninguem, e se insistiam, punha todos fóra, fechando-lhes a porta na cara.

Na vespera de morrer, mandou chamar um tabellião e duas testemunhas. Lá esteve com todos tres, por espaço de meia hora.

No dia seguinte abria-se o testamento sobre o cadaver de José Matheus, e Luiz Tiburcio ficava sendo seu herdeiro universal.

—Acabou, tio Joaquim, atalhou d’ali o João Carriço, que déra provas de impaciencia durante a narração, não tem mais nada que dizer?

—Eu não, e tu? Perguntou o narrador.

—Eu, perdoará a sua palavra honrada, parece me que a historia não vem ao caso do que a gente dizia; pois se o rapaz não fosse tão arisco, ficava com tudo do mesmo feitio; porque eram dois a deixar-lhe... E d’ahi não morria, nem a mulher, nem o homem.

—E parecia-te bonito pagar d’esse feitio os beneficios, que tivesses recebido de José Matheus?

—Olhe, tio Joaquim, lá o lê, lá o entende, mas d’aquelle mal não morreu ninguem; o José Matheus não havia de passar peior por isso.

—Eu te contarei uma historia um dia, e verás se se morre ou não. Sabes que mais, João Carriço, tens ainda a cabeça muito levantada, has de assentar.

—Então sim, tio Joaquim, quando fôr lá para a edade, o que não podér haver, dal-o-hei por amor de Deus.

E como todos soltassem uma gargalhada, o velho suspendeu a sessão, porque percebeu, que por aquelle lado não fazia farinha.


XI
O Thomaz dos passarinhos

Acabavam de dar dez horas; e ouvia-se ainda o som dos sinos de S. Vicente, o que mostrava que o vento estava da barra a prometter mais chuva.

Em todo o santo dia não descontinuára de cair agua, e ao cerrar da noite, carregou tanto que parecia vir tudo abaixo. Em casa dormiam todos, e na malta vigiava apenas, junto da candeia quasi a apagar-se, o tio Joaquim, que estava fumando embevecido no que quer que era, que parecia preoccupal-o.

Os maltezes dormiam cada um para seu canto, embrulhados em gabões, ou cobertos com as mantas em cima das esteiras. Debaixo da cinza ainda faiscavam alguns restos de vides, na chaminé, e a meio da tarimba ainda se via um baralho em desordem, como a provar que havia pouco descançava d’uma bisca de quatro. As cartas poderiam figurar com bastante rasão no gabinete d’um antiquario, e tinham direito ao asylo de Runa pelas multiplicadas cicatrizes ganhas no combate.

Mas como o jogo era de boa fé, e só para matar tempo, pouco importava, que fossem mais conhecidas ainda pelas costas do que pela frente.

Pela minha parte tinha ficado tambem por ali mais um bocado, e preparava-me para recolher, quando me pareceu ouvir, por entre o ruido da chuva que caía sem cessar, e do vento que não parava, o som da campainha do portão.

—Não ouviu tocar á campainha, tio Joaquim?

Este levantou a cabeça e como despertando, respondeu-me:

—A estas horas, não póde ser, foi engano seu, já estão todos recolhidos.

N’isto o cão do pateo começou a ladrar.

—Tocaram, tocaram, repeti eu, e tanto que lá está o Alfageme a dar signal. Ora escute, lá tornam.

E effectivamente um segundo toque se fez ouvir, mas tão brando, tanto a medo, que mal se ouvia, apesar de escutarmos ambos com toda a attenção.

—É toque de desgraçado, de quem receia incommodar; pobre homem, com este tempo! Eu vou vêr, disse-me o tio Joaquim levantando-se e pondo o chapeu. D’ahi a pouco senti-o chamar o cão, que se enfurecia a ladrar cada vez com mais força, em seguida abrir o portão, e logo depois entrar na casa da malta já acompanhado.

O recem vindo entrou timido e denunciando o extremo acanhamento da pobreza envergonhada.

Caía-lhe a agua a fio do chapeu, que trazia derrubado para a cara, e ensopava-lhe um capote esfrangalhado, que bem a custo lhe resguardava o corpo. Ficou á porta mesmo, e como mal se atrevendo a proseguir.

—Entre, patrão, bradou-lhe o tio Joaquim, não está tempo para cerimonias, se isto continua lá se vão todas as sementes com a cheia. Parece um diluvio. Largue o capote e o chapeu que traz n’uma sôpa, embrulhe-se ahi n’uma manta, e chegue-se para o lume, que eu vou deitar-lhe um punhado de vides para o espertar.

E seguindo conforme disséra, separou umas poucas de vides d’um mólho, que estava perto da chaminé, quebrou-as umas poucas de vezes sobre o joelho, deitou-as no brazido, e entrou a assoprar até que pegou labareda.

—Deus lhe pague, tanto incommodo, tio Joaquim, exclamou o desconhecido, seguindo á risca as indicações do hospedeiro.

Este, admirado por ouvir o seu nome, attentou no recem-chegado, e como procurando avivar recordações:

—Espera, eu já ouvi esta voz, mas não me lembro aonde; olha bem para mim: eu conheço-te, já vi a tua cara, isso vi.

—Tão mudado estou que já se não lembra de mim, do Thomaz...

—Do Thomaz da tia Annica, se lembro! Mas quem tal havia de dizer, que mudança! Pareces um velho, homem, e eu que te fazia a arrebentar de dinheiro, que pensava que estavas pôdre de rico, lá por esses Brazis!

—Pôdre ia estando, ia; mas era de doenças e de fome...

—Então nem tudo que se diz?...

—Ora uma coisa é dizer, outra é vêr, nem o tio Joaquim faz uma idéa!

—Faço, faço, basta olhar para a tua cara e para o teu fato. Mas não se trata só de dár á lingua. Que tal de barriga, nem por isso vem muito quente não é verdade?

O silencio de Thomaz suppriu bem uma eloquente resposta. O tio Joaquim proseguiu:

—Para grandes banquetes não haverá, mas para uma assorda ainda chega o pão; fazem-se umas migas de bacalhau, deita-se-lhe um tomate e uma cebolla, e verás depois se, comida com boa vontade, não vale o melhor petisco do mundo.

—Vem quebrar-me o jejum.

—Que dizes, homem?

—Que salvo os meus peccados, ainda podia commungar, porque até a esta hora não entrou hoje comer na minha bocca.

—Pobre Thomaz!

E sem perder mais tempo em conversações, o tio Joaquim principiou a temperar as migas.

Entretanto tive eu tempo para examinar bem á minha vontade o Thomaz da tia Annica.

Teria uns trinta annos quando muito, o que só com muita difficuldade se percebia pela viveza do olhar. No resto da physionomia e no quebrado do corpo liam-se sessenta puchados. Não se podia dizer qual fôra a côr do rosto. Os sóes, os trabalhos e as febres, tinham-lhe retinto a cara d’um castanho esverdeado, que mais simulava medalha antiga que parecer de gente.

A barba crescida, as sobrancelhas espessas, e o cabello basto e grenho eram ou arruivados pelo sol, ou embranquecidos pelos trabalhos; as rugas abriam-lhe talhos profundos na pelle, e algumas cicatrizes imprimiam-lhe extravagantes relevos. Até mesmo o branco dos olhos estava amarellecido, e os dentes, quando descerrava os beiços rôxos e gretados, pareciam prezas de javali aguçadas e ennegrecidas.

O fato eram farrapos, sem fórma, nem côr possivel, restos sobrecosidos, retalhos justapostos. Não se lhe percebia camisa.

Fazia horror tão grande miseria.

O tio Joaquim tinha desenvolvido uma actividade pasmosa. N’um abrir e fechar d’olhos tinha migado o bacalhau e a cebola, tinha cortado o tomate, tinha posto tudo a ferver n’uma pouca d’agua, sem lhe esquecer um fio d’azeite para melhor tempero; depois, quando começava a fervura a levantar, entrou a partir o pão, e a deital-o no tacho com aquelles ares de satisfação, que deve manifestar um artista, quando tem a certeza de estar a concluir um primor d’arte.

Thomaz, esse engerido com frio e extenuado de fome, não tinha forças para se mecher do banco para onde caira.

No dia seguinte ouvi da bocca do tio Joaquim a historia do Thomaz da tia Annica.

Thomaz nascera por aquelles sitios mais rico de preguiça do que de amor ao trabalho; parecia feito para morgado, o demonio do rapaz, não queria saber de lavoura, nem de estudo. Fugia da escola, fugia do trabalho, e ia deitar-se debaixo de uma arvore a olhar para o ceu, ou a acompanhar com a vista as nuvens irradias.

Muitas vezes dizia elle quando lhe deitavam na cara o não fazer nada:

—Deus entregou o espaço aos passarinhos, e lançou a semente á terra, para que se nutrisse, soltou os animaes no campo, e mandou á herva que crescesse para que se alimentassem; deu azas ás borboletas, e polvilhou as flôres para que encontrassem sustento sem se affadigarem. A mão que impelle o sol, que sacode as nuvens, que arroja a chuva, que dá vigor á planta, ramagem ao arvoredo, frescura á terra, e nutrição a todos ha de amparar-me tambem, e dar-me de comer quando me falte.

E, a não ser esta preguiça invencivel, não havia que se lhe dizer: era comedido no porte e civilisado nas palavras. Não escandalisava ninguem, nem procurava descaminho; deixassem-no vaguear e estava contente.

Depois de muitas tentativas descoroçoaram os paes de o fazerem tomar rumo. Deixaram-no á lei da natureza, e assim se foi creando, aprendendo pelo que via, e desenvolvendo-se com o descanço.

Não era mau rapaz, nem dado a companhias. Bom de coração na verdade, mas incapaz de servir para nada. Havia muito tempo, que se não via um paz d’alma d’aquelles.

Emquanto o pae foi vivo, bem ia o caso. Elle dava ordem á sua vida, e quando lhe perguntavam pelo filho respondia tristemente: deixem-me, foi erro da natureza, nasceu para mulher, não tem geito para cousa nenhuma. Um dia porém, o pae amanheceu morto na cama, e a mãe achou-se de repente com todo o peso da casa, e com um filho que não tinha prestimo que se visse.

Thomaz chorou muito nos primeiros dias, e fez mil protestos de trabalhar. Assim foi de principio, mas depois... parece que se partiram os braços e tornava á mesma. Pasmava ao meio do trabalho, varria se-lhe de memoria o que estava fazendo, e deitava a correr para debaixo de uma arvore, namorar as nuvens e ouvir os passaros.

—O que te prende tanto, para não fazeres nada e passares todo um dia assim a olhar para o ceu, lhe perguntou um dia um velho fazendeiro dos melhores amigos, que o pae tinha?

—O tio Simões vae rir-se...

—Dize sempre, anda.

—Olhe, tio Simões, quando ouço os passarinhos, parece-me escutar estas palavras que o sr. padre prior disse um dia n’um sermão de festa:

«Portanto vos digo, não andeis cuidadosos da vossa vida, que comereis, nem do vosso corpo, que vestireis. Não é mais a alma, que a comida: e o corpo mais que o vestido?

«Olhae para as aves do ceu, que não semeam, nem segam, nem fazem provimento nos celleiros; e comtudo vosso Pae celestial as sustenta. Por ventura não sois vós muito mais do que ellas?[2]»

—Mas isso não quer dizer, que se não deve trabalhar, homem, pelo menos eu assim o entendo, quer dizer que por amor do dinheiro se não devem praticar acções ruins, e que a confiança em Deus nos não deve desamparar nunca.

—Ora, tio Simões, o sr. padre prior ainda disse mais:

«E porque andaes vós sollicitos pelo vestido? Considerae como crescem os lirios no campo; elles não trabalham, nem fiam.

«Pois se ao feno do campo que hoje é, e ámanhã é lançado ao forno, Deus veste assim; quanto mais a vós homens de pouca fé!

«Não vos afflijaes pois, dizendo: que comeremos ou que beberemos, ou com que nos cobriremos?

«Porque os Gentios é que se cançam por estas coisas. Por quanto vosso Pae sabe, que tendes necessidade de todas ellas.

«Buscae pois primeiramente o Reino de Deus e a sua justiça: e todas estas coisas se vos accrescentarão.

«E assim não andeis inquietos pelo dia de ámanhã. Porque o dia de ámanhã a si mesmo trará seu cuidado, ao dia basta a sua propria afflicção.»[3]

—Como aprendeste tanta coisa?

—Olhe, tio Simões, na vespera tinha assistido ao pagamento da féria, o que meu pae, que Deus haja, fazia todos os sabbados á noite, e ao vêr seguirem-se uns após outros os trabalhadores da fazenda, disse com Deus e comigo:—porque não hei de eu trabalhar? Porque não hei de ganhar tambem a minha féria? Eu tambem sou homem.

—E disseste bem, Thomaz, era uma boa palavra essa. Mas depois?...

—Depois, fui deitar-me resolvido a pedir tambem que fazer na segunda feira seguinte a meu pae; mas no domingo era dia de festa; fui á Egreja ouvir a missa, e fiquei para o sermão.

—E...

—Começou o sr. prior a dizer o que eu lhe repeti, ha pouco...

—E como tu não ias de vontade para o trabalho, quadrou-te o sermão, não é assim?...

—Não diga tal, tio Simões, sabe Deus se eu tinha ou não feito proposito de mudar de vida: tanto que, ao principio, fiquei sobresaltado, e como não querendo acreditar... Mas vi a cara do bom padre, dizia tanto, tinha uma tal expressão de bondade, um tal não sei quê na physionomia... Era impossivel, tio Simões, que não fosse allumiado pelo ceu.

—Mas como aprendeste tudo isso?

—No dia seguinte fui ter com o sr. padre prior para que me ensinasse aquellas palavras, disse-me que estavam n’um livro, e d’ahi eu... pedi-lhe que me explicasse como as havia de lêr...

—E elle?

—Elle ensinou me, e eu aprendi.

—Então tens lido muito?...

—Nada, não senhor, apenas soube de cór aquellas palavras, esqueci me logo de lêr.

—Ora essa!

—As aves do ceu e os lyrios dos campos não sabem lêr, e o nosso Pae celestial as sustenta e as veste. Eu tambem não preciso saber lêr.

—Mas teu pae morreu, tua mãe não póde com o encargo da casa, e assim sem homem, que tome tento no arranjo, vae tudo por agua abaixo.

—Que hei de eu fazer?

—Homem, és capaz de fazer perder a paciencia a um santo! Que tomes a direcção do governo, que occupes o logar de teu pae.

—O tio Simões póde dizer o que quizer, eu estou á conta do Senhor.

E não havia tiral-o d’este dizer, por mais que fizessem, por mais que lhe prégassem. Era prégar aos peixinhos.

A pobre da mãe ia dando ordem á vida, conforme podia, mas casa governada por mulher, raro toma caminho: o negocio cada vez ia de mal a peior.

Thomaz, esse, parecia não dar por semelhante cousa, chegava a casa, fallava á mãe; comia do que lhe apresentavam, porque tudo lhe sabia bem, e quando a tia Annica começava em pé de conversa a querer-lhe dar conta do que se passava:

—Faça o que quizer, minha mãe, eu não tenho nada com isso.

E deitava a correr, se insistiam com elle, para debaixo da sua querida arvore.

Um dia, quando mais embebido estava em seu scismar, ouviu perto d’elle voz de mulher, que pedia soccorro. Ergueu-se e accudiu. Era uma rapariga de uns dezoito annos, quando muito, que vinha correndo de uma vacca que a perseguia.

Já quasi não podia dar passo, e a vacca ia alcançal-a, quando Thomaz erguendo-se de um pulo, e tomando um cajadito, que trazia comsigo, atirou de lado uma paulada ao focinho do animal, que cego com a dôr, mudou de carreira e seguiu aos pulos e aos mugidos pelos campos fóra.

Agueda, assim se chamava a perseguida, parou, tomou a respiração, que lhe ia faltando, e, volvendo um olhar reconhecido ao seu salvador, disse lhe:

—Obrigado, Thomaz!

—Agradece ao Senhor, Agueda, e não a mim; a gente anda cá n’este mundo á conta de Deus.

Agueda era feia e grosseira de feições como grande parte das raparigas do campo. Muito trigueira e mais queimada ainda, crivada de bexigas, os beiços grossos, o nariz achatado e largo, as orelhas grandes e mais repuchadas ainda por umas enormes arrecadas de ouro, o cabello crestado e carapinho. Tinha os olhos pretos rasgados e ramudos como quasi todas as saloias e era nova.

Como de uso, trazia côres, que mais destoavam com o semblante. Umas roupinhas encarnadas, e uma saia de chita côr de rosa sobre outra de baeta verde salsa. Explicado estava pois o furor da vacca.

Entretanto era por extremo vaidosa, e tão presumida como o são todas as moças feias; mal tornou a si do susto começou correndo-lhe a mão, a alisar o cabello, e quando lhe pareceu ter-se bem composto, proseguiu na encetada conversação.

—Quem havia de dizer que a vacca da Angelica!... Parecia tão socegada!...

—Não admira, tornou-lhe Thomaz, que já se deitára debaixo da sua arvore e parecia distrahido a olhar para o ceu.

—Não admira, porquê?

—Ora, tu appareceste-lhe assim, tão assanhada!

—Tão assanhada!

—Sim, pareces-me uma papoila vermelha, já com as sementes pretas, no meio d’um campo de verde.

—Sempre tens lembranças!

Thomaz não lhe respondeu. Estava entregue ás suas contemplações.

—Thomaz! Thomaz! Que tens tu, estás sempre a scismar?

—E tu que tens com isso? Importa-te a minha vida?

—Lá isso é verdade, não me importa, mas faz-me pena, vêr-te assim, ahi a monte, sempre sósinho.

—Faz te pena devéras?

—Faz.

—Ora dize-me, tu tens bom coração?

—Nunca fiz mal a ninguem: nem o desejo.

—Pois bem, um dia te direi em que scismo.

E por mais que a sua companheira lhe puchasse pela lingua, não deu mais palavra. Parecia de pedra.

Por fim Agueda perdeu as esperanças de fazer com que fallasse, e ao despedir-se d’elle disse-lhe:

—Adeus, Thomaz, até outra occasião em que estejas de melhores humores. Olha que me não esqueço do favor, que te devo. Adeus!

Ou fosse curiosidade ou interesse, ou mesmo amor proprio offendido, no dia seguinte, pelas mesmas horas, fazia a rapariga caminho pelo sitio onde na vespera se encontrára com Thomaz.

Este estava no mesmo logar, e na mesma posição da vespera, parecia que não arredára pé. Agueda approximou-se-lhe, quasi sem elle dar pela sua presença.

—Adeus Thomaz!

—Adeus Agueda!

—Ainda continuas a estar triste?

—Quem te disse que eu estava triste?

—Não fallas, não cantas, não te meches d’ahi!

—Tambem as flôres do campo não fallam, não cantam e não se mechem. Entretanto ninguem diz que ellas são tristes.

—Em que pensas tantas horas a fio, Thomaz?

—Olha, Agueda, tens bom coração?

—Já hontem me fizeste essa mesma pergunta, e o que hontem te respondi, te respondo hoje:

—Não fiz nunca mal a ninguem, nem o desejo.

—Pois um dia te direi em que eu penso.

—E porque não ha de ser hoje?

—Ainda não tenho confiança em ti.

Repetiram-se os encontros. Todos os dias, pelas mesmas horas, Agueda se encaminhava para aquelles sitios, e quando a sombra lhe dizia que ella estava para chegar, Thomaz esperava a com a vista, fitando os olhos no atalho por onde havia de apparecer.

Pouco a pouco a indifferença apathica de Thomaz foi desapparecendo. Fallava mais, e contava historias de avesinhas e de flôres a Agueda maravilhada.

E havia uma tal ingenuidade, o que quer que era de boa e pura simpleza nas suas historias, nas suas exclamações, na explicação que lhe dava dos enlaces dos animaes e dos amores das plantas, que a pobre rapariga parecia levada a mundos novos, e quasi estranhava tudo que não era o fallar e a companhia de Thomaz.

Um dia, eram passados tres mezes, depois do primeiro colloquio, voltou-se elle repentinamente para a sua companheira depois d’alguns momentos de abstracção, e disse-lhe:

—És feia Agueda, muito feia.

—Se o sentes, para que m’o havias de dizer? tornou lhe tristemente a rapariga.

—Porque digo sempre o que sinto. Mas o teu coração é formoso e a tua alma é boa.

—Obrigado, Thomaz.

—Não me agradeças, porque fallo verdade. O teu coração é bom, e a belleza do corpo acaba, emquanto a formosura da alma se conserva. Eu gosto de ti, Agueda.

—Tambem eu gosto de ti, e por isso sempre me pareceste formoso.

Era uma especie de recriminação, que Thomaz não percebeu.

—Eu queria casar comtigo.

—Tu!

—Eu, sim, porque te admiras?

—Não cuidei que pensasses em casamento.

—Não casam as arvores, as flôres, os animaes da terra, as avesinhas dos ares, os peixes do mar; não casam as aguas dos rios com as torrentes dos mares?

—Mas...

—Porque não hei de eu casar tambem?

—Tu bem sabes, Thomaz, que eu nada tenho; tu tambem és pobre, como haveriamos de viver?

—Não me tens perguntado tanta vez em que penso durante as horas em que estou sósinho?

—Tenho.

—Pois, ámanhã t’o direi; d’hoje até ámanhã pensa tu tambem, e dir-me-has depois, se queres ou não casar comigo.

—E porque não dizes agora?

—Agora... preciso estar só.

E calou-se. Agueda já sabia que era tempo perdido teimar. Retirou-se, olhando muitas vezes para o seu extraordinario apaixonado.

Este não deu por semelhantes finezas. Com os olhos fitos n’um ponto affastado, parecia embevecido em doces contemplações.

No dia seguinte pelas mesmas horas dobrava Agueda o atalho, quando Thomaz, que de longe a avistou, se ergueu para a ir esperar.

Extranho era aquelle procedimento, e tanto mais extranho, quanto a pobre da rapariga, á força de se querer aprimorar, mais feia parecia ainda. Thomaz, porém, nem percebeu a mudança.

Ao approximar-se da arvore, pediu lhe que se sentasse ao seu lado, e com taes modos e tal delicadeza, que ella quasi o desconheceu.

—Que tens, Thomaz, pareces me outro?

—Tenho que te fallar muito sério. Pensaste?

—Pensei.

—Queres?

—Quero, Thomaz, conheci que te amava. E tu?

—Eu, não sei. Olha, Agueda, parece-me que nasci para casar comtigo. Tenho te visto ha muitos dias, e sempre me tens parecido boa rapariga.

—Tu é que és um santo, meu Thomaz...

—Não digas isso, e ouve-me. Vou contar-te o meu segredo.

—Pois tu tens segredo?

—Não t’o disse hontem?

—Disseste, mas pensei que estavas gracejando.

—Não sei gracejar.

—E d’elle depende a nossa fortuna?

—Depende.

—Então conta, Thomaz, conta depressa.

E a rapariga quizera ser toda ouvidos para satisfazer assim a curiosidade que a devorava.

—Olha, Agueda, olha além para o ceu.

—Olho.

—Não vês nada?

—Vejo uma nuvemzinha transparente e branca, que parece voejar como um véosinho de cambraia.

—E nada mais?

—Mais nada!

—Pois eu vejo mais do que tu.

—Como assim?

—Ha uns poucos d’annos, que passo manhãs e tardes, deitado debaixo d’esta mesma arvore, com os olhos pregados n’aquelle mesmo sitio do ceu.

—E vês?

—Espera. Não ouves o chilrear dos passarinhos, que andam saltitando de ramo em ramo?

—Ouço.

—E não percebes o que elles dizem?

—Ora essa!

—Pois desde que aqui descanço, as aves fallam comigo, e eu entendo o que ellas dizem.

—Thomaz!

—Bem sei que desconfias de mim, Agueda, que talvez me julgaes doido, pateta, como muitos dizem. Não me admira, estou condemnado, e rio-me d’isso.

—Não chamo, não, meu Thomaz; continua.

—Tens espalhado os olhos por esses tapetes de verde, por essas vagas de pão, que ondulam e marejam á feição do vento como as aguas dos rios?

—Se tenho!

—Mas não escutaste ainda os colloquios que segredam as plantas umas ás outras, as espigas ás suas visinhas, quando o vento as encurva, e parece approximal-as tão de perto, como se fossem a beijar-se?

—Valha me Deus, Thomaz, que coisas me estás perguntando!

—Tenho dó de ti, Agueda!

—Porquê?

—Porque nem lês no céo, nem aprendes com as aves, nem escutas as plantas. Como has de ser infeliz. Tudo pois, que mais significação tem, nada quer dizer para ti. Mas descança, minha Agueda, quando casares comigo, has de saber o que eu sei.

—E tu sabes?

Thomaz fez-lhe signal para que se callasse por um momento, e pareceu cair em extatica contemplação com os olhos fitos no céo.

Seria passado um quarto de hora, quando pareceu voltar a si, dirigiu-se a Agueda, e disse-lhe:

—Ouve-me agora. Quando meus paes quizeram que eu estudasse, quando tentaram que eu aprendesse ou trabalhasse, senti em mim uma voz que me dizia: não trabalhes, não é preciso, has de ser rico, muito rico, espera, confia e descança.

—E tu?

—Sempre que me approximava do trabalho sempre esta voz me fallava; se eu insistia tornava se mais aspera, reprehendia-me, accusava-me de não ter fé. Por fim... não estava mais na minha mão, fugi ao trabalho, não pude resistir ás palavras, que ouvia a todo o momento.

—Pobre Thomaz!

—Quando comecei a abandonar a casa, para vir deitar-me para debaixo d’esta arvore, parecia-me que as flôres e as plantas se debruçavam para mim e diziam umas ás outras: é mais um irmão que chega, bemvindo seja entre nós.

E eu sorria-me para as hervinhas e para as arvores e a umas e outras dizia: Eis me, queridas irmãs, que saudades eu tinha vossas, como me batia o coração com pena! Eis-me, oh irmãs, e não vos deixarei mais.

Depois de pensar muito, quiz n’uma occasião da minha vida mudar o modo de viver. Um caso fez, porém, com que eu continuasse a seguir os conselhos da voz, que cá bem dentro me dizia: Descança e tem fé.

—Um caso?

—Sim.

E Thomaz contou-lhe como entrára na egreja e o que ahi ouvira ao prior, bem como a maneira, porque instando com elle para que lhe ensinasse aquellas palavras, chegára a aprender a lêr.

—E sabes lêr, Thomaz?

—Soube, esqueceu-me.

—Pois nem conheces as letras?

—Não.

—E se eu quizesse aprender?

—Talvez me recordasse.

—Has de recordar-te, sou eu que t’o peço, mas continua.

—Embrenhado n’estes pensamentos, um dia que alargava a vista pelos campos, e que pretendia mergulhar os olhares no céo, lá bem longe, n’aquelle affastado ponto, em que tu divisaste ha pouco uma nuvemzinha, vi avultar uma figura branca, tão transparente, tão formosa porém, ai tão formosa! que arrebatava olhar para ella... Mas porque estás tão triste, borbulham-te as lagrimas nos olhos!

—Lembro-me do que me disseste, Thomaz, que me achaste feia, e tenho pena de o ser.

—Não penses em tal. Formosuras d’aquellas não as ha na terra, nem sei mesmo, minha Agueda, se as haverá no ceu. Entretanto eu via todas as tardes aquelle vulto illuminado no meio de resplendores de fogo, e dos raios scintillantes do sol poente. Depois ao cair da noite ia-se sumindo pouco a pouco na escuridão até que uma só estrella a substituia no ceu.

Se visses que melancholica luz espalhava aquella estrella! Acreditei que o meu anjo da guarda me apparecia, e que a estrella, que de noite scintillava, mais resplandescente do que todas as outras, fôra cravada nos ceus pela mão do Senhor para me animar quando desanimasse, para me esclarecer quando as trévas envolvessem a terra.

—Mas dizias, que te fallára!

—Pouco a pouco comecei a comprehender, que me fazia gestos, como indicando me um ponto muito affastado dos ceus. Parecia que lá muito longe estava a felicidade, que eu almejava. Um dia ajoelhei e pedi-lhe, que me fallasse, que me dissesse o que significava aquelle gesto constante a mostrar-me a immensidão.

—E respondeu-te?

—Não é mais harmonioso o som do orgão, quando, depois de tocado, parece gemer saudoso na egreja, não é mais suave o canto da viração da tarde rumorejando pelo arvoredo, nem o lamentar ao longe do rouxinol em madrugadas de maio.

—E disse-te...

—«Pobre de ti, que procuras a felicidade na terra. Está bem longe e tão longe que nem teus olhos a alcançam nem tua mente a imagina. Queres ser rico, queres ser feliz! Louco! Não ha de ser ahi que encontrarás nem riqueza nem felicidade. Chegará um dia em que me sigas, e então verás patentes thesouros, que nem suppões, felicidades que nem as sonhas.»

—Era a tua cabeça que desvairava meu Thomaz!

—Não era, Agueda, não era. Levantei-me para seguir direito o caminho que me apontava; mas ao calcar as primeiras hervinhas senti entre seus gemidos, que me chamavam: ambicioso! louco!

—As hervas?

—Sim as hervas, voltavam-se para mim e apontando-me para os campos onde viviam censuravam-me por as deixar: para que partes? Não tens o pão que te alimenta, o sol, que te dá calor, o ar, que te nutre a respiração, não vês como vivemos contentes no mesmo logar, amando-nos umas às outras, bebendo a agua dos ares, e aquecendo-nos o sol?

—E pensaste então em amar?

—Pensei! Depois quando volvia para debaixo da minha arvore as avesinhas brincando umas com as outras, diziam: «Não é preciso ir longe para se ser feliz. Este pobre rapaz quer deixar-nos, e nós podiamos-lhe ensinar como se encontra a felicidade. Uma arvore nos abriga, um ninho serve de berço aos nossos amores, uma folha nos resguarda do sol, a semente que cae no chão nos sustenta, a agua, que as covasinhas conservam, nos mata a sêde. Sabemos amar e viver, amamos e sômos felizes.

—Seguiste o conselho das aves?

—Segui. No dia immediato a visão sorria menos melancholica, e ao perguntar-lhe se devia partir, respondeu-me: Não ouviste as hervinhas do campo e as avesinhas do bosque. Sê humilde como ellas são, contenta-te com o que as satisfaz e serás então como ellas feliz.

—Mas como havemos de viver assim, meu Thomaz, não podemos habitar n’um ninho, nem n’uma leira dos campos.

—Ouve-me até ao fim. Quiz amar para ser feliz, mas todas me voltavam a cara, ou me apontavam dizendo: olha o Thomaz idiota, o Thomaz dos passarinhos.

Só a minha visão me sorria boa nos ceus, emquanto todos na terra se riam de mim como uns maus. Perdi as esperanças de encontrar quem me tivesse amor, e procurei amar aquella que me queria. E sempre a via, sempre lhe fallava no meu querer, e ella sempre se curvava para mim e tristemente me dizia: estamos longe, muito longe!

E entretanto as aves e as plantas contavam-me os seus amores, e animavam-me tambem.

Vi-te, Agueda, e ao passo, que mais a meudo me appareceste mais fui querendo á tua presença. Por fim não podia já passar sem ti e nas horas em que devias chegar, mais me palpitava o coração.

—Querer-me-ias, por ventura?

—Não sei. Se o amor é um sentimento, que nos prende a idéa ao ente amado, se o amor é o sacrificio da nossa vida á que se ama, se amor é ser todo d’uma só mulher, e só d’ella, eu não te amo, porque bemquero áquella imagem, e a sua lembrança corta-me os pensamentos, que te consagro. Olha, não sei como te explique o que sinto. Quando quero comprehender-me julgo-me tambem idiota, como me chamam todos. Não ha mulher para mim que te valha, mais rica ou mais formosa que fosse; mas tambem nada ha, que seja em mim superior á idéa d’aquella imagem. Quando vou levado pelo pensamento para ti, surprehendo-me a meio caminho, arrependo me de me esquecer d’ella, e fico em doce contemplação a adoral-a. Quando ella se some, appareces-me tu. Sabes?... Creio que amo a ambas, a ella com o amor do ceu, a ti com o amor da terra.

Agueda suspirou e limpou uma lagrima, que lhe escorregava pelas faces.

—Porque suspiras?

—Tenho ciumes da tua visão; e depois, bem vês, não poderemos casar nunca.

—Sabes que lá bem longe ha terras, em que as riquezas não faltam?

—Sei.

—Sabes que é para bem longe que o meu bom anjo me chama?

—Assim m’o disseste.

—Pois se tu quizeres casar comigo, irei apoz a minha querida visão, seguirei o seu gesto, e tenho por fé que ao voltar serei rico, que o esperei sempre; serei feliz, que m’o assegurou ella.

—Enlouqueceste, Thomaz?

—Nunca estive mais em meu juizo.

—Pois queres sósinho, sem meios, sem conhecimentos ir por esse mundo de Christo, atravessar os mares, fazer uma viagem tão grande! Dizem que d’aqui ao Brazil é um por ahi além de leguas!

—Sei, que importa isso! Tenho pensado muito, comigo, aqui, e com aquella boa imagem além. Não tenho palavras para dizer o que vae cá por dentro ahi a qualquer. Póde ser que eu seja idiota, mas parece-me que mais são os que me chamam por não lhes fallar, nem lhes dar satisfações da minha vida.

Humildes são as plantas, mais atrevidas as aves, mais atrevidas ainda as nuvens dos ares e as estrellas dos ceus. Quanto maior é o seu atrevimento, mais longe se levam.

O homem que vive cá n’este mundo extremo de todos, sem querer deixar rasto de si, nem cousa alguma que o lembre, passada a sua hora, é como a planta, lançada á terra pela mão de Deus. Nasce, medra e morre; deitam-lhe a foice e fica por terra.

Assim era eu. Não tinha para quem o fosse, não queria ser rico. Espera, dizia-me a voz; está muito longe a felicidade, repetia-me a visão, e eu ia esperando sem tentar os longes.

Mas quando ama, não chegam para o homem alguns torrões apenas, como para o pé de trigo: vae longe buscar com que fazer seu ninho, percorre os ares como as aves: e, emquanto a esposa o espera cuidando dos filhinhos, trabalha elle para sustentar os outros.

Assim poderia eu ser; mas não bastava.

Para ti, Agueda, que vaes repartir comigo a tua vida, que te vaes enlaçar comigo, como a videira se enlaça no carvalho, que vaes ser minha mulher, sabes o que isto quer dizer, minha mulher?... não basta o bago de trigo, que sustenta o pardal, nem o bichinho que nutre a cotovia. Quero ir longe, mas tão longe como vão as nuvens e não como as aves; quero correr mundo, como correm as estrellas que hoje espalham aqui a sua claridade, depois allumiam outras terras: e mais tarde, ao voltar com dinheiro para ambos, com o descanço para os que hão de ser nossos, dizer-te:

—Vês? É assim que um homem sabe amar.

E Thomaz transfigurára-se ao dizer estas palavras; a sua belleza varonil assumira o que quer que era extraordinario, parecia inspirado. Chispavam-lhe centelhas dos olhos, aspirava com as ventas dilatadas os aromas da tarde, soltava os cabellos bastos á feição do vento. Erguera-se emquanto fallava, a sua figura parecia mais crescida. Cercava-o uma aureola de magestade, destacava-se do fundo escuro do tronco a que estivera encostado, recortava-se sobre o azul carregado do céo, como um d’aquelles sacerdotes das florestas gaulezas, quando colhido o agarico sagrado erguiam os olhos, pediam a inspiração aos numes e rasgavam o ar com o gesto alargando os braços sobre as multidões curvadas.

Agueda desconhecia-o e pasmava.

—Como és formoso assim, meu Thomaz, e como eu te avaliava tão mal, exclamou a pobre rapariga cedendo ao impulso da admiração.

Thomaz caiu em si, e tornou-lhe tristemente:

—Todos me têem julgado como eu não merecia. A solidão tem-me feito amadurecer muito, e se não fallo, penso. Dizem que o mocho é prudente e assisado, e entretanto nem trina como o rouxinol, nem canta como a toutinegra, nem se veste de côres brilhantes como o pintasilgo. Emquanto todos dormem vigia elle, emquanto folgam e brincam á luz do sol mergulha-se no escuro e recata-se no seu souto. As horas de solidão valem mezes de viver em companhia, e os dias de abandono ensinam mais do que os annos de carinhos e meiguices. Eu, Agueda, tenho vivido sempre desamparado, só e triste. Tenho pensado muito, assim eu tivesse palavras, como tenho idéas; mas vou a fallar, não sei, e fico-me...

—Apesar d’isso dizes coisas que não comprehendo.

—Que queres, os fructos quando veem ao chão, ou pedram-se e fazem-se ruins; ou amadurecem mais depressa. Não tinha queda para ruim, deitaram-me por terra, amadureci. Já foste á cova das rapozas?

—Deus me livre! Apparecem por lá as almas dos defuntos. O João da Josefa do tio Domingos, foi lá ter atraz de uma ovelha e viu uma aventesma surdir-lhe de um d’aquelles buracos. Pois tu já lá foste, Thomaz!?...

—Fui! Tudo quanto é fóra do commum tem agrados para mim. Procurei saber o que era. Entrei, e vi uma cousa que não esperava.

Do tecto da cova desciam pinhas de pedras preciosas até ao chão e formavam columnas, como as do altar-mór da egreja; mas quanto bem mais formosas! Pareciam feitas de bocadinhos de espelho. A luz que entrava pela bocca da cova e a que eu levava do archote, saltavam de columna para columna, brincavam n’aquellas laminasinhas, faziam ziguezagues, voltas, revira-voltas, como se fossem um cardume de lusilumes. E eram luzes de todas as côres, azues, vermelhas, verdes, côr de rosa; como n’aquelle fogo de vista que deitaram os homens de Lisboa. Estonteava a vista olhar, andava a cabeça á roda.

—Bem dizia eu, Thomaz, era obra de feitiço, para que foste lá?—E appareceu-te algum phantasma?

—Não. Perguntei uma tarde ao sr. padre prior o que eram aquellas columnas, e como estavam alli em pilha tantas pedras preciosas, sem que tomassem conta d’ellas?

—E elle o que te disse?

—Que o que eu julgava serem pedras preciosas era a agua da chuva e nada mais.

—Ora!

—Era sim. Gotta a gotta ia filtrando pela rocha e pendurando-se da pedra, como o pingo da fonte no cazal das Cortiças, que se baloiça antes de caír custando-lhe tanto a despegar-se. Mal uma não caía ainda, vinha outra abraçar-se com ella, e prendel-a mais. As que iam ao chão seccavam devagarinho e deixavam a fazer altura as terras que traziam comsigo. Debaixo foram subindo, de cima foram descendo; e quando se uniram, estava a columna prompta. Vieram novas gottas, foram baixando pela columna: e parando aqui, detendo-se além, arrendaram-lhe o feitio, e recortaram-lhe as fórmas...

—Pois isso póde ser!

—Póde! E este milagre é obra da solidão, do socego, e da meditação bem escondida do mundo.

A agua da chuva que cae nas ruas faz-se lama, a que cae nos campos secca-a o vento, ou encaminham-na os homens para as regueiras e levadas, a que cae com força faz cheia e arrasta tudo, a que cae de manso perde-se; mas a que livre do vento, e dos homens, gotteja escondida, e escorre devagar entregue só a si, forma columnas maravilhosas, e faz-se em pedras de valor. Aqui tens como eu tenho aprendido tambem. Fujo de tudo e de todos, escondo me, penso, medito, e aprendo.

Ficaram ambos silenciosos por algum tempo. Agueda não comprehendia mas advinhava; Thomaz, esse que havia muito tempo não fallára tanto, parecia seguir callado o fio do discurso conversando comsigo. Foi a rapariga, que renovou o dialogo.

—Pois sempre queres partir?

—Quero. É tenção feita e não mudo. Espera-me tres mezes, como eu tenho esperado annos. Ceifaram os campos ha pouco; por ahi não ha senão restevas. Callaram-se os passarinhos, acabaram-se-lhes os amores, e somem-se para outros logares. Vou partir, Agueda, de dia seguirei o meu anjo, de noite a minha estrella; e, quando a relva vestir esses prados, quando as aves cantarem de novo, vêr-me-has regressar d’essas terras, e n’esta arvore onde temos passado tantas horas de felicidade, contar-te quanto passei por amôr de ti.

Debalde procurou a rapariga despersuadil-o. O caracter de Thomaz, como o de todos os espiritos concentrados, era teimoso. Pensava muito em qualquer resolução, que devesse tomar; uma vez porém que a adoptasse, havia de seguil-a por força. Poucos dias depois abandonava a aldeia. Agueda, soluçando, acompanhava-o até duas leguas fóra do logar.

Longo e triste fôra relatar a perigrinação do pobre rapaz. Pedia esmola para comer, quando tinha fome; deitava-se pelo caminho, quando se sentia cançado, ou abrigava-se em qualquer pousada, onde o deixavam dormir. Ia porém seguindo na mesma direcção e para onde lhe parecia acenar a figura, que se lhe representava em suas allucinações.

Houve quem, ouvindo-lhe dizer que queria ir longe tentar fortuna, o alliciasse para o Brazil. Thomaz perguntou para que lado ficava o Brazil, deram-lhe uma direcção. Errada ou verdadeira esta direcção era a mesma que trouxera sempre. Acceitou.

Os que já conhecem Thomaz pódem avaliar bem que desgraçado colono havia de ser e por quantos tormentos passaria. Entretanto nem doenças, nem fomes nem maus tratos, nem trabalhos superiores ás suas forças o desanimavam. Uma coisa só o trazia apaixonado. Não via n’aquelles céos a sua estrella. Nos horisontes affogueados não descortinava a sua visão.

Passaram annos e Thomaz, apezar de tanto padecer, conservava ainda recatada na alma a santidade das suas aspirações. Ha temperas d’esta ordem, que como as perolas se conservam limpidas, e puras, no meio das correntes e das tempestades.

Houve quem se condoesse da sua sorte e lhe proporcionasse passagem para Portugal. Acceitou-a reconhecido; perdêra todas as esperanças de ganhar fortuna, voltava quebrado, doente, incapaz de trabalhar, mas vinha de novo para terras, onde lhe apparecia o bom anjo, e a boa estrella, onde conhecia o cantar dos passaros e o fallar das plantas, e onde tornaria a vêr a sua Agueda.

—E a rapariga, perguntei ao tio Joaquim, quando rematou a sua narração, ainda está á espera d’elle?

—Olha quem! D’ahi a dois mezes fugia da terra em companhia de um soldado do destacamento, o Thomaz vem achar-lhe o logar.

—E já sabia d’isso, hontem á noite, quando lhe contou a sua vida?

—Ainda não, vinha a caminho, quando a chuva o não deixou proseguir e nos pediu agasalho. Hoje é que deve saber a verdade toda.

—O tio Joaquim não lhe disse nada?

—Não tive animo para lhe dar a noticia. Pobre homem, fugiu-lhe a noiva, morreu-lhe a mãe, está só!

Fôra depois do jantar que o tio Joaquim me contára esta historia, a tarde estava muito amena, e o descair do dia ganhava os doces encantos da tristeza.

O que ouvira harmonisava-se com o que estava vendo: e a melancholia começou a tomar conta de mim. Propuz ao tio Joaquim um passeio até ao logar para espairecer. Saimos.

Á porta do boticario estava junta quasi toda a povoação; grande novidade ia pela botica. As velhas entravam, saiam, segredavam umas com as outras, levantavam os braços ao ar e voltavam para saber e contar novas coisas.

Conseguimos entrar e vêr o que tanto attrahia as attenções. O pobre Thomaz jazia banhado em sangue. Fôra encontrado cahido no fundo de uma trincheira, que andavam abrindo para o caminho de ferro, e quebrára a cabeça e os braços de encontro ás pedras que estavam em baixo. Restava-lhe pouco tempo de vida.

O tio Joaquim approximou-se do moribundo, elle reconheceu-o logo e sorriu-lhe tristemente.

—O que foi isso, homem? perguntou-lhe o velho narrador.

—Acertei finalmente com a felicidade, não tarda; em pouco vou ser muito rico.

Pensaram que já estava tresvariado. O tio Joaquim, disse-lhe que socegasse.

—Bem socegado estou, acabou-se-me para sempre a lida. Agueda, tinha-se cançado de esperar, nem todos têem paciencia como eu tive... Corri á minha arvore, já a não encontrei... tinham-na derrubado... Os campos estavam cortados pela estrada, as hervas calcadas pelo pisar dos trabalhadores do caminho, as aves tinham fugido espavoridas com os tiros das minas na pedreira... Aqui, como lá bem longe, estava só de todo... De repente, poude vêr, com os olhos arrasados de lagrimas o meu anjo no mesmo logar a olhar para mim como d’antes, a chamar-me como d’antes, mas mais triste do que nunca... Caminhei direito a elle, fitando-o sempre... Faltaram me os pés... Cahi... Mas sei que me hei de levantar em breve, e d’esta vez hei de approximar-me d’elle para não mais o deixar... Até que em fim... comprehendi-o... Dizia-me que estava longe... bem longe...

E estava!... Conchegou-nos a morte: a felicidade... a riqueza... debalde as procurei na terra;... mas agora... sei que as vou encontrar... no ceu.

Passada meia hora o Thomaz da tia Annica, o Thomaz dos passarinhos, como por alli lhe chamavam, era cadaver.


XII
A historia do narrador