CAPITULO CXXXVIII

Como El-Rei outra vez acceitou a crusada contra os turcos quando fez os Cruzados, e com os percebimentos que para isso fez passou em Africa e tomou aos mouros a villa d'Alcacere

E no anno de mil e quatrocentos e cincoenta e sete annos, veiu a estes reinos por delegado do Papa Calisto, um Bispo de Silves português, homem de bom saber e grande autoridade, que a El-Rei trouxe a Cruzada contra os turcos, com grandes e piedosas graças e perdões da Sé Apostolica, assi como sobre o caso foram outros a outros reinos e provincias de christãos.

E El-Rei porque de sua real condição era para honrosos feitos mui inclinado, consirando a obrigação em que estava pela offerta e aparelho que para isso já fizera que não cumprira, vendo-se em melhor disposição e com menos pejos, por razão d'estar sem mulher, e que para segurança de sua direita sobcessão tinha filhos ligitimos, elle com grande alegria e muita devoção, e com todalas pessoas principaes do reino acceitou a dita Cruzada. Na qual se offereceu servir com os ditos doze mil homens por um anno á sua custa, como d'antes prometera, para que tinha d'ajuda muitas armas que comprara, e navios que mandara fazer, e assi outras muitas cousas para tal perseguimento mui necessarias e proveitosas.

E fazendo fundamento, e crendo que todolos outros Reis e Principes christãos com suas pessoas, gentes e forças ajudariam como elle n'este santo proposito, mandou logo Martim Mendez Berredo, fidalgo de sua casa, e a elle mui acceito, a El-Rei D. Affonso de Napoles seu tio, para d'elle saber e se enformar muitas cousas que por seu aviso lhe cumpriam, e assi lhe requerer e trazer mandados e provisões suas, com que em seus reinos e terras, e principalmento em Secilia e na Pulha lhe desse por seu dinheiro bitualhas e mantimentos, onde El-Rei era aconselhado que com mais seu proveito e menos trabalho se podia fornecer, mas o dito Berredo não achou em Napoles nem Italia, aquelle percebimento nem desejo que para tal empresa cumpria, nem como El-Rei cuidava, de que logo avisou El-Rei.

N'este tempo e no fervor d'esta Cruzada, andava ainda desterrado em Castella o senhor D. Pedro, filho do Infante D. Pedro, que com muita paciencia de grandes necessidades e desaventuras, que em seu desterro soportava, e com uma louvada temperança, que em suas fallas e obras para El-Rei e para o reino sempre teve, obrigou e comoveu El-Rei para o retornar em seus reinos e lhe fazer aquella honra e mercê que elle por muitas causas merecia, especialmente porque o duque de Bragança, como viu a morte da Rainha, não o contradisse com tanta instancia nem com tanto receio, como em sua vida d'ella fazia; porque tinha uma promessa d'El Rei, que o dito D. Pedro em vida do duque sem seu prazer não viesse a estes reinos, da qual desistio. E El-Rei por isso lhe alevantou o desterro, e o convidou para a Cruzada, com fundamento de o levar comsigo, a que elle obedeceu, e veio a estes reinos bem acompanhado, e logo para a mesma Cruzada invencionado com muita gentilleza foi d'El-Rei e da côrte com muita honra e gasalhado recebido, e El-Rei lhe leixou o mestrado d'Avis, de que ante de seu desterro e por morte do Infante D. Fernando fôra provido, e deu-lhe mais seu honrado assentamento, com que sempre serviu mui leal e honradamente, até que de Ceuta se foi para Barcelona como se dirá.

E com o grande desejo e louvado alvoroço que El-Rei tinha para esta santa viagem, mandou novamente lavrar d'ouro fino sobido em toda perfeição, a moeda dos cruzados, em cujo peso e não preço mandou sobre todolos ducados da christandade acrescentar dois grãos, por tal que por terras tão alongadas e nações tão diversas como as porque esperava de passar corressem e se tomassem sem alguma duvida; porque em seu tempo e d'El-Rei D. Duarte seu padre, de ouro não se lavrou outra moeda, salvo escudos d'ouro baixo, que em reinos estranhos se tomavam com grande quebra e muito pejo.

E tendo El-Rei com seu animo não menos catholico que esforçado, com innumeraveis despesas, feitas e aparelhadas todalas cousas e provimentos que cumpriam, o notificou assi á mór parte de todolos Reis e Principes e provincias de christãos. E finalmente nunca d'algum por verdadeira obra, nem sómente fingida mostrança, pôde entender que em seu piedoso trabalho e perigo tão conhecido, o teria por parceiro nem ajudador, antes claramente foi conhecido que se El-Rei por abatimento de todos tal movimento fizera, que por vingança da injuria e quebra que n'isso recebiam lhe ordenaram coisas com tal cautella, com que por força desistira da empresa, com muita despesa e pouca sua honra.

Pelo qual tudo bem visto e examinado em seu conselho que teve, ajuntando tambem outras muitas contrariedades e inconvenienentes que no reino e fóra d'elle em muitas cousas e de grande perigo podiam recrescer, foi El-Rei finalmente e sem contradição aconselhado que na empresa da Cruzada se não entremetesse, e que repousasse, regendo em paz e justiça seus reinos e vassallos, até que a visse tomar e proseguir a outros Principes, e que então obraria n'isso como o tempo e a razão o aconselhassem, ou se quizesse por exercicio de sua devoção, e por elle parecer verdadeiro ramo dos excellentes e reaes troncos de que procedia, podia passar em Africa, e tomar aos infieis algum lugar em que Deus fosse servido, e sua fé mais acrescentada, pois era guerra da mesma calidade, e que a elle com mais honra e mór segurança d'Espanha mais pertencia. E este acceitou El-Rei por meio mais de sua inclinação e contentamento, e no conselho que logo sobr'isso teve foi acordado que fosse á cidade de Tangere, sobre que acordou de levar vinte cinco mil homens de combate, afóra a outra gente do mar e serviço, para que fez seus percebimentos, e ordenava passar logo n'este anno de mil e quatrocentos e cincoenta e sete. Ao que deu total impedimento sobrevir crua pestenença á cidade de Lisboa, onde da embarcação principal se fazia fundamento. Pelo qual El-Rei foi conselhado que sobrestevesse e leixasse por então a guerra dos mouros pela não tomar com a ira de Deus e contra sua vontade.

E sobre esta determinação, que para seu desejo foi de mortal tristeza se passou á comarca d'entre Tejo e Odiana, e estando em Estremoz, por certidão que houve dos danos e roubos que dos franceses os seus vassalos no mar recebiam, acordava de mandar em guarda da costa o almirante Ruy de Mello com vinte náos grossas e outros navios, e com muita gente, em especial a mais limpa de sua côrte. E estando já tudo ordenado e provido, e a frota com as vergas altas para partir, vieram a El-Rei cartas do conde d'Odemira, que era capitão de Ceuta, como por avisos certos que tinha, El Rei de Fez vinha sobr'ella para a cercar, pedindo-lhe provisão e ajuda e soccorro quando cumprisse. Da qual cousa sendo tambem avisado o Infante D. Fernando, veiu logo a El-Rei pedir-lhe licença para ir ao socorro, e assi o fez o marquez de Villa Viçosa, de que El-Rei se escusou; porque lhe descobriu que sua determinada vontade era passar em pessoa, e trabalhar por tomar algum bom lugar, com desejo de vir em sua defesa e cobramento El-Rei de Fez, para lhe dar batalha e acabar com elle estes rebates, e elles assi o aprovaram.

E para socorro de Ceuta enviaram diante alguns senhores, com fundamento d'El-Rei ir após elles, mas não foi, porque El-Rei de Fez como deu vista a Ceuta logo se volveu. Porque esta determinação d'El-Rei ir sobre Tangere foi ao conde D. Sancho revelada, El-Rei por seu conselho a mudou, e converteu em Alcacer Ceguer com fundamento e razões que a bem de conquista e a necessidades do reino cumpriam, a que por sua evidencia que apontou, se deu inteira auctoridade. Pelo qual El-Rei acordou, que por razão da má disposição de Lisboa que ainda não cessava, sua embarcação fosse em Setuvel, e o marquez de Valença fizesse a outra no Porto, e o Infante D. Anrique a do Algarve.

E tudo se aparelhou e fez prestes com muita brevidade e trigança, para que foram ajuda e aviamento os percebimentos passados.

El-Rei, d'Estremoz se foi a Evora, e hi leixou seus filhos, e com elles D. Briatiz, e Diogo Soarez d'Albergaria seu marido, que por sua fidalguia, bondades, e grande saber foi dado ao Principe por aio, e até sua morte sempre o foi.

Veiu-se El-Rei a Setuvel para logo embarcar, em que sobreveiu alguma torvação pela grande doença de febre em que achou o Infante D. Fernando seu irmão, de que Deus em breve o livrou, tendo elle já mandado que por não ficar o levassem, e assi doente em um leito o metessem no mar.

E um sabado, derradeiro dia de Setembro, do anno do nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil quatrocentos e cincoenta e sete, depois d'El-Rei ouvir sua missa solemne e prégação mui devota, foi em procissão armado, e não de todas armas, até os bateis, acompanhado de sua guarda e de muita e mui luzida gente, e n'elles bem remados e ricamente toldados se foi á sua náo, que se chamava Santo Antonio, e com elle o Infante D. Fernando, e o senhor D. Pedro, que alli veiu com gentes e concertos que muito louvaram, e o marquez de Villa Viçosa com D. Fernando, e D. João, seus filhos, e D. Alvaro de Castro, e Pero Vaz de Mello, e outros muitos senhores e fidalgos, com que El-Rei do dito porto partio com noventa vellas.

E á terça-feira seguinte, tres dias d'Outubro, pela manhã, dobraram o cabo de S. Vicente, e chegaram á villa de Sagres, onde o já esperava o Infante D. Anrique, que a El-Rei e a todos os que sairam em terra fez falla em grande perfeição e abastança; era já hi o conde d'Odemira, que viera de Ceuta com quatro fustas e um barinel, e á quarta-feira foi El-Rei a Lagos, e á quinta-feira sahiu em terra e pousou no castello, onde esteve oito dias esperando as frotas do Porto e do Mondego e d'outros lugares, que alli todos chegaram.

El-Rei á terça-feira, que eram dez dias d'Outubro, se recolheu á sua náo porque todos se recolhessem, e á quarta-feira tornou logo a sair armado, com sua guarda diante, e todo o mais com maravilhoso e rico estado e grande gentileza, foi ouvir missa, e com elle todolos senhores que eram na frota. Acabada a qual El-Rei posto em meio de todos, com graciosa e alegre contenença, e com palavras cheias de devoção e grandeza, esforço e perfeita eloquencia, e com cautelas e fundamentos de bom e prudente guerreiro declarou sua ida sobre a villa d'Alcacere, louvando e agardecendo a todos com muita humanidade a diligencia e amor com que o tão honradamente vinham servir, offerecendo-se a lh'o conhecer com as honras e mercês, e acrescentamento que a cada um coubesse e merecesse. E em fim de sua falla, o Infante D. Fernando como pessoa mais principal lhe respondeu por todos, assaz bem e como cumpria. E em fim de suas palavras, com os giolhos no chão lhe beijou as mãos, e assi todos os principaes que hi eram, e á quinta feira XVII dias d'Outubro El-Rei partiu de Lagos com toda sua frota, em que por todas haveria duzentas e vinte vellas, e ao sabado porque o vento não terçou para tomar o porto d'Alcacere, foi El-Rei surgir pela manhã sobre a barra de Tangere, onde esteve aquelle dia e ao domingo, por recolher a outra frota que não chegava.

E n'estes dias andando El-Rei pelo mar, viu e contemplou bem a cidade, sobre que desejou que sua ida se mudasse, e acerca d'isso teve conselho bem aperfiado; porque a grandeza de seu coração não requeria menos empresa, e em fim se concordaram no primeiro proposito com que logo partiu, e á segunda-feira ao meio dia chegou a Alcacere, e com elle os navios mais pequenos que se podiam ter ás correntes do estreito.

Mandou El-Rei aparelhar e perceber, para logo tomar terra, e porque ambos os navios em que iam os Infantes não poderam ancorar com elle, e com forçadas correntes foram d'elle surgir duas legoas, e assi bem outras quarenta vellas, El-Rei os mandou a grã pressa chamar, e quando vieram já o acharam armado entre muitos bateis armados postos em sua ordenança para tomar terra, esperando pelo Infante D. Anrique que já tardava, e como o viu fez com muita viveza vogar rijamente os bateis á praia, que com muito esforço e acordo a tomaram todos juntamente, em que se não soube bem determinar quaes foram primeiros nem segundos.

Eram na praia até quinhentos mouros de cavallo d'aquella comarca, e muitos mais de pé, de que na resistencia que cometeram para defender a desembarcação morreram logo alguns, e elles tambem dos christãos feriam outros, e mataram ao sair, um Ruy Barreto, comendador da Ordem de Christus. Mas com tal pressa foram os mouros apertados, que uns para a villa, e outros para as serras d'onde vieram, todos se acolheram, e no encalço d'elles seguiu João Fernandez da Arca, fidalgo de bom esforço, e nas cousas do paço de seu tempo gracioso e mui ensinado. E tanto se chegou ao muro por vingar a morte que logo recebeo, que de uma pedra de cima do muro foi logo ao pé d'elle morto, de que por sua bondade e criação em toda a côrte houve grande sentimento.

E sobre a tarde depois de se repartirem os combates, e n'elles se assentarem as bombardas e ordenarem as mantas, e bancos, e escadas, que com muita presteza se tiraram da frota, El-Rei posto em um cavalo sezeliano, armado e acobertado com sua espada nua na mão, mandou cometer a villa com alguma mostrança de combate, para vêr sómente a maneira de fortaleza e defeza em que se os mouros punham, que n'elles foi assaz boa e com grande recado e esforço; porque com tiros de fogo e bestas que tinham, e pedras que não falleciam, faziam muito dano. Mas os christãos emprenderam tão de verdade, e com tanta força o combate, que El-Rei nem os Infantes os poderam recolher nem afastar d'elle, em que logo derribaram um grande lanço da barreira, e os cavalleiros e gente do Infante D. Anrique, com muito esforço e ardideza romperam e entraram por as portas da mesma barreira, e foram com muita ousadia cometer com engenhos as portas da villa, que por sua grande fortaleza não poderam quebrar; porque eram mui fortes, e forradas de mui grossas pastas de ferro. E sendo já de noite vendo o Infante D. Anrique o desejo e a determinação dos seus, socorreo alli com sua bandeira despregada, e com palavras de Principe tão prudente e ardido como elle era, os avivou muito mais para o combate, que á sua vista e com sua ajuda o fizeram sem alguma covardice. E El-Rei e o Infante D. Fernando seu irmão sentindo na gente do arraial o mesmo fervor e orgulho, que de victoria lhes davam mui grande esperança, mandaram ás trombetas fazer sinal de combate, que por todas partes se deu tão rijamente, e com tanta competencia de honra, que o que menos trabalhava, parecia que toda a empresa tomava sobre si, a que ajudava muito e não favorecia pouco a presença d'El-Rei, que a todalas afrontas acudia, e com palavras de tanto acordo e esforço, de que todos eram maravilhados e mui contentes.

O Infante D. Anrique que n'aquelle officio era velho artificial, mandou á meia noite poer fogo a uma bombarda grossa, que no seu combate era assentada, com que aos mouros começou de fazer não menos dano que espanto, pelo qual desesperados já d'achar remedio de salvação em suas armas, nem defesa, a vieram buscar e procurar na piedade do Infante. O qual lhe respondeu que por quanto El-Rei seu Senhor era alli vindo por serviço de Deos sómente, e não por cobiça de seus resgates nem fazendas, que ao dito Senhor aprazia que elles se saissem com suas mulheres e filhos, e cousas, e leixassem a villa com todolos christãos captivos que n'ella estivessem, os quaes vendo tão determinada resposta, vencidos já de condições tão piedosas, lhe pediram que por aquella noite mandasse sobreser no combate, do que ao Infante não prouve, antes o mandou mais avivar, e pediram após isso uma hora de sobresimento para haverem seu acordo, e o Infante muito menos lh'a deu, antes os desenganou que se fossem entrados por força, que todos sem resguardo nem privilegio de idade, com ferro haviam d'acabar suas vidas. Os quaes meios e concertos o Infante mandou logo notificar a El-Rei, e ao Infante D. Fernando, que de todalas partes esforçaram o combate, que era esforçado e não enfraquecia, pelo qual os mouros se remedearam, e deram nas primeiras seguranças e condições do Infante D. Anrique, e para aprovação de seu rendimento enviaram logo suas seguras arrefens, que foram levadas á tenda d'El-Rei com que o combate logo cessou. E ao outro dia quarta-feira pela manhã, os mouros sairam todos com suas mulheres, filhos, e fazendas sem algum receber nojo, dano, nem alguma outra semrazão, de que os mouros vendo tanta e tão segura verdade nos christãos, tomaram em seu mal muito conforto. Porque o Infante D. Fernando teve na saida d'elles cargo de sua segurança, e como acabaram de sair, que foi depois de meio dia, entrou El-Rei na villa a pé em procissão com os Infantes e senhores e outra nobre gente, e se foi á misquita, que foi logo tornada em egreja de Santa Maria da Misericordia, onde já estava posto um altar em que El-Rei fez oração, e elle e todos com muita devoção por tão segura victoria deram graças e louvores a Deos, porque segundo o lugar era de torres e muros mui forte, e tão provido de gente, bem pareceu tomando-se tão levemente como se tomou, que com a mão e graça de Deos se tomara, mais que com força nem poder dos homens.