CAPITULO CIX

De uma carta que a Rainha enviou ao Infante D. Pedro seu padre, sobre um conselho que acerca d'elle se tivera para sua morte ou destruição, e do conselho e determinação que o Infante sobr'ella teve

Evolvendo o processo ao Infante D. Pedro, estando elle em Coimbra não sem mortaes padecimentos, pela incertidão que tinha do fim que sua vida e feitos haveriam, foi-lhe dada uma carta da Rainha sua filha, por Vicente Martins seu secretario, porque lhe notificava, «que em um conselho que sobre seus feitos então se tivera, fôra contra elle determinado que El-Rei o fosse cercar, e que dando-se ou tomando-se por força, houvesse por pena de suas culpas uma de tres cousas. Ou morto, ou carcere perpetuo, ou desterro para sempre fóra do reino, para execução do qual El-Rei partiria contra elle aos cinco dias de Maio». E bem é de crêr que a Rainha lhe não enviaria esta carta sem espresso consentimento e mandado d'El-Rei, cujo bem e amor ella teve sempre em tanta estima, que pelo conservar e não perder nem minguar como mui virtuosa que era, nunca nos feitos do Infante seu padre contra o gosto e contentamento d'El-Rei se quiz entremeter. Esta carta foi dada publicamente ao Infante, que depois de sem alguma mudança nem torvação a lêr, com quanto n'ella viu que a morte começava já de bater ás portas de sua vida, elle a cerrou em sua mão e com a cara segura, e mais alegre que triste, esteve um pedaço perguntando ao messegeiro por novas da saude e bôa disposição d'El-Rei seu Senhor, e por as cousas em que se desenfadava, e porque as respostas redundavam todas em louvores e perfeições d'El-Rei, o Infante mostrava por isso tomar muita gloria sem alguma mestura da mortal pena que já recebera e tinha. E com este despejo se assentou a comer, e depois de acabar se recolheu a sua camara, onde fez logo vir esses principaes que com elle eram, perante os quaes mandou lêr a carta que tinha, e como a sustancia d'ella era já espantoso pregão da ira d'El-Rei, ficaram todos mui torvados, mais e menos segundo a bondade e esforço do coração que cada um tinha. E o Infante não dissimulando já sua infinda paixão e tristeza, com as mãos e braços abertos alevantou os olhos ao ceo cheios d'agoa; porque nos taes casos quando fallava assi o tinha por condição natural. E disse logo:

«D'estes agravos e perseguições em que justiça, razão, nem humanidade não consente, eu primeiramente me queixo a Deos como a só e principal Senhor de todalas cousas, e depois á Real casa de Portugal em que nasci e me criei, e a que até agora bem e lealmente sempre servi. E assim á casa d'Inglaterra em que de sangue tanta parte tenho, e finalmente me agravo a vós meus criados, amigos e servidores como a participadores d'esta minha desaventurada fortuna, aos quaes como a companheiros de meus conselhos e perigos, direi em breve n'este caso minha tenção, que é tomar por melhor, mais honra e mais descanço para mim a derradeira parte d'esta determinação que é a morte; porque das outras de que uma é ser desterrado, Deos nunca queira que eu filho ligitimo d'El-Rei D. João, que com tanta honra uma vez sahi de seus reinos, fazendo a muitos em muitas provincias e senhorios estranhos grandes graças e mercês, haja d'andar sobre minha velhice por reinos e terras alheias, pedindo esmolas com muito trabalho e grande deshonra minha. Pois da outra que é ser preso, e que sobre cincoente e sete annos que hei haja de consentir ferros de justiça em minha carne, não sei a quem não pareça ser muito menos mal morrer, e este por mais bem e maior honra escolho para mim, como disse. Mas porque até agora em todas minhas cousas e alheias que tratei sempre, me prouve ser bem aconselhado, n'esta que me parece ser a derradeira, o devo e queria ser melhor. E por isso vos rogo e encomendo, que esguardadas bem todalas circumstancias d'esta fortuna, e a callidade e priminencia da minha pessoa, queiraes sobre tudo consirar, e cada um de manhã me dizer seu parecer, lembrando-lhe que meus imigos segundo esta nova determinação devem logo vir sobre mim, e partir de lá a cinco dias de Maio. E que diga meus imigos, nunca por amor de mim, e por segurança de minha limpeza entendaes que o digo por El-Rei meu Senhor, nem que o meto n'esse conto. Porque em caso que sua mercê venha com mostrança de ira sobre mim, sempre crerei que seu corpo virá com enganos de meus imigos forçado, a que sua nova edade não sabe nem póde resistir, mas que sua vontade sempre para mim e minha honra ficará livre e sã, como se espera de Principe bom e agardecido como elle é. E porém meu primeiro movimento é n'esse mesmo dia partir d'aqui, e os ir buscar e esperar no campo, e pedir a Deos e a El-Rei meu Senhor justiça e vingança d'elles, como de qnem tão sem razão tanto damno e perda me tem feito. E quando se por meus peccados assi não seguir, contentar-me hei acabar como cavalleiro. E porém d'agora para em todo tempo e sempre protesto, que seja com verdadeiro nome de bom e leal vassalo, e servidor d'El-Rei meu Senhor.»