III

Porém o estado melindroso da saude de Margarida aggravava-se de cada vez mais. Os facultativos que a vigiavam com a sua experiencia, assignalavam os progredimentos da molestia, cuja historia conheciam. Nunca funccionara bem aquelle pequenino coração: nos primeiros annos de vida fôra excitado pelos estovamentos dos brinquedos infantis e pela insaciabilidade da creança mimosa, que dava azas á imaginação inquieta; no terrivel dia da catastrophe quasi se quedara preste, talvez que no proposito de nunca mais funccionar, mas recomeçou o seu labor; no longo periodo de soffrimento, que se seguiu, teve alternativas de resignação e desesperos, desalentos e esperanças vivas!... Os carinhos maternos e a dedicação nunca desmentida de Antonia apasiguaram-no e fizeram abrir na mente de Margarida os alvores d'uma aurora. O tempo trouxe o desengano, a certeza e o habito da cegueira, e o pequenino coração adquiriu definitivamente conformidade para o infortunio, n'uma submissão aos ditames de Deus, propria dos eleitos tocados da divina graça. Abrira-se para elle uma existencia nova, adornada de bellezas e de encantos: eram explendores do ceu, não comparaveis aos terrenos, que são mesquinhos e transitorios. Tudo á mente vinha do coração, d'esse coração combalido, improprio para a vida commum, e no qual a morte se aninhara como em casa propria. Mas no rosto cicatricial em que os olhos baços se moviam como duas bolas de jaspe, despontava a luz que illuminaria a Margarida o caminho de Bemaventurança e ella desejava e não temia o final dos seus dias contingntes. No som da voz melodiosa, como será a dos anjos, e no sentido das palavras que pronunciava, já se reconhecia essa levantada aspiração, esse sentimento do divino, que linguas vulgares traduzem por santidade. Caminhava esta pobre existencia corporea abordoada a um coração doente e não podia prolongar muito a sua jornada. Margarida acamou de vez e no aconchego do quarto concentrou-se na paixão dominante das flores, d'esses aromas que lhe povoavam a mente de sublimes visões e lhe faziam antegostar o ceu. Despertara-se-lhe, primeiro, este amor, nos passeios aconselhados pelos medicos para se robustecer, agudara-se depois, na existencia da sua mente recolhida em convivio de anjos. As flores são bellas e assim como em vida lhe adornavam a paisagem da morte, depois lhe enfeitariam a sepultura. Morte e sepultura, idéas risonhas, que assignalariam o seu voar definitivo á patria celestial. Não as chamava, estas escuras imagens, para não ulcerar os corações de seus paes e de Antonia, a quem o momento da separação custaria, ainda que a vissem erguer-se sobre nuvens á gloria de Deus. Porém os seus ouvidos apurados já sentiam os passos magestosos da Morte, que vinha n'uma comprida estrada enfeitada de todas as galas, juncada de palmas victoriosas, acompanhada de musicas alegres. Festa superior á da entrada da primavera, nos campos e nos montes cobertos de boninas, com o ar empregnado de balsamos humados da terra, a omnipotencia da luz descendo do sol para tudo engrandecer! O coração doente consolava-se com os aspectos d'esta vida sonhada, alagava-se n'uma paz doce, larga e consoladora, que era um vislumbre da que se gosaria na presença de Deus!...

Por isso ao presumir proximo o seu ultimo dia, sentindo por adivinhação que a alma se ia desprender do corpo em que reinara, que a materia resignava a força que a enobrecera, é que pedia mais flores, muitas flôres para embebedar com aromas a imaginação. Tinha a cama de virgem sempre coberta de rosas, de açucenas e de todas as flores campestres de belleza tão captiva e simples, de perfume tão casto e enebriante. Quando adormecesse no ultimo somno terreno, queria que fosse entre fragancias e côres, para nas azas d'essas coisas intangiveis subir ás alturas, onde habitam os anjos. Foi assim que veio para Margarida a feia morte, risonha amiga, como um carinhoso dom. N'esse dia assignalado cercavam-lhe o leito todos os queridos affectos que no mundo tivera. O bom cura Carvalhosa, de estola branca e oiro sobre a alva sobrepelliz, dizia-lhe em voz de uncção, palavras solemnes de esperança e ventura. O rosto sereno e quasi risonho do sacerdote espalhava no quarto, que era um sanctuario, coragem e tranquillidade, em todos os espiritos. Os paes de Margarida e Antonia ajoelhados aos pés da cama, voltados para a Virgem glorificada entre flores e luzes, no oratorio, tinham as faces innundadas de lagrimas silenciosas e votivas. Outras pessoas intimas, amigos e parentes, seguiam este ditoso despedir d'alma ao despegar-se do mundo. A illuminação astral do rosto da moribunda, com os olhos gelados a procurarem claridade n'uma risonha ancia de sublime, a todos animava. Parecia-lhes este morrer, antes uma transfiguração da vida: não era o afastamento para sempre, pois acreditavam que esse espirito, que de muito pertencia ao ceu, continuaria a velar pelos que muito amara, para os proteger contra as miserias terrenas. Margarida entre elles, escutaria as suas supplicas, fortalecel-os-hia nos desalentos e como branca pomba espiritual, havia de pairar sobre o tecto que lhe abrigara o nascimento e a morte. Aqui se lhe dispertara a alma para as coisas sublimes, para as visões eternas; ao cahir gradual do corpo todos lhe viram corresponder uma crescente sublimação do espirito; as suas palavras que se adelgaçavam na fortaleza, eram de cada vez mais cristalinas no som e tinham de cada vez maior sublimidade no sentido. É que já as pronunciava do limiar da Bemaventurança, cujas portas se lhe abriam de par em par. Tudo concorrera de longe, para que as lagrimas choradas em volta d'este pequenino leito de moribunda, coberto de flores rescendentes, fossem lagrimas mais de goso, do que de amargura, de conformidade e não de desespero.


Rompia a tranquilla luz da alvorada d'um dia d'Abril, que promettia ser alegre e soalheiro. Estava-se na mesma semana de Paschoela na qual, annos antes, começara o glorioso martyrio de Margarida. Havia cá fóra as pompas da natureza, a reviviscencia da terra subia ao azul em hymnos de aromas e cores. A doentinha chamara para juncto de si seus paes, Antonia, e os parentes mais chegados, as de Refuinho e as do Ramisco. Com uma voz que era um cicio de resa, de todos se despediu com palavras confortativas, de tanta elevação e carinho e santidade, que bem se comprehendia que não fosse um espirito da Terra, que n'ella vivesse. Com os dedos magros de santa deixava a cada um a lembrança d'uma flor, beijava, amorosa e humilde, as mãos de seus paes e do cura, sorrindo-lhes com os olhos cegos.—E rematando a vida disse:

—Pedirei ao Senhor, por todos. Perdoem a quem os fez soffrer!...

Rebentaram torrentes de lagrimas e córos de soluços, quando viram que não mais pudera falar, e que reclinara de vez a resignada cabeça no largo travesseiro... Começara um longo e infinito somno: o rosto d'uma serenidade angelica parecia formoso e expressivo como nunca fôra! Ainda respirava o balsamo das plantas odoriferas, os brancos dedos ainda procuravam o setim das petalas de rosas e cecens; mas aquella imaginação, aquella alma diluia-se na amplidão infinita, subindo ao espaço como um subtil perfume. Margarida repousava na paz eterna do seu Deus! Terminara o ultimo anhelo do coração.

—Está morta—disse com sentimento grave o medico pousando-lhe a mão na testa.

—Está viva—pronunciou como em sonho, o padre Carvalhosa...

Lisboa, Abril de 1899.