CAPITULO CVIII

Do que o Condestabre filho do Infante D. Pedro fez, estando entre o Tejo e Odiana

Estes dias com todalas torvações e necessidades do tempo, o Condestabre filho do Infante D. Pedro nunca lhe acodiu, e não seria assi sem seu mandado, antes sempre esteve na comarca d'entre Tejo e Odiana, onde tinha o Mestrado d'Avis com suas fortalezas, e mais os castellos das villas d'Elvas e de Marvão, contra o qual fizeram tambem a El-Rei suspeita, e que se devia segurar d'elle. Especialmente que pela liança e amizade que o Infante seu padre com o Condestabre e Mestre d'Alcantara de Castella tinha feita, podia com entrada de gentes estranhas fazer a este reino muito dano, pelo qual acordou El-Rei de enviar sobr'elle, que estava então na Villa de Fronteira, D. Sancho, conde de Odemira como fronteiro mór.

E davam fama pelo reino para mais indinação do povo, que o Infante D. Pedro tinha ordenado com ajuda de Castella prender El-Rei e se senhorear do reino, e assi lançar n'elle grandes pedidos, e outras muitas opressões se o mais tempo regera.

E sendo o Condestabre d'esto certificado, vendo que Fronteira não tinha força nem disposição para n'ella manter cerco nem esperar afronta, aconselhado sobr'isso com bons cavalleiros e pessoas d'autoridade que comsigo tinha, se passou a Marvão, onde confiando na bondade e segurança da fortaleza esteve alguns dias. E porque o conde D. Sancho todavia se fazia prestes para o ir cercar, esses cavalleiros que com o Condestabre eram vendo-o com alguma fantesia de resistencia, a que a nobreza e esforço de seu coração o inclinava, consirando que não sómente á sua honra não cumpria faze-lo, mas que nos feitos do Infante seu padre podia muito danar, lhe disseram:

«Senhor, estas maginações de defensão em que vos vemos, ou de esperardes no campo esta gente que vem, são por agora escusadas; porque a defesa d'armas e homens que tendes é nada em comparação dos que vem sobre vós, se cuidaes dar-lhe praça, e tambem para quem soes, e para o sangue de que descendeis, sabei que seria grande abatimento vosso esperardes cerco, quanto mais tão desesperado de socorro como sabeis que este seria, principalmente cercando-vos pessoa de menos condição que vós e com tanto poder a que não podesseis resistir, em especial vindo com nome d'El-Rei nosso Senhor, a que seria feio desobedecer, e mais se o assim fizesseis seria em todo desacatar ao Infante vosso padre, e não cumprir sua vontade nem mandado, pois vos deve lembrar que a voz e nome, e o serviço d'El-Rei nosso Senhor, sobre tudo vos encommendou e encommenda cada dia, pelo qual nosso conselho é, que logo vos passeis aqui a Valença, que é do Mestre d'Alcantara, em que ha esperança d'achardes melhor acolhimento, e leixae em vossas fortalezas vossos alcaides com a gente que as guardem e tenham por vós, com mandado vosso, que se El-Rei lh'as pedir ou enviar pedir, que descarregando-os de vosso preito e menagem, lh'as entreguem. As quaes levemente tornareis a cobrar se Deus pozer os feitos do Infante vosso padre em bem e assesego, como a elle praza que seja».

Ao qual conselho o Condestabre obedeceu e o cumpriu, e leixou em Marvão por alcaide um Arthur Gonçalvez, que por mandado d'El-Rei entregou a fortaleza. E o Condestabre se passou a Valença, onde por principio de suas fortunas começou logo d'espremenmentar as grande malicias e sobeja ingratidão do Mestre d'Alcantara, que em tudo contrariou, e com nada lhe respondeu á muita honra e mercê, favôr e amparo, que em suas grandes necessidades passadas do Infante D. Pedro poucos dias havia que recebera, como atrás fica.