II
Pensem os que têem amado do coração, no que padecera a pobre da rapariga, ouvindo seu pae. Desappareceu de repente de ante si aquelle encantado futuro, em que se enlevára. N’um momento perdeu a esperança, a alegria, a felicidade.
Quando o amor verdadeiro nos domina, só ha em nós uma idéa, um pensamento fixo, quasi uma monomania: a posse da que se ama, a existencia a dois, participando ambos das mesmas dôres, das mesmas alegrias, dos mesmos perigos, dos mesmos triumphos, das mesmas glorias. Reparte-se o coração com aquella, a quem tanto se quer, e de tal maneira se alarga e augmenta a porção que lhe entregâmos, que por fim nos apercebemos que já de todo nos não pertence. E bem longe de nos pezar, enleva-nos, nos mais intimos transportes do sentimento, essa doce expoliação do nosso ser.
Se nós sômos então amor e sómente amor!
O universo inteiro resume-se n’uma só creatura, e tão grande nos parece esta, que o julgâmos ainda pequeno para a albergar. Todos os affectos resumem-se n’um só, de todos os fios que nos prendem ao mundo, traçamos uma cadeia só, no remate da qual nos penduramos com a energia, com a tenacidade do affogado.
No outro extremo da cadeia acaba o nosso mundo. Se um pavoroso cataclismo precipitasse o globo; se as espheras se entrechocassem e confundissem; se a creação voltasse ao cahos; se as trévas engulissem a luz; se n’um rodopiar incessante o universo, se contorcesse nos extremos paroxismos: ficasse a mulher, que amavamos, comnosco, e nem nos aperceberiamos da mudança.
A luz, a ordem, a harmonia, o movimento dos ceus, o revolver dos astros, o tornear da terra, o não acabar do espaço, parecem-nos puerilidades insignificantes, comparados com o infinito do nosso amor. Só ha uma occasião, só ha uma phase da existencia, em que o homem se exalta, se eleva, se engrandece, se eguala ao Creador. É quando ama.
Satanaz se fôra o demonio do amor e não o demonio do orgulho resistiria ao Omnipotente.
Quando se assenhoreia de nós, o amor espalha por tudo quanto nos cerca, fulgores que nem a centelha do raio póde offuscar, harmonias que nem os córos celestiaes pódem fazer esquecer, encantos, que não os tem assim a bemaventurança.
É que a mulher reside para nós em tudo: tanto na florinha, que mal se descortina entre a relva dos prados, como na montanha arrojada, que parece lacerar os seios do infinito: se queremos colher as flôres para com ellas lhe juncarmos o pizo, queremos transformar-lhe a montanha em pedestal, para sobre elle a levantarmos.
Da nuvem far-lhe-hiamos um véu, das estrellas um diadema, dos ceus sem limites um azulado sendal.
E depois descontentes ainda, pedimos com religioso fervor ao auctor dos mundos, que reforme a sua obra, que dilate mais a creação, que a exalte mais; porque não nos chega, quanto existe para a mulher por quem vivemos.
E se é assim o homem, o que não será a mulher, toda sentimento, toda amor, toda affecto e... senão toda egoismo, toda vaidade e toda presumpção.
A mulher, que, quando ama devéras, arranca o homem, das trévas descobrindo-lhe novos lumes de paixão, feições novas de sentir, delicadezas desconhecidas, mimos e enlevos, que não descortina nunca a nossa natural brutalidade. A mulher, que ou ama, como cantam os cysnes, amando e morrendo desde logo pelo amor, ou nutre em si o amor, como a arvore alimenta a parasita, vivendo só para a nutrir e definhando-se em quanto ella medra á custa de sacrificios, de abnegação, e de soffrimentos inapreciaveis; ou quando mesmo, presumida em excesso, e vaidosa sem termos, se ama a si, amando o homem, que se lhe rendeu, e bem querendo a esse rendimento, a essa homenagem, a esse culto, porque lhe desvanece a vaidade, porque é uma confissão eloquente das suas perfeições, porque finalmente é seu, e veio de si, para de novo voltar para si, como as plantas amam a agua, que elevam da terra, entregam aos ares, para que estes lh’a restituam depois em amorosas lagrimas.
Rosa amava e amava sincera, piedosa, apaixonadamente. Não havia confeição alguma n’aquelle sentimento, que nascera do coração, proviera da alma, e que se fortalecera aquecido pelos éstos da natureza. Amára creança ainda, amára com força muito maior, quando a puberdade, lhe transformára o ser transfundindo-lhe nas arterias faúlhas de desejo.
Quando a vida nova dos dezeseis annos lhe abalou a organisação infantil, quando o coração se tornou turgido de sangue, rico de vida e farto de estimulos creadores, quando aquella flôr do campo, chegou ao periodo, em que as petalas se tingem de mais brilhantes côres para deslumbrarem e cahirem breve, o amor de Estevam, que já a possuia transformou-se tambem, e dominou a mulher, como dominára a creança.
Foi para elle, que, córando de pudor, elevou os seus pensamentos de mais arrojado affecto, quando lhe esvoaçou deante da imaginação deslumbrada essa nova perspectiva, que lhe apresentava o mundo, ao conhecer-se outra pela inspiração divina, que n’essa quadra da vida, patenteia á mulher os desconhecidos horisontes da procreação e da maternidade.
O amor de creança unira-se ao amor de Estevam; e d’este delicado enlace nascera o amor—mulher. Não lhe assomava o desejo á mente, sem que esse desejo se não transformasse para ella na imagem varonil e fascinante do seu apaixonado. A sua nova existencia era de Estevam; era por Estevam: e o homem, que tal consegue da mulher, póde chamar-lhe sua, sem que o considerem presumido.
Entretanto as palavras de Feliciano operaram em Rosa uma revolução cruel. Não se persuadira nunca, que o amor de filha podesse entrar em lucta com o amor de mulher: e nem por sombras se preparára para semelhante combate. Se o coração fallasse unicamente, se não se tratasse senão de resistir á colera e maus tratamentos de seu pae, a escolha não seria duvidosa. Matasse-a embora, que morreria contente, se até aos ultimos momentos a deixassem amar Estevam; mas a maldição paterna troava-lhe ainda aos ouvidos, e todas as fibras d’aquella organisação delicada extremeciam, só ao lembrar-se de que elle lhe prohibira o nome de filha. A religião, a crença, a educação, tudo lhe fallava em favor de seu pae; em favor de Estevam só o muito, que o amava, mas não era o bastante. Amaldiçoada, via os tormentos do inferno, o penar de sua alma, a espada de fogo do archanjo exterminador, a condemnação eterna, e a memoria da sua infancia, e os santos de sua devoção a sumirem-se-lhe para sempre.
Não enlouqueceu, porque não teve forças para tanto; não morreu, porque a intensidade propria do soffrimento lhe deu forças para resistir, phenomeno bem vulgar nas organisações nervosas; não se matou, porque lhe affastavam tal pensamento de si, as idéas com que fôra creada: soffreu muito, por fim, pelo embotamento do soffrer, pareceu resignar-se.
Triste resignação, em que amortalhára os mais puros affectos, o mais risonho futuro, a mais affagada esperança!
A idéa de que se sacrificava á vontade de seu pae se não lhe deu consolação, deu lhe forças; e o persuadir-se que cumpria com o seu dever animou-a a persistir: se não ganhou o santo enthusiasmo, com que os martyres se encaminhavam para o supplicio, alcançou ao menos aquella frieza apathica, da mais entranhada abnegação.
Deixou de se pertencer. Fez-se cadaver, transformou-se em instrumento da vontade de seu pae, instrumento inerte, impassivel, sem vida, sem pensamento proprio. Não tivera animo para se matar; mas definhava-se lentamente n’aquelle doloroso suicidio moral.
Alguns dias depois da scena que se passára entre o pae e a filha, Estevam recolhia do trabalho cantando, e todo enlevado na sua Rosa, que julgava não vêr, havia tanto tempo. A voz melodiosa corria nas voltas do caminho e repetia-se mais affinada pelos echos de um monte proximo.
Ouvira-o Rosa, que abatida, e alheia ao mundo estava mais cahida que sentada n’uma cadeira, com os olhos pregados n’uma imagem de Senhora das Dores, que tinha perto da cama; palpitou-lhe de novo o coração no peito; aquella voz abalou-a como o choque da pilha, e sem se lembrar do que fazia, cedendo ao impulso, que tantas vezes a movera, correu à porta, ao mesmo tempo em que Estevam se aproximava do limiar.
Ao vêl-o porém fugiram-lhe de todo as forças e caiu-lhe desmaiada nos braços. Ao longe parecera-lhe notar na sombra o vulto ameaçador de seu pae:
—Rosa da minha vida, que tens tu, que nunca te vi assim? exclamára Estevam recebendo-a nos braços, torna a ti, sou eu, é o teu Estevam!
Perto d’ali corria a agua de um boeiro do muro; levantou-a em seus braços, poisou-a n’um marco, proximo do jorro, e ás mãos cheias lhe espargiu o rosto; depois ao vêl-a tornar-se á vida, curvou-se, aproximou-se mais da amante como para lhe transfundir a vida, que lhe sobrava, e tão perto lhe afflorou os labios, que dir-se-ia um rapido beijo unira por instantes as duas apaixonadas boccas. O osculo chamou á vida e á realidade a desgraçada Rosa, que desmaiara enlevada nos gostosos sonhos de uma felicidade, que lhe era defeza.
—Ai, Estevam, estâmos perdidos, exclamou a misera acordando de todo, quasi nos braços do amante.
—Perdidos, Rosa!... Que dizes!
—Meu pae... quer que eu case com o Januario.
—E tu!
—Eu, Estevam!... meu pae amaldiçoa-me.
Foi então, que elle ia desmaiando tambem. Cambaleou, encostou-se á parede para não vergar, e foi-lhe preciso grande força de vontade para resistir.
Resistiu porém, e como se lhe arrancassem esta exclamação do fundo da alma:
—Pensei, que me tinhas mais amor!...
—Deus te perdoe, Estevam, por duvidares de mim.
—Duvidar! queres talvez que te agradeça, que te bemdiga, porque ás primeiras palavras de teu pae, me atiras a monte, como herva ruim, ou foice partida. Eu é que tenho a culpa, não é assim?
Dize, anda, eu é que tenho a culpa: e tenho, porque te queria mais do que á propria vida, porque te queria, como homem nenhum poderia querer a uma mulher. Anda, não duvides, accusa-me, Rosa, que bem o mereço. E entretanto Deus sabe, que thesouros de amor, se guardavam cá dentro, Deus sabe quanto eu te estremecia!... Pensei que não houvesse forças no mundo que nos separassem, pensei que nem Deus mesmo tivesse poder para tanto! Enganei-me. Foi bem feito.—Se tu és mulher!... E não arrebentar eu, quando me assomou este amor!—Não ter havido um raio que me partisse!... Casa, casa e sê feliz!
Depois, entre soluços, soltou um adeus, e deitou a correr como doido, fugindo à tentação, que lhe affogueava o pensamento.
Rosa ficou prostrada sobre o marco, até que a agua innundando lhe o rosto, a reanimou por um pouco; seguiu, mais por instincto do que por vontade, para casa e deitou-se, já com os primeiros symptomas de uma febre cerebral agudissima.
Feliciano não soube nunca a rasão da doença de sua filha, Januario acompanhou o compadre n’algumas noites perdidas, e Rosa costumou-se a vêl-o e a agradecer-lhe o cuidado e a affeição, que lhe mostrára. Affeição rude, brutal mesmo; mas por isso tanto mais para apreciar uma ou outra delicadeza, que surdia como enfesadinho rebento de tronco cascudo e rugoso.
Convalescente ainda, apparecera Rosa no bailarico, e ali encontrára Estevam, que durante a doença não se affastou nunca das proximidades da casa, empregando astucias incriveis, reccorrendo a subtilezas quasi inacreditaveis, para a vêr sem que o visse, ou para se informar, ao menos, do estado em que se achava.
Os nossos leitores já assistiram ao dialogo que travaram. No dia seguinte Estevam, partia a bordo da—Joaquina Primeira—para a Costa d’Africa, e um mez depois Rosa casava com Januario, quasi sem perceber, que mudava d’estado.