I
Adeus, Rosa! Adeus! E adeus para sempre!
—Ai! para sempre, meu Estevam?
—Que queres que eu faça, dize?
—Sei-o eu, por ventura? Mas partir... e o mar?... É tão bravo!
—Não só no mar ha bravezas, na terra corre-se risco de maior: se eu ficasse!...
—O que fazias?
—Ou mettia uma navalha no Januario ou dava um tiro n’estes miolos.
—Jesus, homem, tentação do demonio é essa, cruzes! Parte, parte, meu Estevam, mas não te esqueças de mim.
—E tu?
—Eu! Sempre.
—Adeus!
—Não te verei ainda ámanhã?!... Antes do embarque?...
—Não, o que ha de ser seja, quanto mais estiver com demoras, mais me faltará o animo. Adeus Rosa, sê feliz.
—Adeus, Estevam, volta breve.
—Voltar para que? Para te vêr entregue a outrem, que virás a amar, se é que o não amas agora?... Para presencear essa vida de felicidade, que é a minha desgraça, o meu tormento; para comprehender que me illudiste, quando me juraste um amor eterno! Amores eternos de mulher, como as flôres d’este nome, que duram mezes, e que os primeiros sopros do inverno derrubam!...
—Deus te perdôe a injustiça que me fazes!
—Para que casas?
—E a maldição de meu pae?... Meu pae amaldiçoava me Estevam.
—E o nosso amor!
—Fica-me no coração, ha de me matar, descança.
—Antes tu morresses...
—Oh! Quem dera!
—Não fallemos mais em semelhante coisa. Para que has de dessimular ainda?
—Se eu pudesse rasgar este peito, que me opprime, se pudesse arrancar-lhe este coração que é teu, e o ha de ser sempre, se te podesse mostrar como elle padece, não duvidarias de mim.
—Queres que te agradeça talvez, queres que te bemdiga não é assim, queres que estime saber, que pertences a outro, não é verdade?
—Não, Estevam, quero que tenhas dó de mim, e que me esqueças!
—Esquecer-te, eu! E a minha existencia de até hoje, que foi sempre tua, e a minha fé no futuro, que estava em ti, e a minha vida toda, que te pertence; queres que esqueça tudo?... Se não fôra minha mãe!...
—Tua mãe!
—Sim, minha mãe, pobre e santa velhinha, que não tem no mundo mais do que eu, que lhe queira e que a ampare. Minha mãe, que eu mataria se morresse; minha mãe, a unica que me tem tido amor na terra!...
—A unica! Talvez...
—Olha, Rosa, escusas de fingir, para quê? Não vale a pena. Ámanhã por estas horas já estarei d’aqui bem longe. Só o que te peço, como um ultimo favor, como uma esmola, é que te lembres de minha mãe, que lhe enxugues as lagrimas, que chores com ella,—não te ha de custar muito, sabes tão bem illudir!—e que depois uma e outra vez te lembres de que te amei... e muito.
—Pela alma da minha te juro, ha de ser minha mãe.
—Obrigado, Rosa. Adeus!
—Não me queiras mal.
—Não poderia, ainda que quizesse.
—Não queiras, Estevam, não, que t’o não mereço, perdôa-me e... não te esqueças de mim!... Meu pae, que nos vê, foge Estevam, elle encaminha-se para este lado.
—Adeus!
Passava-se este dialogo no pateo da quinta de Valle do Freixo no dia de S. João, ao amanhecer.
Houvera um bailarico de primor, a que tinham concorrido os rapazes e as raparigas das visinhanças e com elles os paes, as mães e os tios.
Era um poder de gente, que passára a noite a cantar, a dançar, a pular, a rir, a comer, a beber, a respirar alegria: a provar que os cuidados lhes não pesavam na consciencia, nem o mau humor no espirito.
Fôra um dos mais brilhantes bailaricos de que havia memoria.
O dono da quinta pozera uma grande meda de vides á disposição da fogueira, e uma pipa de vinho ás ordens dos concorrentes; mandára cozer varias amassaduras de pão, frigir um por ahi além de peixe; transplantára dois alfobres de alface para quatro alguidares, juntando-lhes tambem quatro cestos vindimos com a fructa do tempo, e sobre tudo a boa vontade e o contentamento a resplandecerem-lhe na physionomia, convidando todos a divertirem se.
Infelizmente, porém, nem todos podiam estar alegres. N’aquella multidão buliçosa duas creaturas havia tão tristes, tão attribuladas, que cortava o coração olhar para ellas: parecia que tinham vindo assistir, não a uma festa, mas a um enterro.
E na verdade, ali enterravam vinte annos de esperança e de amor: n’aquella noite se viam em despedida, e só Deus poderia saber se essa despedida seria eterna.
Rosa e Estevam tinham vivido juntos desde creanças e tinham-se acostumado a amar, antes, ainda antes de saberem o que era amor. Conheceram o que era quando começaram a padecer; porque é no soffrimento que elle desabrocha, como as rosas de mais apreço nos seus berços de espinhos.
Juntos balbuciaram as primeiras palavras, juntos aprenderam a lêr, juntos iam á escóla, juntos voltavam ás tardes, e juntos passavam as noites brincando no campo e discorrendo alegremente, como duas avesinhas chilrando proximas na mesma arvore.
E encontra-se o que quer que seja de gorgear de passaros no palrar infantil, que borboleteia de assumpto em assumpto, soltando de quando em quando notas agudas de admiração, ou modulando trilos narrativos de tanta viveza e simplicidade.
Disseram em commum as primeiras orações, e muitas vezes os surprehendia o passeante enternecido, de joelhos e mãosinhas erguidas para o céo, repetindo em côro:—«Perdoae-nos, Senhor, as nossas dividas...» dividas, de um ninho surprehendido entre as giestas, ou de uma innocente mentira a denunciar-se logo pelo rubor da candura e pelo borbulhar de duas lagrimas de arrependimento, se por ventura os interrogavam.
E que lindo grupo, quando estudavam juntos a lição do mestre, ou a reza que a mãe lhes ensinára, sentadinhos no limiar da porta, um repetindo entre incertezas e duvidas; outro escutando com toda a attenção e com ares concentrados, como quem comprehendia a gravidade da sua posição de professor: mas ambos a reverem-se um no outro e a casarem torrentes de luz, que lhes chispavam d’aquelles olhos brilhantes, vivos, buliçosos, humidos de alegria e languidos de sentimento.
Com o decorrer dos annos não houve remedio senão ir gradualmente rareando aquelles doces encontros. Demais, tendo morrido a mãe de Rosa, esta ficára governando a casa e em companhia de seu pae, que não era para graças. Continuaram a vêr-se, a fallar-se; mas ás furtadellas, e quasi que ás escondidas.
Rosa crescera, e ao desenvolver-se tinha ganho cada vez maiores perfeições. Fizera-se mulher, mas mulher tão formosa, tão delicadamente formosa, que confortava a alma admiral-a.
Não parecia do campo, nem mesmo da terra.
Devem ser assim aquellas phantasticas visões, que, aljofradas por milhares de perolas do orvalho da manhã, se esboçam na atmosphera ao romper do sol por entre as nevoas da aurora.
Delicada flôr, que a mais terna aragem encurvava, parecia quebrar-se no andar. Resvallava pelo chão, deixando apenas uma suave fragancia a denunciar a sua rapida passagem, e uma indefinida sensação na mente dos que a viam.
Por aquellas visinhanças não havia noticia de creança tão mimosa.
Era branca; mas branca como o alabastro e como os lyrios, e na suave pallidez da physionomia lia-se o sentimento d’aquella organisação franzina e nervosa. Os cabellos negros como o azeviche, assetinados e brilhantes, poder-lhe hiam servir de manto, quando os desatasse ondeando pelas costas abaixo e dobrando ainda no chão; os olhos como dois diamantes negros, sempre velados por uma doce melancholia rasgavam-se-lhe no meio de duas palpebras escurecidas pelas sobrancelhas finamente desenhadas, e orladas d’umas pestanas compridas e densas, que davam ao olhar, já de si bem triste, mais tristeza ainda amortecendo-lhe o brilho, quando raramente o illuminava.
Quem attentasse n’aquelle rosto sempre sentido, sempre scismando como que n’outro mundo, sempre voltado para o céo, sentiria, se de todo não tivesse a alma cerrada á compaixão, uma lagrima de sincera piedade cair dos olhos extaticos. Rosa era uma creatura que lembrava aquelles mysterios, os enlaces dos anjos com as formosas filhas dos homens, nas primeiras eras do mundo.
Estevam tambem se desenvolvera, e se formára um guapo e gentil rapaz.
Nas bem proporcionadas fórmas lia-se-lhes a força; no rosto franco e expansivo, a lealdade e o valor. Não havia idéa de que nunca em sua vida tivesse abusado da força: mas não constava tambem que tivesse recuado nunca. Não procurava o perigo, mas não se temia d’elle; era dotado de verdadeira coragem, fria, reflexiva, inabalavel.
Estes dotes, porém, não eram de tal natureza, que podessem captivar o pae de Rosa, homem de lettras gordas, e mais para o dinheiro do que para o sentimento.
Tinha casado com a senhora Placida, depois de lhe namorar os pintos e não a physionomia.
Vivera feliz a seu modo, porque tivera os commodos da vida, e não comprehendia felicidade possivel, sem dinheiro ao canto do bahú, pão na arca, vinho na adega e azeite na talha. Todo esse palavreado de amor e paixão era engrimanço, que espremido não deitava nada; nem julgava que boas razões pagassem dividas ou enchessem barriga.
Um seu visinho e compadre, homem dos seus quarenta puxados, casca grossa como elle, pé de boi, mas abastado, e com fama de entender do negocio e da lavoira, tinha conversado com o sr. Feliciano Gomes, assim se chamava o pae de Rosa, a respeito d’esta, affirmando-lhe que se não dava de tomar estado se encontrasse mulher tão perfeita como a filha. Feliciano, que ha muito andava com o olho n’uma courella do compadre Januario, e que por mais d’uma vez futurára comprar-lh’a, alegrou-se com a idéa de arredondar a sua propriedade, á custa de tão pouco.
Tratou pois de desvanecer algumas duvidas, que ainda esvoaçavam no espirito modesto do sr. Januario, convencendo-o de que lhe sobravam perfeições para captivar o coração mais rebelde, que por ventura palpitasse em peito de mulher.
—Mas, eu sei lá, homem?... Já não estou muito rapaz...
—Melhor é isso, não tem edade para loucuras.
—E se a rapariga me não quizer?
—Era o que faltava, compadre, deitava-lhe os braços abaixo e nunca mais lhe punha a vista em cima!
—N’isso é que eu não consentia!... Pobre Rosita!
—Então quem ha de mandar em minha filha se não fôr eu? Quem póde saber o que lhe convém?
—Olhe, compadre, se a pequena tiver alguma inclinação...
—Sem minha licença? Não faltava mais que vêr! Ensinava-a por uma vez.
—Veja lá o que faz, homem, não quero que a rapariga padeça por minha causa!
—Qual padecer, nem meio padecer. Estou vendo-a já saltando de contente, quando lhe disser: não sabes, o visinho Januario quer casar comtigo. Foste feliz...
—Isso ha de ser. Não lhe hei de faltar com coisa nenhuma.
—Pois para as mulheres é o que é preciso: dinheiro para gastarem nos trapos, e andam satisfeitas.
—Parece-lhe por conseguinte que serei seu genro?
—Se me parece! Já o é desde hoje, toque lá e deixe tudo por minha conta.
—Lembre-se de que eu não quero ir contra a vontade d’ella...
—Qual vontade, nem meia vontade, compádre Januario; o dito dito, e até ámanhã.
Esta conversação foi o começo das tristes aventuras dos dois amantes, que apresentei aos meus leitores, e cuja historia, n’uma noite bem invernosa, ouvi ao tio Joaquim.
Emquanto Januario ficava scismando na sua vida futura e saboreando d’ante-mão a posse da rapariga mais guapa d’aquelles sitios, Feliciano recolhia rindo-se e esfregando as mãos, o que n’elle denotava o maior signal de contentamento.
Acabava de fazer um excellente negocio. Trocára a filha por uma courella de dez alqueires de semeadura: isto é, uma mulher que tinha que sustentar por uma terra que dava de comer.
E o olival das queimadas, e a quinta da cortiça, e o casal do petisco, e as terras do Penetra, e a horta da allamôa, e tantos outros bens e haveres, que constituiam a fortuna de Januario!
Claro estava que tinha tido uma tarde feliz.
Rosa ficou surprehendida ao vêr entrar seu pae em casa risonho e cantarolando, coisa de que não havia memoria; e sem lhe passar pela cabeça qual era o motivo de semelhante transformação, sentiu-se alegre tambem.
Havia muitos annos que seu pae lhe não mostrava physionomia tão prasenteira, nem lhe fallava com tanto agrado.
De repente deu-lhe uma pancada o coração, quando Feliciano, voltando-se para ella, lhe perguntou com certos modos em que transpareciam alegria e finura mal contidas:
—Que te parece o compadre Januario?
—Que me ha de parecer, meu pae, dizem que é tão boa pessoa!...
—Sim, sim, bem se sabe isso, boa pessoa, assim como quem diz pedaço d’asno; não é pelas bondades, que eu te pergunto.
—Então meu pae?...
—Não olhaste para elle nunca com os teus olhos... de vêr?
—Eu não senhor.
—Pois é preciso que olhes, entendes-me? disse-lhe Feliciano derrubando as sobrancelhas e deixando cair a viseira: talvez te agradem mais esses alfenins lambidos, que por ahi se andam a desfazer? Pois estás muito enganada comigo, percebes?...
E ao passo que ia fallando engrossava a voz e fazia cara de arremetter. Rosa tremia como varas verdes, e, com os olhos arrasados de lagrimas, encommendava se mentalmente a todos os santos do seu calendario.
Mal teve forças para balbuciar um:—sim senhor, meu pae,—e, cambaleando, foi fechar-se no seu quarto, deitando-se em cima da cama a soluçar convulsa, como quem se despedia d’este mundo.
No dia seguinte, ao almoço, parecia que voltava do cemiterio, Feliciano, porém, que se não apercebia facilmente d’estas mudanças, ou que, se as conhecia, fingia bem o contrario, repetiu o interrompido assalto.
—É preciso que vás pensando no casamento, estás uma mulher, ouviste?
Bem quizera a pobre da rapariga não ter ouvido; mas era impossivel dessimular.
—Eu, meu pae; estou assim bem, eu não quero casar!...
A resposta não se fez esperar muito. Feliciano soltou uma torrente de imprecações, acompanhamento estrepitoso de uma bofetada não menos estrepitosa, que já cortava os ares ainda bem a rapariga não acabára de dizer que não queria casar.
—Grandissima atrevida!... Eu te ensinarei a ter querer! Não queres casar, hein! E pensas que engulo essa!... Vossês lá que bebem ares por um marido! Mas tu o que não sabes é com quem estás mettida: eu não nasci hontem e não has de ser tu, minha seresma, que me faças o ninho atraz da orelha. Não queres casar, hein!... Ora mette-me o dedo na bocca a vêr se t’o mordo! É volta de festa, é namorico no caso, mas apanhe te eu, que verás por uma vez os meninos orphãos a cavallo. Não queres casar! Mas quero eu que te cases e é o que basta. O visinho Januario pediu-te hontem e eu resolvi que havias de ser sua mulher. E é dar graças a Deus, pela pechincha! Onde pódes ir que mais valhas? Andar para deante e cara alegre, quero que estejas contente, que mostres ao visinho, que tens gosto no casamento, e que lhe agradeces os seus affectos, senão... ponho-te fóra de casa depois de te moer esses ossos, e não quero mais que me chames teu pae.
Ao passo que ia ouvindo seu pae, Rosa ia successivamente esmorecendo.
Á vermelhidão, que lhe tingira o rosto ao receber a brutal bofetada, succedera-se uma pallidez citrina, que augmentára até ficar de puro alabastro.
Tinham lhe rebentado as lagrimas dos olhos no primeiro momento; mas não correram. Uma constricção terrivel lhe afogou a garganta, pensou que ia suffocar-se: pulava-lhe o coração no peito, batiam-lhe as arterias na cabeça, semilhando o marulho das ondas, em torno do que mergulha rapidamente, um cinto de ferro lhe apertava a fronte, zunidos estranhos lhe baqueavam no cerebro.
Cuidou que ia morrer e do intimo d’alma elevou ao Creador, uma prece de jubilo, em acção de graças.
Era um desmaio apenas, um d’estes abalos, que passam pelas organisações nimiamente nervosas, como o furacão pelos arbustos, extremamente debeis.
Acurvam-os até ao chão, estorcem-os na passagem; mas não os partem.
Rosa quiz segurar-se á mesa, mas estonteou-se-lhe a vista, andou-lhe a cabeça á roda, desfalleceram-lhe os braços, correu lhe gelo pelas veias e deu redondamente no meio do chão. Parecia morta.
Feliciano largou uma d’estas maldições capazes de espavorir toda a milicia celeste e correu á filha; estremeceu-lhe o remorso todas as fibras do coração de pae. Não havia maldade nas intenções do velho; entendia a seu modo a felicidade da filha, que estimava devéras: não se persuadiu que o golpe tivesse tão fundo alcance e trepidou ante as consequencias.
Mas ao vêl-a voltar a si, recuperou a confiança e de novo tornou ao seu plano favorito. Intentou com aquelle frio calculo de quem já não cuida em amores, que a voz do coração era uma impertinente a que se não devia dar ouvidos em questões d’esta ordem, e que só o interesse devia tomar a palavra e fallar de cadeira: amaciou entretanto a voz, voltou-se menos rispido para a rapariga, e disse-lhe quasi enternecido:
—É para teu bem, depois m’o agradecerás...
E saiu, pensando no futuro de Rosa e na conveniencia de arredondar as suas terras com a cubiçada courella de Januario.