CAPITULO XVIII

Da discordia, que ouve antre ElRei D. Dinis, e ho Ifante D. Affonso seu filho erdeiro, e has causas porque.

Atraaz fica escrito has deficuldades, e trabalhos com que ElRei D. Diniz cazou o Ifante D. Affonso seu filho, com ha Ifante Dona Breatiz, filha delRei D. Sancho de Castella, e por lhe teer grande amor, e afeiçaõ como ha rezaõ requeria, lhe deu sua caza em Lixboa, com muitas, e graãdes festas, pera que de seus poovos ouve grandes ajudas, e assi se acha, que aalem de muitas Villas, e teerras, que tinha lhe ordenou mais de seu assentamento, em cada hum anno oitenta mil livras, que estimadas segundo ha valia da prata daquelle teempo, valiam da moeda dagora trinta e dous mil cruzados, ha rezaõ de duas livras, e meia hum cruzado, que hee verdadeira conta, e asaaz aprovada, como outras vezes jaa dice, e assi em todalas couzas, que occurriam se vio que ho honrava, e estimava muito, e tinha cuidado de lhe criar seus filhos, porque jaa atee este teempo elle ouvera ho Ifante D. Affonso, que menino faleceu em Penella, e assi ouve ho Ifante D. Diniz, que seu avoo ElRei D. Diniz com grande amor criava em sua caza, e nella faleceu moço, porque ElRei foi tam anojado, e triste que nom sabia, nem podia com nenhuma couza seer ledo, nem consolado, e em tanto estremo sentio ha morte deste seu neto, que ho Papa lhe escreveo sobresso hum Breve de consolaçam, cheio de muita prudencia, e graãdes confortos.

E por estas cauzas aalem das outras obrigações naturaaes, e Reaaes que nelle avia, nom hee de duvidar, que ho Ifante D. Affonso devera sempre de amar, e obedecer sobre todos a ElRei D. Diniz seu padre, e assi lhe acatar por aver abençam de Deos, e ha sua, ho que em principio de sua idade, em seendo Ifante nom se acha seer assi, antes ho contrairo, cuja verdade, e declaraçam em cazo, que por sua graveza nom seja doce, nem gracioza couza pera ouvir, porém ha necessidade de sua Estoria, que escrevo obriga, e constrange ami que ho nom cale, principaalmente por mostrar, que hos lizongeiros, e maaldizentes antre hos padres, e hos filhos nunca ajam lugar, nem sejam ouvidos, que se estes nom foram cridos, nom ouvera tantas cauzas de desavença dantre ElRei, e seu filho, e assi pera que se saiba quam grande erro hee daar pena, e castigo ha algumas pessoas por quaalquer maal, que delles seja dicto posto que traga em si muita cor de verdade, atee elle sem paixaõ nom seer primeiro sabido, e justificado, e tambem porque nos erros, e graveza, que se vir nas desobediencias, e desacatamentos que ho Ifante teve ha ElRei seu padre se vejam, e resprandeçaõ mais craro has boondades, e merecimentos dos filhos, quando acerqua de seus padres usarem ho contrairo.

E porque nestas desavenças delRei, e de seu filho ouve, e se passaraõ muitas, e mui largas couzas, que seriaõ mui longas pera escrever, eu dellas soomente apurarei brevemente has principaaes, e has que pera esta Estoria mais necessarias me parecerem. E segundo ho que acho, e pude comprender, tres rezoens ouve, e todas sem cauza, nem rezaõ, porque ho Ifante D. Affonso se moveo ha esta sua desobediencia contra seu padre, das quaaes ha primeira foi em Beja, por sentir que ElRei D. Diniz queria grande beem ha D. Affonso Sãches, e aho Conde D. Joaõ Affonso seus filhos naturaaes, hos quaaes segundo se acha nom serviam, nem catavaõ aho Ifante como elle desejava, e merecia, e deste conto nom era ho Conde D. Pedro tambem seu irmaão bastardo, e de todos hos bastardos ho mais velho, porque sempre seguio ha parte do Ifante, e por esso foi ha requerimento de D. Affonso Sanches desterrado de Portugal pera Castella, e todas suas teerras, e fazenda tomadas, e depois retornado, como aho diante se diraa, e ha segunda cauza foi ha grande cobiça, e desordenado desejo, que sempre teeve de aver, e cobrar pera si has riquezas, e tezouros delRei seu padre, e ha terceira por querer, que em toda maneira ElRei deixasse, e tirasse de si ha Justiça, e Governança do Regno, e livremente ha deixasse ha elle.

E porém em algumas destas couzas nom avia cauza, nem rezaõ que pera ho Ifante nom fosse grande erro querellas, e muito mais procurallas, porque ElRei querer beem ha D. Affonso Sanches, e aho Conde D. Joaõ era grande rezaõ, e assi por seerem seus filhos, como por hos achar sempre em todolas couzas mui conformes aa sua vontade, e ha seu serviço mui obedientes, especialmente que ha afeiçaõ, que ElRei lhes mostrava nom empedia, nem mingoava ho do Ifanto seu filho, mas como ho amor, e senhorio sempre querem seer senhores, por esso saõ mui amiude mui cheios de ciumes, e sospeita, pelo quaal ho beem, que ElRei mostrava ahos outros seus filhos cauzava na vontade do Ifante mui duvidosa tençaõ, com que enganandose cuidava, que ElRei ho nom amava tanto, quanto devia, e por esso por todolas as maneiras, que podia trabalhava, e procurava de apartar, e desavir estes filhos delRei seu padre, assi como logo fez aho Conde D. Pedro seu irmaão, que era ho maior dos filhos bastardos, ho quaal por couzas craras, que lhe fez entender, ho tirou da obbediencia, e seu serviço delRei que antes andava, e ho recolheo pera si, porque favorecia sua parte, e dizer, e requerer que ho regimento da Justiça do Regno devia seer todo do Ifante, aho que ElRei contrariava com muitas rezoens asaaz justas, por as quaaes aconselhava ho filho, que o taal requerimento ouvesse por escuzado.

E porque ho Ifante vio, que ElRei seu padre em nhuma parte destas lhe nom satisfazia, aconselhado, e induzido falsamente de hum Gomes Lourenço Vogado de Beja, filho de hum Carpinteiro, que depois foi Freire de San-Tiago, teve taaes meios, e inteligencias com a Rainha Dona Maria de Castella sua sogra, que ella enviou pedir ha ElRei D. Diniz, que por quanto desejava ver muito sua filha, e seu genro, e os Ifantes seus netos, que jaa tinha, ouvesse por beem que elles ha fossem ver ha Castella, e porque ElRei por secretos meios que laa trazia soube, e entendeu craramente, que has taaes vistas naõ eram pera algum beem, nem asecego seu, e de seu filho antes pera alguma torvaçaõ, e dano dambos, e do Regno, falou sobresso aho Ifante, e lhe rogou, e encomendou que por sua bençam escuzasse sua ida, ha quaal fosse certo, que ha elles, nem ha Portugal nom trazia proveito, antes era fundada, e requerida pera seu desserviço, e dano da teerra, e que abastava por principaal pera elle deixar de hir ha Castella, em cazo que outro nom ouvesse dezejar elle, e querer que nom fosse, ha que elle por aver sua bençaõ devia mais de obedecer que aa Rainha sua sogra.

E com tudo esto, e com mais outras alegaçoens, e inconvenientes que ElRei lhe poz, ho Ifante nom desistio de seu proposito, e sem licença, e contra vontade delRei foi todavia, e levou ha Castella ha Ifante Dona Breatiz sua molher, e depois de consultarem em Cidad Rodrigo has couzas sobre que foram, que todas eraõ contra ho gosto, honra, e serviço delRei, ho Ifante se tornou ha Portugal, e nom se passaram muitos dias, que logo nom veio ha ElRei D. Diniz em nome da Rainha Dona Maria sogra do Ifante, hum Pero Rondel Ouvidor da Justiça em caza delRei D. Fernando de Castella, e da sua parte, aa sua grande instancia lhe requereo, e pedio que por algumas cauzas coradas, que apontou desse ho Regimento da Justiça aho Ifante D. Affonso seu filho. Do quaal requerimento ElRei cõ grandes estranhamentos se escuzou, maravilhandose muito da boondade, e prudencia da Rainha requerer taal couza, e taõ contraira ha toda rezaõ, e onestidade, porque elle quando em cazo de velhice, ou por outro empedimento que tivera, requerera aho Ifante seu filho pera tomar semelhante regimento, ainda elle como filho obediente seendo seu pai vivo, e em booa idade pera reger como era, se devera desso escuzar, quanto mais querer forçar ho que boom filho nunca fizera, e desta reposta delRei ha que ho Ifante era prezente, elle como aggravado, e mui anojado se despedio logo de seu pai, e foi sempre andar apartado delle.