CAPITULO CXXXVII

Da treladação e exequias que se fizeram aos ossos do Infante D. Pedro, e como a Rainha sua filha logo falleceu, e os ossos da Rainha D. Lianor foram de Castella trazidos ao mosteiro da Batalha

E além do grande amor e affeição que entre elle e a Rainha havia, ainda pelo nascimento do Principe se dobrou muito mais, com que a Rainha já mais confiada requereu e pediu a El-Rei, que os ossos do Infante seu Padre como lhe tinha prometido não andassem provando tantas e tão vis sepulturas, e quizesse que fossem trazidos a Lisboa, e d'ali os levassem ao mosteiro da Batalha; porque alli faria por mais sua honra e mór seu estado.

E como quer que isto fosse pelo duque de Bragança e por seu filho o marquez muito contrariado, El-Rei posposto tudo o concedeo. Não querendo porém que o senhor D. Pedro Irmão da Rainha, que depois da morte de seu padre andava em Castella desterrado, viesse a suas exequias e saimento, nem a este reino; porque o tinha por seu alvará assi prometido ao dito duque. E tinha dado ao Infante D. Anrique o Mestrado d'Avis, que tinha D. Pedro filho do Infante D. Pedro. Mas o Papa nunca lh'o quiz conceder, dizendo que se não podia confiscar nem elle o perder como as outras cousas seculares. Pelo qual os ossos do Infante com assaz honra foram logo trazidos ao mosteiro da Trindade de Lisboa, e d'hi ao mosteiro de Santo Eloy, onde foram em grande triumfo e muita veneração postos em tumba e estrado á vista de todos.

E concertado o dia em que os haviam de levar á Batalha, El-Rei e a Rainha se foram diante para os esperar no mosteiro da Batalha, a que foram chamados e vieram todolos senhores e senhoras principaes do reino, salvo o Infante D. Fernando, e o marquez de Valença, que tomaram outra opinião contraira ao prazer e contentamento da Rainha.

E o cargo principal da treladação e acompanhamento da dita ossada ficou ao Infante D. Anrique, o qual vestido não de dó preto, mas d'aluz escuro, e assi muitos senhores que eram com elle fez com muita pompa e grande cerimonia tirar a dita ossada do dito mosteiro de Santo Eloy, e com solemne procissão de Bispos e cabido, e muitas ordens e clerezia, que para isso foi junta, e com grande numero de tochas acesas a levarem á Sé. E d'hi pela rua Nova, acompanhada do Infante e de muita gente com que chegaram á Porta da Mouraria, e de hi se tornaram, e foi com ella o Infante D. Anrique com muitos senhores, que com grande honra e com muitas orações, que de continuo iam pela alma do Infante rezando, a levaram ao dito mosteiro da Batalha, d'onde El-Rei e a Rainha com solemne procissão acompanhada de muitos prelados, abades e clerizia e de muita e nobre gente sahiu a recebe-la.

E as senhoras e mulheres que alli foram, levaram algum sinal de dó que não foi de veos pretos, mas tintos como allionado escuro. Fez-se o dito saimento com essa, e com toda outra perfeição e solemnidade que se podia e devia fazer a um tal Principe natural, sem alguma magoa fallecido. Acabado o qual, entrando já o inverno, El-Rei e a Rainha se foram para a cidade d'Evora, onde a Rainha adoeceo logo de fruxo de sangue, de que nos paços de S. Francisco onde pousava, a dois de Dezembro do dito anno de mil e quatrocentos cincoenta e cinco logo falleceu, cuja morte foi d'El-Rei muito chorada e sentida, e assi de todos, em especial dos criados e servidores do Infante seu padre.

A causa de sua morte segundo foi accidental e arrebatada, por maginação dos mais foi attribuida a peçonha que dos imigos de seu padre por sua segurança disseram que lhe fôra ordenada, e como quer que para isso houve muitas conjecturas e presunções, porém da certa verdade Deus é o sabedor.

Foi seu corpo levado ao mosteiro da Batalha, onde jaz soterrado per si em uma capella do cruzeiro. E d'hi a um mez que foi no Janeiro seguinte de mil e quatrocentos cincoenta e seis, El-Rei lhe fez o mais honrado e solemne saimento que até então por Rainha d'estes reinos se fizera. A que vieram ao dito mosteiro todolos senhores e senhoras, e Prelado, abades e priores de todo o reino, e toda outra gente de sorte sem excepção.

N'este anno logo depois da morte da Rainha, El-Rei enviou pela ossada da Rainha D. Lianor sua madre, que jazia em Toledo onde falleceu como atrás fica, a qual com grande honra, e com muita e nobre gente foi trazida a Elvas, onde El-Rei com todolos grandes e Prelados de seu reino a foi receber, e a levou ao mosteiro da Batalha, em que com a devida solemnidade e cerimonia, que em tal auto e a tão alta Rainha se requeria, foi lançada com El-Rei D. Duarte seu marido.