CAPITULO CX
Dos conselhos desvairados que ao Infante sobre sua proposição foram dados
Ao outro dia foram todos juntos, e leixando alguns apontamentos que alguns n'este caso fizeram, finalmente no conselho houve tres conclusões sustanciaes e em si desvairadas, e para cada uma não falleceram estas vozes. A primeira foi do doutor Alvaro Affonso, homem assaz prudente e bom jurista, em que depois de muitas palavras sumariamente concludio «que o Infante como cavalleiro, e principalmente como catholico e bom christão que era, não devia por si ir buscar a morte, mas antes espera-la, em que havia muitas esperanças de vida, e quando sem razão lh'a quizessem dar, que com grande fortaleza d'animo devia de defender sua vida e honra, para que allegou muitos direitos e trouxe mui autorizados exemplos, e que elle por mór resguardo de sua lealdade e mais segurança de sua pessoa, se devia fortalezar em Coimbra, e bastecer e prover d'armas e gentes os castellos de Monte Mór o Velho e de Penella, e aguardar El-Rei, ainda que com todo seu poder o quizesse cercar, e que sendo a cidade tão forte, e tendo elle tanta e tão boa gente comsigo, El-Rei por força o não poderia logo tomar, e que para lhe poer cerco prolongado, ou leixar sobre elle fronteiros, não havia disposição nem possibilidade para isso, e que com Monte Mór teria tambem a Foz de Buarcos, que em suas afrontas se sobreviessem, sempre seriam portas abertas para sua salvação, e que por esta maneira não encurtaria como desesperado sua vida, e como prudente alongaria o tempo, que emfim por sua condição tudo com honra remediaria, especialmente que El-Rei assi como crescesse nos dias, assi iria crescendo e esforçando seu juizo, com que entenderia os enganos em que o traziam, a que sua nova idade por então não alcançava, quanto mais que a Rainha sua filha estava em esperança de emprenhar, e com a geração que Deus lhe daria, El-Rei se acharia mais obrigado para o amar e honrar, e ella teria mór atrevimento de em seus feitos o requerer. E que o povo que com malicias alheias andava emnevoado, cansaria e amansaria de seus alvoroços, e que em fim por partido sempre lhe fariam o que elle quizesse, pois com isso claramente parecia elle com medo da ira de El-Rei, e por necessidade se defender, e não com vontade de o desservir nem desobedecer, pois todos sabiam que elle o tinha e amava por seu verdadeiro Rei e Senhor.»
E com este voto e parecer se foram D. Fadrique, Martim de Tavora, Aires
Gomes da Silva, João Corrêa, João de Lisboa, secretario, e Diogo
Affonso, e Pedro de Tayde, Dayão de Coimbra, que eram todos pessoas de
bom entender, esforço, e autoridade.
Eram outrosi com o Infante n'estes conselhos Luiz d'Azevedo, e Lopo d'Azevedo, irmãos, e Martim Coelho, e Pero Coelho, tambem irmãos, os quaes por serem entre si por casamentos liados seguiram todos outro acordo, dizendo «que o Infante por maneira alguma não devia esperar cerco, cá não era honra, ao menos por respeito da Garrotea que tinha, nem proveito nem segurança, mas que leixasse suas villas e fortalezas em bom recado, e que com a outra sua gente se saisse de Coimbra, e passasse o Douro, onde n'aquellas comarcas teria a gente das terras de Lopo d'Azevedo, e de Martim Coelho, e Ruy da Cunha, e d'Aires Gomez, e d'outros muitos, com que seguraria sua pessoa e d'aquelles que o seguissem, e que d'alli poderia tornar á Beira, e passar-se a riba do Diana, e andar pelas terras do Condestabre seu filho; porque El-Rei o não podia tanto seguir, que não andasse sempre diante, ou desviado a seu salvo, aconselhando com isto que não sómente trouxessem a voz e nome d'El-Rei seu Senhor, mas muito mais as vontades para o bem e lealmente servir, e com a necessidade e fadiga que os do reino todo por isso receberiam, conhecendo a sem razão de suas perseguições, ousariam dizer a El-Rei a verdade e as falsidades com que seus imigos o moviam contra elle, de que se seguiria que ou o leixariam livremente, ou lhe fariam tal partido de que fosse contente.»
E com isto apontaram outras minguas, trabalhos, despesas e pecados, que o cerco por sua condição trazia comsigo, pelos quaes o devia fugir e avorrecer.
O conde d'Abranches tomou só outra conclusão, ás dos outros que apontei em todo contraira, allegando e tocando com largas palavras, muitas causas, razões e exemplos de Principes passados, porque não devia esperar cerco, e outras tantas para não dever andar pelo reino, especialmente com tão pouca gente, que muitas partes pela estreiteza dos passos, e pelo grande poder d'El-Rei, se podia atalhar e acolher no meio com muita deshonra sua, e assinado perigo seu e dos seus. E concludio com a tenção do Infante que foi «antes morrer grande e honrado, que viver pequeno e deshonrado, e que para isso vestissem todos os corpos de suas armas, e os corações armassem principalmente de muita fortaleza, e que se fossem caminho de Santarem, não como gente sem regra desesperada nem desleal, mas como homens d'acordo, e que iam sob a governança e mando de um tal Principe e tal capitão, que a El-Rei seu Senhor sobre todos era mais leal e servidor mais verdadeiro, e que mandasse a El-Rei pedir e requerer, que com justiça o ouvisse com seus imigos, que lhe tão sem causa tanto mal ordenavam, ou lhe desse com elles campo, em que de suas falsidades e enganos, elle por sua limpeza e lealdade faria que se conhecessem e desdissessem. E quando El-Rei alguma d'estas cousas não houvesse por bem, e todavia quizesse vir sobre elle, que então defendendo-se morressem no campo como bons homens e esforçados cavalleiros.