II

Os paes de Margarida já pareciam conformados e até orgulhosos de sua filha. Seguiam o movimento geral das opiniões, admittiam-lhe a santidade e o poder sobrenatural, que sobre ella tivesse vindo como emanação de Deus, n'esse dia para sempre memorado da catastrophe. A Providencia impõe os seus designios aos homens pelos modos mais contraditorios: com uma penna d'ave mata, com um raio póde ressuscitar. Havia conformidade na crença geral: a cegueira de Margarida era irremediavel por ser de origem e vontade divinas. O não terem sido escutadas as supplicas endereçadas por intermedio dos mais famosos santos conhecidos, era prova e signal de que deviam submetter-se ao querer do Altissimo. E por ultimo—opinavam os confessores—o dom de santidade em vida, não vale mais do que a maior realeza da terra, ou do que todas as realezas da terra junctas?

Concordavam e acreditavam-n'o os submissos paes, sentindo-se até enternecidos por haverem dado o ser a Margarida, ainda que se reconheciam differentes d'aquella carne, que depois que recebera o divino sopro, era de razão que tivesse mudado de natureza. Notavam tambem que Margarida vivia de cada vez mais encantada com os doirados quadros da sua imaginação, que lhe antecipavam a Bemaventurança, á morte. Tudo que dizia na sua voz dulcissima, encanto de todos os ouvidos, era risonho e alegre: via-se que d'uma grande desgraça, sahira a suprema ventura, a sublime pacificação da alma. Que encantadores esmeros de sentimento Margarida tinha para seus paes! E elles, os ditosos, escutavam-na, como se percebessem falas de anjos, ou sons de harpas divinas a desferirem hymnos no espaço! Tudo correu santamente em dois annos de vida gloriosa, que junctos aos dois primeiros de vida atormentada, formavam os quatro annos de reclusão, tanto de Margarida como de seus paes e de Antonia, que até os preceitos obrigatorios da religião satisfaziam na capella da casa. D'isto resultou que uma funda anemia, acompanhada de dôres craneanas e insomnias perturbadoras, se apoderou d'aquelle pobre e implume corpo. Os medicos impozeram então a necessidade de passeios ao ar livre, que a creança respirasse brisa balsamica de montanhas e pinheiraes. Era egualmente indispensavel a luz directa do sol para se não estiolar e morrer a mimosa e tenra planta. A ella mais do que a todos custou esta ordem dos medicos, pois todos e ella se tinham habituado a este existir sereno de vida santa, em convivencia de imaginação com o Ceu, de que Margarida dizia coisas de encantar. Antonia, tambem habituada á clausura da sua menina, vivendo sempre na contemplação do ente raro, que era o maior louvor do seu leite abençoado por Deus, arremetteu em palavras contra o mandado dos facultativos. Temia dissipar-lhe o encanto divino, entregando-a á convivencia de todos que lhe quizessem falar nos caminhos por onde passasse. Comprehendia que assim já não a podia conservar tão intima, nem tanto para si. Era o egoismo humano a rebentar no mimoso jardim de sentimentos tão elevados...—a rude Antonia apavorava-se com a idéa de que aquelle affecto, que ella creara com uma sugeição e uma dedicação de tantos annos, podesse diminuir. Mas tanto ella como D. Claudina e João da Costa, porque amavam incondicionalmente Margarida, era justo que se opposessem ao parecer dos medicos e assim consentissem que se esgotasse esse precioso e delgado fio de existencia, que em tamanho preço tinham? Não, até o proprio egoismo, coisa diversa aconselhava, pois a separação que a morte carnal viria definir, ser-lhes-hia milhões de vezes mais custosa do que o era a cegueira, quando a julgavam uma fatalidade. Acceitaram assim, o facto, tomando-o como todos os demais conselhos attinentes á existencia de Margarida, pois os julgavam de inspiração divina, por tenderem a não enfraquecer o tenue vigor d'aquelle fragil e delicado corpo.


Estava-se na primavera: nos valados rebentavam as flores, os gommos enfeitavam já as arvores despidas e tristes. Tempo alegre e soalheiro, atmosphera odorifera e excitante. Iam pelos caminhos pedregosos da aldeia, á procura de pontos altos, onde corresse viração. Margarida desaprendera de andar, trocava os pés como quando d'um anno principiara a correr na sala, queixava-se de que as pernas lhe não podessem com o corpo. O vestuario, apesar de reduzido ao minimo de agasalho, era-lhe d'um peso incomportavel. Fatigava-se e pedia frequentes repousos nas bordas da estrada, em muros baixos e sobre as pedras avulsas que encontrassem. Seus paes, ou Antonia, levavam-na pelo braço como uma convalescente, sentindo-lhe o contacto do corpo, leve como uma penna. E assim parecia pessoa vulgar que viesse trazer saudações á luz, amando-lhe o explendor; que viesse visitar a paisagem que tencionava gosar longamente. Cada dia seguiam destino differente; mas sempre para o alto d'onde se descobrisse o fertil e carinhoso valle. Após os primeiros passeios, sentindo-se mais vigorosa, pois tinha menos dôres e somnos mais tranquillos, Margarida, n'um resurgimento de memoria, é que mencionava os sitios que preferia visitar. Parecia este o caso trivial d'um ausente de muitos annos, que tornasse a viver nas paisagens queridas da infancia e procurasse confrontal-as com as sensações d'outr'ora... Passava-se n'aquelle cerebro um trabalho lento de rememoração, uma reviviscencia psychica. Nos pontos elevados, onde a respiração é mais livre, larga e substancial, todo o corpo se lhe aerificava, conhecia-se ligeira como qualquer ave voando. Amplificava-se-lhe o peito; excitada pela fragancia da brisa fresca e alpestre, vinham-lhe assomos de enthusiasmo, extasis de commoção perante o renascimento das plantas, a côr afagadora da verdura, que não podia apreciar com os olhos. «Como estão bonitos os campos!—exclamava. Para ali o Ramisco, para acolá a Cerdosa, em frente Refuinho! Como estão bellos estes campos já semeados, as arvores em flor, os bois a pastar nas hervas!»

Parecia que tinham vista aquellas pupillas opacas, mas illuminante, como dois brancos seixos no fundo de limpida corrente. Se ellas estavam sem movimento, presas ao sol, o rosto de Margarida adquiria a inspiração do dos santos nos extasis contemplativos da magestade divina. Esses globos de leite coalhado, no meio das serziduras das feridas, eram duas candidas cecens em terreno arenoso. O riso, meigo e attractivo, mais bello do que o das rosas ao abrirem, illuminava-lhe os sentimentos. As falas murmurantes, como agua correndo em regatos, passavam nos ouvidos e eram gorgeios de ave: «Oh! que bom cheiro o das serras e dos campos, como é suave o aroma das flores, minha mãe!» «Não sentes os passaros a cantarem nos arvoredos, querida Antonia?!» «Quando iremos nós ao Ramisco, meu pae?! Ainda voltará, o tio Frei Jeronymo, á sua casa de Preste?»[1]

Falando assim quedava-se silenciosa, rosto erguido ao ceu, a expressão vaga de cegueira suspensa sobre os campos da veiga, que se alastrava no sopé da montanha. Este goso espiritual que se adivinhava dentro d'ella ao contemplar o mundo material com a vista da memoria, enchia de prazer os carinhosos paes, que tinham n'esta filha um thesouro celestial, um tabernaculo de coisas puras e santas. Tão habituados já andavam a consideral-a um ser superior á misera contingencia humana, a ver-lhe na vida da alma uma vida transparente e etherea, que o doloroso acontecimento que a cegara, de desventura se havia transformado em obra de graça, pela santidade que lhe trouxera. Acreditavam piamente n'esse divino dom que sublimara aquelle corpo enfesadinho e anémico, que espiritualisara, com belleza nova, aquelle rosto transtornado pelas manchas de cicatriz, que dera áquelles olhos a visão de coisas sublimes. Enobrecia-os esta ligação carnal com quem já em vida pertencia ao Ceu. Por isso cercavam Margarida de esmeros e delicadesas devidas ás entidades superiores á rudesa commum; pois que essa parte material do ser que nutriam, tocavam e aconchegavam era apenas condicção transitoria de passagem no mundo d'uma alma immaterial, já moradora dos paramos sem fim, em convivencia de Bemaventurados. Aquellas imaginações recreavam-se em acompanhar Margarida a esses mundos d'Além, onde presumiam que ella ia nos periodos de somno. Se ao acordar pronunciava palavras vagas de sentido obscuro, n'isso encontravam o final das palestras que tivera com os anjos, seus irmãos. E como vereficassem que o seu falar era mais elevado e inaccessivel, quando rodeada de muitas e muitas flores, traziam-lhe diariamente molhos das mais raras embellesando-lhe assim o quarto, como se fôra uma egreja. Era apenas uma antecipação das homenagens que de futuro lhes seriam rendidas, pelos numerosos crentes que se acolheriam á sua protecção. Para todos era de saber conhecido, que os santos apreciam muito os subtis aromas das plantas, que são essencias evolando-se ao ceu e excitam a imaginação, para comprehender melhor o sublime e o celestial. E nem os conselhos dos medicos tinham auctoridade para impedir que Margarida vivesse constantemente respirando os delicados venenos, que lhe proporcionavam noites deliciosas de encanto em que a mente, ebria de goso, se lhe alargava em quadros deslumbrantes. Accentuavam-se-lhe, por isso, as turbulencias do coração e o depauperamento organico; porém o seu querer era terminante e exigente, para que a não separassem das suas queridas flores. Comprehendia bem que eram ellas que a ajudavam a levantar a alma em preces fervorosas, e que lhe incendiavam a mente em extasis divinos.

Áquelles olhos que não viam, patenteava-se a celestial morada n'uma luz luarenga sempre egual. Mais que isto, os seus ouvidos escutavam n'esses instantes singulares, córos angelicos, em que a toada longa e plangente era como um balsamo, em que a alegria tomava fórma serena e augusta. E todos comprehendiam este viver de alma superior, esta sublimação dos sentidos para definir coisas ethereas, a descoberta do mundo dos encantos feita por uma creança em quem laborava a vontade de Deus. Esse dom subtil para comprehender era decerto a parte mais bella de tão gloriosa cegueira e para lh'o conservarem havia sempre abundancia de flores em volta do pequeno leito de Margarida. De longe e de perto chegavam offerendas copiosas—collocavam-nas em vasos, como nos altares, em açafates como aos pés da Virgem, no oratorio, em cima da commoda e juncavam-lhe com flores a propria coberta, que se lhe ajustava ao corpo doentinho. Assim podia ella sentil-as, com os magros dedos apreciar a maciesa das petalas, aspirar-lhes com mais avidez os energicos perfumes. E que riso de expressão tão estranha, illuminava aquelle semblante disforme, quando com o seu fino tacto, Margarida adivinhava as flores que ali tinha e as combinava em ramos e capellas, que pessoas de olhos sãos não saberiam entrançar com semelhante engenho! Se punha na sua propria cabeça essas corôas que fazia, todos notavam, quanto se parecia com as santas adoradas nas egrejas! Se dizia palavras de sentido transcendente, todos julgavam escutar sons que sahiam de mysteriosas nuvens. E ainda que fossem coisas que não comprehendessem, tal era a suavidade encantadora d'aquella voz incomparavel, tal o encanto musical da sua pronuncia maviosa, que os ouvidos profanos se sentiam magnetisados e as imaginações dos que escutavam iam voando, voando sempre, seguindo-a entre estrellas, n'uma região infinita e doirada pela vista fulgurante dos seres perfeitos e bellos que a habitavam. Aqui era o paiz encantado da visão e do mysterio, n'elle habitam entes immaculados e perfeitos! Vivia-se d'este modo na habitação terrena, fluctuando nas azas da maravilha, creada hora a hora. Uma continua apotheose d'um sonho, que só a crença na vida eterna podia gerar!...

[1] Amores, amores...