Ultimo adeus a Rodrigo Paganino

(A. Francisco Montez de Champalimaud)

1867 Agosto, 3.—Amigo do coração:—Hontem de manhã fomos esperar, no cemiterio dos Prazeres, os restos mortaes do nosso querido e desventurado amigo Rodrigo Paganino. Fomos sete, apenas, os que nos lembrámos de cumprir a dolorosa missão: José Elias Garcia, Manuel Roussado, Ricardo Cordeiro, Carlos Barreiros, Eduardo Gomes de Barros, José d’Avellar e eu. Ninguem mais! O ceu estava alegre; o sol brilhava com o natural esplendor do estio. Parecia uma pungente ironia á tristeza que apertava os nossos corações, em presença d’aquella sepultura! É porque os jubilos são apanagio do ceu, e as lagrimas a triste condição do mundo! A morte, meu amigo, phenomeno naturalissimo, trivialissimo, mas que nos espanta sempre, quando vem ferir o homem na força da vida, e o arrebata no momento em que a sua intelligencia começava a dar luz á humanidade, a morte, n’essas circumstancias, parece-nos um impossivel. Olhando para a arvore secular que abrigou á sua sombra o viajante, que floresceu em centos de primaveras, que produziu abundantissimas colheitas de fructo, se a vêmos cair falta de seiva, dizemos: «Cumpriste a tua missão; deste-nos sombra; embellezaste-nos com as tuas flôres; saciaste-nos com os teus fructos; chegou a tua hora; caiste porque eras da terra», e saudamol-a com veneração! Mas vendo a arvore robusta, que abre com as flôres do seu primeiro abril, flôres que são prenuncio de magnificos fructos, fulminada subitamente pelo raio, enfurece-nos a protervia do raio! Assim a morte, quando vem cortar o genio em flôr, nos produz muitas vezes o desespero! Rodrigo Paganino saía apenas da adolescencia, quando caiu no tumulo. Era medico e escriptor. Restam d’elle algumas folhas volantes, perdidas por aqui e por além, e um livro (os Contos do tio Joaquim), livro que ha de viver ao passo que muitas composições laureadas pelo capricho de hoje, morrerão ámanhã. Todavia, isso que Paganino nos deixou, não são mais do que as primicias do muito que tinha para dar aquelle grande talento. Rapida, brilhante, e, dolorosissima foi a carreira de seus dias! Ha quatro annos, n’uma carta que escrevi para a imprensa, desenhei o quadro que apresentava a familia de Rodrigo Paganino, pouco antes d’elle expirar. O pae, as duas irmãs, modelos de raras virtudes, e a mãe, pedindo em secreto, a Deus, um logar na mesma cova do filho. Tres annos a fez esperar a Providencia; finalmente concedeu-lhe a appetecida graça. Hontem, se Paganino fosse vivo, contava trinta e dois annos. Trinta e dois annos que a mãe o déra á luz do mundo; que o beijára entre dôres e alegrias, depondo o filho no berço; o filho hontem pagava-lhe essa fineza indo repousar ao lado d’ella, no berço do eterno descanço, onde para aquelles que padeceram com resignação, e que esperaram a morte, arrependidos dos erros mundanos, brilha a aurora da bemaventurança! O padre que acompanhou do Alto de S. João para os Prazeres os restos mortaes do nosso pobre amigo e que celebrou a missa, que nós ouvimos, pelo eterno descanço do nosso finado querido, fôra companheiro de estudos de Rodrigo Paganino. Terminada a missa, conduzimos o feretro para em frente do jazigo de familia onde havia de ser soterrado. Perguntou alguem, se queriam que o caixão se abrisse. José Avellar, de todos nós o mais intimo de Paganino, disse com a expressão tocante e varonil da sua bella physionomia: quero eu vêl-o. Mas que viu?! Quatro ossos e uma caveira a que se adheria uma pouca de terra! Era quanto restava do corpo que abrigara aquelle gentil espirito! O caixão foi collocado sobre o caixão da mãe, e nós, na extrema despedida, votámos á memoria do amigo quanto lhe podiamos votar: um adeus, e uma lagrima! Concluo esta carta, meu querido amigo pela verdadeira conclusão da dôr, que são as lagrimas. Um aperto de mão; volta quanto antes d’esse ponto do Alemtejo onde estás; lembra-te do anno passado!

Teu

Bulhão Pato.


I
O tio Joaquim

Ha de haver dez annos proximamente, fui passar o inverno a uma quinta, pouco distante de Lisboa; porque, segundo diziam, corria perigo de vida, se não mudasse de ares quanto antes.

O campo é sempre bello. Cada edade do anno imprime-lhe uma feição, differente embora, mas formosa sempre: e o inverno, apezar da sua fria nudez, tem attractivos, como os que nos fazem amar muitas estatuas antigas, em que a falta de roupas mais realça a magestade.

A uma legua apenas, parecia-me estar muito mais afastado de Lisboa. As noticias só repercutiam alli com ecco bem tardio; o apartamento do sitio, mais augmentado ainda pela quadra do anno em que se estava, parecia cortar de todo as relações com a capital: e se a vida latente que girava n’aquellas plantas entorpecidas pelo frio, não se deixasse transparecer de quando em quando, suppôr-se-hia, que um largo sarcophago nos encerrava: tão silenciosa, tão muda, tão melancolica era aquella solidão.

Os dias passavam-se facilmente; mas as horas do crepusculo, essas, é que pareciam immensas, insupportaveis. Quando a noite, começando a escurecer os campos, nos escurecia a alma com elles; quando as trevas desciam sobre a terra, e afastando diante de si alguma vida, que ainda por alli havia, nos entristeciam o coração: quando as oliveiras verdenegras, que ao longe limitavam o horisonte avultavam com as sombras, estreitando-se, e parecendo encerrar-nos n’um circulo sinistro, como deveria ser o das bruxas de Macbeth: então partia-se-nos a alma de saudades enlevada no viver folgasão e agitado, que n’esses momentos costuma offerecer a cidade. Tem-se dito, que nada ha mais triste, do que vêr cerrar-se o horisonte em mar alto á chegada da noite; mas dizem-no talvez os que não experimentaram ainda o angustiado negrume, que em similhantes momentos, no campo, nos confrange muitas vezes. Parece que tudo esmorece, e morre em redor: e n’essa hora, se no bater do pulso não encontrassemos provas da nossa existencia, chegar-nos-hiamos a convencer mesmo, de que a vida se nos esvaecia tambem, como se esvaece em tudo, que nos cerca.

Mas, ainda assim, havia compensação para nós na chegada da noite. Havia, porque de ante-mão contavamos passar essas horas, não muitas, que no campo precedem o deitar, n’uma conversa singella, e innocente; mas que d’essa singelleza e innocencia tirava os encantos que lhe sentiamos.

Á bocca da noite recolhiam os trabalhadores, os maltezes como ali lhe chamam, do trabalho e entravam para uma d’essas cosinhas do campo, tão nossas, tão conhecidas de todos: e que não faltam em quinta alguma de certa ordem.

Esperava-os um bom lume e uma boa ceia, e sobretudo esperava-os, que era o que elles mais queriam, as historias do tio Joaquim, e as suas narrações cheias de verdade e de moral.

Quem era o tio Joaquim, o que fôra, que papel representava, são perguntas, que naturalmente hão de vir á bocca dos nossos leitores, se os tivermos, e a que não poderemos responder como desejâmos. Tinha apparecido depois de uma das nossas guerras civis, e tinha pedido trabalho a um dos fazendeiros mais ricos do logar. D’onde viera, se alguem lh’o perguntava podia contar com a seguinte resposta, que não poucas vezes lhe ouvimos repetir: importem-se com a sua vida e deixem-me, que nada tenho que lhes contar; baste-lhes saber o que sou hoje, e não o que fui; agrada-lhes o meu trabalho; estão contentes comigo, que teem com o resto. Sempre ouvi dizer, que homem que muito se occupa dos outros, é porque se não póde occupar de si.

Todos voltavam sabendo talvez menos do que até então sabiam; mas curados da sua curiosidade indiscreta.

E depois, o tio Joaquim era velho, tinha sido honrado sempre, ninguem como elle sabia guiar uma junta de bois, conduzir a rabiça d’um arado, ou fallar do tempo, olhando para as estrellas; na poda e na empa ninguem se lhe punha ao lado, e quando era necessario fazer um pé de lagar, ou erguer uma meda de pão, já era sabido que sempre o escutavam e lhe seguiam sempre os conselhos. No contar de historias não fallemos. O tio Joaquim era um livro aberto, como por ali diziam: e dava sota e az ao barbeiro do logar e ao mestre de meninos.

Este, contra as leis constitucionaes do paiz, ás quaes, aqui para nós, não era muito affeiçoado, accumulava ao seu mister de educador da mocidade, além dos empregos de escrivão de juiz de paz, escanhoador, tendeiro, agiota e outros encargos nem por isso muito compativeis, uma maledicencia sem egual. Pois cuidam que se atrevia a boquejar do tio Joaquim? Nem por sombras. Verdade é tambem, que lhe não fazia elogios, mas quando se tratava d’elle mudava logo de conversa, fazendo um tregeito desapprovador.

Diziam as velhas d’aquelles sitios, que eu não o sei ao certo pois nunca tratei de o averiguar, que o mestre Francisco, tal era o nome do professor, tinha tido n’outros tempos seus dares e tomares com o tio Joaquim, dos quaes tinha saido de cara a uma banda. Entretanto o silencio do mestre de meninos não influia pouco para a reputação favoravel do nosso bom velho, porque se dizia:—é tão boa pessoa, que o mestre Francisco não diz mal d’elle.

Pobre tio Joaquim! Assisti-lhe aos ultimos momentos e poude fazer idéa do que era a morte do justo. Sorria ainda, e já era cadaver. A hora do passamento foi para elle tão suave como o desprender da folha secca em manhã de outono. Momentos antes de fallecer voltou-se para o meu lado, e disse-me affavel e bondoso como sempre: agora acabaram-se os contos. Lembre-se de mim, quando se lembrar d’elles, é a herança que lhe deixo. Levou a mão ao peito, apertou um saquinho, que trazia pendente de um cordão, e que mostrava conter uma reliquia, voltou os olhos para o céo, pareceu procurar o rumo que a alma ia seguir em breve cortando o espaço, e expirou.

Foram as primeiras lagrimas, que derramei na minha vida; até então não sabia o que era morrer.

Guardei a herança. Bem ou mal administrada ella ahi vae em parte, tal como a memoria a conserva; mas não como me foi doada.

Havia um cunho tal de ingenuidade n’aquellas narrações, uma tal poesia e mimo de imagem, uma fluencia de dicção e uma propriedade de termos, que embora as procuremos imitar, não o conseguiremos nunca.

E não supponham, entretanto, que fosse buscar a figura ou a comparação a coisas de grande altura; ás sciencias, ou á historia: que ornamentasse o periodo com flores de rethorica, ou que procurasse guindar e alambicar a phrase, como tanta gente que por ahi vemos. Nada d’isso. Mais prudente e mais feliz, pois não commettia barbaridades, o tio Joaquim não saía dos limites das intelligencias dos seus ouvintes e ia buscar aos campos, ás flores, á agricultura, á mesma casa, (quantas vezes!) os similes de que se servia. Tudo era comesinho e humilde, sem ser rasteiro, e muitas vezes alcançava elle o que não conseguem muitos litteratos de polpa depois de terem trabalhado deveras—o sublime na simplicidade.

Mas nem só o estylo tornava recommendaveis os seus contos: se assim fôra, não ousariamos nunca encetar similhante tarefa. A idéa moral, que d’elles se deprehendia facilmente, a simplicidade dos episodios, e as curtas dimensões, que elle lhes dava, faziam com que fossem por mais d’um respeito dignos de publicidade. Confiados n’isto mesmo tambem é que começâmos esta collecção, de que somos meros reproductores, cabendo toda a gloria se a houver, ao tio Joaquim, e o desdoiro todo áquelles, que estragando-a talvez, a vêem agora dar ao publico.

Entre nós, n’estes ultimos tempos sobretudo, a litteratura tem despresado um tanto o gosto popular.

Não acontece, porém, o mesmo em França, em Allemanha e nos demais paizes, em que, segundo nos consta, se cura d’estas coisas e se lhes attendem os resultados. Muitos homens de vulto, intelligencias eminentemente superiores, tem-se approximado das turbas, e as obras, que se tem publicado com este intuito, não são as que menos contribuem para a sua gloria.

Dois exemplos bastarão: Lamartine e Emile Souvestre: o auctor da Genoveva e Canteiro de Saint-Point, e o auctor de Coin du feu e do Philosophe sous les toits. Ambos tem vindo por vezes conversar, como amigos e parceiros, com as classes rudes; ambos se teem por vezes esforçado para lhes fazer comprehender as suas idéas, e, tem conseguido verem-as admittidas e bemquistas na officina do operario, e na agua furtada do infeliz.

Sacrosanta missão da imprensa, como é admiravel e veneranda, quando evangelisa as turbas, dando consolação ao desgraçado e conforto ao que desanima! Como nos sentimos enlevar de respeito perante essa instituição maravilhosa, quando vemos os seus fructos sem vicio e sem defeito, alimentarem o que pede o pão do espirito, e darem refrigerio ao peregrino resequido d’este grande Saharah em que vivemos! É então, e não quando a vemos maculada pelas viltas e polemicas indecorosas, que devemos bemdizer os seus inventores, e pagar o devido tributo ao genio que similhante dadiva nos legou.

Mas não é esta a melhor occasião para similhantes dissertações; perdoem-nos o divagar intempestivo, e, se nol-o permittem, iremos ligar o nosso interrompido assumpto, no ponto em que o deixámos, ha pouco.

Os contos do tio Joaquim pertencem ao genero das obras de Emile Souvestre e deveriam tomar logar, pela natureza e não pelo merito, proximo d’aquella mimosa collecção que elle intitula—Au Coin du feu. Dir-se-hia mesmo, que inspirado por este bello livro, se não commettia um plagiato, resentia-se muito da leitura do auctor francez; porém o tio Joaquim nunca soube ler e por isso nem de longe poude cahir em tão feio peccado.

Não é a primeira vez que a ignorancia se apresenta como pretexto para a originalidade de muito escriptor publico. Não é para admirar, que este nosso que se estrêa, comece no mesmo ponto, d’onde muitos, que já são veteranos, não teem podido passar.

As historias que lhe ouvimos são em grande numero. Não apresentaremos n’este livro senão as que mais notaveis nos pareceram e que mais profunda impressão nos deixaram, procurando, quanto nos fôr possivel, aproximar-nos d’aquella engraçada ingenuidade, que tanto nos encantava, quando lhe ouvimos a palavra facil e singela.

Não conseguiremos de certo imprimir-lhes aquelle cunho de originalidade, que o narrador lhes dava. Oxalá que possamos ao menos, fazer com que os nossos leitores passem algumas horas entretidas n’esta leitura: e que, esquecendo-se embora da pessoa que lh’as apresenta, não se esqueçam de todo do velho tio Joaquim.


II
O romance d’um sceptico d’aldeia

De tantos contos, que ouvi ao tio Joaquim, foi o seguinte, que maior impressão me produziu.

Tinha morrido nos sitios um fazendeiro, que não gosava de boa fama, e ao lembrarem-se d’elle começaram os homens do trabalho a cortar-lhe um pouco na pelle.

O tio Joaquim desde que se fallára no finado, fôra gradualmente entristecendo; e pela primeira vez na sua vida caiu-lhe a colher da mão, quando ia começar a comer.

Os maltezes, que estimavam devéras o velho narrador começaram a preoccupar-se com similhante tristeza, e, antes de acabar a ceia, já estavam todos em roda d’elle, a perguntar-lhe o que tinha.

—A morte do Manuel Simões fez lembrar um caso, a que assisti, ha tempos, quem sabe se o Manuel padeceria tanto como o outro, que eu vi morrer.

—Conta-nos isso, tio Joaquim?

—Contarei, apesar de não me sentir muito para contos. Entretanto servir-lhes-ha de lição para deixarem em paz, quem já deu contas de si.

Callaram-se todos e o narrador começou por estas palavras:

Ha de haver dez annos a esta parte, que succedeu o caso, que lhes vou contar. Defronte da egreja estava n’esse tempo uma loja de barbeiro, afreguezada como poucas, e concorrida por toda a gente dos arredores. Era o pasmatorio do logar e o covil da maledicencia: o mestre Ignacio sabia do seu officio como poucos, e cortava nas vidas alheias, como nos cabellos e barbas dos freguezes.

Tambem a loja estava sempre cheia: uns que lhe acudiam á obra, acceiada na verdade; outros, que para ali iam dar á taramella e saber o que se passava pelos sitios.

Nem uns nem outros deixavam de ser servidos: os primeiros saiam com a pelle, que nem um setim; os outros levavam medida rasa de novidades e não poucas vezes acogulada de mentiras.

De todos os que por ali iam, um freguez havia a quem o mestre não gostava muito de vêr na loja. Ninguem o diria, porém, ao vêr as barretadas do velho Ignacio e as mesurinhas com que o acatava. Havia de ter que vêr, que o não fizesse! Se era o sr. padre prior, o padre mais santo, que tenho conhecido e a melhor alma que Deus tem deitado a este mundo de Christo.

E sabem porque o mestre não engraçava com o padre prior, e até mesmo ardia por vêl-o pelas costas? Era porque, o unico talvez dos freguezes todos, não fazia a sua perna á má lingua, nem deixava deitar-lhe muito os braços de fóra, quando estava presente.

—Cala-te lá, homem, lhe dizia muitas vezes, sabes por ventura quantos annos de trabalho leva uma reputação a crear, quantos cuidados e lidas custa o ser honrado, para assim deitares essa obra toda por terra sem tir-te nem guar-te? Se fosses fazendeiro e se gastasses cabedal e vida a fazer a tua propriedade e a amanhar as terras; se todos os dias regando-as com o suor do teu rosto, e ageitando-as com o teu trabalho, conseguisses crear as arvores de um pomarsito, por bem pequeno que fosse, gostavas, que um alma damnada te deitasse fogo á casa; ou que te succedesse dar o mal nas searas e o peco no pomar? Pois olha, pomar, casa, e terras são coisas todas, que, uma vez perdidas, se podem tornar a ganhar; mas o credito e a fama, esses é que não.

O mestre barbeiro, que se temia do bom pobre ficava sem saber da sua freguezia, e este então, que não era de reserva, nem homem, que gostasse de pôr as uvas em pisa a outro por muito tempo, tornava-lhe logo mudando de modo de fallar.—Ora vamos, sô mestre, não desmanche creditos dos outros, pois que não póde vêr entrar o mal por sua casa; que a fama de má lingua ninguem lh’a dá nem lh’a tira, e em quanto a obra, ninguem lh’a desfaz, por que não a tem feita.

Era n’um domingo de manhã e a loja do mestre Ignacio estava a deitar por fóra. O dono da casa tinha acabado de talhar umas poucas de carapuças e encaixava-as nas cabeças para que as talhára, quando entrou o padre prior. Calou-se logo o velho e deu um ponto na bocca; porém o padre, que lhe sabia da balda, e que desconfiou da alhada, começou a fazer-lhe a cama, quasi do feitio que acabei de lhes contar, e por modos taes, que deixou o pobre do homem em lençoes de vinho.

Os que por ali estavam, que não eram muito affectos ao dono da casa, e que por vezes tinham apanhado tambem a sua maquia, começaram a rir, e aos ditos, mais ajudando ainda para o deixar em tallas.

Elle já dizia mal á sua vida: para mostrar que não ia muito do vivo ao pintado, já tinha assente um formidavel lanho na cara d’um pobre trabalhador, que lhe caira nas unhas, e promettia continuar quando um novo freguez, que entrou na loja o veiu tirar do aperto em que se via, pondo ao mesmo tempo uma rolha na bocca de todos.

Nem mais um abriu bico. Parecia uma mó de creanças, que estando a fazer grande algaraviada em casa de escola, vêem chegar o mestre armado de palmatoria e com modos de dar a torto e a direito. Ficam logo calladinhos, que nem ratos; mas ainda bem o mestre não tem dado costas, tornam á mesma, ou ainda a peior, fazendo uma ingresia infernal.

Assim foram os nossos amigos. Alguns d’elles até pareceram que viam lobo, e tanto se lhes puzeram os cabellos em pé, que o mestre teve de dar mais vezes novo fio ás navalhas, porque já não queriam cortar nem por um Christo: elle mesmo, apesar de pouco medroso, sentiu seus calafrios, quando deu de rosto com o recem-chegado.

Este não era nenhuma cara de metter medo, mas tambem não mostrava ser de muitos amigos. Entre os trinta e os trinta e cinco, os cabellos já se lhe começavam a encher de brancas, e a cara de rugas. Parecia triste; e sem dar nem uma palavra esteve na loja até que lhe chegou a sua vez, barbeou-se e saiu, cumprimentando todos á saída como o tinha feito á entrada.

Levou comsigo a callada. Apenas voltou para a azinhaga mais proxima começaram todos a desenferrujar a lingua, como se tivessem medo de que lhes ficasse lesa com o tempo, que estivera sem bulir. E como de razão, foi o mestre Ignacio, quem atirou primeiro a sua bola.

—Excommungado d’uma figa! Cruzes demonio, e embirrou com a minha loja o maldito.

—Parece que anda em peccado mortal!

—Podera não, se elle desde que veio para estes sitios não foi ainda á missa.

—E que olhos que deita para a gente? Pae do céo! É capaz de nos dar quebranto!

—Sim, que o não deu outro dia a uma jumenta da Felicia, que desde que elle a viu não teve uma hora de saude.

—Quem a Felicia?

—Não a jumenta; se elle é lobishomem!

—Callem-se lá, leva de má lingua, parece-me que já é de mais; estarão vocês tão limpos de consciencia, para assim poderem entrar pela terra alheia, como se fosse roupa de francezes?

Era a voz do bom prior. Apenas tinha começado a ladainha, procurára logo pôr-lhe cobro, mas foi trabalho de malhar em ferro frio. Era um dize tu, direi eu, que promettia não ter fim. Todos queriam molhar a sua sopa; porém quando um carreiro velho, que era pessoa acreditada na loja, affiançou que o tal estrangeiro tinha embruxado a burra da tia Felicia e que era lobishomem, ficaram todos passados em pontos de admiração por um instante, e n’essa occasião mesmo, é que o prior poude socegar aquella algaravia.

Ninguem se atreveu a retrucar. Todos tinham os seus podresitos mais ou menos, que o parocho sabia; e por isso todos metteram a viola no sacco, quando lhes foi com as mãos á cara, fallando lhes nas suas culpas. Porém o mestre Ignacio, que não era homem de se atrapalhar com qualquer coisa, quiz vêr se fazia frente ainda, e se podia continuar amolando o caso.

—Mas perdôe a sua palavra honrada, sua reverendissima bem sabe que desde que veio para aqui este homem ainda nem appareceu na egreja, nem em logar de reza, ou em festas da freguezia.

—O que tem o mestre com isso? Todos fallam, fallam sem saberem o que dizem, o caso é dar á lingua. Esse homem não é nenhum hereje, eu sei quem é. Se não vae á egreja, talvez que a egreja vá ter com elle. O mestre bem sabe que não é esta a primeira pessoa de quem se duvida; outros havia que nem por muito irem á egreja, passavam por christãos de lei.

O padre tinha dado no vinte. O barbeiro ficou sem tugir nem mugir, porque se lembrava da fama de judeu que por aquelles sitios tivera, e que lhe ia acarretando mais de uma carga de pau; os outros, que viram as barbas do visinho a arder, foram deitando as suas de molho, esgueirando-se á formiga, apenas acabaram de fazer a barba.

O remedio do parocho não produziu effeito; por que, dias depois, já tornavam á mesma: agora se tinham razão julguem-n’o lá pela historia do tal homem, que mais tarde vim a saber.

O freguez com que tanto se estomagára o mestre Ignacio, tinha vindo para aquelles logares havia dez annos pelos tempos das vindimas. Alugára uma casita pequena, que fica mesmo defronte da egreja, onde está agora o Manoel Ferrador, e que tem vae por meia duzia de geiras de pertenças: para ali se mettera com mulher e filhita que trazia comsigo.

Parecia gente morta, não saiam nunca, salvo a mulher, que de manhã cedo ia aos seus arranjos: e não procuravam dar-se com pessoa alguma da visinhança. E lá n’isso faziam bem, que a maior parte das vezes estas velhas onzeneiras e visinhas palradoras vão ás casas dos outros para darem fé do que lá se passa, e para depois á porta da rua, á tarde ou pela manhã, cortarem pelas vidas alheias como ferro de arado por terra mechida de fresco.

O que é verdade porém, é que este seu systema, não lhe tinha creado amigos, nem levantado uma reputação de encher as medidas. Todos murmuravam d’aquelle modo de viver, e estavam de alcatêa sempre para vêr se achavam fio á meada.

Tinham reparado por vezes que a pobre mulher, que parecia boa pessoa, saía quasi sempre com os olhos inchados e como quem acabava de chorar; mas por mais que se pozessem á escuta não tinham topado nunca signaes de ralhos ou resingas: antes se poderia dizer, se o dono da casa não tivesse tão má fama, que viviam como Deus com os anjos.

Uma noite, alta noite, já tinham cantado os gallos, morava eu então ao pé da freguezia, ouvi tocar a Nosso Pae fóra, levantei-me e fui acompanhar o viatico. Era para casa do mesmo homem, que tinha visto, pela primeira vez, na loja do mestre Ignacio, e que estava para dar a alma a Deus.

Como o caso não era para se estar com pannos mornos, o parocho tratou de começar a confissão, e nós quizemos sair do quarto, para deixar o doente mais á sua vontade, como é costume. Elle porém não o consentiu, e, fazendo-nos signal para ficar, disse-nos com modos que me não passaram ainda:

—Grandes foram os meus peccados, se esta historia lhes poder aproveitar, que a oiçam todos; porque só assim servirei a alguem.

Não havia que dizer, e de mais a mais o demo da curiosidade apertava comnosco. Ficámos, e na verdade disse coisas para se ouvirem.

O quarto estava allumiado por uma lamparina a tremelicar e a dizer adeus. A luz, que espalhava pela casa tinha um tanto de soturna e de aterradora. Á cabeceira estava o padre, a alvejarem-lhe as roupas e cercado por um não sei que, mais do céo do que da terra; a seu lado, o moribundo, estendido na cama, e estorcendo-se na agonia.

Têem visto lá para o Minho, ao pé dos castanheiros, uma videira que levou um córte na cepa, e que em vez de enleiada aos troncos da arvore, se lhe roja pelo chão, quasi a morrer, como uma cobra, que leva com uma pedra na cabeça? Pois assim me parecia aquella vista, bem triste que ella era!

Mas o que me cortou o coração foi vêr a triste senhora lavada em lagrimas aos pés da cama, de joelhos, abraçada a uma creança que teria quando muito tres annos, e que, adivinhando o que ali se passava, tambem carpia, gritando quasi sem parar:

—Não quero que o pae morra, não quero que o pae vá para o céo!

Era uma dôr d’alma, e tanto me impressionou aquelle espectaculo, que, palavra a palavra, me lembra do que ouvi n’aquella casa.

—Meu padre, dizia o moribundo com voz sumida, conheço que a minha hora chegou, e preciso partir para essa jornada tremenda, limpo de culpas e cheio de arrependimento. Grande me vae esta empreza, mas com o perdão de Deus e vosso auxilio, espero leval-a ao cabo.

—Descance: a misericordia do Senhor é infinita, e se os meus soccorros lhe poderem servir, aqui estou d’alma e coração, como é meu dever, para lh’os ministrar.

—Ouça-me pois, meu padre, e na historia da minha vida veja a razão da minha desgraça.

—Para todo o peccado ha remedio na egreja; falle, e não se arreceie.

O moribundo começou assim:

—De ruim semente fraco fructo poderia sair, e meu pae, Deus lhe falle n’alma, andou n’este mundo, mais cuidando da vida em que vivia, do que da outra em que devia durar eternamente.

No seu tempo, d’involta com os livros bons, havia misturadas, como o joio com o trigo, essas más obras vindas de França, e algumas mesmo d’aqui, que prégavam a falta de religião e o despreso pela Divindade.

Pelo menos elle assim o acreditava, e esse effeito lhe tinham produzido. Mais tarde vim a saber que valiam muito, mas que não era para gente rude, que não as percebia, que só lhes apanhava o mau, mais facil de colher, deixando de parte o bom, que andava mais escondido.

O mesmo acontece ao podador novato, que deita fóra a vara do vinho, deixando em vez d’ella as outras que devia cortar.

Mas lá diz o rifão: quem não sabe é como quem não vê; e meu pae, andava tanto ás escuras, que fugia da luz da graça, como lobo do povoado.

Assim me creei, e assim vivi tambem até agora, e Deus sabe quantos desgostos me tem custado esta minha triste cegueira!

Pobre de mim! Não me lembrava de que o homem anda cá n’este mundo como o arado em terra de semeadura. Se o lavrador não tem mão na rabiça ou se descuida do trabalho, eil-o ahi vae corrido com os bois, como o homem com as paixões por terras e ribanceiras, enterrando-se aqui a mais não poder andar, resvalando além a não deixar rego.

Assim me ensinára meu pae, com magua bastante de minha mãe, que se finava e padecia; e assim ía creando meus filhos, se o lavrador sagrado, que lá de cima nos vê, me não encaminhasse, lançando mão do arado, que ameaçava partir-se de encontro aos barrancos d’este mundo.

Ainda em creança, os rapazes do sitio fugiam, quando procurava brincar com elles. Chamavam-me o diabo pequeno, e temiam-se de mim como do fogo. Eu em paga escarnecia-os por irem á egreja, ou dava-lhes pancada de cego quando fugiam de brincar comigo.

Todavia soffria immenso por me vêr sósinho.

Os entretenimentos de creança, que tanto agradam nas primeiras edades, não eram para mim, que vivia como o espargo no monte, á ventura e ao desamparo.

É voz do povo: só se veja quem só se deseja, e rifão bem verdadeiro. Tambem o é que a solidão nos dá maus conselhos e causa os maus pensamentos.

A planta lançada á terra sem cultura e sem cuidados, vegetando em mau torrão, crestada das geadas e dos soes, e sacudida dos ventos; se cria vigor e robustez, tambem ganha espinhos para os troncos e amargo para os fructos.

Entregue só a mim, conhecia que o coração se empedernia e apertava, ficando de rija tempera, sem se dobrar á compaixão nem ao amor do proximo. Se eu era assim, a culpa não era minha de todo; mas o castigo, esse aguentei-o em cheio.

Muito em creança me faltou minha mãe. E a triste consolação de a acompanhar á sepultura, de rezar por ella na egreja, de lhe derramar lagrimas e agua benta sobre a cova, foram coisas que a minha má sina me prohibiu.

Entrar na egreja, eu, e provar fraquezas dobrando-me a pedir ao Senhor! Não o podia, era de vil, e não de um espirito forte e desamparado de credulidades de velhas. Ir sobre uma pouca de terra, onde alguns ossos ficavam e a carne se apodrecia, recitar orações, em que não acreditava, era loucura que não devia praticar!

E assim, padre, com a morte de minha mãe perdia eu muito mais do que outros a quem semelhante desgraça succede. Esses ao menos esperam tornar a vêl-a na outra vida, e a morte sómente lhes é como separação de pouco tempo.

Para mim era o apartamento eterno. Aquella cova roubava-me minha mãe para sempre. Nada ali me podia fallar e a terra ficava muda, como os céus já de ha muito o eram para mim.

O que senti então, Deus o sabe, que eu nem o posso dizer nem mesmo sei o que foi. Era como a planta enfezada, que se lhe vê partir o extremo esteio, sem encontrar mão amiga que a ampare, e que desde então receia a menor aragem que a faça encurvar, ou o menor encontro que a derrube.

Cresci, cresci, e a descrença continuou a crescer em mim. Semelhava-se aos animaes na dureza; a muitos na ferocidade, a todos no embrutecimento.

Por estes tempos ainda se me apresentou occasião de emenda; mas regato que de principio erra o caminho, não é quando se lhe engrossa a corrente com as cheias que póde tornar ao leito; nem planta que de pequena vae torcida, póde, quando cria maior tronco, ganhar a direitura que perdeu.

Uma mulher d’aquelles sitios, que vivia recatada em companhia de sua mãe e resguardada por ella, como o fructo pelas folhas, reparou em mim uma vez e tomou-se de amores por quem não a merecia.

Estas coisas não se explicam. Porque ha de a violeta dar-se e florescer escondida, quando outras flôres por ahi, que menos merecem ser vistas, não se querem senão nos jardins a bom recato e bem cuidadas?

Porque ha de aquelle pedaço de ferro dos relogios de sol aqui do campo voltar-se sempre para o mesmo lado; ou porque ha de a flôr das boas noites abrir-se ao pôr do sol e cerrar-se quando elle nasce?

Porque ha de a mulher perder-se de amores pelo homem que vê pela primeira vez, e que muitas vezes a esquece depois?

São mysterios da natureza, que ninguem póde devassar, mas que nem por isso deixam de existir.

Joanna, é o nome d’essa infeliz que ahi me chora aos pés da cama, amou sem que lh’o merecesse, e o seu amor, em vez de me abrir os olhos, mais m’os cerrou ainda.

Comecei a querer-lhe tambem. Como foi não o sei: mas desde esse momento todas as tardes nos procuravamos, e todas as tardes repetiamos juras de um amor eterno.

Começaram a estreitar-se as nossas relações como duas plantas que uma á outra ligadas mais se apertam com o crescer. Já na aldêa se murmurava, e já se espalhavam rumores contra a pobre Joanna, que se amofinava e entristecia.

Um modo facil de remediarmos tudo era o casamento; porém eu que não acreditava na santidade d’aquella ligação, não queria, nem por sombras, cair em semelhante fraqueza.

Ella acreditava em mim como n’um livro aberto. Convenci-a da loucura de seus desejos, e da fé que me prestava, nasceu a descrença na fé em que se creara. A minha maldade crestou a innocencia d’aquella virgem, como o mau vento cresta a relva: e a apaixonada donzella conheceu que era mulher, e envergonhou-se de o ser.

Como a flôr que perde as folhas e as bellezas quando se lhe desenvolve o fructo, tambem ella perdeu as rosas nas faces e as canduras da alma, quando conheceu que ia ser mãe: e de pejo do que soffrera, encerrou-se na sua magoa, como certos vermesinhos se involvem no casulo que lhe serve de protecção.

Para ninguem podia já ser mysterio o seu estado: a pobre mãe, que via a perdição da filha, deixou-se finar de magoa.

E nem uma flôr desfolhámos sobre a sua sepultura; nem uma queixa soltou a infeliz, porque dôres d’aquellas, não ha palavras que as expressem, como não ha côres que possam representar o negrume da tormenta.

Nossas mães, que hoje estão no céu, quantas lagrimas não carpiriam juntas, ao attentar nos desventurados erros de seus filhos; mas por mais que sobre nós ellas cahissem, de nada poderiam servir, como nenhuma chuva póde fertilisar o terreno maninho, ou a charneca esteril.

Desde então, padre, a minha vida tem sido um penar continuado, um soffrimento sem cessar.

O remorso rala-me a alma: a lembrança d’aquellas santas atormenta-me de dia e de noite: a vista da mulher, que perdi, desvaira-me; e a idéa da minha filha, a filha querida da minha alma, a quem não posso dar nome perante Deus, porque não foi ainda purificada pela agua santa do baptismo dos peccados de seus paes, nem perante os homens, porque seu pae e mãe não se podem assim chamar á face de mundo, quasi que me enlouquece.

E a duvida a perseguir-me como um demonio agachado em logar santo, e eu a abrir-lhe os braços como a seara ao fogo que a vae consumir, e a cerrar os olhos á fé, como a toupeira á luz do sol.

A natureza com as suas grandezas todas, a flôr com o seu aroma e côres, a ave com o seu cantar, o céu com as suas estrellas, e o mar com as suas ondas de prata, tem sido harmonias perdidas, que só me fallam do acaso e que nada mais me fazem lembrar. Tenho cerrado os olhos á luz e a alma á razão. Não tenho procurado coisa alguma no passado nem esperado do futuro.

Tenho sido o navio sem rumo e sem norte, que navega á tona d’agua; o viajante perdido, que não encontra fim ao caminho, nem trilho para voltar a d’onde partira.

Para que viera a este mundo, quando por acaso m’o perguntava a mim mesmo, era o que não sabia dizer; e cansado de o perguntar sem resposta, mudo de pensamento como o mendigo de porta a que tem batido debalde. Tenho-me supposto feliz e tenho vivido como as feras; tenho-me julgado senhor de mim porque não tenho conhecido o Senhor de todos.

Mas ha dias tudo se mudou em mim. Minha pobre filha sahira de manhã, e esteve lá por fóra mais do que o costume. Perguntei-lhe o que fizera, porque se demorára: e a sua resposta foi como a luz da madrugada rompendo em descampado para o viajante perdido.

«Meu pae, me disse, quando sai, ouvi ali defronte uma musica tão linda, tão linda como ainda não ouvira em minha vida outra semelhante. Vi uma porta aberta e entrei para ouvir melhor. Era uma casa muito grande, muito grande, e onde estava muita gente de joelhos.

«A musica vinha de uma janella de grades, d’onde saiam tambem vozes de senhoras; e os que ali estavam pareciam tão entretidos, que nem deram pela minha entrada. Com medo que me reprehendessem por ter entrado sem licença, perguntei a uma mulher, que me parecia boa pessoa, quem eram os donos d’aquella casa tão grande e que tão ricos deviam ser.

«Admirou-se da pergunta e disse-me se lhe fallava devéras.

«Devéras, minha senhora, eu não conheço ninguem d’esta terra; vim ha pouco tempo para aqui com meu pae e minha mãe, e nunca saio de casa.

«Pois olhe, minha filha, esta casa é uma egreja, e seus donos são aquelles que além estão, pae e mãe dos homens e do céu.

«Olhei e vi uma senhora e um homem, que me pareceram tão bons, tão tristes, que desatei a chorar.

«Elle estava de braços abertos, como o papá quando me chama para o seu collo, e ella parecia-me minha mãe, mais bonita ainda, quando está ao pé da cama olhando para mim com os olhos arrasados em lagrimas, emquanto não adormeço.

«Eu queria-lhes fallar, meu pae, conheço que me haviam de dizer muitas coisas boas, mas como me tem dito que não quer que converse com pessoa nenhuma de fóra, tive medo que ralhasse comigo, fui-me embora; mas com tanta pena! Por minha vontade estava ali sempre a olhar para elles até que olhassem para mim, e me fallassem tambem.»

Como ella chorára, chorei eu então. Aquella voz infantil veio despertar-me a fé adormecida, como á mãe extremosa, quando a dormir, os choros do filho querido.

Desde esse momento um raio de luz allumiou-me as trevas, em que vivia. A flôr, a terra, o mar e o céu, tiveram vozes que me fallavam e que eu percebia.

A flôr erguendo-se para as alturas; a terra levantando ao romper do sol os vapores tenues da madrugada como rolos de incenso á Divindade; o mar erriçando o seu dorso de vagas ao signal da tormenta e coroando-se de espumas; o céu recamado de estrellas, recordavam-me a existencia de Deus, creador de tudo que me cercava, e que em tudo tinha estampado o sello de suas mãos como o artifice nas suas obras.

Tambem o Senhor, que se parecia ter esquecido de mim, ao vêr-me arrependido lembrou-se de que existia: quer me chamar á sua presença, como o pastor, que ao vêr melhorias na rez contaminada, que lançou a monte, procura, pelos cuidados e disvelos, livral-a das enfermidades e males.

Hoje, padre, que avisto a immensidade da morte sem receio, e a eternidade sem pavor, hoje que tenho fé no meu Deus e esperança na salvação, peço-vos, padre, a benção para o contricto, e absolvição para o peccador.

—Eu te absolvo, disse o padre com voz solemne, que por muito tempo me estrugiu aos ouvidos, e o Senhor de caridade vos perdoa por minha bocca.

N’este momento em lagrimas chegou-se a pobre Joanna ao leito do moribundo: e a filhinha, que a acompanhava, ficou debaixo dos jorros d’agua que corriam em fio dos olhos de seus paes.

O parocho attentou n’aquella vista, e como levado por idéa do céu, disse, abençoando a creança:

Eu te baptiso em nome do Padre, do Filho e do Espirito Santo; as lagrimas de teu pae e as de tua mãe, peccadores mas arrependidos, essas lagrimas de contricção, tão gratas a Deus, te sirvam de agua de baptismo. Vae em paz, és christã.

Logo em seguida tratou de casar aquelles dois, que pela alma e pelo amor já estavam casados; e acabada a cerimonia, a alma do agonisante, que nada mais tinha que a prendesse á terra, começou a soltar-se do corpo para voar á morada eterna.

Elle conheceu-o, e com voz difficultada pela agonia disse ao sacerdote:

—Abri-me essa janella meu padre, vou morrer, quero adorar ainda o Creador na sua obra.

Um de nós correu a satisfazer-lhe a vontade. Já era manhã, e o sol vinha apparecendo fronteiro a romper por entre labaredas de fogo; o padre estava de costas para a janella; o vulto recortava-se-lhe sobre a luz, e os seus raios pareciam formar-lhe um resplendor de santo.—E se o era!

Desviou-se para o lado, e um raio de sol veio bater de chapa na face do agonisante; parecia um signal mandado por Deus em prova de perdão.

Foi elle quem chamou de novo á vida o que parecia já um cadaver, e lhe deixou proferir com grande esforço estas ultimas palavras:

—Illuminae minha alma com a vossa divina graça, como me allumia agora o sol, que desponta no firmamento, perdoae-me Senhor!

Passados momentos, o padre rezava sobre o cadaver as rezas de defunctos, e no dia seguinte nós todos iamos com os olhos arrasados de lagrimas, conduzir á sepultura o cadaver d’aquelle a cuja morte tinhamos assistido.


III
A proposito da missa do dia

Entre os trabalhadores da quinta, havia um chamado Antonio, bom rapaz, é verdade; mas que tinha um defeito, de que se não corrigia.

Era mentiroso, como os que o são, e quando o não acreditavam, amontoava juras, qual mais tremenda ou de mais responsabilidade e respeito para um homem de bem.

E era pena; porque poucos havia tão laboriosos como elle.

Era conhecido pelo—gallo da madrugada—titulo bem justificado em vista do que se apressava em concorrer ao trabalho: e não poucas vezes os pobres beneficios, que o seu magro peculio lhe permittia fazer, vinham a constar, pelos outros e não por elle, muito em seu abono e boa reputação.

O tio Joaquim, conselheiro honorario d’aquella republica tinha-o reprehendido muito; mas aquelle maldito sestro não o queria o Antonio perder nem a bem nem a mal. Era o seu senão, que lhe acarretava não poucos dissabores e com o que não pouco prejudicava os outros.

Era n’um domingo, e depois da missa do dia, no adro da egreja estavam reunidos, em mó, os saloios d’aquelles sitios que tinham concorrido ao santo sacrificio. De fatos domingueiros, e varapaus ferrados, discorriam pelas novidades do logar, exactamente como os nossos elegantes á porta do Marrare, ou nas salas do Gremio.

Diga se a verdade; as Marias e as Joannas não deixavam de influir n’aquellas reuniões, porque não poucos eram os que ali compareciam levando em mira fallar ás suas requestadas, ensaiar requebros, ou ajustar entretenimentos para as horas de sesta ou para as tardes dos dias santos.

O nosso Antonio tambem não faltava á reunião, e já por mais de uma vez fizera das suas, sem consequencias de maior, pelo pouco credito que tinham n’aquelle mercado campestre as notas do nosso caramboleiro.

Havia no logar uma rapariga que se podia chamar uma perfeição, e que fazia tanta differença das suas companheiras, como a rosa de musgo das rosas carrasqueiras dos vallados.

Era gentil e mimosa, não tinha as côres de saude, nem aquelle acerejado do sol, ou fórmas robustas e quasi viris da raparigada do campo; mas era mais esbelta, mais pallida, mais clara e com uns olhos tão negros, tão negros, que lhe saiam da alvura do rosto, como dois diamantes negros engastados em esmalte branco.

Vivia arredada e em recato, e não apparecia em arraial ou festa, senão de anno em anno e quasi por milagre.

Chamavam-lhe—a fidalga,—e o nome casava tanto com a sua distincção de maneiras e garbo de porte, como o soar das ave-marias com os descampados das serras.

Como já se deve suppôr, os fragatas da terra tinham pretendido as honras de arrojado; mas debalde, porque os rejeitava, e quasi todos descoroçoados tinham desistido da empreza.

Digo quasi todos, porque dois ainda lhe arrastavam a aza, um, (aqui em segredo,) era attendido e bem olhado; o outro, mais feliz, nem fallar n’isso é bom, mordia-se de raiva pelos desdens que soffria, e pelo pouco em que eram tidos os seus requebros e paixões.

A escolha de Emilia tinha sido acertada, porque o José da Avó era o mais guapo moço d’aquellas duas leguas em redor. Desempenado e direito como uma vara de abrunheiro, valente como um pau de carrasco, generoso e de brio, como nenhum: nem o mais pintado lhe levava as lampas em trabalho de fazenda, em jogos de pau, ou em balharicos de domingo.

E cantigas! Sabia-as elle cantar, como os que as sabem; entoava uma desgarrada ou sustentava um desafio, mais afinado e a preceito do que muitos d’esses italianos em segunda mão, que os empresarios nos impõem como notabilidades cantantes.

O outro pretendente não era muito cheio de não presta: mas ao pé do José da Avó ficava a perder de vista, o que não admira; porque vasados n’aquelles moldes não havia muitos no logar. Elle porém, como não queria attender á razão, damnava-se jurando pela pelle do ditoso preferido.

Este era o estado da questão na manhã do tal domingo, e os dois rivaes conservavam-se a distancia respeitosa no meio de dois grupos distinctos.

Tinha saido já quasi toda a gente da egreja, quando Emilia se retirou, sem que lhe faltassem commentarios, emquanto passava por meio dos grupos.

—Olha a delambida! soltou d’ali uma das raparigas mais feias da terra, parece que vae com o rei na barriga, nem olha para a gente.

—Era o que faltava, a fidalga!

—Vae toda enlevada no seu José, tem medo que lh’o tirem do lance.

N’isto o nosso Antonio, que não queria ficar atraz, tambem se intrometteu na conversa, dizendo com modos de quem estava corrente com os mysterios d’aquelle circulo:

—Pois faz elle bem em perder o seu tempo, porque ainda não ha muito que vi o Miguel de conversa com ella á porta de casa, e pelos geitos que a coisa levava, não era a primeira vez que se fallavam.

—Ora tu sempre tens uma lingua!

—Um raio me parta se minto; tinha-me calado e feito vista grossa, mas agora ferveu-me o sangue quando a vi assim como quem queria deitar lama para a cara da gente.

As palavras de Antonio não tinham caido no chão. José, desconfiado como todos, estivera de ouvido á escuta e não perdera nem syllaba. N’outra occasião voltaria de certo as costas ao maldizente, mas d’esta vez mudava o caso de figura: o ciume acreditava a voz do mentiroso e a tremer chegou-se ao pé d’elle, perguntando-lhe com voz indecisa:

—Juras que é verdade o que acabas de dizer?

—Se é! os diabos me levem se minto; eu por mim não queria causar-te nenhuma aquella; mas assim como assim mais tarde ou mais cedo havias de vir a sabel-o; e, verdade verdade, ella não te merece.

—Basta, lhe retorquiu o pobre José, e foi-se como um raio até onde estava o supposto arrojado.

Inutil é dizer que tinha sido tudo isto enredos e obra de Antonio. Soltára as primeiras palavras como por demais, sustentára o dito por capricho, mais tarde para que não suppozessem que tornára com a falla ao bucho por medroso.

Do outro lado do adro uma floresta de paus se levantava no ar, e já as navalhas estavam fóra das algibeiras; os dois tinham-se travado de razões, e como palavra puxa palavra, tinham passado dos ditos a vias de facto e malhavam um no outro como se fosse um monte de milho.

Ambos tinham partidarios, e por conseguinte a lucta assumiu proporções maiores; porém por muito encarniçada que fosse entre os partidos, parecia um brinco de creanças á vista d’aquella em que os dois se tinham travado. Davam como quem se despedia do mundo, e como quem desejava vêr estendido no chão o seu contrario.

Ao principio arrancaram dos paus e começaram a atirar as primeiras pancadas, que quasi todas cairam em cheio; até que Miguel, depois de ter jogado umas poucas de sortes ao seu adversario, e como ambos estavam descobertos e só queriam dar, dissimulando uma pancada á cabeça, lhe dirigiu o pau por meia volta no ar ás pernas. Quando lá chegou já o seu adversario o tinha procurado aparar, porém tanto em mal, e tão puxada d’alma ia a contraria, que o pau colhido no meio, não o aguentou e partiu-se; e o outro não encontrando resistencia no corpo de José, porque elle já lh’o tinha furtado, foi de encontro ás pedras do adro e partiu-se tambem.

Vendo-se desarmado, Miguel não perdeu tempo: correu sobre o inimigo com uma navalha e baldeou-o logo no chão jorrando sangue por uma ferida no ventre.

O assassino, apenas commettido o crime, tomou as de Villa Diogo, e a desordem começou a apaziguar-se com a chegada dos cabos da terra, que tratavam de remover o ferido e de prender os combatentes.

O causador de tudo isto tinha, logo que viu tomar ao caso uma feição que lhe não suppozera, procurando socegar o motim, confessando a sua mentira, porém já era tarde, n’aquellas alturas qualquer intervenção seria inutil; teve pois de assistir arrepelando-se, dizendo mal á sua vida, áquella triste scena, e promettendo, com mil juras que não mentiria nunca mais; ajudou soluçando a levar o ferido para sua casa na maca, que tinham ido buscar, e accusando-se todo o caminho de ter sido elle, e só elle, o culpado de tudo que succedera.

Nos tres dias, que succederam á catastrophe, não se fallou n’outra coisa nos serões da quinta. Conhecia-se que o tio Joaquim por vezes tinha vontade de fallar, porém tão sincero lhe parecia o arrependimento de Antonio, que sempre desistia do intento. Uma noite, porém, o nosso mentiroso, já esquecido das juras que fizera, começou, por uma coisa que nada valia, a invocar os santos todos do Paraizo em seu testemunho, e a pedir raios e coriscos para castigo se mentisse.

O velho narrador d’essa vez saltou lhe no gallinheiro, dizendo com aquella placidez de espirito, que tão habitual lhe era:

—Este Antonio faz-me lembrar o João da Tenda, que vivia lá em baixo ao pé das casas do mestre Raymundo e que por dez réis de mel coado fazia juras e protestos ás carradas. Em mal lhe deu o vicio, coitado!

—O que lhe aconteceu, tio Joaquim?

—O que foi, o que foi?

—Conte, conte; ha tanto tempo que lhe não ouvimos uma historia!

—Pois bem, soceguem, que lhe não faltarei hoje, e não será por culpa minha se esta lhes não agradar.

O pobre do Antonio tinha pedido misericordia com um olhar de supplica: mas o velho compromettera palavra e não havia de se esquivar á promessa.

—Diz lá o rifão: «quem compra e mente na bolsa o sente;» como diz tambem: «homem de boa lei tem palavra como rei», isto era quando os reis tinham palavra, se alguma vez a tiveram, que d’essas coisas não sei eu, e quando não faltavam ao que promettiam.

O que é verdade é, que se o mentir prejudica a honra e o corpo, não menos prejudica a alma estar, por dá cá aquella palha a fallar no santo nome de Deus, e no dos santos, que não são pontos com que se brinque.

Nenhum, dos que aqui estão, vae incommodar o patrão para coisas que não valem a pena, e muito menos por conseguinte devem ir bater á porta dos patrões mais subidos, para de mais a mais os tomarem para testemunhas e parceiros de coisas que não só não valem a pena, mas que são mentiras ainda em cima. E depois, quando se apanha fama de mentiroso, não ha quem nos acredite por mais que deitemos os bofes pela bocca fóra, e ainda mesmo que fallemos a verdade. Mau é dizer-se que o cão é damnado.

—Mas se fôr para fazer bem, não se deve mentir tio Joaquim?

—Para tudo ha remedio. Uns homens que perseguiam outro, perguntaram a um santo, que encontraram no caminho, se tinha visto passar o malfeitor.

O bom do santo tinha-o visto, não havia muito; mas nem o queria denunciar, nem mentir tambem: já vêem que elle estava n’esse caso, e que se devia vêr a perros.

—É verdade, é verdade, e que respondeu?

—Que por ali não passára; e como estava com as mãos nas mangas, apontou para dentro d’uma d’ellas, por onde de certo o tal homem não podia caber.

—Ora! exclamaram alguns dos circumstantes, como admirados.

—Parecia santo saloio, tornou d’alli um ratinho, ultimamente embaçado na compra d’uma enchada.

—Nada que não, respondeu lhe logo o vendedor, que o percebera á legua, não tinha alma de beirão, que lá diz o dictado: no bom beirão corpo e alma pequenos são.

Talvez a questão se azedasse mais se o tio Joaquim os não interrompesse logo gritando: leva de rumor, vamos á historia do João da Tenda.

Quando vim para esta terra, já vae n’um par de annos, tinha elle uma lojasita lá no largo de baixo, mesmo á esquina da estrada real. Era um pequeno modo de vida, que bem cultivado podia produzir bastante; mas como havia descuido no amanho a colheita foi infeliz.

N’estas coisas de negocio a reputação de homem de palavra se não é ouro de lei vale-o bem; e d’esta riqueza o bom do João era mais pobre do que Job.

Ninguem se fiava n’elle e o credito diminuia cada vez mais. Direito em contas e honrado era: porém aquelle sestro maldito de mentir por dá cá aquella palha, a mania de fazer juras e protestos, que nunca se realisavam, fazia com que lhe roessem a corda na maioria dos ajustes, sem que tivesse direito de se queixar, porque não era mais do que pagar-lhe na mesma moeda.

Assim iam os tempos e o negocio corria-lhe por agua abaixo.

Para maior desgraça, no sitio onde não havia senão a loja do João, veio estabelecer-se uma outra e tirar-lhe a freguezia.

Era do José Fernandes, que ainda hoje lá a tem no mesmo logar, e que sabendo o valor do dictado—cara alegre ganha vontades,—tratou, emquanto o seu visinho andava de maus modos, porque os tempos iam maus tambem, de chamar freguezes, tratando-os ás mil maravilhas, e desfazendo-se em bons serviços.

João tinha uma filha, a menina dos seus olhos, e uma flôr de enche-mão. Mais guapa rapariga não havia de certo por aquella meia duzia de leguas em redor; e se tivesse nascido na cidade, se lhe tivessem debastado as grossuras dos campos com a plaina das fidalguias, metteria de certo a um canto essas arrebicadas, que para ahi vem passar os verões e que parece que se estão mesmo a desfazer.

É bem certo, que não ha panella sem testo, e para vasilha de tão fina loiça, é preciso que a tampa lhe não desmereça da qualidade.

E assim era o arrojado de Joaquina: rapaz bem feito e espigado, forte de corpo e affeiçoado de rosto, um d’estes de quem não ha nada que deitar fóra.

Como é de crêr, entendiam-se que era um regalo, e morriam um pelo outro. E que bem acertado por elles eram! Joaquina, delicada e fina como uma rosa de toucar, ou uma flôr de madre-silva: Domingos, forte como um zambujeiro e direito como um prumo.

Encostados um ao outro, quando se fallavam ás furtadellas ao descair da tarde, pareciam, tanto ella se ageitava a elle, e tão erguido elle estava, contente por a ter comsigo, a haste da cruz de pedra que está defronte dos Ouriços, vestida com as braçadas flexiveis da hera, que lhe nasceu ao pé.

Ninguem lhe invejava a felicidade; antes, pelo contrario todos gostavam de os vêr assim, pois pareciam ter nascido um para o outro. Mas sabem de certo, que não ha bem que dure sempre, e o d’elles por isso havia de acabar em pouco tempo.

O pae de Domingos, Deus lhe falle na alma, era um fazendeiro abastado dos sitios, que contava para cima de vinte geiras de terra de pão, fóra umas seis courellas de trincadeira, duas hortas valentes, e um pomar de caroço de mais de trezentos pés de fructa. Por conseguinte o rapaz era um bom casamento para a rapariga, e por isso o João fazia a vista grossa. Que de mais a mais o noivo era moço de honra e incapaz de abusar.

Mas não assim o tio Fernandes, que não engraçava com o tendeiro por as suas mentiras, e que nada queria com gentes, que pertencessem ao caramboleiro. Tinha sido toda a sua vida homem de palavra, as suas promessas eram mesmo um evangelho, e quem não seguisse este modo de vida nada tinha feito com elle.

Domingos, como é de querer, tinha escondido do pae os seus amores com Joaquina. Uma vez por outra procurou sondal-o a tal respeito, porém, como visse que era tempo perdido, tinha desistido da empreza, e assim ia tenteando o namoro com esperanças em que ou o velho cedesse da birra, ou o outro do vicio.

Foi por estes tempos que se armou uma das tantas guerras que por ahi tem havido na nossa desgraçada terra. Era preciso tropa e trataram de recrutamentos com toda a força.

Domingos, foi um dos sorteados. Seu pae, rico bastante, podia com facilidade pagar a um homem para o substituir, o caso era que o quizesse, e tanto que estava resolvido a sacar uma duzia de loiras da arca, onde estavam havia um par de annos sem vêr sol nem lua.

Era um domingo á noite, e o tio Fernandes recolhia-se de uma feira de gado onde fôra comprar uma junta de bois, de que precisava para a lavoira. Vinha deitando contas á sua vida, e tão entretido que nem lhe tinha custado o caminho.

Ao voltar de uma azinhaga avistou de longe dois vultos, que não parecia darem pela sua vinda. Reconheceu-os logo, e percebeu tambem qual o fim com que seu filho tantas vezes lhe tinha desculpado o João da Tenda, e porque tão desgostoso andava por assentar praça.

Fez os seus entes de razão, e ajustou com os seus botões, que: désse por onde désse, não se havia de fazer similhante casamento.

N’essa noite houve questão até fóra de horas entre Domingos e seu pae. O rapaz confessou tudo e o velho negou-se a pagar-lhe o homem.

—Ou deixar o namoro ou assentar praça, disse-lhe o tio Fernandes e Domingos preferiu a segunda condição.

Mezes depois chegava á terra a noticia da morte de Domingos. Tinha-se batido como um homem, tinha sido um dos primeiros a atacar, e pagára o atrevimento com a vida.

Figurem-se agora qual seria a pena de Joaquina ao saber de similhante noticia. A pobre da rapariga, depois que o seu apaixonado partira, não tivera nunca mais uma hora de consolação. Levava os dias a chorar, que era uma dôr de alma, e ia-se infesando a olhos vistos.

João, o culpado de tudo, pelo seu amaldiçoado costume, sem recursos porque os freguezes lhe tinham fugido, e porque o mal de sua filha lhe levava o resto, estava que parecia outro: e n’aquella casa, onde todos viviam contentes, não havia já nem signaes de alegria.

A apaixonada moça foi esmorecendo cada vez mais, os medicos não lhe achavam remedio para o mal, e qualquer que lhe receitassem não o queria ella tomar.

Acabou a sua cruz, e, em poucos mezes, foi reunir-se a Domingos, n’essa outra terra onde os amantes vivem unicos eternamente, e onde os justos gosam da felicidade sem fim.

Quando entrarem no cemiterio reparem para a esquerda, que hão de vêr debaixo do terceiro cypreste, a contar da porta, uma cova com duas cruzes de madeira e uma corôa de perpetuas. Ajoelhem sobre a terra benta, rapazes, e rezem ao Senhor pelo pae e pela filha, que ahi descançam juntos como o tinham estado em vida. Lembrem-se do que lhes succedeu, e reparem, que ás vezes uma mentira póde deitar a terra uma reputação por mais antiga que seja. Rapazes, quando se apanha um homem que não falle verdade, e quando se perde o credito, perde-se em pouco dinheiro e honras. Felizes ainda dos que não pagam com a vida como o pobre João da Tenda.

Quando os trabalhadores saíram, chegou-se Antonio ao narrador.

—Percebi tudo, tio Joaquim, prometto-lhe não mentir nunca mais nem fazer juras por coisas poucas.

—Deus te oiça, tornou-lhe o velho, que és bom rapaz; e se perderes esse mau costume, poucos haverá que te levem a palma.


IV
Os domingos de fóra da terra

Era n’um domingo de novembro. A agua tinha caido a cantaros todo o santo dia, e a chuva fôra tanta, que diziam pelos sitios: já os cães a bebem em pé.

Grande parte dos trabalhadores da quinta, em que eu vivia, tinha saido depois do jantar, embrulhados uns em mantas, outros em gabões e gabinardos em direcção á quinta do tio Joaquim de Mattos, acreditado pelo bom vinho que vendia, e pelos bons piteos que lá, de quando em quando, arranjava a sr.ª Josepha, sua respeitavel sobrinha, desenxovalhada moça e uma das mulheres com menos papas na lingua d’aquelles arredores.

De tempos a tempos apparecia pela adega do sr. Mattos, Deus lhe falle n’alma, pois era um honrado homem, um ensebado baralho, que cortava a monotonia de um sempiterno jogo de bola, e entretinha quando o tempo estava de peior catadura, os afreguezados frequentadores. Outras vezes tambem um ou outro especulador lisboeta arribava áquellas paragens com esperanças de armar trapaças e jogatinas, e esse então premunia-se antecipadamente com uns dados, de lizura problematica, ou com algumas cartas de egualdade controversa, que manejadas habilmente lhe serviam de traiçoeira isca para os agourentados vintens dos pobres maltezes.

Mas, verdade verdade, era uma excepção da regra. O dono da casa obstava quanto podia a estes desvios: e já experimentado nas consequencias, tratava de pôr cobro a semelhantes armadilhas.

O domingo, porém, a que nos referimos era um dos taes dias aziagos. Os lisboetas, as cartas e os dados tinham trabalhado muito, acompanhados, já se vê, de um numero infinito de quartilhos de vinho, que n’uma roda viva passavam do balcão para a mesa do jogo, e d’esta para o poder da tia Josepha, que já não tinha mãos a medir.

Em medidas effectivamente passara ella o tempo todo; mas nem todas eguaes, porque, por amor do proximo já se entende, quando os via mais carregados alliviava-lhes a mão, e esvasiava-lhes os copos; até que por fim de contas, quasi que, em vista da exiguidade da dóse, mal se poderia reconhecer quanto tinham pedido.

Mas decretos da Providencia, que sempre são de immenso alcance, disfarçados mesmo nas tibornias da tia Josepha! Se não se compadecesse tanto dos miseros bebedores, em que estado não ficariam elles, que mesmo assim, quasi sempre, ao sair, não sabiam quem era o cura da sua freguezia!

Os nossos amigos trabalhadores, que não queriam passar por homens de ficar atraz em coisas d’aquellas, entraram na quinta, á volta da adega do tio Mattos, que era uma lastima vêl-os. Uns a cair, outros cheios de escalavradellas, e todos elles sem real da feria da semana.

Começaram beberricando para não fazer desfeita aos lá da cidade que os tinham convidado; pouco a pouco foram chegando-se para o jogo, ao principio sómente para vêr, depois para jogar. Emfim quando não cabiam em si de contentes, porque iam de cima e tinham alguns vintens diante de si, viram n’um relance de fortuna varrer-se-lhes tudo da frente, á maneira de comoro de vallado feito de terra solta, e que uma cheia leva no enxurro.

D’aqui os ralhos e as desordens; apoz as descomposturas, as vias de facto, e quem sabe, se não lhe acudissem, onde a coisa iria parar.

Fazer-lhes prégações n’aquellas alturas era o mesmo que chover no molhado. O tio Joaquim, que não era de hoje nem de hontem, conheceu logo que perdia o seu tempo; deu-lhes de mão n’aquella noite, e no dia seguinte ás horas do costume contou-lhes pouco mais ou menos o que se segue:

Poucas coisas ha que tanto custem, para nós, que toda a semana andâmos agarrados ao cabo da enxada ou rabiça do arado, como é entreter os domingos e dias santos, que o Senhor nos manda para descanço do corpo e recobro de forças.

Depois da missa fica um por ahi além de horas, que é preciso matar sem quebra do temor de Deus, nem offensa do proximo; mas como nem todos sabem o que hão de fazer, acontece quasi sempre, que as perdem, e as perdem muito para mal.

As velhas onzeneiras, que almejam pelos domingos para bisbilhotarem as vidas alheias e darem cresta ás colmêas dos outros, dizem que se deve descançar do trabalho, e passam-n’os na ociosidade, que de todos os vicios é o peior; os mal comportados destinam-n’os para as tabernas, do que conseguem, além de ficar moidos e ralados, sem poder fazer obra que se veja nos dias mais proximos, fazerem-se brutos de todo ao cabo de pouco tempo.

E dizem que descançam! Qual descanço nem meio descanço! Como se o homem não fosse como a terra, e como esta precisasse estar em pouzio para melhor produzir!

Muda-se a sementeira como se deve variar o trabalho, e o melhor descanço não é aquelle que consiste em não fazer nada; ou então, o que é peior ainda, em armar disturbios e levantar rixas.

Tres rapazes conheci eu, não ha muitos annos, cada um dos quaes tinha o seu modo particular de entreter os dias de festa, cada um dos quaes tambem escolheu fructos correspondentes ao grão que lançára á terra.

Variavam tanto nos costumes e systemas, como se apartavam nas feições, e como se vieram a differençar tambem no destino que levaram.

Tinham nascido na mesma terra, e, bem moços ainda, tinham vindo procurar trabalho á mesma fazenda; porque, acostumados a viverem juntos desde pequenos, não se podiam separar nem á mão de Deus Padre.

Roberto, o mais velho de todos, era feio de cara e de peior catadura. Zangava-se por dez réis de coisa nenhuma, e quando estava zangado dava por paus e por pedras. Tinha tanto de robusto, como de mau, e só respeitava, de toda a gente, os seus dois companheiros, Pedro e Anastacio. O primeiro d’estes fazia tanta differença de Roberto, como o dia da noite. Franzino e delgado, parecia que o menor sopro o deitava a terra, e lembrava mais um alfinete de toucar do que um trabalhador de enxada. Comedido e de bons termos para todos, em pouco tempo ficou sendo o ai Jesus da fazenda, onde morriam por elle.

Anastacio, o ultimo em que lhes fallei, era, por assim dizer, como uma ponte entre os dois. Fazia lembrar o outono entre o verão e o inverno. Se era desembaraçado e lesto como Roberto, era bom como Pedro, estimava um e outro devéras: mas se não podia levar a bem os arremessos e maus modos de Roberto, não gostava tambem muito de tanto de não presta, de que estava cheio o outro seu companheiro. Não lh’o deitava á cara para não o envergonhar; mas muitas vezes lh’o ouvi dizer:

—Não se ha de fazer nunca d’ali coisa que tenha geito, parece um Sant’Antoninho onde te porei; nasceu mais para fiar n’uma roca do que para puxar ao trabalho com substancia. Não é culpa sua, isso é verdade, mas por mais que me digam, aquillo foi erro da natureza.

Em pouco tempo teve cada um uma occupação adequada ás suas posses. Pedro, que mais não podia, foi encarregado de guardar um rebanho de ovelhas e cabras, que tinha mais de duzentas cabeças; Roberto tomou conta da abegoaria e das cocheiras; Anastacio ficou de rancho na malta, entre os trabalhadores de enxada.

Como é bem de vêr, o peior dos tres começou a fazer das suas: trabalhava de má vontade, embebedava-se, e tratava do gado á moda de mil demonios.

O mais fraquito, bem ao contrario, começou a fazer as vontades aos patrões e a cair lhes em graça.

Tanto fez, tanto fez, que o filho da casa pegou a ensinar-lhe a lêr, coisa porque elle morria havia muito tempo, e em que entretinha os domingos, passando os dias de semana, em quanto o gado pastava, a estudar as lições e a puxar por si; o Anastacio que não podia aturar a lettra de imprensa, nem, segundo dizia, tinha cabeça para aprender, começou a fazer economias para, logo que podesse, tratar de casar com uma rapariga da sua terra, com quem estava justo desde pequeno.

Emquanto uns iam para as tabernas e Pedro dava lição, elle, que não queria gastar o dinheiro em extravagancias, nem atormentar a cabeça com aquellas tontices dos livros, procurou vêr se aprendia algum officio ou arte, em que se entretivesse, e em que passasse o tempo com toda a economia.

—Porque não estudas tu aos domingos tambem? perguntava eu muitas vezes a Roberto.

—Ora, porque não nasci para sachristão, nem para besta de carga. Enfados bastam os da obrigação, que já não são poucos, quanto mais il-os eu buscar agora por minhas mãos. Sempre ouvi dizer que era preceito guardar os domingos e festas de guarda, e que trabalhar n’estes dias era peccado.

Estavam as coisas n’estas alturas, quando tive de ir á minha terra, recolher uma herançasita que houvera, e demorar-me por lá algum tempo para pôr as minhas coisas a direito; quando voltei nenhum d’elles já estava na mesma quinta.

Seis annos depois em dia de festa de Corpo de Deus, fui a Lisboa vêr a procissão e visitar de caminho uns parentes, que ali tinha,—já lá estão na terra da verdade, pobre gente!—Deus os tenha á sua vista.

Passava pela rua dos Bacalhoeiros quando ouvi que de uma tenda me chamavam pelo meu nome. Vejam qual não seria a minha admiração, quando dei com duas caras conhecidas, que me faziam muita festa, e que eram nem mais nem menos do que os nossos amigos Pedro e Anastacio.

Nem pareciam os mesmos, nos termos e nos trajes lembravam pessoas da cidade, mas no coração eram sempre os pobres e bons trabalhadores.

—Ora o tio Joaquim por estes sitios, me disseram, e sem nos conhecer!

—É verdade, rapazes, quem era capaz de pensar, que havia agora de vir topar com vocês, assim tão enfeitados e garridos. Com mil demonios, se me não chamassem, não era eu que os descobria.

—Mas nós não esquecemos os amigos velhos, e logo que o vimos, não quizemos passar sem o abraçar.

—Bem apertado e do coração. Mas pelo que vejo a fortuna fez das suas, e lembrou-se de vossês.

—É como diz; alguma felicidade tivemos. Mas não ha de ficar á porta da rua, entra e vem conversar um poucochinho comnosco, não é assim?

Fiz-lhes a vontade, e pelo que me contaram vim a saber o que lhes tinha acontecido, e que foi o seguinte:

Cada um d’elles tinha seguido o seu modo de vida, conforme se ageitava melhor. Pedro estudando nos livros, Anastacio trabalhando nas horas de descanso, para juntar algum dinheiro.

Metteu-se-lhe na cabeça aprender um officio e a troco de alguns serviços feitos ao mestre Antunes, tanoeiro, alcançou que lhe ensinasse o seu modo de vida, em que, com a vontade que tinha, chegou a ser um bom official.

Já avesava um par de vintens, quando se descobriram essas terras lá da California, onde segundo diziam os papeis, havia mais oiro em pó, do que milho em celleiro rico nos annos de fartura.

Os homens de ganhar começaram a mudar de rumo e a procurar fortuna por essas terras. Desinquietaram-n’o; mas elle, despresando o ditado: «muda de terra, mudarás de fortuna» como se ia dando bem por onde estava, resolveu-se a ficar.

Ora, não sei se sabem, que apesar de haver dinheiro a rôdo pela tal California, não havia de comer, nem de beber, e qualquer coisa, que por lá se precisava, era comprada a peso de oiro. Fazia frio de cair o nariz, a aguardente e o figo, era—de mais a mim, mais a mim—e os tanoeiros por conseguinte não tinham occasião de dobrar canella.

Anastacio, que já sabia do officio ás direitas, deitou-se á obra, empatou em madeira os pintos que juntára, e conseguiu montar uma tanoaria em grande, que em pouco tempo se afreguezou pelos bons modos do dono e bom preço das obras.

Quando o encontrei em Lisboa, acabava de casar com a promettida desposada, que trouxera da terra. A sua loja, que era uma das melhores da cidade, gosava de excellentes creditos: e o negocio corria o melhor possivel.

Pedro tambem tinha caminhado e muito; mas por estrada diversa. Pouco a pouco fôra lendo cada vez melhor, e escrevendo de fórma que levava as lampas ao mestre-escola do logar; parecia um treslado a lettra do rapaz.

O dono da quinta, a quem elle caira em graça pelos seus termos comedidos e vontade de saber, tirou-o d’aquelle labutar e mandou-o para uma mercearia sua em Lisboa, a servir de caixeiro. Era o que elle queria e em que melhor calhava, tanto que em pouco tempo se fez um merceeiro de enche-mão.

O patrão trazia-o nas palminhas, e dizia á bocca cheia: que não tivera nunca outro, que lhe chegasse tanto ás medidas.

Nem só o sr. José Esteves era d’esta opinião: a senhora sua filha, que se derretia para o rapasito, achava ao pae carradas de razão e fazia-se com terra de lhe chamar seu marido. Atrever-se a pedil-a, não era o Pedro capaz d’isso; mas o pae da rapariga, que deu na ferida, e que não era de soberbas, antes pelo contrario muito dado e maneiro, reconheceu que lhe convinha para genro um bom rapaz socegado e amigo de dar ordem á sua vida, e em poucos tempos tratou de os pôr a caminho do setimo sacramento.

Tambem vivia de grande quando lhe fallei, e a loja onde estavamos era do sogro; ou d’elle, que vinha a dar na mesma coisa.

Tinham acabado de me contar as suas historias, e ia-lhes perguntar, que norte tinha tomado Roberto, quando ao chegarmos á porta para vêr a gente que passava para a procissão, desembocaram de uma d’aquellas ruas uns poucos de grilhetas, que de barril ás costas, desciam lá das bandas do Castello e iam para o chafariz de Dentro. Não tive que perguntar, porque reconheci-o logo entre elles quando passaram diante da porta.

Vim depois a saber por que fôra ali parar. O vinho, e as patuscadas dos domingos, tinham sido a causa d’aquella desgraça.

Não deitava Nosso Senhor um dia santo a esta terra, que elle não fosse para a taberna, e que não sahisse de lá a não ser em miseravel estado. Em breve pozeram-no fóra do trabalho, porque não dava conta de si, nem se podia olhar para elle, de desmaselado que andava. Vendo-se sem trabalho, e sem ninguem o querer, ajuntou-se a uns poucos de vadios da terra, que passavam pelas peores firmas do logar.

Ao principio eram comesainas e bebedices: depois como não havia dinheiro, nem gente que lhes fiasse, nem vontade de trabalhar, começaram a pregar calotes, a commetter roubos, e quem sabe se mortes tambem.

Ao menos assim por lá se rosnava, e bem se diz: que n’estas coisas: «voz do povo, é voz de Deus.»

Um dia a justiça, que andava com os olhos n’elles, deitou-lhes a unha. Um dos que resistiu foi Roberto, e ao fugir á prisão, feriu de morte um dos cabos, que o queriam prender.

Foi condemnado ás galés por toda a vida: e a cumprir esta sentença o vi eu em Lisboa, no tal dia de festa do Corpo de Deus.

Agora vocês lá rapazes, que perceberam aonde eu ia dar na minha: pensem na historia que lhes contei, e vejam de que modo deverão passar melhor os domingos e dias santos.

Os bons dos maltezes não deram resposta ao narrador n’essa occasião; os resultados futuros deixaram vêr, porém, que as palavras do conto do tio Joaquim, não tinham sido deitadas ao vento.


V
Os retratos de familia[1]

Faz para as vindimas dez annos, que eu ouvi ao tio Joaquim esta historia.

Havia pouco que sahira da quinta, onde eu estava, o sr. Antonio Tavares, que passava por um dos fazendeiros mais ricos dos arredores.

Amanhava para cima de sessenta geiras de terra: e só de uva mandava perto de quinhentas caixas para embarque.

Era franco, alegre, e homem de boas petas; tinha pilhas de graça e parecia vender saude; emquanto a modos e linguagem, sabia o nome aos bois, e quando fallava de lavoira podia-se ouvir, discorria como um livro aberto.

Todos gostavam d’elle, por não ser de contos, nem de arcas encoiradas; só cuidava da sua vida, andando lizo no negocio como poucos. Ninguem lhe acceitava signal, porque em dando a sua palavra era como se apresentasse o dinheiro contado na palma da mão. Não constava que faltasse, nem se dava fé, de quem tivesse duvida em fiar d’elle fosse o que fosse.

Tinha vindo a comprar uns trigos, assistira ao carregar dos carros e sahira depois do trabalho acabado, n’uma vaca de cinco annos, esperta como um azougue e preta como um azeviche. Rira muito, contára muita coisa, e fizera bom negocio; porque lhe tinham dado o pão em conta por ser a venda redonda.

O tio Joaquim, que não era dos mais falladores, nem dos que se abria muito com os extranhos, conversára com o sr. Antonio Tavares, como quem de ha muito o conhecia: apertára-lhe a mão na despedida com ares affectuosos, e seguira-o com a vista até desapparecer na volta da alameda, fazendo feitios com o pau na terra do pateo, e resmungando entre dentes palavras que não entendi.

Esta excepção nos habitos do velho, aguçou-me a curiosidade, e perguntei-lhe se conhecia de ha muito o homem que d’ali saira.

—Se conheço!...—respondeu-me inclinando a cabeça de alto a baixo, compassadamente, duas ou tres vezes.

Havia tantas coisas n’aquella reticencia do tio Joaquim, que não pude resistir, e instei com elle para que me contasse a historia do sr. Antonio Tavares.

Tanto fiz, tanto fiz, que sentou-se ao meu lado n’um poial de tijolo, carregou um cachimbo de madeira, enfeitado com virolas de latão, como os que usam os campinos do Ribatejo, petiscou, accendeu-o e começou.

Mais palavra menos palavra disse o seguinte:

—Vae tanta differença d’este Antonio, ao de outros tempos, como vae da noite ao dia, e tanto que se eu não presenciasse esta mudança, não podia acredital-a ainda que m’a contassem.

Lá embaixo, ao pé do Joaquim Boleta, no recanto da azinhaga, morou por muito tempo o pae em companhia da mulher que veio a morrer de parto, quando este Antonio nasceu. Ali esteve, até que por causa da guerra com os francezes chamaram as baixas antigas e elle, como tinha sido soldado n’outros tempos, teve de partir deixando o rapaz entregue a uma visinha, boa mulher na verdade e que promettera tomar conta d’elle. Mas é mais facil ter um pouco d’azougue quieto em cima d’uma pedra, do que era conseguir, que o rapaz não fizesse por ahi obras de cabeça.

Não deitava Deus nosso Senhor um dia a este mundo, em que se não dissesse: lá apanhou o Antonio engeitado, (assim é que lhe chamavam), uma escamoucadella na cabeça, lá o aleijaram n’uma brincadeira, lá lhe deram uma cossa quando andava aos figos.

Era um rosario de coisas, que até fazia admiração como elle resistia; mas se o carrasco e o zambujeiro crescem, medram e enrijam ao desamparo por esses vallados, e não ha madeira como a d’elles para aguentar dura; não admira tambem que o rapaz enrijasse assim ao Deus dará e se fizesse um mocetão de mão cheia, esperto e guapo que era um regalo vêl-o.

Emquanto a velha Thereza foi viva ainda elle trabalhou alguma coisa para a sustentar, não muito, que lá no seu dizer, o trabalho era para os cães e não para as almas christãs; mas apenas a velha fechou o olho, adeus minha vida, foi um vadiar, que não é para dizer.

N’este comenos tinha um soldado, que viera da campanha passado pela terra, e entregára ao Antonio umas lembranças do pae, morto n’um ataque contra os francezes, recommendando-lhe o filho á hora da morte.

Minguada herança, que ella era. A farda do soldado, meia duzia de peças, se tanto, e o retrato do pae, que um seu companheiro tinha feito n’uma hora de vagar. Muito parecido, por tal signal; era elle por uma pena, só lhe faltava fallar.

Antonio chorou devéras, pouco se lembrava de seu pae; mas custou-lhe muito aquelle lance. E n’essa occasião mesmo deu mostras de boa alma que tinha, e que depois deixou vêr melhor lá para o diante, quando mudou de vida. Apesar de falto de dinheiro, não gastou comsigo nem um real da herança que recebera; uma parte empregou-a em mandar fazer um caixilho muito bonito para o retrato de seu pae, e o resto deu-o de esmolas aos pobres, pedindo-lhe que rezassem por alma do finado. Andou uns dias, que não parecia o mesmo, triste e regular no trabalho, depois tornou á antiga ou ainda peor se era possivel.

Quando tinha algum vintem de seu não paravam as patuscadas, as festas e os divertimentos; depois trabalhava pouco e de má vontade até arranjar dinheiro, e, mal o conseguia, eil-o que voltava á boa vida.

Mas, manda a verdade que se diga, esteve por vezes doente no hospital, viu-se em talas quando por ahi faltou o trabalho, vendeu, empenhou tudo, só não tocou, em occasião nenhuma, nem na fardeta, nem no retrato, que conservava á cabeceira da rabeca, onde dormia, como se fossem imagens do Senhor dos Passos ou orações do Justo Juiz.

Uma vez, vim a sabel-o ao depois, tinha-se-lhe acabado todo o dinheiro e não havia que fazer; o jantar havia de vir; mas d’onde, é que elle ainda o não sabia. Antonio foi procurar um ferro velho do logar e propôz-lhe a venda da enxerga: era o resto dos trastes, que tinha, e estava tão velha e tão suja, que nem uma de doze valia.

O ferro velho entrou, e mal deu com os olhos nas duas reliquias do pobre rapaz offereceu-se para lh’as comprar; mas inda bem o não tinha dito, já estava arrependido de o dizer, porque Antonio punha-o immediatamente no meio da rua com promessa de lhe fazer os ossos n’um feixe, se tivesse outra vez semelhante lembrança.

Assim passou algum tempo com a barriga ora em lua cheia ora em quarto minguante, até que uma gente, que para aqui veio lhe fez mudar o modo de viver.

Um velho tinha arrendado a quinta dos Fusis, para onde viera presistir em companhia de sua filha.

Elle andava pelos seus cincoenta annos: parecia homem de bem; mas casca grossa e pouco de graças; ella, mais bonita que uma imagem e mais bem posta que uma fidalga.

Quando íam no domingo á missa ou de tarde a espairecer por essas azinhagas, o velho de cabeça branca, corpo um tanto curvado, bigodes grandes, sobrancelhas espessas, parecer carregado e faces enrugadas; ella alta, esbelta, de olhos pretos e vivos, cabello castanho, faces córadas, feições alegres e cara de riso para todos, pareciam a noite e a madrugada, ou o inverno e a primavera que se combinassem para melhor parecer unidos um á outra.

Os rapazes todos derretiam-se para ella, mas o pae que não tinha cara de muitos amigos, impunha-lhes respeito e conservava-os de largo; e d’ahi ella assim mesmo sempre alegre, mas toda senhora, dava tambem a entender, que não estava resolvida a acceitar a côrte a qualquer badameco.

Antonio vio-a um dia e ficou perdido de cabeça; desde essa occasião começou vida nova: e o rapaz extravagante e vadio, começou a ser homem.

Era tempo, tinha quasi vinte e cinco annos.

Mas a vida que seguiu, foi tão differente da antiga, que não parecia o mesmo.

Os dias passava-os a trabalhar, as noites a aprender a lêr, porque o mestre do logar lh’o ensinava a troco dos domingos, em que lhe trabalhava no quintal, e as horas de sesta ou de jantar passeando pela frente da casa da menina Maria, que o enfeitiçára: mas para bem, que são os melhores feitiços.

E o caso é que o maganão do Antonio tinha bom gosto, por que mocetona mais perfeita não a havia n’estas tres leguas ao deredor. Ia-se desenvolvendo e medrando, que era um louvar a Deus, e não seria por sua parte, que podesse resultar má fama aos ares do logar.

Bonita já ella o era, mas enfezada e doentia por amor d’aquelle mau respirar que as cidades fazem; apenas porém desatou por ahi a passear e a espairecer, entrou a córar, que nem uma pera de Santo Antonio, e a encorpar que nem uma maçã bemposta.

Se ella reparava no rapaz, nem o sei eu, nem ha quem o jure, porque isto de mulheres, nem o demo as entende; mas que o não visse com maus olhos é de crêr, porque o Antonio, não tinha nada que se deitasse fóra e era um rapaz perfeito a mais não poder ser.

Cá por a terra não se fallava n’outra coisa e não havia tenda nem barbeiro, onde se não désse á taramella a tal respeito. Tudo em bem, que em mal não havia rasão, nem atrevimento para tanto, por que com Antonio ninguem brincava, e todos se pellavam de medo de um certo marmelleiro ferrado, que elle trazia e que não era palito para dentes, nem vime de passar creanças.

Tanto fallaram, tanto fallaram, que o caso foi aos ouvidos do pae, que já andava com a pedra no sapato por tanto rondar de porta e tanto encontrar o Antonio nas visinhanças da quinta.

Um dia, que acabava de fazer a barba, dois maltezes que estavam no barbeiro, e que o não conheciam, entraram com pé de conversa a respeito do tal namoro e deram a entender, lá por meias palavras que o Antonio se fazia com terra de casar com a menina Maria.

O sr. José Alves, assim se chamava o pae, não quiz ouvir mais nada; atirou com uma de trez para cima da mesa do barbeiro, e foi se como um raio a casa do Antonio.

Boas tenções não tinha elle. Ia fumando, e vermelho como um pimentão, saccudia um camolete que levava, que mais parecia um bastão de tambor-mór, do que uma vara de encosto. Se encontrasse o rapaz no meio do caminho, atirava-se a elle, e não o deixava em quanto lhe encontrasse osso inteiro.

Era um sabbado e quasi ao sol posto: o quarto estava escuro e Antonio, que voltára mais cedo do trabalho, tinha-se atirado para cima da cama, farto de lidar e sem poder comsigo.

Apenas por uma claraboia, que havia no telhado, entrava alguma luz, e essa ia bater de chapa no retrato, que estava á cabeceira; parecia pessoa viva, e até mettia respeito olhar para elle.

É de crêr que o sr. José Alves se não demorasse a bater á porta, atirou-lhe um encontrão e deitou-a dentro ás primeiras rasões.

Antonio ia a agarrar no pau, que tinha ao pé de si, e saltar na visita, quando reconheceu o pae de Maria e ficou varado; este ia para fallar, quando deu com os olhos no retrato e pasmou. As lagrimas saltaram-lhe dos olhos, e, sem mais satisfações, perguntou a Antonio, apontando-lhe para o painel:

—De quem é aquelle retrato?

—De meu pae, respondeu o rapaz.

—De Antonio, do meu velho amigo!—e em vez de se atirar á paulada ao namorado da filha, atirou-se a abraçal-o que parecia querer metter-lhe as costellas dentro.

O que causára aquella mudança, já o senhor adivinha o que foi, continuou o tio Joaquim concluindo a sua narração, o sr. José Alves era o tal camarada de Antonio, que trouxera o retrato, quando o rapaz ainda era um fedelho, e a quem o pae o recommendára á hora da morte. Tinha continuado a servir depois que passára pela terra a cumprir o testamento do moribundo: e de batalha, em batalha, esquecera-se do companheiro, do filho, e da promessa.

Antonio foi para casa do velho, entrou a administrar-lhe o que elle tinha e augmental-o com o trabalho e a boa vontade; o casamento que já era de gosto do sr. José Alves e a que a rapariga não dizia que não, fez-se d’alli a pouco... e lá tem vivido como Deus com os anjos até que o velho morreu, deixando a filha e o genro de posse da fortuna que o senhor sabe.

No dia seguinte, áquelle em que o tio Joaquim me contára esta historia fui aos Fusis procurar o sr. Antonio Tavares e receber o dinheiro dos trigos.

Havia muito que não entrava n’uma quinta tão bem cultivada, nem via em fazenda alguma, n’aquelles sitios, tanta ordem, nem tão bom gosto.

Os systemas mais modernos, os instrumentos mais appropriados, as descobertas de maior importancia pratica, tudo ali estava aproveitado, com uma tal arte, que bem mostrava ter sido, coisa rara entre nós, a theoria unida á experiencia com muito criterio e bom resultado. A dos Fusis poderia servir de quinta modelo, se os fazendeiros da terra, afferrados á rutina, cuidassem de modernismos ou tratassem de innovações.

Apenas soube, que eu ali chegára o sr. Antonio Tavares, mandou-me entrar para a casa de jantar, onde estava com a sua familia; Maria, que devera ter sido tão formosa, como o tio Joaquim o dissera: e duas creanças, que se tinham levantado da mesa e que brincavam ali para um canto.

A casa, posto que conservasse aquelle aspecto severo, que ainda se denota n’algumas fóra de Lisboa, que fosse de ladrilho, com as paredes revestidas d’azulejo até meio, e o tecto em osso, com as grossas vigas de castanho do emmadeiramento á mostra, era alegre, porque recebia muita luz de tres rasgadas janellas, que deitavam sobre uma horta. A mobilia era de pau santo torneado, e n’um grande armario meio aberto via-se boa louça da India, e algumas peças d’uma baixella de prata. No logar de honra dava-se com o retrato a lapis de Antonio e com um outro mais moderno, a oleo, que devia ser do sogro: uma santa, que não sei ao certo qual era e dois quadros de fructas ornavam as paredes.

Tudo reunido dava á casa de jantar um certo ar patriarchal, que infundia respeito e inspirava felicidade.

Antonio depois de me pedir que me sentasse, e de me offerecer um copo de vinho da lavra, levantou-se e foi a um contador buscar o dinheiro da compra, que já estava embrulhado e prompto desde a vespera; conversámos um pouco, e quando me despedia, pediu-me que o visitasse a meudo, porque estimaria vêr-me em sua casa.

—Voltarei, lhe prometti, e voltarei em breve: o tio Joaquim contou me a sua vida, e apenas o conheci, comecei a respeital o.

—Bondades suas e do tio Joaquim, que é muito velho, não ha razão para o que diz. Fui rapaz, fiz o que todos fazem, emendei-me a tempo, se é que não foi tarde: se alguma virtude tive, e essa mesma bem m’a têem pago aquelles,—disse-me olhando para Maria e para os pequenos,—foi não me esquecer no meio de todas as minhas doidices, que me tinham ensinado a Honrar pae e mãe.


VI
O fructo prohibido