CAPITULO XIX

Das couzas que ho Ifante capitulou pera matar Affonso Sãches seu irmaão, ou ho desterrar fóra do Regno.

Porque ha maginaçam, e sospeita que o Ifante tinha do beem, que ElRei queria ha Affonso Sanches seu filho, ho trazia em muita door, e cuidado, para desto seer livre, elle cõtra ho que ha seu Real sangue, e Estado devia, fantaziou em sua memoria hum engano com que falsamente, e com algum achaque ho matasse, ou ElRei ho desterrasse do Regno, e esto fez, que ho Ifante falou secretamente com hum Pedro Guilhelme, e com outro Pero Gonçalves, que viviaõ com elle e em que se muito fiava, ahos quaaes mandou que fossem fóra da teerra, e de lá trouxessem escrituras com sinaaes, e mostranças de seerem pubricas, e mui autenticas, e verdadeiras, porque craramente se mostrasse, que elles de mandado do Ifante foram buscar, e acharaõ homens ha que ho dicto Affonso Sanches peitara porque trouxessem, e dessem peçonha aho Ifante D. Affonso, de que logo morresse. E estes passado algum tempo depois, que manhosamente partiram do Regno, tornaraõ ha elle, e trouxeram aho Ifante, que estava em Coimbra estromentos pubricos escritos em Castelhano, que perante hos Juizes da Cidade, foram logo pubricados, e tomados delles autorizados trelados, cuja sustancia era.

«Que ahos trinta e hum dias do mez de Novembro da era de mil trezentos cincoenta e sete annos, ante ha porta de Sancta Maria de Magazella, presente Johaõ Pires, que aquelle anno fora Algoazil, e Diogo Dias, e Vasco Fernandes Alcaides, e Johaõ Preto, Tabaliam do Lugar, nove vaqueiros que vinhaõ por si nomeados, com outros vaqueiros de Ruy Sanches Davilla, trouxeram prezos aho dicto Lugar de Magazela cinco homens do Senhorio de Portugal, antre hos quaaes vinha hum acavallo, que parecia de rezão, e boom entendeer, e que hos dictos vaqueiros disseram, que no Lugar que dizem Aguama termo da Magazela, aquelle homem de cavallo com outros traziam prezo outro homem Portuguez, que tinha feiçaõ Descudeiro, ho quaal bradando dizia, homens do Senhorio de Castella acorreime, que Portuguezes me levam prezo pera em sua teerra me matarem, e que ha estes brados hos dictos vaqueiros acodiraõ, e querendo livrar ho prezo Portuguez daquelles Portuguezes que ho traziam, que o dicto homem de cavallo dicera apressadamente ahos seus de pee: «Matai este tredor porque nom fique com vida.» E que hum delles lhe dera huma lançada por hum braço, e que o de cavallo sobresso lhe arremessara ha lança que trazia, e ho atrevessara por detraaz atee hos peitos, e que os vaqueiros vendolhe fazer taal crime lançaram maão logo de quatro homens seus, e que ho de cavallo querendolhos tirar, e defender, hum dos vaqueiros arrancou hum dardo, e ho ferio, e ho Escudeiro quando vira hos seus homens prezos, dicera ahos vaqueiros, que nom tinham rezaõ de prenderem, nem fazerem maal ha elle, nem ahos seus, pois nom fizeraõ mais maal, que matar seu imigo, e que pera verem que elle demandava rezaõ, que ho deixassem, e que elle era contente de ir ha cavallo perante os Juizes de Maguazela, e que elles depois de ho ouvirem mandariam ho que fosse justiça.

E que ante de irem pera ho dicto Lugar, que ho Cavalleiro rogou ahos vaqueiros, que pera certidão do que dizia, chegassem aaquelle lugar onde jazia ho ferido Portuguez, hos quaaes chegando ha elle ho Cavalleiro dicera aho ferido. «Amigo eu saão Pero Gonsalves, Escrivão do Ifante D. Affonso de Portugal, e voos sabeis beem ha maaldade, e treição que tendes feita, com Garcia Dalmuche, que eu fiz matar nas manchas Daragam por ambos buscardes, e ordenardes peçonha pera mataarem ho Ifante meu senhor, e agora lembrevos, que estais em tempo da rependimento, e de dizerdes ha verdade, por nom perderdes ha alma, pois jaa perdestes o corpo.» E que ho ferido respondera, que tudo era verdade, e que por esto elle tinha tratado, e buscado contra ho Ifante aquelles Portuguezes que ho traziaõ prezo, ho quaal logo falecera, e que sobre esto em chegando ahos Alguazis do lugar, ho dicto Pero Gonsalves mostrara huma carta aberta patente do Ifante, porque geraalmente fazia sabeer, que elle enviava ho dicto Pero Gonsalves contra alguns que procuravam de fazer maaos feitos contra elle, e que porem ho encomendava aas Justiças dos Lugares pera que lhe dessem ha ajuda, e favor, que elle requeresse, e aalem desto, que ho dicto Pero Gonsalves requeria mais ahos dictos Juizes, que perguntassem hos vaqueiros aacerqua do que ho Escudeiro morto em morrendo confeçara, hos quaaes diceram todo ho que atraaz hee escrito, e mais que ho dicto ferido em querendo morrer dicera.

Eu naci em na maa hora antre todolos homens da teerra, de que saõ naturaal, e assi aquelle por cujo concelho esto fiz, porque certo hee que Garcia Dalmuche, e eu com outros buscamos, e compuzemos peçonha pera matar ho Ifante, mas quiz ha sua booa ventura, que por ella se nom obrou couza, que lhe danasse. E com tudo diceram, que ho Ifante se guardasse, e que perguntado ho ferido pelo nome daquelle do sangue do Infante por cujo concelho, e mandado esta peçonha se ordenava, que elle respondera, que pera que era perguntar ho que todo ho mundo sabia, e que mais nom deria, e com esto pedira confissam, e em lhe tirando ha lança, que tinha atravessada logo morrera, pelo quaal hos dictos Alguoazis, e Alcaide, visto esto mandaram que ho dicto Pero Gonsalves, e hos seus se fossem em booa ora, e livres, e lhe mandaram daar hos estromentos pubricos, com muitas testemunhas, que sobre esto pediram.»

E depois que estes estromentos em Coimbra se pubricaraõ, de que todos foraõ hi espantados, ho Ifante mandou mostrar ho treslado delles ha seu padre, por Nuno Martins Barreto, e por Ruy Garcia do Cazal, e pedir-lhe que logo desse ha Affonso Sanches ha emenda, e castigo, que em tam feio cazo merecia. Do que ElRei foi asaaz maravilhado, e posto em mui tristes pensamentos, ainda que logo conheceo, que tudo eram manhozas envençoens, e maal compostas, e ahos messageiros do cazo, respondeu por maneira, que foraõ elles contentes, e sobresto ElRei enviou logo aho Ifante, Fernam Rodrigues Bugalho, e Lopo Esteves Dalvarengua, pessoas de que fiava, pelos quaaes lhe enviou certificar ho nojo, e tristeza que do cazo passado tinha recebido, ho quaal era de calidade, que fazendose contra ho mais pequeno vassallo seu, elle ho estranharia, e puniria mui gravemente, quanto mais contra elle seu filho, que elle amava de coração, e suas couzas assi lhe doiam, e tocavam como se fossem feitas, e ordenadas contra sua Reaal pessoa, e que fosse certo, que quaalquer seu irmaão lidimo, se ho tivera, que contra elle fizesse semelhante treiçam, que seem nhuma piedade lhe mandaria tirar ho coraçaõ pelas espadoas, como aho mais vil homem de sua teerra, e que porem ElRei lhe rogava, que hos proprios originaes de que vira hos treslados lhe quizesse mandar, que logo lhos tornaria, e porque por elles se queria beem informar pera sabeer ha verdade donde tanto maal nacera, e quaaes eraõ hos participantes nelle, pera tudo emmendar, e castigar com penas, e rigores que elle viria.

Aho que ho Ifante respondeo, que se maravilhava muito delRei seu padre, hum feito tam craro, e de taal importancia querelo poor em vagarias, nas quaaes elle nom queria poor seu corpo, vida, e honra, porque se ElRei tivesse vontade de ho estranhar, e punir como lhe enviava dizer asaaz provado estava ho erro pera na exequçaõ delle nom procederem interlucutorias nem tantas delongas, e que jaa em cazos, que menos relevavaõ, e comprova que nom era tam abastante, mas por soo prosunçam lhe vira proceder contra muitos, e punillos, e que assi ho devia fazer neste cazo, e que hos originaes por seerem escritos em papel, e por se nom perderem tinha mui beem guardados antre duas tavoas, e que ha ElRei hos mostraria quando fosse necessario, e que porém, que sobresso mais se avia de fazer com mostranças da meaça.