NOTAS DE RODAPÉ:
[204] Essais, liv. I, cap. 25.
[205] Ibid., liv. II, cap. 10.
SEGUNDA ÉPOCA
(SECULOS XVI A XVIII)
Predominio da imitação da Antiguidade classica, e abandono das Tradições nacionaes
1.o Periodo: Os Quinhentistas (Seculo XVI):
PARTE I: Poetas da Medida velha.—A tendencia allegorica da ultima phase da poesia palaciana era um prenuncio da sua transformação. Qual seria ella, comprehendeu-o superiormente Sá de Miranda inspirando-se das obras primas do lyrismo italiano. Antes porém de generalisar-se em Portugal o gosto d’essa nova poetica, mais subjectiva, manifestou-se uma reacção contra os innovadores; o combate não se feriu por alguma theoria de arte ou concepção de ideal, versava apenas na preferencia que se devia manter ao verso octonario ou da medida velha das redondilhas, com exclusão do endecasyllabo. O titulo de Eschola da Medida velha, designa cabalmente o periodo que antecedeu o regresso de Sá de Miranda da Italia, no qual os poetas palacianos pela imitação das allegorias dantescas e já pelo conhecimento da Renascença classica, sem abandonarem as fórmas da poetica hespanhola adoptam o estylo de Theocrito assimilado pelos bucolicos italianos. Bouterwek considera a poesia pastoril portugueza immensamente bella; não resultou esta perfeição de imitações litterarias, mas da aproximação inconsciente das fontes tradicionaes. Nos costumes populares da Peninsula mantinha-se a fórma dialogada dos Villancicos, que coadjuvava a naturalisação e desenvolvimento da Ecloga litteraria. Observa-se essa persistencia nos cantos lyricos intercalados por Gil Vicente nos seus Autos; e o conhecimento das Pastorellas e Serranilhas gallezianas era ainda o que tornava bellas as redondilhas de Christovam Falcão, de Sá de Miranda e de Camões. Este periodo de transição no gosto apoia-se na sympathia dos poetas pelos elementos tradicionaes das pastorellas. Bernardim Ribeiro é o corypheu dos bucolistas, conhecedor dos Villancicos e Romances populares, a que deu fórma allegorica; soube alliar a naturalidade com os dialogos pastorís, a profundidade do sentimento com a simplicidade. A belleza inexcedivel das suas Eclogas resulta da realidade palpitante dos desgraçados amores com Aonia, a sua prima D. Joanna Zagalo. Pela amisade com Sá de Miranda, chegou a conhecer a eschola italiana, a nova frauta, de que faz menção a Ecloga Aleixo, onde Miranda descreve a sua desgraça.
Depois de Bernardim Ribeiro, foi o seu intimo amigo Christovam Falcão o que levou mais alto o esplendor d’este lyrismo hispano-italico; a ecloga Crisfal, em que pinta o desventurado amor com D. Maria Brandão, irmã mais moça dos dois poetas do Cancioneiro geral Diogo e Fernão Brandão, não tem cousa que se lhe compare nas litteraturas da Europa.
Tambem se explicará a sua superioridade pela aproximação dos elementos tradicionaes do lyrismo portuguez: no Crisfal vem intercalado um canto de ledino.[206] Todos os outros poetas quinhentistas, á excepção do Dr. Antonio Ferreira, começaram os seus tentames pela redondilha popular, designada litterariamente trova ou verso de Cancioneiro.
Sá de Miranda, que escreveu bellissimas Eclogas e Cartas em redondilhas, satyrisou os que tanto reagiam contra a nova poetica italiana, e condemnava os que mantinham o uso anachronico de uma triste Esparsa, de uma Glosa ou Mote velho, de uma pobre Volta com seu Cabo. A moda palaciana sustentava o estylo de Cancioneiro, por uma tradição aristocratica. Em uma carta de Soropita, escripta depois de 1589, caracterisa-se esta especie de metrificadores: «Achei n’esta companhia a saber ... um poeta ancião, ainda pela medida velha.» Devem comprehender-se sob esta designação propriamente os poetas que antipathisavam com a novidade vinda de Italia, pelo terror pelas ideias da Reforma; e tambem os que tiveram certa communicação com o povo, para quem compunham redondilhas moraes e romances com fórma litteraria. Pertencem á primeira cathegoria, D. Luiz da Silveira, Jorge Ferreira de Vasconcellos e Garcia de Resende; na segunda sobresae o vulto gigante de Gil Vicente, cujas Obras meudas se perderam. Nos seus Autos acham-se romances em redondilhas, que entraram na corrente popular como o D. Duardos, e bellas serranilhas semelhantes aos typos dos nossos Cancioneiros trobadorescos. As Trovas do Moleiro de Luiz Brochado, os Arrenegos de Gregorio Affonso e Avisos para guardar, do Chiado, tornaram-se vulgares; as Trovas de Gonçalo Eannes Bandarra, com a fórma rudimentar de eclogas, chegaram a actuar na sociedade portugueza, como se lê no seu processo do Santo Officio. As redondilhas do poeta cego Balthazar Dias, taes como Malicia das Mulheres, Conselhos para bem casar, não fallando dos seus Autos hieraticos, ainda hoje formam parte essencial da Litteratura de cordel, ou popular.
Novellas de Cavalleria e Pastoraes.—Sob o dominio da erudição da Renascença, e com um aspecto apparentemente contradictorio, desenvolve-se uma certa actividade na elaboração de Novellas cavalheirescas, d’onde proveiu o vasto cyclo dos Palmeirins. Mas a contradicção concilia-se, por que essas novellas pretendiam continuar as tradições medievaes conjunctamente com as do cyclo greco-romano, prestando-se a um facil emprego d’esse extraordinario prurido rhetorico dos escriptores da Renascença. Além d’isso, influiu tambem a predilecção das damas, como na côrte de Francisco I, ou junto da infanta D. Maria na côrte de D. João III. Dentro d’este meio facticio a pressão erudita leva a novella cavalheiresca a fundir-se com as lendas pseudo-nacionaes. Assim, na Chronica do Imperador Clarimundo João de Barros syncretisa as lendas de Ulysses, pensando em assentar a mão e fixar o estylo rhetorico para escrever dos descobrimentos portuguezes nas Decadas da Asia. A influencia feminina sustentava o gosto das Novellas, que decahia pela preferencia da erudição. Do principal romance d’este cyclo, o Palmeirim de Oliva, diz Ticknor: «quasi geralmente admittido que se escreveu originariamente em portuguez e é o obra de uma senhora.»[207] N’este cyclo de novellas, os cavalleiros são oriundos da Grecia, e para conciliar o gosto pelo genero bucolico de Theocrito e Virgilio, esses mesmos cavalleiros passam a infancia em casa de pastores, que os accolheram por os terem encontrado abandonados. Foi no regresso da côrte de Francisco I, que o secretario da embaixada Francisco de Moraes offereceu á infanta D. Maria a sua novella do Palmeirim de Inglaterra, por 1543, seguindo-se logo a traducção castelhana, na qual Luis Hurtado confessa ser fructo de agenos huertos. A rhetorica dissolveu este cyclo novellesco em prolixos e illegiveis volumes.
Uma vez perdido o ideal cavalheiresco e esquecida a Edade media, a Novella vagueava entre os interesses burguezes, que vieram a idealisar-se no Romance moderno, e a imitação dos quadros de convenção da vida pastoral, e as allegorias a successos e intrigas palacianas. O genero da Novella pastoral tem o seu typo na Daphnis e Chloé de Longus, revivescido na Arcadia de Sanazzaro; as allegorias foram empregadas como recurso para dar interesse á ficção. A pastoral mais bella que possuimos é a Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro, em que descreve allegoricamente os desgraçados amores de Aonia e Bimnarder (sua prima D. Joanna Zagalo e elle Bernardim,) e de Arima e Avalor (D. Alvaro Velez de Guevara e D. Maria Alvares Zagalo, tia de Aonia.) A pastoral mais conhecida na Europa, e que chegou a formar um cyclo novellesco é a Diana de Jorge de Monte-mór, continuada por Gil Polo e por Tejada; é tambem uma allegoria aos amores do poeta. Fernão Alvares d’Oriente imitou directamente Sanazzaro; o genero decahiu na insipidez, como se vê no Desenganado e Pastor peregrino, de Rodrigues Lobo, e nos disparates dos Desmaios de Maio, de Diogo Ferreira Figueirôa, nas Ribeiras de Mondego de Eloy de Souto Mayor, e nos Crystaes d’alma, de Escobar. Pelos Indices Expurgatorios conhece-se a existencia de muitas novellas allegoricas que se tornaram mysticas, como Pé de rosa fragrante, Cerva branca e outras. Um dos typos mais completos do genero é a Historia do Predestinado Peregrino, imitada d’essa extraordinaria allegoria ingleza Pilgrim’s Progress, de Bunyan, que o jesuita Alexandre de Gusmão apropriou tomando-a do auctor anabaptista. Continuou esta corrente no seculo XVIII, como vêmos no Feliz Independente, do P.e Theodoro de Almeida, misturando com a imitação de Fénélon o deismo da sua época, e no Piolho viajante de José Daniel, ficção picaresca não com a pujança pittoresca de Mendoza e Quevedo, mas como um producto morbido de uma sociedade imbecilisada pelo mais degradante cesarismo.
Os Contos da Edade media, ou Fabliaux, que receberam fórma litteraria no Decameron de Boccacio, conciliam-se com os Exemplos da antiguidade classica, tomados de Valerio Maximo; os prégadores catholicos empregam-os com intuito moralista. A obra mais capital d’esta transformação é a collecção de Gonçalo Fernandes Trancoso, Historias de Proveito e exemplo, livro inestimavel, escripto durante o terror da Peste grande em 1569, e quando o pobre mestre eschola acabava de perder mulher e filhos, como o confessa em uma carta á rainha D. Catherina. Este livro manteve-se no gosto publico até meados do seculo XVIII. Ahi se lê o celebre conto da Edade media, a paciencia de Griselidis, que appareceu referido no Miroir des Femmes e universalisado depois no Decameron. A redacção de Trancoso egual á castelhana de Timoneda, deriva de um texto italiano anonymo publicado sem data. Nos anexins populares repete-se: «Pelo marido vassoura; pelo marido senhora,» referindo-se ás situações emocionantes d’esse conto. Outros anexins, como: Minha mãe, calçotes, acham-se desenvolvidos por Trancoso.
Gil Vicente e as origens do Theatro nacional.—Era Gil Vicente um eminente poeta lyrico, como se vê pelas suas serranilhas, que elle mesmo punha em musica; era um notavel philologo, citado como auctoridade nas Grammaticas portuguezas de Fernão de Oliveira e João de Barros; era um racionalista, sendo pelos seus Autos, e dentro da orthodoxia um dos precursores da Reforma. No seu genio satyrico revela o alto senso commum com que retratou todos os vicios do seu tempo, todos os abusos da organisação social, que dia a dia ia sendo invadida pela ambição clerical. Para um homem com todos estes dotes, a vida tinha de ser fatalmente uma lucta; luctou em quanto o protegeu a rainha D. Leonor, viuva de D. João II, e morreu proximo se não no mesmo anno em que entrou a Inquisição em Portugal. O ourives-lavrante da rainha D. Leonor, Gil Vicente, era tio do poeta, que por sua influencia veiu de Guimarães para Lisboa e cursou os estudos de Artes em que recebeu o gráo de Mestre (como se lhe chama no Cancioneiro de Resende). Ainda por influencia de seu tio Gil Vicente ourives, frequentou a côrte de D. João II, e por convite da rainha é que elle compoz os seus primeiros Autos hieraticos, que se tornaram um divertimento palaciano.
O theatro de Gil Vicente é a vida do povo escripta para os serões do paço, como quem expunha ao monarcha, que andava longe da realidade, a existencia de soffrimentos dos que trabalhavam sem garantias. Ali apparecem todos os costumes da Edade media portugueza, as superstições, os anexins, os jogos, as pragas, as cantigas, as danças, os romances; os typos da alcaiota, da bruxa, do judeu casamenteiro, do cigano, do frade unctuoso, do astrologo, do escholastico, do fidalgo pobre, do lorpa ou ratinho, tudo isso apimentado com essa soltura da linguagem medieval, que não arranhava os ouvidos das damas da côrte. Quando vêmos como se passava o tempo nas côrtes europêas do fim da Edade media; como foram compostas as Cem Novellas novas de Luiz XI, o Heptameron da rainha de Navarra, os exemplos obscenos de La Tour Landry para moralisar suas filhas, temos a explicação das desenvolturas de Gil Vicente, e do gosto que ellas lisongeavam nas côrtes de D. Manoel e D. João III. O grande artista teve um intuito superior nos seus Autos, que os torna dignos de estudo, além do merito de serem a iniciação e fórma evolutiva do theatro nacional: luctava pela independencia do fôro civil contra o fanatismo religioso, e contra o parasitismo aristocratico que vivia de capitanias, alcaidarias e commendas. Os humanistas (alguns homens de bom saber) atacaram a fórma rude dos seus Autos; elle confundiu-os com a farça de Inez Pereira, verdadeiramente molieresca. O seu genio dramatico manifestou-se em um meio deprimente, a côrte, em que era admirado o pedantismo humanista e em que prevalecia a intolerancia religiosa, que por vezes lhe queria impedir a palavra, como se viu quando se oppuzeram a que recitasse o Sermão em verso pelo nascimento do infante D. Luiz. Mas os seus Autos tornavam-se uma necessidade na côrte sempre aterrada com as contínuas pestes com que no seculo XVI Lisboa era devastada. No meio da mortandade geral, a côrte fugia para Santarem, para Almeirim, para Coimbra, para Evora; Gil Vicente era chamado para distrahir os serões do paço: de uma vez chegou a ir representar a Coimbra, ainda doente, tendo a peste em casa, como elle proprio o declara. Por que triumphou a obra de Gil Vicente, apezar do antagonismo classico, da reacção catholica dos Indices Expurgatorios, das tragicomedias jesuiticas e do grande perstigio das comedias hespanholas de capa y espada? Para que a fórma de Auto seduzisse espiritos como os de Camões, e se impuzesse á litteratura desde o seculo XVI a XVIII, era preciso que tivesse raizes profundas na alma portugueza; e tinha-as, por que eram as tradições de que o genio de Gil Vicente soube apropriar-se. Aonde Gil Vicente representou os seus Autos, ahi parece ter fundado eschola: em Evora, vamos encontrar seguindo as suas normas, Antonio Ribeiro Chiado, seu irmão Jeronymo Ribeiro, Gaspar Gil Severim e Braz de Resende; em Santarem, desenvolve-se o talento dramatico de Antonio Prestes, que tambem como o mestre prégou as ideias da Reforma; o diacono e mulato Antonio Pires Gonge, e Manoel de Sousa Nogueira, que sustentou a eschola até ao seculo XVII. Em Coimbra, apezar da corrente erudita dos Collegios e das representações de tragedias latinas, a influencia de Gil Vicente não foi extincta; para os divertimentos escholares é que escreveu Camões o Auto dos Amphytriões. Em Lisboa, fundaram-se os primeiros Corros ou Pateos de Comedias, e as representações dramaticas tornavam-se uma necessidade da vida burgueza, que um privilegio exclusivo a favor do Hospital de Todos os Santos explorava como subsidio. Á eschola do Auto pertencem Gil Vicente de Almeida, neto do poeta, auctor do Auto da Donzella da Torre e da Comedia dos Cativos;[208] tambem, Simão Garcia, auctor do Auto do Pé de prata, de 1557, Antonio Peres, auctor de comedias manuscriptas, Frei Antonio de Lisboa e Balthazar Dias, cujos Autos de Santa Barbara, de Santo Aleixo, de Santa Genoveva, estão ainda em vigor nas representações aldeãs, e constituem esta eschola lisbonense. O povo entristecido pelas fogueiras da Inquisição e pelas fôrcas do absolutismo, ficou sem festas nacionaes, e o unico desafogo que conservou encontrou-o nos seus Autos hieraticos e farças tradicionaes.
PARTE II: A Eschola italiana.—Na transição affectiva da Edade media operava-se uma synthese lenta na civilisação europêa, ou unidade que tende a realisar no seu destino: a poesia trobadoresca iniciára, como diz Quinet, a egualdade perante o amor; pela emancipação das classes servas e luctas do Terceiro estado estabeleciam-se as bases para a unidade politica; apezar da depressão religiosa, o sentimento christão ainda inspira uma acção commum nas Cruzadas, e dá ensejo ao ultimo emprego da intervenção da força na liga contra os Turcos; as grandes navegações, o estabelecimento do regimen colonial e do credito, preparam a unidade economica. A dictadura monarchica, desvairada pelos interesses dynasticos, é que separava as nações por um systema de guerras alimentadas pela chimera da Monarchia universal. N’este periodo brilhante da Renascença, as Litteraturas romanicas tendem para uma certa unidade esthetica, imitando-se mutuamente. A Italia occupou n’este momento da civilisação um logar analogo ao que Roma conservou depois da sua queda durante a transição da Edade media, em que a letra dos seus codigos continuava a sua supremacia; a Italia, depois de subjugada pela Allemanha e pela França, viveu pela Arte, dominou os seus invasores pelo influxo esthetico. A poesia italiana era um desenvolvimento do lyrismo dos trovadores, menos casuistico e mais philosophico; todos os povos modernos que tinham conhecido o lyrismo trobadoresco acceitaram a nova expressão do sentimento, e a Italia ficou como que a Grecia do mundo moderno. Faziam-se viagens á Italia como em santa romagem para sentir de perto a antiguidade, para se repassarem do espirito da cultura latina, para observarem a sumptuosidade sensual da Renascença. Os monarchas eram educados por pedagogos italianos, como Francisco I, amigo de Benvenuto Cellini; procuravam attrahir para as suas côrtes os grandes artistas, como Henrique VIII a Ticiano e a Raphael; davam suas filhas em casamento a princepes italianos, como D. Manoel concedendo a infanta D. Beatriz ao duque de Saboya. Os filhos das principaes familias de Portugal, como Luiz Teixeira, João Rodrigues de Sá e Ayres Barbosa, iam completar os seus estudos á Italia, sob a direcção de Angelo Policiano; ou a frequentar a lição dos jurisconsultos, que as Universidades pagavam principescamente. Em uma comedia de Jorge Ferreira chasquêa-se d’esta monomania da viagem á Italia.
Sá de Miranda e a Pleiada portugueza.—O momento definitivo em que a poesia italiana influenciou em Portugal, fixa-se no regresso de Sá de Miranda da viagem em que percorrera Roma, Veneza e Milão «em tempo de hespanhóes e de francezes,» isto é, desde 1521 a 1527. Durante a sua digressão artistica Sá de Miranda praticou com Ruscellai e com Luctancio Tolomei; vinha fascinado com os Assolanos de Bembo, com as phantasias cavalheirescas do Orlando, enlevava-o o platonismo de Petrarcha e de Dante, cuja relação com os trovadores provençaes lhe era já conhecida; vinha desvairado pela exuberancia de vida e de alegria da saturnal da Renascença, que o seu espirito catholico condemnava. Quando regressou á côrte portugueza, tinham acabado os serões do paço, onde ouvira poetar ainda D. João de Menezes; quiz ensaiar os novos metros, receioso de ir de encontro á auctoridade perstigiosa da poetica hespanhola, abonava-se com o exemplo de Garcilasso, e indicava como o proprio Petrarcha derivou o seu lyrismo dos provençaes. Os partidarios do verso octosyllabo tinham pelo seu lado os poetas palacianos, e a suspeição contra as ideias da Reforma. Em volta de Sá de Miranda foram-se agrupando os novos, como D. Manoel de Portugal, Francisco de Sá de Menezes, Pedro de Andrade Caminha, Diogo Bernardes, Agostinho Pimenta, o Dr. Antonio Ferreira e Jorge de Monte-mór, e por ultimo André Falcão de Resende; pelos seus ensaios poeticos estreitavam uma encantadora amisade formando uma Pleiada egual á franceza, não menos sympathica e innovadora.
A Eschola italiana era combatida pelos sectarios da poetica de Encina que preferiam escrever em castelhano, e pelos eruditos, que se vangloriavam de metrificar em latim. O Dr. Antonio Ferreira foi o que mais propugnou pelo uso da lingua portugueza. Desgostado da côrte, Sá de Miranda retirou-se para a vida confinada da provincia, moralmente alquebrado antes de tempo; distrahia-se em amenas conversas com Antonio Pereira, o senhor de Basto, na sua quinta da Tapada, lendo no remanso campestre os mais bellos exemplares da poesia italiana. Ali lhe iam ter as poesias de Caminha, de Bernardes, de Ferreira, e o princepe herdeiro D. João, que começava a sympathisar com a poesia, instava para que lhe mandasse a collecção dos seus versos. Por trez vezes lhe enviou cadernos das suas composições para comprazer amavelmente com a curiosidade do princepe, que mandava tambem a Evora o seu secretario Luiz Vicente copiar os versos de Fernão da Silveira.
Por falta de um ideal superior a poesia lyrica tornou a cahir no mais acanhado personalismo; vertiam-se excerptos de Anacreonte e de Moscho, e odes de Horacio. Porém entre estes Quinhentistas que se admiravam na mais beatifica ingenuidade, que se louvavam em todos os seus versos, que se chrismavam com nomes bucolicos, que eram camareiros-móres, desembargadores, commendadores, apparecia um homem de genio, irreverente, travesso, sem fumos de erudição nem de gerarchia, que se identificou com a Renascença pelo seu espirito de rehabilitação da Natureza, e que amou a Edade media para agradar ás damas; era Camões, que teve a comprehensão suprema da poesia italiana. Os outros poetas fecharam-lhe o accesso ao princepe D. João e guardaram silencio absoluto em volta do seu nome; Caminha satyrisa-o duramente alludindo ao verso dos Lusiadas: «Dae-me uma furia grande e sonorosa;» Bernardes indicando o nome dos poetas que devem formar um grande Cancioneiro que projecta, não só omitte o nome de Camões, como tambem se apropria de alguns sonetos, eclogas e do poemeto de Santa Ursula, talvez desmembrados dos manuscriptos roubados a Camões. Apenas Falcão de Resende, que o conheceu na desgraça e doença, lhe dedicou uma composição moral ou satyra contra os costumes.
Camões, e sua Eschola lyrica e épica.—Sabe-se pela genealogia de Camões, que fôra seu terceiro avô um trovador-fidalgo da Galliza, tendo por parte de sua mãe parentesco com a familia dos Gamas, do Algarve. N’esta orientação ethnica discorre a sua vida: o genio galleziano revela-se na sua superioridade lyrica sobre todos os outros quinhentistas; a tendencia cosmopolita que o levou por toda a extensão do dominio portuguez era essa mesma que fez com que do Algarve sahissem as primeiras caravellas para as descobertas das costas da Africa e das ilhas do Mar Tenebroso. Ainda no seculo XVI formou-se em volta de Camões uma eschola de imitadores, que souberam dar mais sentimento e harmonia ás fórmas italianas. Os versos lyricos de Camões só começaram a ser impressos quinze annos depois da sua morte; reunira-os sob o titulo de Parnaso, mas foi-lhe esta collecção furtada logo que chegou a Lisboa em 1570; os editores suppriram esta perda explorando as collecções particulares, como as de Luiz Franco, Manoel Godinho, Antonio de Abreu; e assim se explicam tambem os plagios de Bernardes e de Fernão Alvares d’Oriente. Percorrendo-se as collecções manuscriptas, raro será o poeta quinhentista que não tenha com o seu nome versos que ou pertenceram ou foram attribuidos a Camões. Por este syncretismo litterario se vê, que o gosto e a imitação camoniana levavam os colleccionadores a estes equivocos, ou os plagiarios a uma apropriação irresistivel. Era-se camoniano no fim do seculo XVI, como na época das Arcádias se era elmanista. O amor e a philosophia neo-platonica revelaram a Camões a belleza da poesia italiana, em cuja imitação se exercitára ainda na vida escholar de Coimbra, como se vê pela Elegia da Paixão; na frequencia do paço foi levado a acceitar a medida velha, escrevendo voltas, glosas e endechas, aproximando-se espontaneamente das fontes tradicionaes: cita romances populares, reproduz fórmas encantadoras do lyrismo galleziano e mostrou um conhecimento directo da ecloga Crisfal. A sua inspiração veiu-lhe do contacto da realidade: a vida aventureira na Africa, na India, na China, nas Molucas, nos cruzeiros, nos naufragios, nos hospitaes e nos carceres, não lhe dava tempo, nem logar para compulsar classicos gregos e romanos, os grandes poetas italianos e hespanhóes, e a seguir servilmente modelos auctorisados. Subtrahiu-se assim áquella causa que tornou em parte mediocres os Quinhentistas. O contacto da realidade bastou para lhe dar essa melancholia indefinivel, essa tristeza da fatalidade e o protesto eloquente que solta por tudo quanto é verdadeiro e justo. O ideal era o seu refugio; Natercia, era uma realidade, e como elle não comprehendia o amor sem tempestades e ruinas, a sua vida dispendeu-se nos accidentes d’esta realidade profunda.
A perfeição do lyrismo de Camões exerceu uma influencia immediata; seguiram-o os lyricos Heitor da Silveira, Simão da Silveira, Estacio de Faria, Antonio de Abreu, André de Quadros, André Falcão de Resende, D. Manoel de Portugal, Vasco Mousinho de Quevedo, Balthazar Estaço e Diogo de Couto, que começou a fazer um commentario aos Lusiadas. A naturalidade e verdade da sua inspiração foi comprehendida pela nação, que estava incorporada na unidade hespanhola pela Casa de Austria; serviu de alento ao sentimento de patria e de estimulo á sua autonomia. O valor da obra de Camões resume-se na eloquente phrase de Schlegel: Camões é uma litteratura inteira.
No seculo XVI appareceu nas principaes litteraturas da Europa a preoccupação de uma Epopêa moderna, individual, academica, pautada pelos moldes virgilianos. Estavam esquecidas ou diluidas em novellas as grandes Gestas francezas; faltava um assumpto que servisse de thema ao ideal heroico, e fosse compativel com a sympathia da sociedade moderna; por isso os poetas francezes, italianos e hespanhóes malbarataram esforços sem conseguir essa creação esthetica. Camões deu fórma á moderna Epopêa, por que idealisou o facto capital—a posse da terra e a lucta do homem com a natureza, d’onde deriva a civilisação da Europa na sua synthese activa. O assumpto dos Lusiadas tinha sido entrevisto por outros espiritos, mas faltou-lhes as condições para attingirem a fórma eterna. João de Barros no Panegyrico a D. João III, falla da necessidade de um poema das Navegações portuguezas, e no Clarimundo chega a esboçar quarenta outavas sobre o grande quadro. Os chronistas Damião de Góes e Castanheda reconhecem que é necessario uma fórma mais solemne que a da historia para a exaltar as navegações portuguezas; o poeta Antonio Ferreira incita Caminha a essa empreza; Jorge de Monte-mór tentava um poema do Descobrimento da India oriental, e Pedro da Costa Perestrello rasga com desespero o seu poema sobre a expedição de Vasco da Gama, quando viu os Lusiadas de Camões, como conta Faria e Sousa. Camões realisando esta intensa aspiração seguiu o typo virgiliano, que o gosto do tempo exigia; mas salvou-o a intuição do genio, com que soube agrupar em volta do facto historico todas as bellas tradições e lendas da nacionalidade portugueza. É isto o que o distingue dos outros poetas épicos, que julgaram fazer epopêas pondo as chronicas em verso, como Jeronymo Côrte Real com o Segundo Cêrco de Diu, em 1574, Luiz Brandão com a Elegiada, em 1588, Francisco de Andrade com o Primeiro Cêrco de Diu, em 1589. Na expedição inconsiderada de D. Sebastião á Africa, encarregou o monarcha a Diogo Bernardes de ser o seu Homero; Camões foi preterido pela influencia dos intrigantes palacianos, talvez o mediocre Jeronymo Côrte Real. Camões saberia inspirar-se da derrota, como o cantor de Roland. Depois da perda da autonomia nacional em 1580, morre o poeta, mas ficaram os Lusiadas como a unica força viva em que se apoiou a consciencia portugueza.
A Comedia e a Tragedia classicas.—Assombrado pelo que vira na Italia, maravilhado com as comedias de Ariosto, de Bibiena e de Machiavelli, no seu regresso a Portugal tentou Sá de Miranda renovar a litteratura dramatica, como o emprehendera com a poesia lyrica. Começou por protestar contra o titulo e a fórma dos Autos hieraticos, e a escrever no gosto italiano. Pallido reflexo da sociedade grega, as comedias latinas de Terencio serviram de typo para o renascimento do theatro classico, em que as hetairas e o miles gloriosus se transformavam nas cortezianas e no condotieri. Montaigne descreve este processo litterario: «Muitas vezes me occorre á phantasia, como no nosso tempo, aquelles que se entregam a fazer comedias (assim como os Italianos, que são os mais felizes) empregam trez ou quatro argumentos das de Terencio ou Plauto, para fazerem uma das suas; e accumulam em uma só comedia cinco ou seis contos de Boccacio.» (Ess., II, 10.) Sá de Miranda seguiu esta mesma pauta; o cardeal D. Henrique folgava em vêl-as representar. A Comedia classica sustentou-se entre os humanistas, servindo de ensaio litterario nos divertimentos e férias escholares. D’este costume falla Montaigne, ao descrever a influencia pedagogica de André de Gouvêa no Collegio de Guienne, em Bordéos: «j’ay soustenu les premiers personages ez tragedies latines de Buchanan, de Guerente et de Muret, que se representerent en nostre Collège de Guienne avecques dignité: en cela, Andreas Goveanus, nostre principal, comme en toutes aultres parties de sa charge, feut sans comparaison le plus grand principal de France.» (Ess., I, 25.) Em 1547 veiu André de Gouvêa a Portugal por chamado de Dom João III estabelecer o Collegio real em Coimbra, que os Jesuitas apanharam e converteram no seu Collegio das Artes. Sob a influencia de Mestre André e dos professores francezes é que mais se desenvolveu o gosto do theatro classico, e pela amisade de Diogo de Teive com Antonio Ferreira é que este seria levado a tentar os seus primeiros ensaios dramaticos. Nos prologos das suas comedias se reconhece o esforço para sustentar uma fórma dramatica sem condições de vida. Adstringindo-se ás regras da comedia motoria, os quinhentistas esqueceram-se da realidade da vida, sendo muitas vezes incomprehensiveis as situações e mesmo o plano da acção.
Como a Comedia, tambem a Tragedia classica foi conhecida indirectamente, não dos modelos gregos, mas das imitações latinas de Seneca. Separada dos seus elementos mythicos, d’onde derivára, foi esta fórma reproduzida como mero artificio, visando os talentos que a imitavam a manter escrupulosamente as trez unidades. Ferreira, um dos mais elevados representantes do humanismo portuguez, teve um conhecimento directo da tragedia grega. Ao ensaiar esta nova fórma litteraria teve a felicidade de se compenetrar do verdadeiro espirito da fatalidade antiga, e de comprehender o valor de um assumpto nacional e moderno. Mas esta direcção justa não foi sustentada; a desgraça de Inez de Castro tornou-se o assumpto quasi exclusivo dos tragicos portuguezes desde os imitadores da comedia de capa y espada até aos exageros ultra-romanticos. A Tragedia classica foi desnaturada pelas Tragicomedias latinas dos Jesuitas, que dramatisavam assumptos biblicos, n’esse como que exercicio collegial, cuja representação com um apparato scenico assombroso durava por vezes dois e trez dias. O Collegio das Artes, de Coimbra, o de Santo Antão, de Lisboa, e a Universidade do Espirito Santo, de Evora, foram os centros em que os Jesuitas mais desenvolveram estes espectaculos tragicomicos. Eram essas Tragicomedias intermeadas de grandes córos cantados por estudantes, apresentando mutações phantasticas, a que se chamou tramoias. Na formatura do Prior do Crato representou-se em Santa Cruz a tragicomedia latina Golias; e quando D. Sebastião, ainda criança, em 1570 visitou Coimbra, assistiu á representação de uma tragicomedia do P.e Luiz da Cruz, que durou trez dias. Póde-se inferir, que por via das tragicomedias chegaram a Portugal as primeiras noticias da Opera, que estava ainda nos seus rudimentos, como os Madrigaes da Italia e os Ballets francezes, que se desenvolveram no seculo XVII.
2.o Periodo: Os Culteranistas (Seculo XVII):
Quando as Litteraturas se afastam das fontes naturaes da tradição seguindo uma imitação erudita, ou uma artificiosa originalidade, tornam-se o producto de uma aberração doentia; faltando-lhes a communicação com o publico e um destino social, apoiam-se nos preceitos banaes da rhetorica, e na superstição dos modelos. Deu-se no seculo XVII em todas as Litteraturas da Europa este desvio das suas bases naturaes; chamou-se a esta corrente do máo gosto, Culteranismo. Penetrou o seu influxo em Portugal de um modo absoluto, caracterisando todas as manifestações estheticas do seculo, e maculando a obra de espiritos superiores, como D. Francisco Manoel de Mello ou o Padre Antonio Vieira. O que se passou em Portugal foi simultaneo em Hespanha, Italia, França e Inglaterra, o que leva a considerar uma causa geral, immanente ao mesmo seculo. As Litteraturas confinavam-se nas côrtes e nas Academias. Toda e qualquer actividade da intelligencia humana, esthetica, scientifica ou philosophica, exercendo-se em um subjectivismo exclusivo e sem relação com o meio social, cáe na degenerescencia morbida. Quando a Philosophia ficou confinada nos claustros, longe da communicação com a realidade das cousas, ou a objectividade, deu a Scholastica, em que os cerebros especularam sobre entidades nominaes, sem o apoio dos factos scientificos, e sem o intuito de subordinar a uma concepção synthetica os dados do mundo objectivo; reduziu-se a philosophia a uma dialectica palavrosa, a uma argucia sophistica, e por fim a uma futilidade e inutilidade lamentaveis. A renovação philosophica de Bacon e Descartes até Augusto Comte, começou por arrancal-a do isolamento claustral, dando á especulação a complexidade dos elementos objectivos que constituem o mundo physico e moral. Fecundada pelas observações o experiencias physicas, a Philosophia libertava-se de um inane Ontologismo; mas as Litteraturas fechadas nas côrtes, e nas escholas e academias, cahiram nas banalidades do Humanismo. Por isso mesmo que a especulação intellectual activava o trabalho scientifico do seculo XVII, é que as manifestações estheticas foram prejudicadas. A rasão emancipava-se da auctoridade theologica; a Companhia de Jesus tornou-se o fóco de toda a educação publica, monopolisou o ensino, tomou conta das gerações novas, amoldou-lhes os cerebros, esgotou a rasão humana em cousas inuteis, com o prolongado ensino do latim, da rhetorica, da dialectica e da theologia. Os Jesuitas antepuzeram-se aos Humanistas, e sustentaram o scholasticismo; aonde dominaram como pedagogos não penetrou a sciencia; e as Academias, que se creavam como fócos de actividade mental, nos paizes mais catholicos tornaram-se exclusivamente litterarias, á maneira das Tertulias hespanholas, proseguindo o humanismo das escholas jesuiticas.
Este periodo seiscentista caracterisa-se por um impudente pedantismo, pela falta de senso commum no emprego das metaphoras; dava provas de culto, o que encobria a falta de pensamento em laboriosos hyperbatons, o que primava em sustentar theses ridiculas com gravidade, o que forjava anagrammas propheticos, o que engenhava labyrintos recheados de acrosticos, com versos lipogrammaticos ou chronogrammaticos, com a fórma de columna, de pyramide ou de calix.
Além da educação do automatico humanismo jesuitico, as côrtes, pelas conveniencias do euphuismo, reduziram a idealisação litteraria a uma indignidade pela bajulação obtida pela protecção official; os reis boçaes, a aristocracia frivola, emfim todos os prepotentes eram proclamados Mecenas. Foram numerosissimas as Academias litterarias em Portugal no seculo XVII, taes como a dos Ambientes, de 1615, a Sertoria, de Evora, de 1630, a dos Anonymos, de 1637, a dos Generosos, de 1647, a dos Singulares, de 1663, a dos Solitarios de Santarem, de 1664, e Conferencias discretas, de 1696. As bibliothecas estão repletas de manuscriptos d’este periodo litterario. Uma vez separados da naturalidade, não tinha limites a aberração mental; ha nos seiscentistas uma tendencia satyrica, que os absolve, por que protestavam contra o absurdo da moda.
No meio dos desconcertos dos Culteranistas destacam-se pela sua incontestavel superioridade no lyrismo, D. Francisco Manoel de Mello e Francisco Rodrigues Lobo. Conheceram estes dois eminentes poetas as tradições portuguezas; D. Francisco Manoel, que allude a muitos cantos e contos populares, estudou Sá de Miranda e imitou-o nas suas encantadoras Eclogas. A superioridade do lyrismo de Rodrigues Lobo, que estudára Camões, era explicada por Faria e Sousa como consequencia dos plagios feitos ao immortal poeta; é certo que Rodrigues Lobo conheceu as antigas serranilhas, mas as suas Eclogas são principalmente bellas por que se ligam a successos reaes da sua vida desgraçada.
Abundam n’este periodo culteranesco as Epopêas historicas, com o competente tempero da fabula, descripções, narrações e episodios, segundo a norma virgiliana. Na perversão do gosto houve intenções de annullar o poema de Camões, substituindo os Lusiadas pela Ulyssêa do desembargador Gabriel Pereira de Castro. Levantou-se tambem a polemica entre Tassistas e Camoistas, chegando-se a recorrer ás delações ao Santo Officio para fazer triumphar o partido que esquecido das tradições nacionaes queria por todos os modos impôr á admiração o poema de Tasso. O que mais impressiona é o facto da revindicação da autonomia nacional, pela revolução de 1640, não despertar a idealisação de tantos poetas épicos que metrificaram a mythologia dos falsos chronicões.
Unificado na Hespanha no ultimo quartel do seculo XVI, Portugal era mais conquistado pelos costumes, pela lingua e pelo theatro, do que pelas leis. Durante todo o seculo XVII deliciamo-nos com as comedias famosas de capa y espada, e com a sua fecundidade muitos escriptores portuguezes enriqueceram o reportorio castelhano. As melhores companhias de actores hespanhóes achavam em Portugal asylo e dinheiro. No manuscripto da bibliotheca nacional de Madrid, Genealogia, origen y noticia de los Comediantes de España, enumeram-se os que vieram a Portugal. Em todas as festas publicas eram obrigadas as comedias de Lope de Vega; os escriptores dramaticos hespanhóes, como Lope de Vega, Calderon, Tirso de Molina, Alarcon, Montalban, Mira de Mescua, Velez de Guevara e outros menos celebres, dramatisavam a historia portugueza, desde os amores de Inez de Castro até á propria revolução de 1640. Os escriptores portuguezes que adoptaram o estylo da comedia de capa y espada tornaram-se celebres entre os ingenios do theatro hespanhol. Sacudido o jugo politico da Hespanha, entraram em Portugal outras influencias litterarias e artisticas, mas não passaram do meio restricto da côrte.
3.o Periodo: Os Árcades (Seculo XVIII):
Não existia vida nacional no seculo XVIII; a monarchia passára á ostentação do cesarismo, em que a auctoridade adormentava a opinião publica com o deslumbramento da sua sumptuosidade; o rei era senhor de tudo, e nada se emprehendia sem a acção official. Os ministros de D. João V foram primeiramente dois jesuitas, e depois o varatojano Frei Gaspar, chefe da seita de illuminados a Jacobêa, e o monarcha sinceramente possuido do poder paternal sobre o seu povo entendia servir o bem da nação mandando dizer missas por alma dos seus subditos, e dispendendo a riqueza publica na fundação de estupendas basilicas, como a de Mafra e a Patriarchal, e na compra de indulgencias. O que era o povo, dil-o pittorescamente Beckford nas suas Cartas, que nunca vira terra com mais mendigos, mais grotescamente esfrangalhados, com pustulas mais asquerosamente assoalhadas á caridade; e dizia lord Tiralwey, que Portugal se dividia em duas partes, a que suspirava pelo Messias, e a que ainda sonhava com a vinda de D. Sebastião. E comtudo, no seculo das maiores audacias, Portugal iniciou os dois factos capitaes, a suppressão da Companhia de Jesus e a secularisação do ensino; tal era a força da corrente revolucionaria, que a propria monarchia, sob a acção ministerial, cooperava activamente embora inconsciente na dissolução do regimen catholico-feudal.
Os homens que sentiam a necessidade de uma renovação litteraria só achavam possivel o facto intervindo um decreto do rei. A Academia, que segundo os costumes italianos era uma reunião familiar, com musica, poesia e refrescos, recebeu sob o cesarismo uma protecção official, que assegurou a sua existencia, para dogmatisar e restaurar. Ignorava-se que a litteratura era um reflexo do estado social e uma expressão do genio nacional; contra a decadencia que estava na ordem das cousas e atrophiava os espiritos, impunham-se os moldes greco-romanos, com a mesma inintelligencia com que o curandeiro ataca o symptoma morbido. Permaneciam as causas, e os mais sinceros esforços ficavam sempre improficuos. Estafou-se inutilmente a Academia de Historia portugueza, apezar do poderoso influxo official que a sustentava. Erigiu-se a Academia dos Anonymos de José Freire Montarroyo, mas caíu na glorificação banal de D. João V; os Ericeiras prestaram os seus palacios, e póde-se julgar que sob a influencia critica do Verdadeiro Methodo de estudar, de Verney, que analysava o Culteranismo, se organisou a Academia dos Occultos, que veiu a servir de nucleo á Arcadia de Lisboa. A relação entre estas duas Academias explica-nos a reacção estabelecida contra o anterior elemento seiscentista, representado por Pina e Mello e D. Joaquim Bernardes, e o purismo classico que procurava restabelecer a auctoridade dos Quinhentistas.
A Arcadia de Lisboa.—Foi fundada por homens de alta posição official, principalmente desembargadores que se envergonhavam de ser poetas, como Diniz (Elpino Nonacriense) que conservou inéditas as suas composições. Os Estatutos da Arcadia eram tão draconianos, que para ser admittido como socio exigia-se a unanimidade, e para a critica das obras um sigilo absoluto. Floresceu de 1757 até 1774, e representa historicamente o absolutismo do canon classico em boa alliança com o despotismo politico e o intolerantismo religioso. Exercendo-se em dogmatisar, esterilisou-se na indecisão, gastando as suas energias na discussão se deveria admittir na linguagem litteraria o neologismo e o archaismo. Desde que os árcades perderam o favor official do omnipotente ministro de D. José, desappareceu a sua actividade, e a academia desagregou-se silenciosamente.
O poeta, como vêmos pelo exemplo de Tolentino—«acabava por fim pedindo esmola;» era uma especie de creado de casa fidalga, que festejava os annos dos titulares e esperava que o brindassem com um fato. Ainda não havia a dignidade do escriptor. O Marquez de Pombal viu na Arcadia uma Companhia com o privilegio ou monopolio das composições metricas, e assim a protegeria; desde que alguns espiritos sympathisaram com as doutrinas pedagogicas do Oratorio, o ministro tirou-lhes o favor official, e aos que suspeitou de fallarem mal do seu governo metteu-os no carcere, como ao Garção que morreu no Limoeiro.
Os Dissidentes da Arcadia.—A verdadeira feição do seculo XVIII na poesia não está no que produziu a Arcadia adstricta á imitação classica; sob a pressão do despotismo houve protestos irreflectidos da natureza, como se observa n’esse phenomeno de perversão mental da poesia erotica. O molinismo dos conventos e a sensualidade do cesarismo patrocinavam este genero litterario, de que foram victimas quasi todos os poetas do seculo XVIII. Esse phenomeno é conhecido em França pelo nome de Sadismo.
O Camões do Rocio e o Lobo da Madragôa revelam melhor a depressão moral sob o cesarismo, do que as campanudas odes horacianas. Garção, Tolentino e Filinto Elysio sacrificaram ao gosto erotico; foi a doença do seculo, cuja intensidade se nota na quantidade de nomes que cultivaram o genero, taes como Domingos Monteiro de Albuquerque, Pedro José Constancio, Fr. José Botelho Torrezão, o Abbade de Jazende, o P.e José Agostinho de Macedo, Bocage, Pimentel Maldonado e outros.
Na constituição da Arcadia de Lisboa alguns poetas afamados do tempo não foram convidados, e outros mais tarde não foram admittidos por causa do seu genio satyrico. N’este caso apparecem Nicoláo Tolentino, que metrificava irreprehensivelmente, e Francisco Manoel do Nascimento (Filinto) que com outros poetas constituiu o Grupo da Ribeira das Náos. Cruzou-se por vezes o tiroteio das satyras, acirrando-se uns e outros, a ponto de ser conhecido o seu principal conflicto pela designação da Guerra dos Poetas, a proposito da cantora Zamperini.
Havia no seculo XVIII um costume em que a poesia se tornava um elemento das festas; chamava-se-lhe Outeiro poetico, em que se versejava nas eleições dos abbadeçados. Seria ainda uma apagada reminiscencia das Côrtes de Amor. Tolentino pinta com traços pittorescos este costume, que formava reputações.[209]
A reacção da côrte de D. Maria I contra as reformas pombalinas, lançou a nação na violencia do intolerantismo; fizeram-se perseguições systematicas aos homens intelligentes, como ao mathematico e poeta José Anastacio da Cunha, a Felix de Avelar Brotero, a Filinto Elisio, a José Corrêa da Serra, e por ultimo até ao poeta Bocage, por causa do seu espirito encyclopedista. Assim se cahiu n’esse gráo de cretinisação, que fazia dizer ao P.e Theodoro de Almeida, ao inaugurar a Academia das Sciencias em 1779: «Que admirados ficareis, senhores, se soubesseis quam vil é o conceito que mesmo os estrangeiros fazem injustamente de nós. Quando lá fóra apparece casualmente algum portuguez de engenho mediocre, admirados se espantam como de phenomeno raro. E como assim? (dizem) de Portugal? do centro da ignorancia!—Assim o cheguei a ouvir.» No seculo XVIII a Europa confundia a situação mental dos portuguezes com a crassa estupidez dos seus governantes, como hoje nos identificam com o descaro da sua insolvencia. A Academia das Sciencias foi um fóco de luz que o duque de Lafões e José Corrêa da Serra, auxiliados por Vandelli e o visconde de Barbacena, projectaram n’este prolongamento da Edade media em Portugal.
A nova Arcadia.—A influencia franceza, que se contrabalançava com a auctoridade dos Quinhentistas na primeira Arcadia, depois da sua dissolução é que adquiriu uma completa preponderancia. A litteratura franceza era o orgão da propaganda philosophica e politica que convulsionavam a Europa. A Nova Arcadia ou Academia de Bellas-Lettras foi fundada pelo mulato brazileiro o P.e Caldas (Lereno Selinuntino) no palacio do Conde de Pombeiro. No meio das grandes commoções politicas da Europa com o apparecimento dos principios de 1789, a Nova Arcadia fechou-se no seu remanso pastoral, alheia a todas as reclamações humanas.
No meio d’este insulso idyllio, rebentou o conflicto turbulento do genio de Bocage, que reagia contra a mediocridade geral vibrando satyras immortaes. A sua adhesão aos principios da Revolução franceza levou-o aos carceres da Policia, então mais terriveis do que os da Inquisição, para a qual appellou, para escapar. Póde-se dizer que o meio social amesquinhou este genio, que apezar da imbecilidade geral soube sentir a superioridade de Camões.
O lyrismo portuguez teve uma fugaz renovação, pelo favor que no gosto do tempo encontraram as Modinhas brazileiras, tão celebradas por lord Beckford, consideradas como o elemento generativo da musica portugueza por Strafford, e sendo na realidade uma persistencia tradicional das antigas serranilhas gallezianas. As Lyras da Marilia de Dirceu, de Gonzaga, são o que ha de mais bello no lyrismo da ultima metade do seculo XVIII. A superioridade litteraria revelava-se entre os escriptores do Brazil, que pelo influxo da Revolução franceza serviam a causa da emancipação d’esta explorada colonia, que aspirava á legitima autonomia de nacionalidade. A Nova Arcadia dissolveu-se depois do conflicto de Bocage, depois de ter accumulado Odes, Sonetos, Epistolas, Elogios dramaticos. Durante a segunda metade do seculo XVIII vivemos entregues a todas as tropelias da rasão de estado, sob a vigilancia feroz do Intendente Manique, sob a suspeição das ideias francezas e apavorados pelo intolerantismo religioso. A censura litteraria e a policia nas alfandegas, não deixavam entrar em Portugal os livros suspeitos, e as obras dos Encyclopedistas eram queimadas na praça publica pela mão do carrasco.
A nação soffreu os tremendos desastres provocados pela inconsciencia politica; depois da invasão napoleonica e do não menos terrivel protectorado da Inglaterra, houve um momento em que a nação manifestou vida propria, na revolução de 1820, em que no meio das grandes catastrophes reassumiu a sua soberania, proclamada como fonte do poder na Constituição de 1822. Com esta data gloriosa da liberdade portugueza, começa simultanea com a renovação social uma nova e fecunda phase na litteratura.
Na Europa passava-se a renovação litteraria do Romantismo, agitando a França, a Italia, a Inglaterra e a Hespanha; em Portugal continuavamos estacionarios na admiração dos classicos, como a colonia romana longinqua que ainda continuava a veneração do Imperador já destituido. Um accidente desgraçado, a restauração do absolutismo bragantino, provocando a emigração de 1823, é que levou os nossos innovadores a descobrirem a relação entre as litteraturas e as aspirações da sociedade.
A baixa Comedia.—Com as comedias hespanholas de capa y espada e as italianas de imbroglio, fez-se um amalgama sem intenção, nem responsabilidade litteraria para acudir á exploração dos theatros do Salitre e do Bairro Alto. Tal era a baixa comedia, em que se fundiam elementos das obras de Lope de Vega, Molière e Goldoni. Eram geralmente em verso octosyllabo assonantado, e constituem um vasto reportorio avulso, chamado Comedias de cordel. Esta creação correspondia ao estado dos espiritos, quasi idiotico, a que os levára a inquisição e o cesarismo; a sua publicação tornára-se uma industria dos cegos, ligados entre si em uma Confraria do Menino Jesus, que tinha o privilegio exclusivo da sua exploração. Na baixa comedia não se encontra um protesto contra o aviltamento geral, mas abundam as graçolas equivocas, os esgares de quem quer reagir contra o terror. Distinguiram-se no genero Antonio José da Silva, alcunhado o Judeu, e Nicoláo Luiz. Contra o gosto popular que applaudia as Operas do Judeu reagiu o árcade Garção. Filinto appellava para a tradição dramatica nacional: «Lêam a opera dos Encantos de Circe, eruditissimo parto de um engenho judaico. Houve editor que modernamente deu á luz esse non plus ultra do genero dramatico; e Gil Vicente, e Prestes e outros classicos ficaram para sempre no cadoz! Oh vergonha! oh ingrata incuria!» Pela sua parte, o árcade Manoel de Figueiredo reagiu contra Nicoláo Luiz, querendo dar ao theatro bases philosophicas; faltava-lhe porém o talento, não obstante a sua clara comprehensão do problema.
O que era o theatro póde avaliar-se pela situação dos actores; o Intendente da Policia, Pina Manique, nas Contas para as Secretarias traz curiosas noticias, que derramam uma immensa luz na historia do theatro no seculo XVIII; lê-se na Conta, de 30 de setembro de 1792: «Os comicos e os Emprezarios, que de ordinario são os mais infimos, e que para os conter e conservar a boa ordem e policia do theatro é necessario a força, sem a qual nada se póde fazer, por que é uma gente sem melindre ou caprixo, e são susceptiveis de tudo aquillo que é máo para o adoptarem, ou seja contra os bons costumes, ou contra a honra, o ponto é que elles tenham interesse. Além de que não cumprem o que devem para satisfazer ao publico, e muitas vezes é preciso contel-os para não enxerirem algumas palavras menos decentes, que não vêm na peça que executam; etc.» (Liv. III, fl. 264 a 267.) O Intendente era a favor das representações, por que oppondo-se á entrada em Portugal das ideias francezas, considerava o theatro um elemento indispensavel para conservar os cidadãos longe do conhecimento dos successos da Europa, e sem logar para discutirem sobre os negocios publicos. A baixa comedia foi um instrumento do cesarismo. Durou esta fórma dramatica até ao tempo de Garrett, e algumas das principaes peças d’esta eschola ainda sobrevivem na scena, como o Manoel Mendes Enxundia, de Ferreira de Azevedo, o Doutor Sovina e o Zanguizarra. Nunca uma litteratura foi mais completa na revelação do estado decadente de uma nacionalidade. A Arcadia, querendo restaurar o theatro, traduziu e imitou os tragicos da época de Luiz XIV, segundo a sua fé monarchica; mas com a corrente revolucionaria lêram-se e representaram-se as tragedias philosophicas de Voltaire, que persistiram até á geração de 1820.