III
Tinha decorrido um anno depois do encontro de Rosa com Estevam, que ultimamente relatámos. Não haviam chegado noticias d’este ultimo e corria pela terra, que morrera das febres d’Africa. Rosa nunca mais proferira o nome do seu antigo apaixonado; mas quem lhe devassasse o intimo d’alma reconheceria, que a imagem querida não lhe saira nunca do pensamento.
Apparecia-lhe nas horas suaves de melancholia, quando espraiava a vista pelos descampados, descançando depois os olhos no filhinho de mez, que se lhe pendurava do seio.
Depois que desapparecera, Estevam convertera-se para a imaginação apaixonada de Rosa n’uma triste visão, que saudosamente lhe sorria d’essas regiões encantadas, que a phantasia povôa de arrobados devaneios.
Aquelle amor depurára-se pela ausencia, e a noiva entregando-se ao marido, cumprindo religiosamente os seus deveres de mãe e de esposa, persuadia-se que lhe seria licito, ao menos dispôr da sua alma.
E, ainda que o não quizesse, esta pertencia a Estevam. A posse que lhe déra, que elle conquistára á força de disvelos, de sollicitude e de amor, era inalienavel, ganhára-a com o sacrificio da sua vida, com o holocausto da sua existencia, nos altares da dedicação. E que importava a Januario, este innocente roubo! Não poderia encontrar mulher que mais cuidasse d’elle, que mais o cercasse de carinhos, que mais se sacrificasse ao seu bem estar.
Nenhuma seria capaz de dar melhor ordem á vida, de cuidar mais no arranjo da casa, de providenciar mais para que coisa alguma faltasse a seu marido. Delicadezas de sentimento, não eram para Januario; nem as comprehendia, nem se dava de semelhante coisa. O mundo, para elle, era uma serie de commodos, e o conforto da casa e da familia a felicidade suprema.
Não pensára nunca em fallar ao coração de sua mulher. E andára acertadamente não procurando desferir instrumento, que atormentado por aquellas mãos rudes apenas poderia soltar gemidos; mas harmonias nunca. Onde acabava a materialidade finalisava o mundo. Idealismos, se alguem lhe fallára em tal coisa, poderia contar com descompostura certa, em paga de semelhante atrevimento.
Tinha com que viver e vivia do que tinha.
O grangeio das fazendas, o amanho das terras, os cuidados da agricultura, preoccupavam-lhe o dia. Á noite esperava-o uma boa ceia, uma cama de pau santo lusidia com os lençóes alvos de neve a estenderem-lhe os braços, a esposa a sorrir-lhe no limiar, sorriso encoberto por um permanente veu de tristeza, mas isso não percebia elle, e o filho a dormir tranquillo no berço com o bracinho curvado sob a cabeça, a boquinha rosada mussitando sonhos de convivencia com os anjos, seus irmãos.
E o aceio a afformosear tudo, e a tranquillidade a alegrar o interior da casa, e a arca recheada ao canto, a prometter dilatados dias de descanço e de fartura.
E até para lhe alimentar as rabujices da idade, (Januario já rastejava pelos cincoenta), o birrento do sogro, que sempre tinha que lhe tornar, e que contradizer em todos os trabalhos, que emprehendia seu genro.
Que mais quereria pois.
Rosa costumára-se tambem a esta vida de insensibilidade e sacrificio. A ideia de que fizera a felicidade de seu pae, e de seu esposo, consolára-a da grande perda, que sentira e vivia transfundindo em seu filho todas as delicadezas de sentimento e de amor, de que precisava para poder viver.
Transformação, que facilmente comprehendem os que sentirem devéras, o amor de Estevam depurára-se-lhe na alma e fizera-se amor de mãe. Quantas vezes lhe parecia emballando seu filho, que estreitava nos braços a Estevam!... Então conchegava a creança mais a si; apertava-a tremulamente: e duas lagrimas de saudade, ou talvez de amor, deslisavam-lhe pelas faces.
O filhinho, disperto com aquelle enlace, abria os olhos, e parecia fital-os na mãe, como traduzindo uma admirada reprehensão: ao menos assim o julgava ella, que se sentia desfallecer e se accusava então d’aquella innocente infidelidade aos seus deveres de esposa. Beijava ferverosamente o seu pequeno censor, como para o abrandar, e com aquella imagem afugentar a outra que tinha presente sempre.
N’estes rapidos e quasi inapreciaveis movimentos se denunciava apenas a intensidade d’aquella violenta e concentrada paixão. Como nas pavorosas tormentas submarinas a placida superficie das aguas só n’um ligeiro tremer poderia denotar a força das horrendas luctas, que se travavam nas remotas profundezas.
Uma tarde ficára absorta no seu scismar contemplativo toda embevecida n’aquellas divagações, que tantas vezes a alheavam do mundo em que vivia. Os olhos parados e fitos pareciam procurar nos affastados horisontes aquelle indefinido ponto em que os espaços se perdem de vista e que a phantasia enriquece com suas extranhas creações. Dir-se-ia a estatua do desalento poisada sobre a pedra da sepultura a remirar-se nos ceus, na sua almejada patria.
A imagem de Estevam adejára-lhe na mente, e enlevada n’aquella paixão, que a não deixava, deixou approximar-se a noite sem perceber que as trévas baixavam encobrindo os campos.
Já a lua desenhava com os seus pallidos clarões figuras estravagantes, que pareciam dançar por entre o arvoredo á feição do vento, e Rosa ainda estava no mesmo logar e na mesma posição.
De repente soltou um grito e estendeu diante de si convulsivamente os braços, como se pretendesse affastar um phantasma atterrador. A imagem, que evocára parecêra tomar corpo, e n’um vulto que se escondia por entre as arvores cuidou reconhecer Estevam.
Effectivamente apenas soltára aquelle grito o vulto correu para ella, era Estevam.
—Estevam!
—Rosa!
—Tu aqui?!
—Se eu não podia já viver longe de ti! Se morria se te não visse?
—E agora?
—Agora? Vi-te. Disse-te uma vez ainda: amo-te, e posso morrer!
—Sabes, Estevam, que sou mulher de Januario, sabes, que tenho um filho de meu marido?
—Para que m’o lembraste? Pensas que não m’o tinha dito já o coração?
—Para que voltaste, então, Estevam?
—Não t’o disse já? Para te vêr.
—Ai! quanto me custa que voltasses!
—Bem sei. Deveria ter morrido, não é assim? um homem como eu, que ninguem estima, que não tem affeições n’este mundo, que vive, como o espargo no monte, que embora procure lançar raizes na terra lh’as arrancam como o escalracho, devia morrer. Não serve de nada, não deve viver, tens razão.
—E quem te diz que assim seja? Quem te diz que não ha quem te ame, quem ainda se dedique por ti, quem te não esqueça nunca. Ah! Estevam, os homens não comprehendem o coração da mulher!
—Não comprehendem, não. A mulher, santa creatura, na verdade! A mulher, que mente ao marido, mente, ao amante, a mulher que se enlaça como a hera no coração do homem, cravando-lhe cada vez mais fundos os espinhos, roubando-lhe cada vez mais a vida. Não te comprehendi, Rosa, devia agradecer-te, porque pertences a outro, porque hontem dormiste ao lado d’outro, porque d’aqui a pouco vaes deitar-te no seu leito. Devia agradecer-te não é assim? Dize, anda, bem vês, que te vou comprehendendo.
—Que mal te fiz para me tratares com esse desdem?
—Que mal me fizeste? Nenhum! Eu é que fui um louco, eu é que errei, quando prendi a minha vida á tua, quando te entreguei a minha sorte, quando em ti puz a minha esperança. Eu é que fiz mal, quando me deitei a amar esse amor, que tantas vezes me juraste, quando depositei fé nas tuas palavras, que pareciam tão sinceras, quando pensei que havias de ser minha, porque assim m’o juráras mil vezes, eu é que mereço castigo, porque confiei na sinceridade do teu coração, porque loucamente credulo não me persuadi nunca de que fingisses tão bem, que houvesse em ti dissimulação tão grande.
—Se soubesses quanto tenho padecido, não me fallavas de certo assim!
—E eu! Julgas porventura, que te sumiste um momento sequer da minha ideia? Pensas que te não vi sempre diante de mim, nas tribulações da vida, nas ondas do mar, nos sertões d’Africa, nas extensões do céo... Sempre, sempre! Pensas que não me lembrava sempre, que eras d’outro, tu que só poderias ser minha! Pensas, que não me deram por doido; que me não arrojei ao mar, por mais d’uma vez, para lá ficar para sempre?... Se não fosse terem-me salvo, já hoje te não inquietava!... Pensas...
—Não continues! Estamos a aggravar uma ferida que não póde sarar mais! Antes não nos vissemos!
—E assim me despedes! Bem m’o dizia o coração! Falsa!...
Rosa levantou a cabeça cheia de indignação; até esse momento, parecia que escutava a sua sentença de morte: quando porém Estevam assim a accusou, quando lhe pareceu, que o seu enorme sacrificio não era comprehendido, que o seu amor era tão mal julgado, a voz da consciencia, que a defendia dos aggravos de seu amante, bradou-lhe lá dentro.
—Ergue te!...
Elevou os olhos para o céo, como para se inspirar n’uma resolução suprema, affastou da fronte os cabellos, que a offuscavam, levantou-se com um movimento de nobre magestade, travou da mão de Estevam, que a olhava surpreso, e exclamando apenas:—Vem!—levou-o comsigo para dentro de casa.
Com o sorriso a adejar-lhe sobre a physionomia, estava o filhinho de Januario deitado no berço dormindo, os braços torneados descançavam fóra da roupa abertos e como estendendo-se para a mãe. No fundo da alcova a um canto, que a luz d’uma lamparina illuminava a custo, adivinhava se o esposo que dormia: o ressonar compassado e sonoro, n’outro quarto proximo, deixava perceber, que Feliciano depois de ter largamente discutido com seu genro a conveniencia de uma nova semeadura, descançára por fim cançado de rabujar. De resto tudo estava em socego.
Estevam, sem comprehender para que, deixou-se arrastar até junto do berço: ahi, Rosa correndo a vista pela casa fitou por ultimo o olhar no seu companheiro.
—Ámanhã esta creança acordará, e aquelles dois velhos levantar-se-hão sorrindo para mim como sempre, cheios de confiança, e de... amisade. Como até hoje julgar-me-hão filha honrada, mãe honesta... esposa fiel!... Sacrifico-te, aqui, junto d’este berço... e d’aquelle leito, todo o meu passado, todo o meu futuro, tudo!... Aqui me tens, Estevam, vê agora se te amo. Sou tua!...
E resignada, nobre, altiva, caminhou para elle, que recuára, como os martyres deveriam caminhar para a fogueira... serena, tranquilla, orgulhosa pelo seu sacrificio, illuminada pela divina aureola do amor.
Estevam parecia fulminado.
Foi mysterio o que se passou na sua alma; entretanto comprehendeu tudo, e soube elevar-se até ás sublimidades d’aquella mulher.
Avaliou qual era a grandeza d’um semelhante amor, e sentiu-se digno d’elle. Leu de relance todas as paginas dolorosas d’aquella epopêa intima, e elevou no santuario de seu coração, purificado de quaesquer resquicios da natureza terrestre e material, um cantico divino de admiração, caiu de joelhos aos pés de Rosa e desatou a soluçar.
As lagrimas queimavam-lhe as faces; mas refrigeravam-lhe a alma: quando se levantou era outro.
Curvou se sobre o berço infantil, depositou um beijo no rosto do innocente, dirigiu-se para Rosa, que ainda o esperava immovel, mal lhe approximou da testa os beiços e desviando os olhos do leito, onde Januario dormia, saiu dizendo á sua antiga amante:
—Adeus irmã!
Foi tudo obra d’um momento.
Rosa caiu sobre o berço de seu filho cobrindo-o de beijos; Estevam já ía longe.
A creança soltára um vagido lastimoso, acordára ao sentir-se innundar pelas lagrimas de sua mãe, e estendendo para ella os braços, sorrira.
Januario não déra signal de si.