IV

Momentos depois já Manoel estava prezo: tinham acudido aos gritos de Martha, e tinham-no encontrado com a faca ainda aberta defronte de um corpo caido no chão, e a golphar sangue por duas feridas profundas.

Era mais do que o bastante.

O depoimento da visinhança, o proprio testemunho de Martha, tudo concorreu para que o condemnassem.

Levaram-lhe porém em conta o bom passado, os negociantes respeitaveis, donos do navio a attestarem o seu bom porte, uma tripulação em pezo de honrados e velhos marinheiros encanecidos pelo tempo, e crestados pelos soes da linha a dizerem: que elle tambem fôra honrado.

Os jurados, santas creaturas, commoveram-se com aquelle espectaculo; o advogado do réo, rapaz de esperanças, vociferou contra as leis de sangue, e discorreu como uma bocca de ouro sobre a alienação mental e as circumstancias attenuantes; o juiz sensibilisou-se tambem, e todos enternecidos condemnaram o réu... a dez annos de grilheta.

Para um homem como Manoel, similhante affronta seria peior do que a morte, se no estado em que se achava, elle a podesse apreciar.

Depois que commettera o assassinato tinha ficado como louco, ou peior ainda, porque parecia idiota.

Um golpe d’aquelles, uma mudança d’aquella qualidade!

Quando esperava colher o fructo de uma vida trabalhosa e honrada nos braços da sua Martha, vêr-se de repente criminoso, assassino e deshonrado; toldarem-se-lhe na cerração as estrellas, que o guiavam n’esta vida, o astro do amor, e o astro da honra: eram provações de sobra para deitarem por terra castellos mais fortes, e almas ainda mais valentes.

Manoel não morreu, mas fraquejou para sempre. O mesmo d’outros tempos nunca mais tornou a ser. Nunca mais o viram rir, cantar não o ouvio mais ninguem: e as rugas, que se lhe cavaram no rosto, tambem se lhe entalharam no coração.

O amigo da humanidade, que inventou as prisões em commum e a grilheta, foi de certo um grande perverso. Só a um requinte de malvadez se póde attribuir um invento que envolve e reune no mesmo castigo, na mesma atmosphera de perversão, innocentes e criminosos, pois que assim comparados uns com outros se podem chamar: e que não contente com isso lhe accrescentou a grilheta, exposição ambulante, aperfeiçoamento da que, em tempos de barbaridade, se applicava as mais das vezes a victimas do que a réus.

A influencia desmoralisadora d’aquelles dez annos não alcançou todavia o antigo piloto: quasi que nem os percebeu, tudo era para elle extranho, inexplicavel, incomprehensivel; um pesadello que durava muito, e de que esperava accordar um dia.

Entrára na cadeia de vinte e um annos; saia sexagenario, eis toda a differença. Aquelles dez annos valiam-lhe por quarenta; e, mocidade, alegria, sentimento, coração, vida, enthusiasmos d’outro tempo, crenças e aspirações, tudo deixara ao sair, com a grilheta que depozera.

Só não perdera um sonho atroz, que quasi todas as noites o perseguia, e que, salvo pequenas mudanças, era sempre o seguinte:

Navegava a bordo do Corsario. De repente o Oceano transformava-se em largo mar de sangue: debruçado na amurada via-se lá em baixo a braços com um homem, que lhe ia roubar a sua Martha, innocente como os anjos, pura como a estrella da manhã, serena como o alvorecer de estio em alto mar, e que d’entre nuvens no céu lhe sorria amor. A lucta continuava encarniçada, elle fóra de si puchava pela faca; mas, por mais diligencia que fazia, só alcançava Martha, o seu contrario escorregava-se d’entre os braços escapando-se-lhe aos golpes. Depois o mar de sangue envolvia-o todo, ia já a affogar-se, e a voz de Martha eccoava-lhe aos ouvidos clamando; assassino, assassino. As ondas passavam-lhe por cima da cabeça, o marulho das aguas, o sussurro do vento casavam-se com uma voz confusa, que lhe baqueava nos miolos, dizendo-lhe: não matarás.

Nos primeiros tempos, em que saiu, ainda teve esperanças de voltar á vida antiga; mas todos, que procurava, se affastavam d’elle com terror. Desesperado, momentos houve em que lhe passou pela cabeça vingar-se de uma sociedade, que castigava n’elle um crime mais dos outros do que seu, e seguir a estrada do mal, já que lh’a lembravam, e já que lhe tornavam todas as outras impraticaveis; mas o principio do bem e as idéas que recebera com a educação, predominaram sempre.

Custára-lhe muitas noites d’insomnias e de phrenesi, horas de amargura, em que chegou a desejar a vida da cadeia, occasiões em que a ideia da morte lhe trabalhou muito na cabeça.

Uma noite, pelas onze horas, vagueava pelo caes do Sodré depois d’um dia passado em inuteis pesquizas de trabalho, e em repetidas e semelhantes recusas. O céo estava carregado, o vento soprava em lufadas da barra, o rio estava revolto, as aguas negras, a escuridão negrejava em tudo. Debruçado sobre o caes, remontou-se pelo pensamento áquella tarde em que, onze annos antes, desembarcára no mesmo sitio. Como tudo tinha mudado. Que alegrias então, que tristezas hoje! A agua começou a namoral-o debaixo, o desalento a convidal-o em roda, ia a precipitar-se, um braço susteve-o, uma voz exclamou: cobarde!—Era o braço de um antigo companheiro, a voz d’um velho amigo, marinheiro como elle; mas muito mais pobre, muito mais velho, e que pedia esmola encostado ao parapeito do caes.

Aquella palavra e aquelle exemplo fizeram-n’o renunciar para sempre ao suicidio. Para não ser cobarde muitas vezes em temporal desfeito se resolvera a morrer, agora, para que lh’o não chamassem, resignava-se a viver. Era maior o sacrificio, mas para o compensar estava a ideia de que podia ser util ao velho Estevam: e a companhia d’um amigo que lhe apparecia nas proximidades da sepultura.

E... porque não havia de concorrer tambem?

A esperança, que mesmo sem fundamento algum, ainda lhe dizia que vivesse, e o acompanhava, como sempre, nos mais atormentados lances?

No dia seguinte, com o peculio que por seu trabalho juntára na cadeia, comprava um velho barco de pesca, e ambos tomavam posse da propriedade commum não contentes, mas resignados, baptisando-a—Desgraça,—pelo muito que ambos haviam padecido.

Se o trabalho faz minorar e esquecer as maguas, nenhum modo de vida se creou melhor para o esquecimento do que a vida do pescador. A lida continua e a lucta permanente com o mar e com o vento, a vigilia, o emprego de todos os sentidos, trazem o que n’ella se emprega sempre voltado para o seu trafego e sempre estranho ao mundo com o qual só de leve trata: e d’ahi para Manoel aquelle labutar tão semelhante ao de outros tempos, aquella vida, reflexo da outra, reflexo pallido em que o rio substitue o mar, em que o barco substitue o navio, mas que nos lances e no trato, tanto lh’a recordava, era um paraiso, depois d’aquelle inferno porque passára.

Estevam, que o infortunio lhe offerecera por companheiro, serviu-lhe de amigo e de auxilio durante tres annos, em que gradualmente se lhe foram esvaecendo da lembrança os desgostos e as desillusões.

Se para Manoel podesse ainda haver felicidade, quasi que aquelles tres annos se poderiam dizer felizes.

Desde a tarde em que saltára em terra, entre receios e esperanças, nunca mais encontrára alma onde derramasse as amarguras, que trasbordavam da sua, nunca tivera ninguem que o comprehendesse, nem que avaliasse a sua dôr. O companheiro de grilheta, que lhe haviam jungido, era um scelerado, com tantas mortes e tantos crimes, que horrorisava ouvil-o, e ainda mais vêl-o rir das maguas de amor. Ás queixas de Manoel, respondia com imprecações, e se elle insistia, dava-lhe para que o deixasse com semelhantes pieguices.

Depois que o soltaram, nunca nem um só, dos que d’antes o tratavam, lhe mostrou boa feição, todos fugiam do grilheta, alcunha que lhe tinham posto e que lhe recordava a antiga condemnação.

Porque, clamem embora os philosophos, a rehabilitação moral para o criminoso pobre é impossivel, para o rico é inutil, ninguem lhe toma contas nem do passado nem do presente: o miseravel, porém, traz a corrente presa toda a vida, todos lh’a notam, todos lhe apontam para ella, e embora elle diga: vejam o que hoje sou; todos lhe tornam: vemos o que foste hontem.

Por isso aquelle companheiro, que o comprehendia, aquella solidão que o não accusava, aquelle mar e aquelle ceu, que lhe lembravam o perdão e o infinito, foram como um calmante para a sua dôr, como uma estação de descanço na sua jornada de padecer.

Estação, que durou pouco e que uma borrasca desfez, n’uma tarde, em que já recolhiam da pesca, seguindo pelo Tejo acima, a procurar abrigo n’alguma d’aquellas enseadas naturaes, que o rio abre, nas proximidades de Sacavem.

A Desgraça, apezar do vento á popa, seguia pouco, e arfava muito porque havia força de corrente, e a vasante ia com grande rapidez.

Principiava a escurecer e o vento a carregar com a noite, alguns trovões ouviam-se ao longe, e um temporal rijo se apparelhava para em pouco. O barco já não dava pelo leme, e a cada momento se enchia d’agua;—ir para diante era quasi impossivel, e á primeira onda mais rija, o casco já velho, podia abrir-se de popa á prôa. Posto que não conhecessem a praia, em risco de bater n’alguma pedra, tentaram atravessar, e encalhar quanto antes, depois de esforços sobrehumanos para luctar com o temporal; mas quando aproavam para terra uma rajada mais forte lhes levou a vella, e uma onda apanhando o bote pelo costado, metteu-lhe a borda debaixo d’agua, e virou-o logo.

Só os que têem vivido parte da sua vida no mar é que avaliam bem quanto custa ao marinheiro deixar as taboas, em que tem navegado, sejam ellas de bote catraio ou de navio d’alto bordo. Para Manoel e para Estevam o barco era a fortuna, a familia, o mundo inteiro, que as aguas lhes queriam roubar.

Agarrados a elle, mal se via já, trabalharam quanto poderam para vêr se o salvavam; mas, baldados esforços, o que conseguiam n’um quarto de hora, perdia-lh’o n’um segundo uma onda mais valente. E as forças a faltarem-lhes, e a respiração a difficultar-se-lhes, e os braços a renderem-se-lhes.

—Já de noite—não podendo mais, tiveram de o largar, e por um instincto de conservação, que nos não deixa nunca, cuidaram de se salvar nadando para terra. Não era cedo: acontecia-lhes o que succedera ao barco, e quando mais cresciam para a praia, animando-se e clamando um pelo outro, porque não se podiam vêr, mais os affastava a corrente, que seguia com uma velocidade de espantar.

Estevam não luctou por muito tempo. Mais velho e mais cançado, uma onda abafou-lhe o ultimo grito, e galgou-lhe por cima da cabeça, entrando-lhe pela bocca aberta convulsivamente n’um extremo resfolegar. Manoel com o desespero de afogado, reuniu todas as forças, e n’um extremo alento enterrou um braço no lodo da praia, para que a agua o não levasse, procurando já por instincto conservar a cabeça ao cimo d’agua para gritar, e tomar a respiração.

Succeder-lhe-ia em pouco o mesmo que a Estevam se da terra o não ouvissem; correram em seu soccorro com luzes e cabos, nadaram para onde se ouviam os gritos, e agarraram-no pelos cabellos, quando exhausto de forças ia mergulhar tambem.

—Quasi que não respirava.

A Providencia velava por elle, era a segunda vez que o salvava.

De manhã quando Manoel deu accordo de si, viu-se deitado n’uma esteira perto da chaminé, onde ardia um bom fogo, e ao pé d’elle um rapazito de dez a doze annos a vigiar lhe o somno: já não sentia a fadiga da vespera, e tinha recuperado as forças com o descanço; ia para se levantar e agradecer aos que o tinham salvado, quando a creança, pondo-lhe a mão sobre o hombro lhe disse:

—Não se levante, faz-lhe mal, a mãe não quer; e como elle teimasse, gritou:—mãe, accuda cá, o homem quer levantar-se, quer ir-se embora.

Á voz da creança abriu-se uma porta, e uma mulher, que teria trinta annos, quando muito, e que apesar de cançada pelo trabalho, ainda era formosa, appareceu no limiar.

Manoel apenas a entreviu, com o lusco-fusco da madrugada, que illuminava fracamente a casa, deu um grito, levantou-se cambaleando e enfiou pela porta meia aberta para a estrada.

Ella ao reconhecel-o tambem, encostou-se ao umbral da porta para não cair no chão.

Era Martha.