V

O céu tinha limpado de noite, o dia amanhecera sereno, e o sol aquecia bastante, apesar de ser no outono. E aquella estrada, então, que era um descampado!

A meia hora de caminho, andando sabe Deus como, com a cabeça pelos ares e a rasão quasi transtornada, Manoel teve de parar, ou, para melhor dizer, de cair n’um poial, que estava á beira da estrada debaixo de uma nogueira velha.

Se não estivesse já experimentado na infelicidade, o pobre homem, que pela sua má sina parecia ter nascido nas horas da desgraça, finava-se alli de todo.

Mas a canceira do corpo venceu a labutação do espirito; as horas, que levára de volta com o mar, o dia que passára e este que ia correndo sem comer; aquella vista e aquelle abalo, tudo junto deitaram-no como desmaiado sobre o poial onde ficou a dormir, a pensar, ou a esmorecer, que nem elle mesmo soube nunca o modo porque fôra, até que um velho visinho e que por mais de uma vez chegára ao humbral da porta a encarar com elle, o fez tornar a si batendo-lhe no hombro e perguntando-lhe se tencionava ficar para sempre alli estendido.

Manoel para aquellas bandas não sabia caminho nem carreira, e que o soubesse não tinha alma de o seguir. O velho compadeceu-se d’elle, porque pelo fato e pelo fallar, conheceu logo que era estranho ao logar; offereceu-lhe, para passar a noite, um bocado de esteira, para matar a fome um pedaço de pão e uma cabeça de sarda, e para companhia a sua pessoa e conversação.

Acceitou, e seguiu o seu hospedeiro como por demais: e, sem dar fé do que fazia, comeu, deitou-se, e dormiu a noite de um somno.

Só nos romances é que os heroes não dormem depois de fortes abalos; na vida vulgar, na vida de todos e de todos os dias, depois dos grandes padecimentos, vem o cançasso mesmo da dôr, e depois o somno, ás vezes mais profundo, mais descançado, do que nas occasiões triviaes.

Na manhã do dia seguinte Manoel acordava tranquillo e quasi feliz. Ao cabo de tanta lucta, de tantos lances, e de tão grandes golpes, aquelle remanso, que o velho lhe offerecia, aquelle apartamento do mundo, aquelle mesquinho oasis, entre um cemiterio e um ancião que para elle se inclinava e se debruçava sobre a cova; entre dois tumulos, mas sempre oasis para o seu mundo deserto de affeições e de esperanças, era o socego, o esquecimento, quasi a felicidade, felicidade da morte, mas ainda assim agradavel para os que nada esperam da vida.

Diz um aphorismo, dictado talvez pela descrença, mas provado pela experiencia, que um dia de desgraça estreita mais amisades do que annos de ventura; contaram-se a sua vida, communicaram-se as suas infelicidades, e deram-se o nome de amigos.

Não eram interesseiros os protestos; e por isso, bem sinceros.

Até á morte do velho, Manoel viveu na sua companhia; enterrou-o, chorou sobre a sua sepultura, herdou-lhe a pobre habitação e o descubiçado emprego, e n’essa posse estava quando em companhia do tio Joaquim o encontrei.