III

Entretanto o Corsario entrava a barra, de pannos largos em tarde de primavera, como cysne nadando em lago de jardim. A marinhagem debruçava-se nas amuradas, e com os olhos namorava a terra, a que a prendia o coração. O sol baixava, e a cidade estirada por esses montes fóra recortava-se sobre o fundo azul da serra de Monsanto, onde se reflectiam, já muito obliquos, os raios do poente.

Todos ou quasi todos têem visto Lisboa do mar e todos se tem enlevado em suas formosuras; mas nem todos sabem o que é vêr a terra onde se nasceu, onde se passou o melhor tempo da vida, onde estão amisades e amores, saudades e memorias, depois de mezes passados entre mar e ceu, a perderem-se e confundirem-se um no outro: e de vastos, que são, a apertarem-nos, a apertarem-nos a mais a mais o coração e a alma.

Para Manoel nem cidade, nem montes, nem rio, nem sol, nem ceu, nem coisa, que n’este mundo houvesse, valiam a pena d’um olhar; uma casinha sómente, uma mulher e um amor, eram tudo, em que pensava, o que unicamente lhe prendia a attenção.

Para que de mais longe podesse vêr, apenas passára as torres, subira a uma gavia e d’ali esbugalhava os olhos para terra, como quem por elles queria que a alma fosse em procura de Martha. Mal o navio deitara ferro, atirou-se a um escaler, e agarrado aos remos, porque a seu vêr ninguem os puchava com tanta ancia e tanto d’alma, voára, que não corrêra, até ao caes, onde d’um pulo saltou em terra.

Mas dados que foram os primeiros passos com os restos d’aquelle impeto que vinha de dentro, Manoel estacou e ficou pregado ao chão. Tremiam-lhe as pernas, esmorecia-lhe a vista, estonteava-lhe a cabeça, e o coração, esse, batia-lhe no peito, como azas de andorinha em horas de temporal.

Que seria de Martha? Morrera talvez: esquecel-o-ia, o que fôra peior; porque nem a poderia chorar. Iria encontral-a casada, perdida!... Instantes de incerteza como aquelles envelhecem tanto, como annos sem descanço. Fraquejou por um momento, cobrou animo depois, como o navio, que resiste a um furacão: e, quasi de corrida, deitou para o sitio em que a deixára n’outros tempos.

Tinha-se mudado, era já um mau agouro; as recordações do passado deviam prendel-a áquella casa, se a abandonára fôra porque esquecera tambem essas recordações.

Manoel sentia apertar-se-lhe o coração ao bater á porta e ao dar com a cara d’uma visinha antiga que occupava aquella habitação.

Perguntou por Martha e soube o que succedêra accrescentado ainda em cima pelas coscuvilhices de senhoras visinhas.

Disseram-lhe que os amores de Martha estavam mais adiantados do que o deviam ser para corresponderem ao seu bom porte d’outro tempo, e que se deixára a rua fôra porque todos ali a conheciam e todos murmuravam da sua vida; que na nova habitação podia estar mais á vontade, por isso a escolhêra; finalmente, e para encurtar razões, tantas coisas que fariam perder a paciencia, a quem a tivesse bem callejada, quanto mais a quem tinha sangue na guelra e o ciume a ferver-lhe lá por dentro.

Ouviu, como se estivera sonhando, parecia-lhe tudo impossivel. Martha, a sua Martha ser-lhe infiel, era para dar em doido. Tanto lh’o affirmaram, todavia, que o quiz experimentar, e, como o condemnado que vae para a forca, seguiu para a morada nova da sua antiga amante.

Era já noite, elle caminhava encostado ás paredes, e como quem receia cair. A dôr tambem embriaga, e o marinheiro, que por tantas vezes resistira ao vinho e á aguardente, fraquejára áquelle padecer; era outro homem, as palavras da velha tinham no mudado de todo.

Ao voltar da esquina da rua indicada, viu de longe n’uma janella um vulto, que o coração conheceu, antes que os olhos o podessem adivinhar. Era Martha, dizia-lhe o que sentia em si e os estremecimentos do seu amor.

Mas quando, esquecido de tudo, ia soltar um grito e correr para a que tanto amava, um outro vulto que parára debaixo da janella, depois de ter fallado para cima e de lhe terem respondido, entrou a porta que lhe franqueavam e que pouco depois se cerrava sobre elle.

Martha desapparecera da janella e em breve aquella casa ficára sepultada nas trevas, como o pobre Manoel no desalento e desconforto.

Já não tinha que duvidar, não era sonho, estava realmente accordado, os seus olhos não o enganavam; esperou entretanto, ora correndo como um perdido, ora parando como quem ia desfallecer, ora soltando palavras sem sentido, ora rugindo como uma fera, espumando como um possesso.

Perto da meia noite abriu se a janella, Martha appareceu de novo, o mesmo vulto saiu e encaminhou-se para onde estava Manoel, este como fóra de si, não vendo senão sangue partiu para elle, com a faca de marinheiro aberta: ouviram-se dois gritos, um corpo baquear no chão e uma voz de mulher, que pedia soccorro.