PROLOGO
Um dos sonhos que me embalaram a vida já está realisado: foi a Epopêa da Humanidade, idealisação de trinta annos contínuos enquadrada na VISÃO DOS TEMPOS. Um outro sonho, tambem absorvente e consolador, o plano da HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA, é que me foi educando o criterio e interessando o espirito por toda a complexidade dos phenomenos sociaes. Como autodidacta, n’esse longo trabalho apresento as vacillações e incertezas de methodo, e o desconhecimento de sciencias subsidiarias da historia litteraria. Quanto mais avançava para a terminação da HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA, mais sentia a necessidade de refundil-a integralmente, unificando o processo critico e esclarecendo-a por uma mesma luz philosophica. A obra estava tratada com amor, e apezar de todos os seus defeitos merecia ser reelaborada; assim o disseram alguns criticos estrangeiros. Para fazel-o, era preciso vencer o problema material dos meios de publicação; emquanto o não consegui fui escrevendo e deixando ineditos os volumes que faltavam á obra completa. Agora que se tornou possivel a reedição da HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA, e que já passaram vinte e trez annos de magisterio sobre esta disciplina no Curso Superior de Lettras, volto mais habilitado a emendar os meus erros e a supprir as deficiencias da educação universitaria. Recordar-se é viver, porém acordando muitas vezes magoas latentes que são sem remedio: revêr uma obra da mocidade é tambem uma recordação, um confronto da capacidade mental, com a vantagem de poder eliminar erros e dar mais nitidez ás concepções de uma vocação incipiente. Para escrever uma HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA digna d’este titulo, faltava-me o conhecimento da anthropologia e da ethnographia; ignorava o processo da formação das linguas romanicas e o methodo philologico comparativo; tinha uma incompleta noção historica da Edade media, e principalmente da revolução occidental que envolve todas as manifestações da historia moderna da Europa; estava desviado de apreciar a missão iniciadora e profunda da cultura greco-romana continuada pelos povos latinos; com um criticismo anarchico julgava as instituições e os homens, sem ter a vista de conjuncto de uma Philosophia que me revelasse as leis psychologicas e historicas, para coordenar o immenso tropel de factos accumulados por uma erudição impertinente. Todas estas faltas fui reconhecendo, acudindo-lhes com a disciplina conveniente. A revisão de toda a HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA impoz-se como uma necessidade; se na obra poetica fiz a minha Cathedral, esta agora identificada em um mesmo methodo critico ficará o meu Palacio, por onde divaguei livre de paixões ruins em um sonho do trinta annos.
DA 1.A EDIÇÃO (1870)
Em 1867, em uma nota do CANCIONEIRO POPULAR appareceu pela primeira vez a promessa de uma HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA. A obra está prompta; não sabemos se será possivel vencer a indifferença geral por esta ordem de trabalhos. Se a parte principal tiver de jazer inedita ou se perder, aqui fica desde já a INTRODUCÇÃO, como fio conductor para o que aventurar-se a examinar os páramos da nossa Litteratura.
Estão lançadas as bases, determinado o elemento nacional, discriminadas as influencias das litteraturas estrangeiras que actuaram sobre nós, e ligada a cultura portugueza ás grandes tradições da Edade media da Europa. A INTRODUCÇÃO Á HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA inaugura uma critica nova: inventaram-n’a os Schlegel, os Grimm, Victor Le Clerc, Paulin Paris, Fauriel e outros; nada mais fizemos do que repassarmo-nos da sua luz. Trabalho modesto a par dos iniciadores, é grande em uma terra aonde se não estuda e nada se respeita.
INTRODUCÇÃO
Á
HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA
Quando no fim do seculo XII se constituiu independente o estado de Portugal, terminava o periodo fecundo da Edade media, em que foram elaboradas as condições para a existencia e desenvolvimento das sociedades modernas: Estavam unificadas as raças, que desde o seculo V até ao seculo VII se encontraram, em invasões e occupações territoriaes; differenciadas as classes, as guerras defensivas e o trabalho industrial tinham garantido a estabilidade das cidades com os seus codigos locaes, esboços para a constituição das nacionalidades europêas; realisada a creação popular das linguas romanicas, e o seu emprego na elaboração esthetica das tradições epicas das Gestas feudaes e das canções lyricas dos trovadores ocitanicos; florescia a architectura ogival, e o Catholicismo e o Feudalismo mantinham a nova ordem pela unanimidade da crença sob o Poder espiritual, e pela dependencia ou subserviencia ao Poder temporal.
Com a nacionalidade portugueza cooperam no seu desenvolvimento moral, economico e politico todas essas manifestações que imprimiram uma certa unidade nos povos europeus sob o regimen catholico-feudal. As diversas raças peninsulares integraram-se em um typo de população mosarabe; os dialectos romanicos definem-se nas formas vulgares em que o galleziano se aperfeiçôa no uso popular e palaciano das canções trobadorescas; as cidades livres ou behetrias redigem os seus codigos locaes ou Cartas de Foral; erigem-se os bellos templos gothicos, e compartilha-se do enthuziasmo da guerra defensiva das Cruzadas, tanto no territorio hispanico como nas expedições de ultra-mar.
Porém do seculo XII em diante, começa a grande crise da Revolução Occidental, pela dissidencia dos espiritos contra a unanimidade do Poder espiritual da Egreja, e das luctas da liberdade civil contra o Poder temporal do Feudalismo. Quando as linguas romanicas estavam aptas para fixarem a idealisação esthetica dos interesses da sociedade medieval, deu-se a instabilidade dos sentimentos e o negativismo dos pensamentos. As Litteraturas romanicas resentiram-se d’esta perturbação, que se prolonga até hoje e ainda actúa sobre ellas; durante os primeiros trez seculos da crise, do XIII ao XV, desconheceram mais ou menos completamente a Antiguidade classica, e os themas poeticos da Edade media foram tratados sem respeito, preponderando o genio sarcastico nas satyras, nos fabliaux, nos cantos farsis, nas parodias, nas comedias, e até na epopêa, como o Renard, e a faulse Geste. No seculo XVI, esta revolta ataca a ideia religiosa, na Reforma; e pelo enthuziasmo dos Humanistas diante das litteraturas classicas da civilisação polytheica greco-romana, a Edade media é desprezada como uma época barbara, e as Litteraturas romanicas exercem-se na imitação erudita, separando-se os escriptores da cooperação com o povo; aggrava-se esta situação deprimente com a influencia geral do pseudo-classicismo francez no seculo XVII e XVIII, e sómente no periodo do Romantismo, no primeiro quartel do seculo XIX é que as Litteraturas modernas foram revocadas á idealisação das suas origens pela rehabilitação e pelo estudo scientifico da Edade media.
Como todas as outras Litteraturas romanicas a portugueza acompanha esta longa crise social e mental, em que o sentimento ficou sem disciplina; através das mais artificiosas canções amorosas dos trovadores destacam-se as satyras e as coplas obscenas; por seu turno a auctoridade classica impõe-se á imitação dos escriptores, que abandonam com desdem as tradições nacionaes e populares, chegando a idealisação poetica a ser um producto frivolo para a distracção pessoal nas Academias e Tertulias.
A historia da Litteratura portugueza só póde ser feita scientificamente pelo processo comparativo, e collocando-a no quadro das Litteraturas novo-latinas; sob este aspecto não é menos fecunda, nem menos original do que as outras congeneres, embora se manifestasse depois de todas ellas e reflectisse todas as suas influencias pela solidariedade com a civilisação europêa.
A creação da Historia litteraria é muito recente; foi entrevista por Bacon no seculo XVII, e só depois dos trabalhos materiaes da bibliographia, e pela renovação dos estudos historicos n’este seculo, é que se conseguiu deduzir da obra litteraria a psychologia do que a sentiu, e a relação com o meio social em que foi sentida. Nenhum facto do espirito satisfaz tão bem este processo como a Litteratura; os factos da vida politica ou das emoções religiosas, das instituições sociaes e das descobertas progressivas, são sempre motivados por paixões bastante violentas, com consequencias imprevistas, e por isso não explicam tão claramente o homem como as creações estheticas produzidas por sentimentos desinteressados, por uma espontaneidade especifica de inspiração, por meio de themas tradicionaes que conduzem a uma unidade sympathica. Quem escrever uma Historia litteraria, tem, diante da série das obras de arte, de deduzir o genio e caracter intimo do povo que as produziu, e sobretudo de pôr em relevo as circumstancias exteriores que lhes deram origem; é um processo philosophico desenvolvendo-se conjunctamente com a investigação historica.
No estudo da Litteratura portugueza chegamos por um esforço individual a este resultado, tão lucidamente formulado por J. Jacques Ampère: Se a Litteratura não é uma declamação vã, se é uma sciencia, então entra no dominio da philosophia e da historia. São pois a Philosophia da Litteratura e a Historia da Litteratura duas partes da sciencia litteraria. Fóra d’isto não ha senão minucias da critica de detalhe e alarde de logares communs. Ampère recommenda que se comece pela Historia litteraria, porque: «Da historia comparada das Artes e da Litteratura em todos os povos, é que deve resultar a Philosophia da Litteratura e da Arte.» De facto os estudos da historia da Litteratura da Grecia, revelam-nos que a Tradição é sempre o elemento organico e o thema elaborado conscientemente pelas mais altas idealisações individuaes; bem como as fórmas universaes das Litteraturas, o Lyrismo, a Epopêa e o Drama têm uma correlação intima com as phases psychologicas da humanidade na sua representação objectiva e na sua reacção subjectiva. Todo o grupo das Litteraturas romanicas está cabalmente historiado, e pela luz do methodo comparativo chega-se aos caracteristicos da sua unidade e similaridade de evolução, como observaram Frederico Schlegel e Comte, na lucta do espirito novo elaborando as tradições medievaes nos rudes dialectos que se hão de tornar linguas nacionaes, reagindo contra o perstigio das obras classicas da antiguidade impostas á imitação pelos eruditos e pela admiração incondicional dos monumentos antigos. Goëthe presentiu que o conhecimento de todas as litteraturas levará ás novas fórmas de uma inspiração universalista; e Comte, prevendo o termo da grande revolução occidental que se prolonga do seculo XII ao XIX, liga á edade normal da humanidade as novas idealisações que darão ao sentimento a preponderancia social e moral de uma Synthese affectiva.
Pela marcha dos estudos accumulados póde já preceder a Philosophia da Litteratura á Historia da Litteratura, como a luz que melhor fará comprehender a complexidade de innumeros factos concretos, que tendem sem esse criterio a perder-se na curiosidade esteril. Tal o intuito d’esta introducção ou theoria da historia.
I
Elementos staticos da Litteratura
Como um producto da actividade social em condições de estabilidade, uma Litteratura só póde ser bem estudada e comprehendida conhecendo-se os elementos staticos, ou de ordem, e dynamicos ou de progresso, de que ella é um dos effeitos complexos. Spencer submettendo os phenomenos sociaes e mentaes á correlação das forças physicas, formúla com clareza esta base critica: «Uma sociedade pouco numerosa, seja qual fôr a superioridade do caracter dos seus membros, não póde desenvolver a mesma somma de acção social como uma que é grande. A producção e a distribuição das mercadorias deve fazer-se em uma escala relativamente pequena. Uma imprensa numerosa, uma litteratura fecunda, uma agitação politica poderosa não lhe são possiveis. A producção das obras de arte e das descobertas scientificas tambem não deve ser excessiva.»[1] Escrevendo a Historia da Litteratura portugueza importa ter sempre presente este ponto de vista, para não attribuir á raça a fraqueza da tradição nacional, a falta de concepção original e de invenção scientifica, a indifferença politica e a incapacidade de um regimen economico. Somos uma nação pequena, sem os estimulos organicos de uma numerosa população, sem o conflicto de classes, e limitada á provocação de um exiguo territorio. Isto se comprova ainda pelo final do pensamento de Spencer: «O que demonstra melhor a correlação das forças sociaes com as forças physicas, por meio das forças vitaes, é a differença das quantidades de actividade que desenvolve uma mesma sociedade conforme os seus membros dispõem de quantidades differentes de força tiradas do mundo exterior.» Assim, a visinhança do oceano Atlantico ao passo que nos differenciou dos hespanhoes, fez dos Portuguezes um povo de navegadores, dando-lhe a iniciativa das descobertas maritimas e condições economicas subsistentes. Os periodos de esplendor litterario ligam-se á influencia d’estes estimulos; surgiram os Quinhentistas, destacando-se então a epopêa mais caracteristica e expressiva da civilisação moderna, os Lusiadas.
Por esta ordem de factos se infere, que ha nas litteraturas manifestações de phenomenos inconscientes e separados ou fóra da acção da vontade do homem. Para bem comprehender a obra do homem, sentida, reflectida ou praticada, convém antes de tudo determinar-lhe o circulo de fatalidade dentro do qual se produz: o impulso atávico da raça, que orienta o sentimento do escriptor ou artista; a tradição, transmittida de seculos, que se torna o thema da elaboração ideal e pela qual a obra do genio realisa a synthese affectiva em uma sociedade; a lingua, como expressão do sentimento individual, que o escriptor não creou, mas que modifica para universalisar estados das consciencias, as mais indefinidas vibrações da sensibilidade e ainda as aspirações latentes de uma edade; por fim a nacionalidade, ou a consciencia da vida collectiva, que tem de exteriorisar-se pela acção historica, objecto das narrativas, das commemorações, dos monumentos, que vão unificando cada geração na mesma continuidade. Applicando pois a segura concepção de Augusto Comte, que divide os phenomenos sociologicos em staticos e dynamicos, á Litteratura como resultante do meio social, poder-se-hão considerar como staticos os factores que preponderam invencivelmente na elaboração esthetica: a raça, a tradição, a lingua, a nacionalidade. O influxo de uma determinada época historica, como transição, já pela decomposição de um regimen passado, já como aspiração a uma ordem nova; e além d’isso, o espirito inventivo das altas individualidades, que nas suas obras servem essa corrente regressiva ou progressiva, constituem perfeitamente a parte dynamica na historia litteraria. Uma tão clara distincção é já uma base segura para a critica scientifica; para o estudo dos phenomenos staticos são subsidiarias a Anthropologia, a Ethnographia, a Glottologia ou Philologia, a Historia geral, e a Sociologia; a comprehensão das obras primas das Litteraturas resulta d’estas relações intimas scientificamente investigadas e conscientemente estabelecidas. Sómente assim, é que a historia da litteratura, embora pertença a um pequeno povo, servirá de verificação das leis psychologicas e sociologicas, conduzindo ao conhecimento definitivo—a sciencia do homem.
§ 1.—A Raça e o Meio
Só muito tarde descobriu o homem, que os actos que elle julgava mais livres, reacções immediatas da sua vontade consciente, eram motivados por influencias a que obedecia sem as conhecer. No mundo physico vê-se isto na pressão atmospherica, em que nos equilibramos. Depois de Vico ter formulado o principio autonomico—o homem é obra de si mesmo,—Herder encetou a philosophia da historia pela descripção physica da terra, como do theatro em que a humanidade tinha de actuar, segundo as variações do scenario. Se as descobertas da astronomia, depois de Galileo, fizeram caducar o erro geocentrico, os estudos historicos e archeologicos desfizeram a illusão anthropocentrica. Como a distribuição das plantas sobre o planeta depende da luz e do calor, tambem a cada modificação na climatologia dão-se no homem modificações profundas na sua organisação; depois de Hippocrates, que lançou as bases da sciencia da Mesologia, Montesquieu foi dos primeiros pensadores que ligou uma importancia séria á influencia dos climas; e por certo a diversidade das raças proveiu de acclimações successivas senão da acção de meios differentes. Blumenbach, na Unidade da Especie humana, considera o negro retinto e o loiro dinamarquez como provindo do mesmo tronco. Uma distancia de gráos modifica as nossas ideias eternas do bello, abre um abysmo entre a Venus de Milo o a Venus hottentote; dá-nos uma glotte mais perfeita e harmoniosa, e a abstracção na linguagem, que facilita e habitua á cogitação. A doçura do ár ambiente, a estabilidade da temperatura, as aguas crystallinas, o céo puro fazem o temperamento sanguineo, como observam Cabanis, Chrichton, Haller, Cullen, Pinel e outros. O temperamento sanguineo dá uma carnação viva, um thorax largo proprio para receber grandes volumes de ár, uma circulação mais forte, de que resulta um augmento de calor distribuido até ás extremas radiculas nervosas: assim, impressões promptas, facilidade de movimentos, synergia revelada por um bem estar descuidado, a graça, a jovialidade espontanea. Eis a organisação do Grego; em um clima brando, suave, em uma natureza risonha, collocado em um justo equilibrio das forças do meio exterior com as do seu organismo, não se sente absorvido como os povos das regiões do oriente, nem provocado na sua individualidade como na rispidez do norte; gosa a vida por todos os póros e guarda uma juventude perpetua, uma voluptuosidade da communicação, na cidade, no ágora, onde o conflicto dos interesses agita as paixões que criam a obra da Arte. A Grecia realisou na civilisação o sentimento do Bello. Outros povos indo-europeus, nas suas diversas paragens revelam outras capacidades, com que se reconhecem na historia; o Romano attingindo a mais clara noção do sentimento do Justo, faz de Roma, no dizer dos antigos jurisconsultos, a patria das leis. Mais alguns gráos para oéste, e os Celtas, aventureiros, sonhadores, attingem a docilidade moral, a dependencia da confraternidade, e são dominados pela ideia religiosa da immortalidade, que os deprime. O Germano, em lucta com a natureza brumosa do norte, de uma robustez excepcional, faz da independencia individualista o seu caracter, e lança-se á invasão do occidente, onde é incorporado pela civilisação romana. No extremo norte da Europa, o Slavo conserva as suas primitivas tendencias mysticas, e assimilando todos os progressos da Civilisação oriental e da occidental aspira á hegemonia futura da humanidade.
Emfim, os innumeros factos em que se observa a influencia dos climas, a transformação dos temperamentos e as hereditariedades das raças, têm-se agrupado por forma que estão lançadas as bases para a systematisação da Geographia moral, como lhe chamou Michelet. A historia da Arte, as creações das Litteraturas, todas as obras em que a alma humana se deixar surprehender em sua espontaneidade emocional, são verdadeiramente elementos d’esta sciencia nova. Todas as vezes que o estylo artificioso, a rhetorica banal ou o servilismo da moda de uma certa época velarem as manifestações francas do espirito, essa litteratura não tem valor, por insignificativa; não reflecte o resultado das ideias religiosas, nem as formas linguisticas, nem as agitações sociaes, nem a synthese das concepções que constituem a civilisação de cada cyclo historico.
Nas Litteraturas, como expressão da vida affectiva das sociedades, é talvez mais importante o elemento inconsciente da tradição e do meio, do que a obra propriamente original da individualidade do escriptor. No meio social observam-se a persistencia de certas qualidades transmittidas na especie, e que differenciam os grupos humanos ou raças; as sobrevivencias de costumes, que se conservam automaticamente quando já de todo passaram os estados ou organisações sociaes que os provocaram e com que estavam em harmonia; e as recorrencias, ou renovações d’essas qualidades anteriores e costumes extinctos, quando um certo abalo social desperta em um povo todas as forças do seu instincto de conservação, mantendo-se pelas suas condições staticas. Como expressão da collectividade, a Litteratura reflecte ainda nas obras das mais altas individualidades a impressão d’estas forças latentes, e mesmo as suas concepções ideaes são bellas em todos os tempos, e são comprehendidas pela humanidade em geral, por que derivam d’essas condições staticas. Na Europa não existe uma raça pura de mescla; mas tem-se abusado cynicamente das caracteristicas da raça nos aggregados nacionaes para justificar hostilidades egoistas e anachronicos instinctos guerreiros para exploração de conquistas. Para a comprehensão d’esta influencia das condições staticas nas Litteraturas ou em qualquer outra manifestação humana, basta determinar a lei da recorrencia biologica, tão nitidamente formulada pelo physiologista Muller: «Uma raça nascida da fusão de duas raças, propaga-se pela união com o seu semelhante; ao passo que, quando ella se une com as raças que concorreram para produzil-a, ao fim de muitas gerações torna ao typo de uma d’estas ultimas.» Vemos prevalecer esta lei de regressão, nas populações ibericas: embora se fusionassem com o elemento árico (Celtas, Romanos e Germanos), comtudo tinham a seu favor o maior numero, e em ulteriores invasões com a mestiçagem dos Lybios, Bastados, Alanos, Berberes e Mouros, raça africana branca, fixaram pela recorrencia o seu primitivo typo anthropologico. Broca reconhece tambem que pelo predominio numerico a raça mestiçada tende a regressar, na série das gerações, á raça mãe. Por esta regressão se explicam as differenciações dos caracteres ethnicos dos povos, e portanto todas as fórmas das suas actividades sociaes. Herbert Spencer reconhece que as Litteraturas e as Bellas Artes só existem como resultante d’estas actividades, tornando por isso necessario o conhecimento do que as torna possiveis. Tiveram a intuição d’este principio os humanistas do seculo XVI quando procuravam interpretar as instituições sociaes romanas pelas referencias dos poetas satyricos e comicos de Roma, e Vico interpretava Homero como a synthese dos povos hellenicos, que Wolf applicou methodicamente. Este processo critico é já antigo e acha-se confirmado pelos grandes fundadores da historia como sciencia.
Ao começar a historia da Litteratura grega, Otfried Müller foi um dos primeiros a reconhecer o valor do criterio da raça: «O que é infinitamente mais importante para a historia da cultura intellectual dos Gregos, é o distinguir as raças o os dialectos que se formaram durante a edade a que se deu o nome de heroica por causa da preponderancia que tiveram n’ella as tribus guerreiras, e por que um certo gosto pelas aventurosas emprezas a caracterisa evidentemente. Por este tempo deveria ter começado o contraste entre as raças e os idiomas da Grecia, que exerceu posteriormente uma influencia tão notavel sobre toda a vida civil e intellectual, sobre a poesia, sobre as artes e sobre a litteratura.»[2] Unificando os diversos dialectos da Grecia nos dois ramos Dorio e Jonio, Otfried Müller deduz o duplo caracter da civilisação hellenica, baseada no accordo entre o respeito pela tradição do passado e o espirito progressivo de aperfeiçoamento: «Nos Dorios ... assim como mostram uma predilecção manifesta pelos sons largos, energicos e asperos, que conservam com uma regularidade inflexivel, póde-se naturalissimamente esperar o encontrar entre elles uma disposição a fazer prevalecer até mesmo em toda a organisação da sua vida publica e domestica, o espirito de austeridade e de respeito pelos antigos usos. Os Jonios, pelo contrario, mostram já no seu dialecto uma certa inclinação para alterar as velhas fórmas segundo o gosto e o capricho do momento, e uma tendencia a embellezar e a aperfeiçoar o seu idioma, que contribuiu muito, sem duvida, para que este dialecto, posto que mais novo e derivado, fosse o primeiro cultivado na poesia.»[3] A differenciação entre estes dois elementos existia quando ainda estacionavam na Asia Menor; os Doricos atravessam o Hellesponto e fixam-se nos territorios montanhosos ao norte da peninsula da Grecia; os Jonios occupam as ilhas e as costas do archipelago. As differenciações ethnicas são mantidas pelas condições do territorio: o montanhez é ferrenho nas suas crenças e costumes, e por isso Delphos torna-se a capital religiosa da primeira unidade federativa dos Hellenos, apoderando-se Sparta de uma severa hegemonia. Os habitantes das costas e das ilhas distinguem-se por um caracter de cosmopolitismo e assimilação facil de costumes; o seu deus nacional é maritimo, Poseidon, contraposto a Delios, e Athenas torna-se a capital politica, que realisa pela primeira vez no mundo a liberdade na formação da lei (autonomia) e a egualdade perante a lei (isonomia), que deram ao genio grego o poder creador que o faz dirigir ainda hoje sob o aspecto de renascença a marcha da humanidade.
Estes dois elementos ethnicos, Dorios e Jonios, fusionam-se pela pressão da necessidade, para resistirem aos assaltos dos piratas do Mediterraneo, quando os Phenicios dominavam no mar Egeo; e depois, pelo estimulo de independencia contra as invasões asiaticas. A synthese historica da civilisação da Grecia resume-se nas caracteristicas d’estas duas raças: o elemento dorico prepondera até á guerra da Persia; até ás guerras do Peloponeso predomina o elemento jonico; o esplendor do genio hellenico revela-se na sua unidade, primeiramente nas creações estheticas, e por fim na acção politica da grande época de Alexandre. O antagonismo de Apollo e Poseidon, os caracteres antinomicos de Achilles e Ulysses, as duas epopêas da Iliada e da Odyssea idealisando esses dois typos heroicos, as instituições aristocraticas lacedemonicas, e democraticas da Attica, não podem ser bem comprehendidas sem a discriminação d’estes dois elementos, capitalmente estudados emquanto aos Dorios por Otfried Müller, e por Ernst Curtius emquanto aos Jonios.
Os caracteres da raça persistem através do tempo, cooperando para a sobrevivencia das tradições e dos costumes. Na Grecia moderna, as tradições heroicas e muitos versos das tragedias de Eschylo e de Euripides andam nos estribilhos populares. North Douglas, no Ensaio sobre os Gregos, achou na companhia dos mancebos jonios o semblante e a linguagem dos antigos hellenos: cantavam nas guitarras como os rhapsodos, e ao toque da buzina corriam á conspiração, como no tempo em que reagiram contra a Persia. Este viajante diz, suspirando: «vinte e quatro seculos antes, seriam uns Alcibiades. É ainda hoje popular a Canção das andorinhas, a que alludem os antigos, e Charonte continúa a ser evocado nas pragas supersticiosas.»[4]
A separação que se dá entre os Arias e os Iranios, apparece reflectida nas differenças entre os Gregos e Romanos, embora pertencendo á mesma raça; o genio hellenico foi essencialmente especulativo, o romano extremamente pratico ou activo. A Grecia eleva-se á unidade moral pelo ideal artistico e pela concepção philosophica, Roma faz a unidade politica pela realisação do Direito. Mas apesar d’estas differenças, é pelos caracteres das raças da Italia, que se explica como a civilisação romana foi conjunctamente agricola e guerreira; como no seu direito conservou sempre um constante dualismo (optimo jure e minuto jure); por que motivo cedo abandonou as tradições proprias pela imitação das obras artisticas ou poeticas da Grecia; por que causas se desenvolveram as linguas novo-latinas ou romanicas, e como o genio gaulez chegou a ter importancia na Litteratura latina (Petronio, Ausonio, Rutilio, Sidonio Apollinario, etc.), na época da decadencia.
Antes das migrações pelasgicas que atravessaram os Alpes carnicos o se estabeleceram ao nordeste da peninsula italica, já n’ella existia uma raça autochtone ou população preexistente, a que os Gregos chamaram Opicos (comprehendendo os Oscos ou Volsquos, Marses, Sabinos, Sabelios, Samnitas, Lucanios, Campanios). Eram estes povos dados á agricultura, e á vida pastoral, seguindo alguns as armas, como os Sabinos, os Marsos, os Hirpinos e Samnitas. Vinte seculos antes da nossa éra fixa-se a época do encontro com os emigrantes pelasgicos ou Illyrios (Liburnos, Venetes ou Henetes, das bordas do Adriatico; e Siculos, das costas da Italia e do Latio). Seguindo as costas do mar, entram tambem na Italia por esta mesma época os Ligurios, e Sicanos que se fusionam com os Siculos ou Tyrrhenos. Não admira por tanto que antes da conquista de Tarento, Roma tivesse conhecimento da civilisação da Grecia e tendesse a imital-a, abandonando as tradições oscas, pela preponderancia dos elementos pelasgiscos da Grande-Grecia.
No seculo XIV antes da nossa éra é invadida a Italia septentrional pelo desfiladeiro do Tyrol, pelos Ambrones, Isombres, ou Ombrios, raça gauleza cisalpina. É depois d’esta invasão que começa a lingua osca a tornar-se um meio de unificação social. No seculo XI, antes da éra moderna, dá-se uma terceira invasão dos Rasenas, raça de pequena estatura e grande cabeça, extranha á familia greco-italica, que funda a primeira Confederação, creando a civilisação fundamental da Etruria. A importancia d’este elemento ethnico, resultou da sua similaridade com as populações autochtones da Italia, os Opicos, e por tanto com a separação natural dos elementos extranhos ou Inopes, começa o dualismo da civilisação romana: Os Opes, eram constituidos na vida privada pelos Chefes de Familia a quem competia o Nome proprio, a Justae Nuptiae, o Locuples ou dominio do territorio dos tumulos urbicos, o direito de herdar dos filhos ou Haeres, a compartilha com o pae e com o filho ou Dubnus, e a Divindade estavel da terra, Opulentus (de Opim, a divindade feminina ou a Terra agricultada). Emquanto á vida publica, competia-lhes com o Direito de Propriedade o dominio auctoritario, o levar os Clientes á guerra, concorrer ás magistraturas justas, o direito de vida e morte sobre os filhos e a mulher, o uso do vinho civil Temetum o do pão sagrado Maza, a posse das Res sacra (os Deuses da cidade, Indigetes: da Casa, Penates, e da Familia, Lares e Manes) e os Augurios.
Pelo seu lado os Inopes, formados de Servos, Clientes, Estrangeiros (almas decahidas) não tinham Familia, eram sem nome, tinham o Contubernium ou Injustae Nuptiae, e existiam pelo Patrono. Não tinham propriedade.
Os Chefes de Familia elegeram d’entre si um Rei, unificando esta época do Patriarchado o culto de Saturno e de Cybele; porém, quando se apoiaram na Propriedade e nos Clientes, constituiram-se em Republica aristocratica ou Senado, sendo a unificação social sob o culto de Jupiter e Juno; quando por fim prevaleceram os Clientes pela fórma do Tribunato, e se chega ao Imperio plebiscitario, preponderaram Vulcano e Venus. Tal é a evolução da historia da civilisação dos Romanos, (Ramnes) que unificaram os outros dous elementos Lucerense e Titiense.
A proposito do livro de Noël des Vergers, A Etruria e os Etruscos, escreveu Beulé: «do estudo dos monumentos resalta uma verdade, que será sempre cada dia mais sensivel, e vem a ser, que Roma, apenas fundada, e já augmentada por fórma a poder attrahir a attenção, tornou-se uma cidade etrusca, pela religião, pelas artes, pela civilisação, e preciso é confessal-o, pela conquista. Não é amesquinhar o genio latino o reconhecer que elle recebeu uma educação, soffreu um jugo salutar, e acceitou modelos que viria a exceder. A vitalidade e originalidade da raça latina sobreviveram através d’estas provas; que direi? engrandeceram-se á custa d’ellas.—Roma devia reagir de prompto, absorveu a Etruria, como a Grecia sua mãe, e a sua grandeza não diminuiu por ter conhecido dominadores antes de ter adquirido o imperio do mundo.»[5] A persistencia d’este caracter etrusco, notado por Beulé na civilisação de Roma é o que melhor explica a sua facil incorporação das raças brancas do norte da Africa, dos Iberos da Hespanha e dos Gaulezes, de cuja civilisação rapidamente se apropriaram, a ponto de darem litteratos a Roma.
Roma achou-se collocada entre dois pontos que diversamente actuaram nas suas capacidades e épocas litterarias: ao sul, a Grande-Grecia, d’onde recebeu a cultura hellenica, na poesia, na arte, na philosophia, na eloquencia e na historia: vê-se isso em Livio Andronico, Ennio, Pacuvio, Terencio, Horacio. Ao norte, é na Gallia Cisalpina que desponta o espirito original e universalista da grande raça gauleza; pertencem a esta corrente Cecilio, o comico; Catullo, de Verona; Tito Livio, de Padua; Virgilio, de Mantua; Cornelio Gallus, o amigo de Virgilio, de Frejus; Propercio, de Mevania, na Ombria, bem como Passienus Paullus, e o umbriano Plauto.[6]
O fundo ethnico da população italica, que apesar d’estas duas influencias grega e gauleza ou pre-celtica, não perdeu o seu caracter proprio, chegou a transparecer na litteratura e nos costumes populares de Roma. As Saturae etruscas, representações scenicas ao som da flauta, com mimica e dansa, as Atellanas oscas pondo em scena os aldeãos da Campania, conservaram-se no gosto publico até á época do Imperio. Este genero de farça burlesca era improvisado de momento, por typos conhecidos e vulgarisados na sua caracterisação; e o que é mais para notar é que um tal genero de improvisação dramatica ainda persiste na Italia, na Commedia dell’Arte, e os velhos typos burlescos têm os mesmos representantes na actualidade, como o Maccus (Polichinello), o Pappus (Pantalon), Casnar (Cassandra), Sannio (Zanni), Manducus (Croquemitaine), que continuam a fazer rir o povo com os seus ditos desenvoltos. A comedia improvisada pertence a um fundo ethnico occidental, pois que a encontramos na tradição popular hespanhola nas Encortijadas, e a fórma portugueza conserva-se nos costumes do Brazil no auto do Bumba meu boi. Vê-se portanto, que este fundo ethnico Osco, analogo ao Euske da Hespanha, ao Ausci da Aquitania, é que nos explica a similaridade dos cantos épicos ou Romances no occidente da Europa, como a observaram Nigra, Liebrecht, F. Wolf e R. Köhler; dá-se egual morphologia nos cantos lyricos, Pastorellas, balladas e serranilhas, como observaram Paul Meyer e Mainzer. E se estas fórmas se conservaram através da forte cultura greco-romana implantada nas Gallias e na Hespanha, persistiram tambem os costumes, as superstições, os jogos, que provocavam o seu emprego, assim como as tendencias federalistas mantinham as condições para a differenciação do Latim em dialectos rusticos independentes, que depois se tornaram as linguas romanicas, pelas condições de autonomia nacional.
Dá-se na Litteratura latina o estranho phenomeno de não se encontrar a poesia do povo ou da tradição nos seus poetas; estes, absorvidos pela imitação dos Alexandrinos, ou preocupados com as doutrinas philosophicas da Grecia, obedeceram a uma corrente do gosto que lhes fez perder o sentimento da nacionalidade. Procurando-se o caracter da Poesia latina, não se encontrará nos seus maiores poetas, que se esqueceram das tradições do Latio e abandonaram a metrificação organica da sua lingua, a Accentuação, do verso saturnino, pela Quantidade, dos gregos, exprimindo o sentimento nas mesmas fórmas de Pindaro, de Alceo e Sapho, descrevendo a natureza como a representaram Homero e Hesiodo, e parodiando os conflictos da vida pela adaptação dos typos de Aristophanes e de Menandro na comedia, e de Euripides, na tragedia. Como os actos juridicos dependiam para a sua validade de um certo numero de ritos symbolicos e formulismos tradicionaes, a que os Opicos ligaram os seus privilegios, é por isso que através do dominio absoluto dos rhetoricos em Roma, essas antiqui juris fabulas constituiram na sua Jurisprudencia, como observou luminosamente Vico, na Sciencia Nova, uma severa poesia. A moderna erudição historica e as investigações ethnologicas vão determinando esse fundo anthropologico nas tradições e nos costumes; estão achados os Cantos dos irmãos Arrales, as cantigas a Julio Cesar, a Vigilia de Venus, e numerosos versos a que alludem os escriptores latinos.[7] A Italia antiga revive ou persiste tambem nos costumes, crenças e tradições populares; as excavações de Pompeia mostram que a mulher italiana ainda usa o venetus cuculus, a agulha de aço com que prende os cabellos; o pileus usa-se até em Fondi; os improvisatori de hoje, rodeados pela multidão, procedem como o poeta Stacio em Roma ante o seu auditorio; na alimentação segue-se o mesmo regimen, o prandium ao meio dia; os preceitos das Georgicas ainda vigoram na agricultura, e as cercanias de Roma permanecem desertas, mantendo o aphorismo de Catão na observancia do systema dos prados. Os Condotieri precisam dar largas ao antigo instincto bellicoso do salteador, instincto modificado pelo contracto de associação. Os contos maravilhosos da feiticeira Circe continuam a povoar a imaginação do povo; e como observa Bonstetten, no seu livro O Latio antigo e moderno: «segundo Niebuhr, os romanos de hoje acreditam na existencia da donzella Tarpêa em um poço do Capitolio. Os Marsi curavam mordeduras de serpentes, e os Giravoli dos arredores de Syracusa pretendem hoje cural-as com saliva.» Muitos costumes persistiram mudando-lhes o Christianismo o sentido por uma lenta evolução: os milagres da Medêa são attribuidos pelos napolitanos a San Domenico di Cullino; o templo de Romulo e Remo pertence hoje aos gemeos S. Cosme e Damião; no sitio d’onde se precipitou Anna Perenna, está a capella de S. Anna Petronilla.[8]
As differenciações ethnicas que mantiveram na Italia as fórmas federalistas (lucumonias), accentuam-se no genio esthetico. Cada escóla de Pintura, na Italia, tem caracteres em que apparecem feições locaes, que se succedem fatalmente. O primeiro passo para vencer a rudeza morta da pintura byzantina foi a ideia de aperfeiçoar os baixos-relevos; sente-se aqui a transição da estatua para o quadro. A Toscana, aquella antiga Etruria onde primeiro appareceram as artes e as sciencias na peninsula italica, começou este movimento. Nicoláo Pisano imitou na pintura as figuras em relêvo dos tumulos antigos; vendo mais a fórma material que apalpava do que a linha, cujo ideal procurava, não podia deixar de ser um excellente architecto.[9] A escóla de Roma e de Florença (Raphael, Salvator Rosa) são correctas no desenho; as figuras reproduzidas de um modo severo têm muitas vezes, como nota Michelet, a secura architectural.[10] Apoz a esculptura veiu o mosaico, descoberta da Toscana (do monge Mino da Turita). Á altivez e terror, seguiu-se a graça e a delicadeza; tal o estylo do florentino Cimabue. A escóla da Lombardia eleva-se na pintura á graça (Leonardo de Vinci, Corregio) e ao movimento; a escóla de Napoles descobre os effeitos da luz; a escóla de Veneza não tem rival no colorido (Paulo Veronese, Giorgione, Ticiano) e na faina de uma republica mercantil, que precisa de emoções fortes, esse colorido é vivo e exagerado (Tintoreto, pintando com furia em quadros descommunaes). A escóla de Bolonha pertence a uma época em que acabava a creação inconsciente; formada depois de todas as outras, fixa as regras da technica, e é naturalmente eccletica (os Carraches, Dominiquino, Primatice.)[11] Raça e acção mesologica, nas suas sobrevivencias, e na determinação dos temperamentos individuaes são o verdadeiro criterio para a comprehensão das creações de uma psychologia collectiva. Exemplificámos este facto capital com o exame ethnologico da Grecia e de Roma, que pelo universalismo helleno-italico são ainda hoje a base da Civilisação occidental propagada á Europa pelo genio francez; assim naturalmente ficou esboçado esse elemento classico ou greco-romano que veiu a influir no desenvolvimento das litteraturas modernas. E como a França suscitou em todos os povos da Europa as manifestações do genio poetico pela imitação dos seus cyclos épicos, novellescos, e lyrismo trobadoresco, torna-se tambem importante fixar as caracteristicas de raça nas fórmas da sua Litteratura, apesar de pela propria corrente da civilisação europêa irem-se apagando cada vez mais essas differenças anthropologicas.
A historia da litteratura franceza já foi tratada sob o ponto de vista dos caracteres da raça por Émile Chasles:[12] no typo gaulez synthetisa o genio nacional persistente através de todas as fusões e assimilações historicas com outros povos; no Gallo-romano, descreve a esplendida civilisação meridional, que veiu a produzir a creação do Lyrismo trobadoresco; no Gallo-bretão, as ficções novellescas que encantaram o mundo medieval unindo o espirito christão e cavalheiresco; no Gallo-franko, a unidade politica imposta pelo poder real na lucta dos grandes vassalos, lucta que inspirou o cyclo épico feudal das Canções de Gesta, creadas no norte da França. O encontro das raças produz, como observou Lemcke, um desenvolvimento de poesia; o conflicto da França feudal com a França meridional desenvolve e faz manifestar o genio lyrico nas canções da lingua d’oc, que se propagam pelo meio dia e pelo norte da Europa; a propria Bretanha, antes de entrar na unificação nacional faz a revivescencia dos seus cantos ou lais, que se desenvolvem nos poemas de Merlin, de Arthur e da Tavola redonda. A estes trez elementos que constituiram a unificação da nacionalidade franceza, correspondem no territorio trez regiões climatologicas, agronomicamente bem reconhecidas. Os Celtas e os Frankos, que se fusionaram com o elemento Gaulez não apagaram, apesar da sua supremacia árica, esta raça, que através de todos os tempos synthetisou a feição nacional da França. Se o Gaulez manteve e imprimiu em tudo o seu caracter, é por que além do seu numero tinha attingido uma civilisação superior á dos Celtas e Frankos. O imperador Claudio, que conhecia perfeitamente a Gallia, diz que Roma não póde desprezar a nação que estava unida á civilisação romana pelos costumes, pelas artes, pelas affinidades (moribus, artibus, affinitatibus nobis mixto.) Quaes seriam estas affinidades, para o imperador que nascera em Lyon, senão a similaridade ethnica de uma raça que se estendia por toda a Europa meridional, e que mantinha os mesmos costumes e práticas industriaes. Os Romanos, segundo Diodoro Siculo, davam o nome de Gaulez a todos os povos da França meridional; pela sua parte Polybio já distinguiu o Gaulez das outras populações celticas, raça que se manteve intacta na Aquitania entre os Pyreneos, o Garona e o golfo da Gasconha. Broca diz que tudo induz a crêr que os Aquitanios pertencem a esta raça de cabellos pretos, cujo typo se conserva quasi sem mistura entre os Bascos actuaes.[13] (Gascões, Vascones e Bascos.) Este elemento iberico, commum á Hespanha, Italia e França meridional, é caracterisado por Jorge Philipps: «no tempo de Cesar, os Iberos possuiam ainda na Gallia a maior parte do territorio situado entre o Garona, o Oceano e os Pyreneos; elles se conservaram n’este triangulo, apesar das conquistas dos Ligurios primeiramente, e depois, de um inimigo mais terrivel, a raça Celtica.» Estes factos comprovados pelos modernos anthropologistas explicam-nos a transmissão do lyrismo trobadoresco a todo o occidente da Europa. Chasles d’Héricault, considera os Iberos como repovoadores e civilisadores da Gallia; Émile Chasles, resumindo o estado d’esta questão apresenta o seguinte facto: «Atravessando a Bretanha franceza, notareis com surpreza, em certas aldeias, homens que têm os olhos com a obliquidade dos Mongoes, e por consequencia a arcada zygomatica do extremo Oriente, signal palpavel de uma migração obliterada na historia.»[14] Charrière, na Politique de l’Histoire, acceita a identidade primitiva da raça hispanica e italica, reunindo-se pelo laço natural da Aquitania e pelo meio dia da Gallia; e Petit Radel observou a semelhança de um grande numero de nomes geographicos da Italia e da Hespanha.[15] O typo do africano branco é o que conservou mais puros os caracteres d’esta raça autochtone do Occidente da Europa, anterior ao estabelecimento dos Celtas, e com os quaes se cruzou; Émile Chasles cita um facto, que segundo confessa, faz pensar: «na Edade media um exercito de invasão passou da Africa a Hespanha, e devastou-a até aos Pyreneos. Chegados alli, os Africanos reconheceram immediatamente em um reconcavo da montanha, gente que fallava a mesma lingua que elles; em logar de se baterem fraternisaram em nome de um remoto parentesco que a politica e o tempo tinham obliterado. Eis aqui Berbères, que nos dão uma lição sobre os primordios da historia, e que por ventura fornecerão um novo argumento a M. de Belloguet.»[16] Na sua Ethnogénie gauloise, Belloguet sustenta a anterioridade da civilisação gauleza á celtica, que attribue aos Ligurios. Sobre este fundo ethnico commum á França, Italia e Hespanha, é que as invasões dos Celtas, dos Romanos e Germanos vieram constituir os povos que formaram as modernas nacionalidades depois da queda do Imperio. Competia á França a hegemonia sobre as nacionalidades da Edade media, continuando a grande Civilisação occidental, que em Marselha reflectira a cultura grega, e em Tolosa a cultura romana. Pela região da Aquitania transmittia á Italia e Hespanha o gai saber, a idealisação do lyrismo trobadoresco; pelo elemento celtico espalhava na Inglaterra as tradições do Santo Graal e da Tavola redonda; pelo elemento franko, transmittia á Allemanha o impulso que acordava a inspiração dos seus Minnesaenger. O que vemos pelas condições da raça, confirma-se pela consideração geographica, em que a França tinha naturalmente de exercer uma missão intermediaria entre os novos estados da Europa; escreve Edgar Quinet: «seja qual fôr a diversidade dos instinctos da Europa, tem a França orgãos para apanhar-lhes o caracter. Pelo Meio Dia e golfo de Lyon não toca ella na Italia, a patria de Dante? Do outro lado, os Pyreneos não a ligam como um systema de vertebras ao paiz d’onde surgiram os Calderon, Camões, Miguel Cervantes? Pelas costas da Bretanha não se prende ella intimamente ao corpo inteiro da raça gallica, que deixou a sua feição em todo o genio inglez? Emfim, pelo valle do Rheno, pela Lorena e pela Alsacia, não se une ella ás tradições como ás linguas germanicas, e não lança ella um dos seus ramos mais vivazes ao seio da litteratura allemã?» E assim como a França influiu directamente na cultura europêa por estas condições mesologicas, ellas mesmas facilitavam esse espirito de sociabilidade e prompta assimilação de todos os progressos europeus; é assim, que no seculo XVI o humanismo italiano leva a França ao abandono das tradições medievaes e imitação das obras classicas da Antiguidade; no seculo XVII a Hespanha inspira os seus poetas dramaticos, como Corneille e Molière, e dá-lhe o modelo das novellas picarescas; no seculo XVIII a Inglaterra suscita a actividade do pensamento critico e do encyclopedismo; e no seculo XIX é da Allemanha que recebe a nova corrente de idealisação litteraria do Romantismo, que propagou depois ás litteraturas meridionaes. Quinet, fallando da diversidade das provincias francezas para estas diversas assimilações, conclue: «Resulta d’esta diversidade, que estando em communicação com a Europa inteira, a França não tem a temer uma influencia exclusiva; que o Norte e o Meio Dia se corrigem mutuamente, e que este paiz chamado para tudo comprehender, póde enriquecer-se com cada elemento novo sem se deixar absorver por nenhum.» Onde se conhece esta indemnidade ou originalidade é no chamado genio francez, já notado pelos escriptores da antiguidade, que alludem á sua paixão guerreira e oratoria (Rem militarem aut argute loqui, segundo Catão); tumidissimi, lhe chamam outros, e vê-se pelas referencias de Aristoteles, de Plutarcho, de Sallustio, de Florus, de Tito Livio, de Cicero, de Diodoro Siculo e de Cesar, que as suas qualidades os impressionaram excepcionalmente.
O caracter gaulez, audaz e mobil, com regularidade nos seus caprichos, logico na paixão, preferindo a prosa á poesia, o conto faceto á lenda épica, trocando a palavra abstracta pelo symbolo naturalista e concreto, possuindo-se primeiro do que outrem da verdade das grandes e generosas ideias pelo que ellas têm de prático e de sociavel, adorando a dedicação da amisade e mais ainda o chiste de um bom dito, leviano mas intuitivo no alcance, bom e ao mesmo tempo implacavel na ironia, sensualista e crente na immortalidade, o genio gaulez é sempre a alma d’este eccleticismo intelligente e do sentimento de sociabilidade que caracterisa o francez em toda a parte. Quando o direito universal se exprimia por um symbolismo poetico, a França começava pela linguagem da rasão; quando a Europa jazia sob a arbitrariedade do Feudalismo e dos terrores da Egreja, o burguez ria-se nos Fabliaux, mofando das duas tyrannias temporal e espiritual; a lingua franceza tornou-se de um universalismo extraordinario pelo espirito de sociabilidade, e como dizia Martin de Carrale, no seculo XIII: «la plus delitable à lire et à oir que nulle autre.» É uma lingua vulgarisadora para toda a ordem de factos, cooperando para que a França seja a capital da civilisação, o centro em que palpitam as emoções mais generosas. A litteratura franceza é influenciada por este génio da raça: ora desenvolta e cheia de ironias e ditos de boa sociedade, como em Rabelais, Montaigne, Bonaventure des Periers, Beroalde de Verville, Luiz XI e a rainha de Navarra, La Sale e tantos que continuaram sob o humanismo classico a vêa sarcastica e mordente dos Fabliaux dos seculos XIII e XIV e das Sotties do velho theatro popular; ora pautada, pedante, convencional como no preciosismo, em Racine, Marmontel, Scudery, Delille; mystica, como em Calvino, Francisco de Sales e Fénélon; tumida e emphatica em Victor Hugo. A hegemonia intellectual da Edade media continuou-se pela França na fórma social depois da Revolução, que ella propagou a todos os povos da Europa não tanto com balas como com cantigas. Michelet, que comprehendeu tão lucidamente a hegemonia da França, proclama-a na Introducção á Historia universal: «Toda a solução social ou intellectual fica infecunda para a Europa, até que a França a interprete, traduza, popularise... Ella diz o Verbo da Europa, como a Grecia disse o da Asia.»
Para a comprovação do genio da raça transluzindo nas creações artisticas, ainda apesar do convencionalismo de escóla e dos preconceitos da civilisação, Taine determinou na Historia da Litteratura ingleza duas correntes de inspiração, provenientes dos sangues saxão e normando, caracterisadas nos maiores escriptores. O Saxonio tem o genio tenaz, luctador, vive da incerteza, sorri-lhe a ideia da morte, põe-se em combate com a natureza; a tensão violenta diante da catastrophe é o momento mais bello da sua vida; tem uma mythologia sombria, tradições medonhas, instinctos brutaes. Dos parceis do mar germanico, vem como o alcyão da tormenta accoitar-se na Bretanha, e com os Juttes e os Anglos supplanta pela conquista o elemento celtico. Para esses invasores o céo plumbeo da Inglaterra é uma aurora comparado com a cerração dos mares do norte; são meio hyppopotamos na ferocidade e na voracidade, procurando a alegria ruidosa nas bebidas mais corrosivas. Quando o influxo do Christianismo veiu explorar o instincto supersticioso d’esta raça, substituiu-lhe o terrivel deus Thor que atirava o martello pelos áres, pelo deus dos exercitos que arrojava o raio, e enlevou-a com as lendas tenebrosas da Descida ao Inferno (Tundal e Purgatorio de S. Patricio.) A poesia ingleza, exprimindo esta energia saxonia representa na sua espontaneidade a trilogia satanica, a Duvida, o Mal, o Desespero; é Shakspeare propondo a fórmula dubitativa em Hamlet: To be, or not te be, quando depois da Renascença se dissolvia a synthese theologica da Egreja sem se determinar a synthese humana da consciencia; é Milton, depois da revolução social, divinisando o principio do Mal, Satan, como a libertação de todos os absurdos que desde a Reforma prendia a sociedade e o espirito em um despotico puritanismo, na phrase: Mal, torna-te o meu bem (Evil be then my good) na epopêa do Paraiso perdido; é Byron, levado ao paroxismo do desespero entre uma aristocracia convencional, que não percebe a marcha do tempo moderno, e que o repelle com o desdem de uma mediocridade panurgica; ello abandona a Inglaterra, o vagabundo Child Harold, que divaga pelo occidente á busca do seu ideal da liberdade, indo morrer por ella na Grecia.
A Renascença como o regresso da alma ás fontes da natureza, e as luctas violentas da Reforma suscitaram em Inglaterra a preponderancia d’este veio saxonio, como as fortes torrentes que descarnam os rochedos: Dayton, Greene, Marlow, Ben Johnson são os precursores ou os primeiros productos da corrente que orientou o genio de Shakspeare. E assim como apparecia o drama em Inglaterra, onde as instituições dos homens livres coexistiram sempre com instituições feudaes ou senhoriaes e monarchicas, tambem a complexidade dos interesses burguezes e da moral privada deram logar á creação nova das litteraturas modernas, o Romance, de que são creadores Fielding, Swift, de Föe, Richardson, Goldsmith.
Ao veio saxonio contrapõe-se o genio normando, como exemplifica Taine. Desde os seculos IX e X, que os Normandos infestavam as costas meridionaes da Europa; terriveis como os saxonios, a permanencia nos climas suaves do sul enfraqueceu-lhes a irritabilidade, fel-os brandos, amigos da novidade. A conquista dos Normandos sobre os Saxões foi superficial, por que os vencidos em menos de trez seculos imprimiram a sua feição aos vencedores: o normando conservou apenas as qualidades exteriores dos seus habitos senhoriaes, que differenciam ainda hoje a aristocracia ingleza, ao passo que o franco caracter saxonio se conserva no povo. Os velhos chronistas notaram este antagonismo; diz Roberto de Gloucester: «As gentes da Normandia ainda habitam entre nós, e aqui ficarão para sempre... Os Normandos descendem dos homens de alta cathegoria, que estão n’este paiz, e os homens de baixa condição são filhos dos Saxões.» Antes de Taine, já o historiador Agustin Thierry fundou sobre este conflicto de raças a Historia da conquista de Inglaterra. A litteratura ingleza resente-se da influencia normanda na predilecção da fórma, na imitação dos modelos convencionaes, em um classicismo sem ideia, em um meio termo do bom, em menos espontaneidade e mais estylo; Drydon, Pope, Addisson, Waller, Gray, seguem a moda litteraria, e ainda hoje fazem a predilecção dos espiritos academicos, dos que consideram a litteratura como um nobre ocio, ou uma habil curiosidade. A hombridade saxonia e a cortezania normanda reunindo-se formaram esse temperamento sanguineo ligado a um caracter impassivel; o humour é o estado psychico d’esta fusão, um lampejo de alegria sob um ár taciturno constante, uma jovialidade indecisa como de quem reage contra um mal estar. O humour é o verdadeiro elemento da obra de arte ingleza: Sterne, no Tristan Shandy e Viagem sentimental, Swift, nas Viagens de Gulliver, Fielding, no Tom Jones, Butler, no Cavalleiro de Hudibras, e modernamente Carlyle representam esta fórmula da esthetica ingleza. Em philosophia, tem a audacia critica de Hobbes e de Bolingbroke a par do mais subserviente biblicismo; tem o positivismo de Locke e Hume conjunctamente com o idealismo de Berkeley, e na sciencia procura manter o accordo official entre a velha synthese theologica com as mais audaciosas theorias transformistas, como se observa em Darwin.
Ampliando o criterio ethnologico á litteratura da Allemanha, já alguns criticos observaram as differenciações locaes reflectindo no genio dos escriptores; a Suabia, é a patria do lied, a canção tradicional, do canto que se desenvolve em um esplendido lyrismo; na Franconia, o gosto artistico popular organisa-se nas Meistergesang. Na sua Physiologia dos Escriptores e dos Artistas, Deschanel transcreve as palavras de um critico indicando que Schiller era da Suabia, e Goëthe da Franconia, deduzindo assim a diversidade d’aquelles dois genios que synthetisam toda a litteratura allemã: «O primeiro, como a raça allemanica d’onde provém, raça isempta, altiva, concentrada, democratica, apresenta-nos a irritabilidade dos sentimentos, a vivacidade da imaginação, o liberalismo da rasão; o segundo, em virtude da sua origem, possue a calma, a correcção, a serenidade, a flexibilidade industriosa de um espirito aberto a toda a cultura. Schiller gastou-se prematuramente pela impetuosidade interior; Goëthe, durante a sua longa vida, foi avançando por um progresso insensivel e contínuo para a perfeição.»[17] Apesar do sentimento nacional tender para a unidade politica, ainda assim prevalecem as influencias locaes nas manifestações do espirito allemão; escreve G. Weber: «Debalde se procurará hoje, um centro litterario parecido com aquelles que existiram outr’ora em Saxe e em Thuringe. Berlim permanece a séde da philosophia e das sciencias especulativas; Munich o fóco das bellas-artes e o baluarte do ultramontanismo; Leipzic e Dresde o centro da critica, da arte dramatica e das bellas-letras...»[18] Heinsius, na sua Historia da Litteratura allemã determina-lhe os periodos da evolução sob o aspecto da raça: o gotico, até ao meado do seculo VIII; o franko, até ao advento dos Hohenstaufen no seculo XII; o suabio, periodo dos Minnesinger e da cavalleria exaltada; o rhenano ou saxonio, da erudição e das Universidades, do seculo XIV a XVI; o saxonio, comprehendendo a renascença, as controversias religiosas, os Meistersenger, ou os cantores populares, e a creação da lingua nacional, pela fusão dos dois dialectos principaes por Luthero; o silesio e suisso, em que predomina a influencia franceza da escóla de Opitz, reagindo e vencendo o perstigio das tradições germanicas em Klopstock, que determina a grande época allemã, em que brilha a pleiada dos genios creadores, como Goëthe, Schiller, Bürger, Wieland, Lessing, etc., como uma integração affectiva da Germania. Sobre esta successão, conclue Heinsius: «Observa-se que em cada época, á parte esta ultima, é uma das grandes familias da nação allemã que conduz todas as outras, que preponderou tanto no pensamento como na actividade, nas letras como na vida social, que, finalmente, imprimiu o seu caracter ao resto da nação e a fecundou com o seu genio.»[19]
Não é excessiva a nossa comprovação, ao tratar-se de determinar o caracter da raça, e acção do meio na civilisação e litteratura de Portugal; por que todos esses povos, a começar pela França exerceram uma acção profunda, já na constituição da raça, já nas fórmas da manifestação do genio nacional. Celtas, Romanos, Germanos e Arabes actuaram sobre o fundo persistente das populações hispanicas, que apesar d’isso conservaram as suas tendencias separatistas e as suas differenciações locaes. Nas creações artisticas formadas por individualidades que estão fóra das influencias vulgares, ainda assim se revela esta fatalidade do sangue, e do meio cosmico. Sobre a mais antiga camada anthropologica da peninsula estabeleceram-se os cruzamentos: Hispano-celtico, hispano-romano, hispano-gotico, e hispano-arabe. Vê-se aqui um fundo persistente de população, que as invasões successivas não conseguiram obliterar nas suas mestiçagens.
O que era pois este elemento hispano? Quando as primeiras frotas tyrias aportaram no Mediterraneo, já a peninsula se achava habitada por gente que se considerava autochtone ou filha da propria terra. Bem podiam ter-se esquecido da sua proveniencia, desde que os Pyreneos a defenderam contra a terrivel invasão dos gelos da época glaciaria. Quem era essa raça mysteriosa aqui escondida? Ella achava-se ramificada pelo sul da Italia e tambem pelo meio dia da França, mesmo pelo norte da Africa; chamaram-se os Iberos. Segundo Guilherme Humboldt, o genio iberico é a base da unidade dos povos meridionaes; com os recentes estudos anthropologicos foram-se esclarecendo estas similaridades, e nos estudos comparativos dos costumes e das tradições confirmando pelas analogias ethnicas este sub solo social. Segundo Bergman, o Ibero é a transição da raça amarella para a aríaca; além da Italia e da França, tambem apparece na Inglaterra, e no typo ruivo germanico, constituindo um fundo primordial ou preárico da Europa. Monumentos, superstições, mythos religiosos, recorrencias de costumes, tradições lyricas e heroicas, communs principalmente ao occidente da Europa, explicam esta raça a que na Hespanha se deu o nome de iberica, que os escriptores da antiguidade greco-romana descrevem com uma elevada cultura, com leis e poesia. Nas successivas invasões da peninsula nunca este elemento hispanico foi obliterado; entraram aqui os Celtas gaulezes, deixaram o seu vestigio no onomastico local, venceram as tribus locaes ibericas, mas foram absorvidos por ellas, como os Saxões da Inglaterra vencidos pelos Normandos os assimilaram ao fim de trez seculos. Os Celtiberos nunca puderam ligar-se completamente para a defeza commum, d’onde Guilherme Humboldt conclue mais pela cohabitação do que pela fusão d’estes dois elementos; o Ibero continuou a ser taciturno, e accoutando-se nas montanhas por um instincto defensivo, e o Celta veiu insensivelmente isolando-se para as bandas do mar, para lançar-se á vida aventureira. En Dorel e Esus são os dois deuses d’estas raças, que persistem em muitas das inscripções lapidares da Hespanha. A facilidade de adaptação estava da parte dos Celtas, que tambem na Italia, em França e Inglaterra se unificaram com outros povos preexistentes, conservando a sua delicada sensibilidade poetica. Aqui temos um começo de differenciação na futura raça hispanica ou nacionalidades peninsulares. As esperanças da raça celtica, personificadas na vinda do Rei Arthur, ainda hoje alentam o povo portuguez, que na decadencia da sua grandeza historica compraz-se com o sonho do Quinto Imperio do mundo, em que o desejado Dom Sebastião hade vir aqui formar a ultima grande monarchia; as tradições da velha Atlantida enlevam a imaginação dos portuguezes insulares, que julgam vêl-a nas cerrações em noite de Sam João. Para as regiões centraes e montanhosas confinaram-se os iberos, de que os bascos actuaes, apesar dos seus cruzamentos são ainda um manifesto documento anthropologico; o elemento docil, aventureiro, amoroso, propriamente celtico irradiou pela orla maritima, em uma linha norte sul, vindo por isso os Portuguezes a conservarem o genio celtico, não obstante Herculano affirmar que o portuguez nada tem de commum com os antigos occupadores da peninsula. É pela extensão e diffusão d’este ramo celtico, que se explica a facil adopção do latim nas conquistas romanas, e mais ainda a differenciação dialectal, que produzia as linguas novo-latinas, cuja formação os discipulos de Diez deduzem de simples degenerescencias phoneticas. O facto da adopção de uma linguagem, orgão de uma mais elevada cultura, em nada modificára a população hispanica.
Os Phenicios, que exploraram o Mediterraneo, vieram attrahidos á peninsula pela noticia das suas riquezas metalurgicas; os que já estavam cansados dos errores longinquos, fixaram-se ao norte da Africa onde fundaram Carthago, e d’ali exploraram commercialmente a Hespanha, preferindo o trafico á guerra. Seria esta situação do ramo semita, naturalmente incommunicavel, segura e sem perturbação, se as rivalidades com o poder romano não produzissem a derrota da segunda guerra punica.
Roma repelliu da peninsula o dominio carthaginez; possuindo um energico poder centralisador, começou por imprimir no territorio dos hispanos as suas divisões administrativas e militares. Não dominava pelo numero e cruzamentos, por que Roma não tinha gente sufficiente para a occupação, mas pela vigilancia das suas legiões, e pelo colonato dos povos vagabundos, que se entregavam á sua protecção, é que sustentava a conquista. A concessão do direito italico harmonisava-se com os costumes ibericos. A influencia de Roma é profunda, como elemento civilisador, e de unificação social, mas nulla em quanto á modificação dos caracteres anthropologicos da raça. Sob o seu dominio os hispanos ficaram taes como eram. A lingua latina como universalista, exprimindo o direito e a poesia, dava distincção ao que a fallava; por tanto deu a Hespanha á litteratura romana muitos dos seus melhores escriptores, coincidindo esta actividade com a adopção da religião universalista do Christianismo, que vinha unificar sentimentalmente o Occidente: Seneca, Lucano, Marcial, Prudencio, Draconcio, Sam Damaso, fazem brilhar a lingua de Cicero na época de uma decadencia que se sustentou com a vitalidade provincial. O verso latino, que na época de esplendor desprezava a accentuação natural pela quantidade, á imitação da poetica grega, voltou nos primitivos hymnos da Egreja, compostos por Sam Damaso, á simplicidade do verso saturnino, ao octosyllabo popular. Estavam achadas as bases da poesia moderna, do lyrismo das novas linguas, a accentuação e a rima, que mesmo nos hymnos da Egreja dão á expressão latina uma belleza incomparavel. A Egreja e o Imperio romano imprimem aos povos da peninsula uma unidade politica e moral, deixando esse germen da cultura erudita, que se sobrepõe ás tradições populares sem comtudo ellas se extinguirem. A Egreja, depois da queda do Imperio, mantém na sua liturgia a lingua latina, e os Reis germanicos reataram a tradição imperial, conservando a lex romana e o seu processo nos tribunaes: estas mesmas causas cooperam para a unidade da civilisação do Occidente.
As invasões germanicas, communs á Italia (Ostrogodos e Lombardos), á França (Frankos e Borguinhões), á Inglaterra (Saxões) e á Hespanha (Visigodos e Suevos), determinam uma certa similaridade das instituições modernas, cujas relações com as instituições gregas e romanas foram achadas por Freemann como provenientes de um fundo commum árico. Mas a invasão germanica da Hespanha, embora numerosa, não alterou o typo anthropologico da população iberica. Assim como os Lombardos, no clima quente da Italia ao fim de um seculo estavam extinctos, por egual causa os Visigodos seriam lentamente eliminados em Hespanha; ao fim de dois seculos já não puderam resistir a uma pequena incursão de Arabes. Comtudo, a invasão germanica deixou elementos que foram apropriados pela povoação hispanica, como vamos vêr. Os Godos aqui em contacto com a organisação civil e politica romana conformaram-se com ella; e a sua aristocracia ou classe guerreira, chegou a esquecer a mythologia de Odin pelo polytheismo social romano; imitou os Codigos romanos, principalmente o theodosiano, excluindo do seu direito a banda pastoral e agricola, a quem deixava o costume ou lei consuetudinaria do Estatuto territorial, conservando exclusivamente para si o estatuto pessoal; esqueceu-se do culto da mulher, de que falla Tacito, e adoptou os costumes dos harens asiaticos; em religião, abandonaram a doutrina da humanidade de Jesus, tornaram-se orthodoxos por corrupção, e desprezaram completamente as suas tradições poeticas. D’esta ruina falla o profundo Jacob Grimm: «As tradições goticas, tão bellas, tão numerosas, aniquilaram-se na maior parte, e não se avalia o alcance d’esta perda; pelo que nos deixou Jornandes se poderá julgar a importancia das origens mais antigas e mais ricas, que existiam no seu tempo.»[20] Grimm explica esta ruina pela influencia da reacção catholica: «A historia trata os Godos com severidade por causa de terem abraçado o arianismo e combatido a orthodoxia;»—«o christianismo triumphante arruinou-lhes os monumentos do passado, prescrevendo como um dever o abandono dos velhos costumes, e o desprezo de todas as tradições do paganismo.» Estas tradições conservaram-se nas camadas populares da banda agricola e pastoral, como o symbolismo juridico. Muitas das lendas germanicas se acham implantadas, confundidas com as nossas lendas portuguezas: as lendas de Nossa Senhora da Nazareth, salvando Fuas Roupinho,[21] da Roussada de Bemfica, contada por Fernão Lopes,[22] o estratagema do Alcaide do castello de Faria,[23] a de Geraldo sem Pavor,[24] de Gaia,[25] da Náo Catherineta,[26] são provenientes d’este fundo dos lites ou colonos decahidos da condição de homens-livres. Nas superstições populares prohibidas pelas Constituições dos Bispados, vem apontada a Camisa de Soccorro, costume privativamente germanico.[27] No Direito portuguez consuetudinario, as Cartas de Foral encerram numerosos symbolos germanicos, embora o mechanismo dos Concelhos tire as suas designações de nomes arabes.[28] Porém, esta camada popular dos lites, era formada do colonato admittido pelos Romanos, de Alanos e outras tribus que acompanharam as invasões sem serem propriamente germanicas; pertenciam a esse fundo que já vimos identificado com o elemento iberico. Não admira pois o facto, citado por Émile Chasles, que na invasão dos Arabes, os Berberes fallassem e se entendessem com povoações acantonadas nos valles (Cagots, Mauregatos), por isso que pertenciam a esse elemento iberico ou hispanico. Quando se deu a reconquista visigotica ainda a aristocracia quiz conservar no Codigo Visigotico os seus privilegios, mas não foi isso possivel diante do desenvolvimento da população das cidades, que era hispanica.
Com a invasão dos Arabes, embora a peninsula fosse fundamentalmente revolvida e até certo ponto as duas civilisações se penetrassem, nem por isso o elemento semita alterou os caracteres anthropologicos da população iberica. Assim como os Romanos, nas suas conquistas formavam o grosso das suas legiões com povos barbaros, tambem os Germanos trouxeram nas suas bandas guerreiras tribus que lhes eram extranhas (Alanos, Gelas, Seythas), e os Arabes occuparam a peninsula hispanica quasi que com exercito de Berberes. Os dominadores conservaram-se sempre estranhos ou incommunicaveis com os povos conquistados; o estipendiario, o mercenario, o aventureiro trazidos na corrente da conquista é que se misturavam entre o povo e conviviam em uma crescente mestiçagem. O Proconsul romano, o Conde germanico, e o Emir arabe consideravam barbaros a sociedade e o paiz que governavam, e fechavam-se nos seus costumes aristocraticos, e nos seus privilegios excepcionaes; pelo contrario os elementos do colonato romano, dos lites germanicos, que se haviam confundido na persistente população hispanica, e dos mouros trazidos pela invasão e ulteriores conflictos do dominio dos Arabes, vieram a constituir a gente sedentaria das villas e cidades, a que já no seculo XII se dava o nome de Mosarabes. Esta designação é preciosa, por que denominando o fundo anthropologico da raça hispanica ou iberica, exprime a influencia exterior ou a acção do contacto com a civilisação dos Arabes; segundo Pascoal de Gayangos, Must’ariba significa o que imita o viver dos Arabes. Bastava a profunda tolerancia politica e religiosa dos Arabes, e o modo como garantiram a existencia e a propriedade ás populações sedentarias, mediante um leve imposto de capitação, para os seus costumes provocarem interesse. Mas estas relações entre o povo conquistado e o Arabe não foram descriptas com verdade pelos chronistas ecclesiasticos; do seculo VII em diante não cessaram de retratar com as côres mais sinistras o quadro da invasão arabe; representam razzias sangrentas, desolação geral, ruina dos templos, ausencia de toda a cultura litteraria; para elles entre a Cruz e o Crescente existe um abysmo, de odio eterno, irreconciliavel, de morte; as duas raças, arabe e germanica, repellem-se com uma antithese absoluta. Para os escriptores ecclesiasticos e chronistas contemporaneos é esse eterno antagonismo que faz com que a aristocracia visigoda se refugie nas montanhas das Asturias abandonando as populações sedentarias ao invasor arabe, e é que o obriga passado o primeiro espanto a ir reconquistando a palmos o solo patrio. Odio politico, repugnancia entre as duas religiões, aversão á diversidade de linguas e costumes, era quanto bastava para communicar entranhado ardor á cruzada permanente que terminou na conquista de Granada.
Triste erro da paixão patriotica e religiosa dos chronistas, que não quizeram relatar como a população sedentaria, colonos romanos, lites germanicos, sob o regimen de tolerancia dos Arabes, acceitaram a convivencia com os mouros ou berberes, e vieram do seculo VII ao seculo XI a formar d’esse complexo elemento hispanico ou iberico um povo livre. No onomastico popular acham-se os nomes godos ligados com os arabes (ex. Venegas e Viegas = Ibn-Egas); acham-se nos divertimentos e cantos populares os nomes dos instrumentos musicos e dos generos poeticos, (quitara, serranilha, leila, lenga-lenga); os sacerdotes christãos têm nomes arabes, e escrevem em caracteres arabes ou aljamia. Quando começou a reconquista pela aristocracia goda, este elemento popular ou propriamente nacional estava já tão desenvolvido nas suas relações civis e economicas, que não foi possivel restaurar as velhas e atrazadas instituições germanicas, artificialmente e capciosamente regulamentadas no chamado Codigo Visigotico. É esta população que recebeu o nome de Muztarabe, como se acha em um documento de 1101, de Affonso VI; no poema de Gonzalo de Berceo, Milagros de la Virgen, já se dá a essa collectividade o nome de Mozarabia, em contraposição á classe culta ou Clerezia; o nome é vulgar no castelhano Mozarabe, no valenciano Moçarab, Moçab, e no portuguez Mosarabe. Este dualismo entre um povo livre, que se vae constituir em nacionalidades, e uma aristocracia atrazada que vae ser submettida pelo poder real, acha-se perfeitamente representado no typo épico do Cid, como observou judiciosamente D. Agustin Duran: «Ha um Cid monarchico, popular, religioso e aventureiro; ha outro aristocratico, feudal, cavalheiresco e devoto; porém nunca se confundem no principio politico que representam. O Cid feudal e devoto acha-se sómente idealisado na Chronica rimada e em alguns romances tirados d’ella; o Cid monarchico, popular, santo e cavalheiresco está formado no Poema publicado por Sanchez, nas Chronicas latinas e castelhanas, e provavelmente nos cantares que n’ellas se citam, ou que convertidos em prosa se inseriram no texto, e nos romances velhos que restam, ou em antigos compostos posteriormente no seculo XVI, quando predominavam o espirito cavalheiresco e os costumes palacianos. Este Cid, que se oppõe ao Cid dos senhores, é o que triumphou das ideias feudaes, é a verdadeira figura popular que a escripta e a tradição nos legaram, condemnando ao olvido a do seu antagonista; é a que caracterisa em todas as épocas a idiosincrasia nacional, a necessidade de conquistar a unidade de territorio e das leis, a de acabar com a anarchia que impedia a reconquista do paiz contra os Arabes. Este é o Cid, que, como o povo, se ligava aos monarchas para libertar-se da oppressão dos senhores; mas que, ao mesmo tempo, vencido de outra tyrannia que podia empecer a liberdade, ao passo que acatava e fortalecia os reis, lhos fallava severa linguagem de verdade, obrigando-os a respeitar a lei da opinião.»[29] A poesia popular fez aqui a synthese da creação da sociedade civil na alliança da burguezia com a realeza.
Foi tambem com o nome de Mosarabes que Alexandre Herculano designou a população da Extremadura e da Beira antes da constituição da nacionalidade portugueza: «os habitantes da capital da antiga Luzitania eram principalmente Mosarabes...»[30] E: «na Beira, o mosarabismo devia caracterisar mais profundamente a população, do que ao norte do Douro...»[31] Mosarabia e Mosarabismo, significa com todo o rigor historico, ethnico e anthropologico a raça hispanica ou iberica, tendo incorporado em si todos os elementos celticos, colonato romano, lites germanicos, tribus maurescas ou berbericas, vindo sob a tolerancia arabe a constituir a nova povoação livre que se transforma de classes servas no povo das nacionalidades peninsulares. A designação é restricta á época arabe, como exprimindo uma unificação ou integração social; creadas as nacionalidades, esqueceu-se o nome de Mosarabia, prevalecendo o separatismo nos nomes de Gallegos, Portuguezes, Aragonezes, Leonezes, Navarros, Castelhanos, etc. Mais tarde o nome de Mosarabe revivesceu com um sentido puramente religioso, para designar aquellas povoações, que em contacto com os Arabes souberam conservar intacta a fé e o culto christão; tal é o sentido com que se encontra em uma comedia citada por Ticknor.[32] Este dualismo da Mosarabia e Clerezia, indica em que elemento ethnico se devem procurar os caracteres psychologicos e os themas tradicionaes das creações artisticas, e por que via as correntes da erudição grega e romana exerceram por vezes uma obnubilação na phantasia dos escriptores peninsulares. Quando estas populações christãs foram reconquistadas, o laço religioso é que as unificava, porém os costumes imitavam a cultura arabe, subordinando-se aos novos senhores pela identidade da fé; no acaso da guerra, se tornavam a cahir no dominio sarraceno, eram tratadas com mais brandura. No seculo X o terreno comprehendido sob o titulo de Minho, Traz os Montes e Beira-Alta era extremamente povoado, o que não teria sido possivel se tivesse sido occupado simplesmente por christãos asturo-leonezes. Os territorios do Douro e do Mondego já por este tempo apresentavam grande numero de granjas, casaes, villares e povoas. Sob as phrases do latim tabellionico dos diplomas, como notou Herculano, sente-se palpitar uma população livre, que se fará reconhecer mais tarde. A contar do seculo IX encontram-se nos contractos celebrados entre estas differentes sociedades nomes goticos e romanos amalgamados em agnome e cognome com os nomes arabes; presbyteros e diaconos assignam-se com nomes mussulmanos, e ás vezes filhos e irmãos entre si diversamente chamados com nomes arabes e goticos. Pelo que, conclue Herculano: «Não é evidentemente esta confusão de denominações a imagem da assimilação, que, salva a differença do culto e da jurisprudencia civil, se operára lentamente entre os sarracenos e os hispanogodos sujeitos ao seu dominio?»[33] Na magistratura civil, os nomes dos varios cargos tinham tambem designações arabes; na segurança da sua erudição, concluiu Herculano: «O resultado definitivo de todos estes factos, devia de ser, no começo da monarchia a preponderancia do elemento mosarabe entre as classes inferiores, ao passo que entre a nobreza preponderava forçosamente a raça asturo-leoneza.»[34] De facto na Extremadura, Alemtejo e Algarve, depois da separação de Portugal de Leão, ficaram vivendo os mouros forros com a sua independencia garantida pelos Foraes e pela immunidade da communa. Assim se fortificava esse elemento mosarabe nas classes inferiores, onde se crearam as manifestações artisticas, principalmente architectonicas, e se conservaram as tradições poeticas, ou Aravias. Esta influencia poetica dos Arabes acordou a imaginação popular; pelos Arabes da Hespanha se implantaram na Europa os contos orientaes do Hitopadeça, do Pantchatantra e do Calila e Dimna; foram esses themas novellescos vulgarisados pelos arabes que vieram fortalecer o instincto da liberdade burgueza, e que foram estimular a creação romanesca no Decameron de Boccacio, nos Contos de Sassetti, nas Notte piacevoli de Streparole, nas graciosas narrativas das litteraturas romanicas.
Este dualismo, que Herculano tambem observou entre as classes inferiores ou mosarabes e a aristocratica ou asturo-leoneza, reflecte-se no antagonismo entre as autonomias nacionaes, ou individualismo dos estados peninsulares, e a obliteração de todos esses caracteres por um espirito abstracto de unitarismo, conservado da acção imperial romana, gotica e arabe, que a organisação tambem unitaria da Egreja veiu fortificar na aristocracia e na realeza, que ao caminhar para a dictadura se separou do povo. Era este espirito de unidade que fazia com que os reis e aristocratas christãos se entendessem por vezes com os emires e kalifas; na batalha de Zalaka trinta mil sarracenos combatiam sob as bandeiras christãs do rei de Castella e Leão, ao passo que os cavalleiros christãos coadjuvavam as hostes do almoravide Iussuf; Affonso VI, no enlevo dos seus amores por Zaida, queria pôr no throno o filho da sevilhana que estremecia; em Portugal tambem vêmos D. Affonso Henriques fazer uma alliança com Iben-Kasi. O ideal da unificação manifestou-se na creação do kalifado de Cordova, e na reconstituição da unidade visigotica, nas luctas de Castella, Navarra e Aragão. Alheio a todas as ambições creou-se um povo vivendo por si e para si, que emquanto manteve os seus separatismos naturaes, ou pequenos estados, chegou a exercer uma acção immensa na Civilisação occidental. É este caracter ethnico, que o nome de mosarabe exprime tão perfeitamente, que deve ser procurado nas creações dos povos peninsulares differenciados pelas condições do territorio.
Portugal occupa na peninsula hispanica uma faixa norte a sul, na orla occidental: d’aqui a grande variedade da sua climatologia, das suas producções agricolas, e das capacidades e caracteres individuaes dos seus habitantes. Foi esta a causa immediata da actividade social que o levou á desmembração da unidade asturo-leoneza, e que sem fronteiras naturaes, separou Portugal profundamente dos outros estados hispanicos. Além d’esta situação, que em muitas cousas torna Portugal comparavel ás peninsulas da Italia e da Grecia, o solo do paiz é bastante accidentado, influindo pelas altitudes na variação do clima de provincia para provincia; a visinhança do mar, ou as grandes montanhas e os valles profundos tornam o clima ora desegual, ora desabrido, como na Beira, Minho e Traz os Montes, apresentando as vegetações das zonas frias na Serra da Estrella e no Gerez, e o algodoeiro das zonas quentes no Algarve. A florescencia indica esta instabilidade: os cereaes recolhem-se um mez mais cedo na Extremadura e Alemtejo do que em Traz os Montes, em Trancoso, na Guarda, em Almeida e no Sabugal; o pecegueiro, o damasqueiro e a cerejeira florescem em Chaves em Janeiro, em Montalegre em Dezembro, e em Coimbra nos principios de Fevereiro. As duas primaveras que o anno apresenta em Fevereiro e Outubro, são alternadas, a primeira de calor e chuva em todos os trez mezes de duração, a segunda é precedida de trez mezes de calma ardente e falta de agua até ao equinocio, em que começam as chuvas torrenciaes. Cada provincia apresenta caracteres differentes; nos districtos mais elevados das provincias do norte, as neves mantêm na estação calmosa a frescura da atmosphera, tornando as noites frias mesmo nos ardores do verão. O Minho é a mais pequena de todas as provincias e a mais florescente em agricultura, em commercio e industria; aqui a actividade do homem venceu o terreno esteril tornando-o fecundo; ha mais densidade de população, mais fartura, mais desenvolvimento moral e iniciativa. Na Beira, o systema agricola dos pousios não deixa á terra a largueza da sua producção, que diminue cada vez mais com a extensão dos baldios para pastagens; a falta de communicações conservou por muito tempo o povo em uma rudeza e fanatismo invencivel. Traz-os-Montes é uma provincia montanhosa, fria em extremo no inverno, abrasada pelas calmas no verão, em rasão dos grandes montes que a fecham; tem immensos baldios, contando mais de dez leguas abandonadas desde a raia de Hespanha até ás proximidades de Barca d’Alva; alli o homem participa do caracter energico que lhe dá a natureza, é contrabandista. Na rica Extremadura, é mais geral a miseria da população solitaria e ignorante, explorando o solo feracissimo com rotinas caducas. O Alemtejo é a provincia mais extensa, mais fertil e a mais despovoada; a fecundidade do solo fez o habitante indolente; ama de preferencia o ser guardador de gado, a vida de campino; o seu desleixo tem empobrecido a provincia por não procurarem agua. O clima do Algarve é amenissimo, uberrimo o terreno, mas desprezado; não conhecem os habitantes as vantagens das florestas e vão sendo invadidos pelos areaes; a vegetação é tropical, como a bananeira, a palmeira, a cana de assucar; amendoaes, alfarrobaes e figueiraes florescem luxuriantes, mas os rios e as barras vão-se tornando incommunicaveis pela indolencia dos povos.[35]
Perturbações subitas da atmosphera levam á formação do temperamento bilioso, que como observa Stendhal torna as impressões violentas, e as ideias mais absolutas mas inconstantes;[36] a agitação e o mal estar permanente provocam-no á actividade. Diz Stendhal: «O bilioso melancolico, variedade tão commum em Hespanha e Portugal, e no Japão, parece-me o temperamento da desgraça em todas as suas fórmas.»[37] E exemplificando este temperamento pelos typos tão caracteristicos de Domingos de Gusmão, Carlos V, Cromwel, podemos equiparar-lhes os portuguezes Pedro I, Dom João II, Affonso de Albuquerque, Fernão Mendes Pinto, Sá de Miranda, Ruy de Pina, Damião de Goes, typos austeros e atormentados. Para o melancolico o amor é sempre um negocio sério, como observa Stendhal; e que sômos aos olhos da Europa, senão um povo de apaixonados? Quem tem os mais exaltados poetas do amor, como Bernardim Ribeiro, Christovam Falcão, Camões, Rodrigues Lobo, Garrett, João de Deus? Uma lenda de amor deu a primeira tragedia nas litteraturas da Europa, a Castro, de Ferreira; o amor é uma fatalidade invencivel, como se vê nas Cartas da Religiosa portugueza, e torna contagioso o suicidio na mocidade e nas classes populares.
A visinhança do mar imprimiu a estas energias uma acção commum, que tornou Portugal um dos principaes factores da historia: a exploração do Mar Tenebroso, a circumducção do globo, e a idealisação de uma das mais bellas Epopêas da humanidade.
Ha no caracter portuguez uma certa sympathia pela novidade, uma facil assimilação de todos os progressos ou estrangeirismo; foi esta qualidade, tão mal comprehendida, que fez do genio jonio o elemento fecundo e activo da civilisação hellenica. É esta tendencia progressiva que reserva a Portugal uma missão hegemonica na futura federação dos Estados peninsulares.
Com a marcha da civilisação humana as raças vão naturalmente unificando-se, e, como observa Comte, só virão a conservarem as suas qualidades e caracteres differenciaes as raças branca, amarella e negra. A successão e distribuição das raças da Europa, segundo as modernas investigações da anthropologia, apresentam uma quasi completa similaridade; na corrente da historia, uma mesma cultura greco-latina, uma mesma religião catholica, accordando as consciencias, os mesmos elementos sociaes desenvolvendo as instituições civis e politicas, concorreram activamente para esta solidariedade humana que já merece o nome de Republica occidental. D’estes antecedentes, e do contacto sempre crescente dos povos europeus no sentido industrial e economico, resulta a influencia mutua que todos elles exercem entre si, conduzindo para a acção commum.
Os Francezes, Italianos, Hespanhoes e Portuguezes formam perante a civilisação um mesmo povo; as mesmas raças invadiram os seus territorios e ahi se fixaram fusionando-se. O elemento iberico assimila e unifica em si o romano, o celta, os ramos germanico, franko, lombardo e gotico e por fim o arabe. A creação das linguas romanicas proveiu mais da persistencia dos caracteres communs dos povos conquistados pelos romanos do que da decomposição do latim litterario. Uma mesma tradição, formada da decadencia dos seus polytheismos serve de assumpto para essa nova linguagem; o jogral cantando de terra em terra faz-se entender por toda a parte mudando a accentuação das palavras, chega a empregar ao mesmo tempo varios dialectos, como no Descort; uma mesma lingua, o latim, presta os seus moldes de construcção syntaxica a esta diversidade de dialectos, dos quaes os mais desenvolvidos se tornarão linguas nacionaes; uma mesma poesia, a canção trobadoresca, alegra a mudez dos castellos, irradia do Meio Dia da França, cultiva-se nos principados da Italia, em Aragão, na região gallecia ao norte de Portugal. A arte da poesia ou do gai saber ramifica-se, imprimindo uma unidade sympathica aos povos novo-latinos. As mesmas lendas épicas seduzem a imaginação d’estes povos: Carlos Magno, o centro heroico das Gestas, combate nos romances os Sarracenos; os Hespanhoes celebram a sua derrota em Roncesvalles na pessoa de Roland; os Italianos ferem-no na vileza e degradação do filho e dão o nome de ciarlatani (de Carlos) aos troveiros que celebram os seus feitos nas praças publicas: em Portugal apparecem os vestigios meio apagados do Cyclo carlingio, trazido pela passagem dos Cruzados que ajudaram a conquista de Lisboa.
As mesmas commoções politicas succederam na Europa meridional; o impeto revolucionario era contagioso, e o grito da liberdade popular repetia-se por todas as cidades da Italia, servindo aquellas que primeiro alcançavam a independencia, de typo para a exigencia de futuras garantias. Por toda a parte o alto clero se oppoz á revolução communal, em que se creavam as condições do terceiro estado. As Chartes e Coutumes serviam de typo para as povoações que procuravam organisar-se; em Hespanha as Cartas pueblas e os Fueros, em Portugal as Cartas de Foral, foram consequencia d’esta corrente a que depois da reconquista obedeceu a liberalidade régia. Os Foraes de Salamanca, Avila e Zamora foram o typo geral que os povos reclamavam como segurança das suas garantias, subsistindo em Portugal os typos de Salamanca, Santarem e Evora.
As lendas da credulidade religiosa foram por todo o Occidente as mesmas, com egual intensidade e fervor: na Italia, França, Hespanha e em Portugal campêam as Cathedraes goticas, bellas como noivas préstes a receberem a visita do amado. Sente-se o mesmo sarcasmo nos contos decameronicos e nos fabliaux, que pintam a vida domestica burgueza e a defendem; espalha-se o mesmo terror nas lendas da Dansa da Morte, da Descida aos Infernos, do Judeu errante, dos semeadores das pestes, da condemnação do livre exame, equiparado ao pacto demoniaco como no Milagre de Teophilo, e ainda no panico do fim do mundo fixado para o anno mil.
A consanguinidade dos povos latinos é evidente; pelo processo da fixação do poder monarchico, egoismo das familias dynasticas e abuso da dictadura, foi-se estabelecendo a separação d’estes povos com as mais insuperaveis fronteiras de bastardia politica. Esta antinomia, como observa João Müller, explica dez seculos de guerras na Europa. Foram as Litteraturas modernas, no seu periodo medieval que conservaram o instincto d’esta confraternidade apagada; serão ellas os principaes orgãos, na sua futura idealisação universalista, que hão de tornar consciente este espirito de occidentalidade.
§ 2.—A Tradição e os Costumes
De todas as raças que se encontraram na Peninsula hispanica, assim como ficaram vestigios dos seus caracteres anthropologicos, que se imprimem persistentemente na população actual, tambem se conservaram disposições ethnicas, que se transmittem na prática dos costumes e no automatismo das Tradições. Esta physionomia organica e moral do passado revela-se ás primeiras observações, e muitas vezes a intelligencia dos dizeres dos antigos geographos quando descrevem os povos peninsulares, comprehende-se melhor fazendo a comparação com os habitos do presente.[38]
Conforme as raças que occuparam a Hispania se foram mestiçando, accumularam-se tambem as Tradições poeticas, coexistindo por modo que ainda hoje se póde determinar o que provém de uma origem iberica, celtica, phenicia, romana, germanica ou arabe. O syncretismo d’estes elementos resultava da obliteração dos caracteres nacionaes; por que o facto da unificação politica da Peninsula foi sempre um esforço artificial, voluntario, mas impotente, sem que, sob o imperio romano, germanico ou kalifado arabe se conseguisse fundar a synthese organica de todos estes povos em um substractum de nação. Existem tradições ibericas, que não exprimem um sentimento nacional; como existem tradições celticas que não attingiram tambem esta alta expressão social. Se as tradições germanicas ou arabes chegaram a revelar essa consciencia superior de uma raça, perderam o sentimento nacional n’este syncretismo determinado pela successão de tantos povos já de caracter mongoloide ou allophylo, já de caracter semita e árico.
As nacionalidades peninsulares, como a portugueza, por exemplo, são posteriores a este grande residuo de tradições ethnicas: e a sua constituição é devida a um impulso individual, ao heroismo e ambição de um chefe; mas este esforço seria esteril se não aproveitasse as condições immanentes, que existiam nas populações que se confederavam espontaneamente nas suas Behetrias. Diante d’isto facil foi o equivoco de um historiador qualquer de attribuir a formação da nacionalidade portugueza á vontade de homens que se impuzeram á multidão inconsciente. Se D. Affonso Henriques e os reis que lhe succederam até D. Affonso III, não dessem cohesão ás cidades livres do Condado portucalense, jurando elles proprios as suas garantias em Cartas de Foral, não teriam conseguido apoiar o seu poder real sobre populações autonomistas, que assim se submetteram a uma unificação nacional. Em uma carta de Alexandre Herculano vimos uma allusão a essa theoria historica de nação-consciencia, que elle refuta com simplicidade dizendo, que no seculo XII já os Portuguezes chamavam com desdem aos hespanhoes estrangeiros. E Fernão de Oliveira, tambem notava, sem o saber explicar, como é que os Portuguezes acceitaram a fórmula castelhana El-Rei para designarem uma instituição politica que não tinham, por que viviam por si, nas suas cidades confederadas. Quando esta união se conheceu pela primeira vez proficua nas batalhas do Salado e de Aljubarrota, e nas expedições maritimas do Atlantico, foi então que a collectividade portugueza pulsou com o sentimento de Patria; é n’este activo periodo, que abrange os fins do seculo XIV e todo o seculo XV, que as tradições peninsulares, persistentes e sobreviventes de um longo passado, se adaptam á expressão do sentimento nacional. Assim, vetustas tradições do cyclo da Odyssea mediterranea, como a dos errores de Ulysses e do regresso do heroe, tomam o aspecto nacional das navegações portuguezas nos romances da Náo Catherineta e da Bella Infanta. O povo canta o seu heroe nacional na idealisação do Condestavel Nun’Alvares, e lamenta como em um novo Iálemos a morte do princepe Dom Affonso. As vagas tradições phenicias das Ilhas encantadas servem-lhe para estimular a audacia nas expedições maritimas pelo Mar Tenebroso; e as lendas celticas da ilha dos heroes, da phantastica Avalon, servem para guardar a esperança do vingador da nacionalidade extincta, o desejado e popular Dom Sebastião. Aqui vêmos como se faz a apropriação ao organismo nacional e historico d’esse residuo de tradições de todas as proveniencias ethnicas persistentes na peninsula hispanica. E n’este ponto de vista está implicita uma certa similaridade de fórmas lyricas, épicas e dramaticas em todos os povos do occidente da Europa em que entraram os mesmos elementos da raça, facto já anteriormente notado por alguns philologos e ethnologistas em quanto a Portugal, Hespanha, França, Italia e Grecia moderna. É pois esta a primeira base para o estudo comparativo das Tradições, resultando das suas similaridades nas fórmas lyricas, épicas, novellescas e dramaticas a reconstrucção de uma manifesta occidentalidade.
Depois d’esta coordenação fundamental, em que os povos meridionaes não se plagiam mas são simplesmente conservadores inconscientes, apparecem os rudimentos em que pela aggremiação territorial se iam estabelecendo os esboços de nacionalidades. As Tradições e cantos populares do Minho (norte de Portugal) completam-se pelo estudo simultaneo e comparativo das Tradições da Região Asturo-Galecio-Portugueza, substractum de uma nacionalidade que se definia na orla maritima de oéste, que chegou a abranger a Beira. Ao sul de Portugal esboça-se um outro rudimento social apagado na historia, mas persistente nas Tradições da Região Extremenha-Betico-Algarvia. No percurso historico da nacionalidade portugueza, a expansão colonial começa quando a Tradição se tornava a expressão do sentimento de Patria; os cantos tradicionaes fixaram-se n’esses varios centros de persistencia ethnica, os Archipelagos da Madeira e dos Açores, e modificaram-se segundo os elementos da população nos outros fócos coloniaes da Africa, Brazil e India.
Quando um povo entra na vida historica, assimilando os progressos realisados na humanidade e contribuindo para a civilisação com a energia ou tendencias novas que distinguem a sua raça, a este impulso dynamico corresponde a manifestação d’essa outra força statica, a Tradição, que no meio de todas as transformações hade ser o vinculo moral e affectivo da nacionalidade. A Tradição torna-se muitas vezes um estimulo de actividade, como se vê na Grecia quando reagiu contra a Persia; e então, como primeira revelação da unidade d’esse povo, o amor das tradições provoca elaborações individuaes conscientes, que pelo seu intuito esthetico constituem o phenomeno sociologico da Litteratura. Só merece o nome de Litteratura, tomada sob este aspecto, a série das creações sentimentaes e intellectuaes por onde o gráo de consciencia que esse povo tem do seu individualismo nacional chegar a ser expresso. Todos os povos que tiverem caracteres de raça bem accentuados, que a par de uma marcha historica importante não tiverem obliterado as suas relações com um passado tradicional, que ao facto da nacionalidade ligaram um ideal de liberdade na esphera civil, politica e philosophica, esses povos devem possuir uma Litteratura original e fecunda, servindo ao mesmo tempo para patentear o seu nivel moral e para annunciar a aspiração que ás vezes leva seculos a ser effectuada. Sob um tal aspecto não existem Litteraturas mais ou menos perfeitas, por que productos reflexos do meio social, o seu estado é um documento immediato; se se moldam por typos de convenção, a que as academias chamam classicos, se a obra do escriptor consiste em uma paciente imitação e é produzida sem intuito de communicação com o povo, a sua esterilidade está revelando que a nacionalidade se conserva em uma aggregação sem destino, e que causas intimas a atacam nas suas condições organicas. Estas são as bases positivas da critica de qualquer litteratura; procurar se as obras se conformam com os preceitos rhetoricos, ou se se aproximam do typo abstracto do Bello pelo confronto com as realisações artisticas da Grecia, estes dous processos são os que ainda seguem os obcecados habitos escholares do humanismo jesuitico, e os que levados por miragens metaphysicas dão a phrases sem sentido o nome de syntheses.
A Litteratura é objecto de uma sciencia concreta, que se presta á deducção de leis geraes da Sociologia; estabelecer a relação entre as concepções individuaes ou dynamicas, e os elementos staticos da Raça e da Tradição é o processo por meio do qual se chega á determinação do caracter nacional de uma litteratura. O criterio da filiação pertence rigorosamente á historia; por isso a Historia da Litteratura assenta sobre esta phylogenia da Raça e da Tradição como modificadores de todas as concepções individuaes. Só por uma tal connexão é que essas obras podem ser bem sentidas e bem comprehendidas. A Historia da Litteratura é este processo em que se procura descobrir pela realisação que nos apresenta, a vitalidade da raça, a consciencia da nacionalidade, e até que ponto estas duas forças naturaes estiveram em harmonia ou antinomia com a civilisação.
O estudo comparativo das Litteraturas levou a determinar um certo numero de fórmas, por assim dizer universaes, que são a Epopêa, o Lyrismo e o Drama; a sua universalidade deriva de estados psychologicos communs, bem como a successão do seu desenvolvimento resulta das transformações do meio social, onde muitas vezes se conservam os elementos tradicionaes que serviram de thema ás obras e concepções sentimentaes das individualidades superiores. Remontar pela critica das obras primas do genio a esses elementos inconscientes da Tradição, relacional-as com as exigencias moraes da sociedade cujas aspirações exprimem, eis o processo da historia completo nos seus fins de disciplina critica e de synthese.
Estas fórmas litterarias têm uma origem commum humana, n’esse poder mental de personificar em mythos e de communicar a emoção pelo equivalente da imagem, ou intuição das analogias. Ao trabalho da personificação, que se acha plenamente desenvolvido nos Mythos religiosos, segue-se uma degenerescencia provocada pela especulação abstracta dos dogmas, e em grande parte é d’essa degeneração popular dos mythos que se formaram as Epopêas antigas ou anonymas. As analogias das imagens serviram para fixar o modo de expressão do sentimento em um periodo em que o impressionado não podia ainda julgar a sensação emotiva; assim o Lyrismo foi tambem descriptivo, e simultaneo com a Epopêa, tendo egualmente uma base de transmissão tradicional; taes foram os typos hymnicos e dithyrambicos, e na Europa Occidental as Pastorellas e Balladas.
O apparecimento do Drama é tradicionalmente bem caracterisado; nascido tambem de actos ritualisticos, desenvolve-se com as condições que emancipam as classes medias ou burguezas, quando ha egualdade civil, interesses geraes, collisões de deveres, conflictos de ambições, quando existe um consensus moral por onde se afferem os actos das personalidades. Nenhuma fórma da arte ou da Litteratura se cria por méra curiosidade; corresponde sempre a um estado psychologico, á necessidade de uma expressão e communicação de sentimento.
Seguiremos esta divisão natural de todas as Litteraturas, derivando cada uma d’estas fórmas dos seus germens tradicionaes, determinando assim o que ha de organico em manifestações tão complexas que se julgou terem sido creadas arbitrariamente.
a) DAS FÓRMAS LYRICAS
A relação entre a Epopêa e um fundo tradicional foi muito cedo achada pelos philologos e é uma base positiva da critica; porém não era procurada essa relação com o Lyrismo por se attribuir o seu desenvolvimento ao ideal do sentimento resultante do maior progresso social, e da elaboração subjectiva de um estado do passividade consciente que se discute. Antes do sentimento pessoal existiu o sentimento da collectividade, expresso em fórmas consagradas nas festas do trabalho, como labutação da lavoura, dos rebanhos e do mar, e nos factos da vida domestica, como nascimentos, casamentos e enterros, ou mesmo na vida publica. O sentimento pessoal servia-se d’essas fórmas tradicionaes, adaptando-as á expressão consciente e voluntaria de uma situação particular; é assim que se destaca do fundo tradicional a obra litteraria, a qual para ser bem comprehendida precisa ser aproximada da sua origem. Os cantos hymnicos, que apparecem nas religiões primitivas, embora se immobilisassem na fórma do dithyrambo, ou a successão de imagens representando sempre a mesma ideia, conservam o typo tradicional do Lyrismo: essa ideia unica repete-se como apoio rythmico, é o estribilho, refrem ou retornello, correspondendo a esta cadencia estrophica o parallelismo. Assim despontou o lyrismo egypcio, e se vê seguir o mesmo desenvolvimento nas canções accádicas e chinezas, e o que hoje traz embaraçados os criticos, ainda se observa nas Pastorellas do occidente da Europa.
Para comprehender a poesia lyrica portugueza é necessario determinar-lhe scientificamente as suas bases tradicionaes; ellas nos explicarão a sua originalidade e vigor, e estabelecerão as relações com as correntes litterarias da Europa, caracterisando assim pela connexão historica as épocas e influencias cultas que actuaram sobre a sua manifestação. Já pessoal e psychologicamente descriptiva, a fórma lyrica reflecte o estado intellectual do que canta; o poeta é conhecido, causam interesse os pequenos successos da sua vida, as aventuras, os triumphos, os desalentos pessoaes. Isto influe sobre as fórmas em que se quer mostrar perito, sabedor de todos os segredos da arte (gai saber); a construcção da estrophe torna-se a preoccupação exclusiva; inventa o metro caprichoso, acha as rimas novas, cruza-as, encadeia-as; taes foram os Trovadores, que pela relação com os jograes, nunca se esqueceram completamente dos elementos vitaes da tradição originaria, que depois imitaram artisticamente.
Outras vezes o poeta faz da fórma lyrica o meio de analyse da sua paixão, torna o sentimento uma casuistica, desenvolve a imagem até á allegoria, convertendo o seu estado emocional em uma synthese philosophica; taes foram os Petrarchistas, que não podem ser bem avaliados quando separados dos Trovadores. A imitação material em que o lyrismo foi applicado a descrever todos os accidentes insignificantes de uma vida mediocre, motivou esses productos morbidos das Academias litterarias (Culteranismo, Arcadismo) contra os quaes reagiu a renovação do Romantismo, que começou pela revivescencia das tradições medievaes, e depois da vaga melancholia chegou á expressão synthetica de uma emoção consciente e universal.
Na poesia trobadoresca, o lyrismo provençal conservou as suas origens tradicionaes em um elemento popular commum tanto ás pastorellas italianas, como ás balladas francezas, como ás serranilhas gallegas, portuguezas, valencianas e castelhanas, que chegaram a penetrar nos Cancioneiros aristocraticos e litterarios. Este facto encerra um grande problema, que tem preoccupado os mais atilados criticos: que não é na Provença que se hade determinar o ponto de irradiação do Lyrismo das litteraturas modernas, mas em um facto de persistencia ethnica, que se poderá definir pela observação da área que facilitou a sua propagação do sul da França á Italia meridional e ao norte da Hespanha. Analysando algumas canções portuguezas extrahidas por Ernesto Monaci do grande Cancioneiro da Vaticana, o romanista Paul Meyer, observando as analogias com antigas balladas provençaes, concluiu que ellas não provieram de uma imitação directa, mas: «foram concebidas segundo um typo tradicional, que devera ter sido commum a diversas populações romanicas, sem que se possa determinar em qual d’ellas fôra creado.»[39]
Aqui temos proposto o problema com toda a nitidez, e a que julgamos ter dado uma solução definitiva, sobretudo auxiliado pelo criterio ethnico. Para isso descemos das fórmas conhecidas pela via litteraria até ás suas relações com os costumes populares, e d’estes até ao centro ethnico da irradiação.
O lyrismo trobadoresco manifestou-se pela fórma escripta ou provençal na zona gallo-romana; no sul da França o elemento gaulez não soffreu uma transformação organica, como no norte em prezença do vigoroso elemento franko. O romano preoccupado com a ideia da unificação administrativa dominava mas não absorvia, impunha fórmas governativas mas não assimilava as populações; a sua organisação municipal, pelas autonomias locaes, não atacava a essencia da nacionalidade gauleza, ainda que a forçava a uma certa unidade civil. Segundo Diodoro Siculo, os romanos davam o nome de gaulez a todos os povos que entraram na França meridional; já Polybio separava os Celtas dos Gaulezes, antes das confirmações decisivas da Anthropologia.
No sul da França conservaram-se tradições, cuja existencia se determina pelas prohibições canonicas dos bispos, desde o seculo V; taes eram os cantos acompanhados de dansa, a que deram o nome erudito de Balismalia ou Vallemachia (a bailata ou balada) com o caracter satyrico, que reappareceu nas sirventes; taes eram os desafios poeticos com processos de casuistica sentimental, como os Puy, que se desenvolvem nas Côrtes de Amor; taes eram os cantares de Alvoradas e Serenadas, de que os trovadores fizeram generos litterarios; e ainda a caracteristica da composição poetica especialmente pelas mulheres. Esses cantos eram oraes; não tinham importancia no gosto dos latinistas para merecerem ser escriptos; e mesmo esses costumes, de que formavam parte, eram condemnados pela Egreja, e eram risiveis ante o viver dos castellos senhoriaes.
Identica persistencia das fórmas poeticas se encontra em Italia, com a mesma similaridade tradicional, como observou Costantino Nigra. E assim como o sul da França se distingue da França do norte ou feudal pelo exclusivismo das fórmas lyricas, tambem na Italia, segundo Gregorovius, faltam as tradições épicas; conservam-se ali os Voceros, os Triboli, ou Lamenti, analogos ás Endechas dos mortos na peninsula hispanica, e aos Aurusta do Béarn, e Arrirajo das Vascongadas. Os costumes estão indicando um elemento ethnico commum. Na sua entrada na Europa os Celtas encontraram uma raça de cabellos pretos, com que mais ou menos se fusionaram, conservada por longo tempo intacta na Aquitania, em uma região comprehendida entre os Pyreneos, o Garona e o golfo da Gasconha; já nos referimos á observação de Paulo Broca: «Tudo induz a crêr que os Aquitanios pertencem a esta raça de cabellos pretos que se conserva quasi sem mistura entre os Bascos actuaes.» É n’este triangulo situado entre o Garona, o Oceano e os Pyreneos, que essa raça, que se estendeu pela Italia e pela Hespanha, se confinou, como observa Jorge Philipps, resistindo á invasão celtica.
O problema proposto por Paul Meyer, quanto á communhão lyrica das diversas populações romanicas, não póde ser explicado como propoz Nigra, pela raça celtica, e muito menos pelo elemento franko, como entendem Jeanroy e Gaston Páris. A realidade está na persistencia d’esse elemento iberico na Aquitania, á qual pertenceu tambem a Galliza; a propagação do lyrismo para a Italia e Sicilia torna-se tambem um facto natural de revivescencia. O sul da França teve condições historicas para esta iniciativa: «Onde quer que a conquista sobrepoz uma raça a outra, acontece que o vencido por fim retoma os seus direitos. É o genio da raça primitiva que retoma pouco a pouco a dianteira. A Gallia soffreu o duplo dominio do Romano e do Franko; ella recebeu a substancia das duas raças: mas o velho fundo gaulez prevaleceu em ultimo logar, e a França não chegou ao supremo gráo da sua energia nacional se não no dia em que o Gaulez absorveu o Romano e o Sicambro.»[40] Esse lyrismo corresponde a uma certa estabilidade na vida pastoral e agricola, que nem o Ligurio ou Celta maritimo conhecia, nem o Celta nomada podia acceitar. Com o seu profundo senso artistico, Montaigne conheceu o valor esthetico das canções populares da Gasconha, a que chamou Villanelles[41]; a que os italianos chamam Villoti, e que Miguel Leitão de Andrada, no fim do seculo XVI chamava Villanellas para designar as fórmas do lyrismo popular portuguez.
Esta persistencia do lyrismo tradicional no sul da França impuzera-se aos trovadores, como vemos em Ramon Vidal, dizendo nas Les rasos de trobar: «la parladura franceza est plus avinenz a far romans et pasturettas, mas cella de Lemosin val mais per far vers e cansons e sirventes.» O trovador indicava aqui um genero popular em contraposição com as fórmas artisticas que outros trovadores iam destacando e individualisando; por que os primeiros trovadores revelaram-se adstrictos ás fórmas populares, como vêmos em Cercamons, «joglars de Gascoigna, e trobet vers e pastoretas a la usanza antiga.» O discipulo d’este trovador, Marcabrun, em duas pastorellas que compoz, já elabora o typo tradicional com um intuito de satyra moral e social. O typo tradicional, abandonado ao povo, não foi totalmente esquecido pelos trovadores subjectivistas, por que ainda foi seguido por Cadenet e Gui de Usiel, que fazem a transição de Marcabrun para Giraud de Riquier.
A ausencia do criterio ethnico é que fez com que Wackernagel e Brakelmann attribuissem a origem tradicional da pastorella ao norte da França, quando ella pertence a este fundo da população occidental que occupou a França, a Italia e a Hespanha antes da invasão celtica. Esta mesma insufficiencia fez com que Jeanroy considerasse ironicamente as investigações sobre este campo como litteratura pre-historica! Como se a tradição pertencesse ás épocas historicas.
As investigações sobre as origens cio lyrismo tradicional feitas na Italia por d’Ancona, levam a precisar este fundo anthropologico occidental. Observando as fórmas do Contrasto de Cielo d’Alcamo, poeta siciliano do seculo XIII, analogas aos themas e estructura francezas, d’Ancona quer que ellas derivem do antigo carmen amebeum, que se conservou na Sicilia; e conclue: «os antigos historiadores nos asseguram que esta fórma teve origem na Sicilia, que ella é devida primitivamente aos pastores sicilianos. Saíndo dos nossos valles e montanhas, ella se nobilitou, um pouco tarde talvez, nas mãos de Theocrito e de Virgilio; mas ella permaneceu na sua simplicidade nativa propriamente do povo da Sicilia, no qual se perpetuou com o dom da improvisação.» A ilha da Sicilia foi o ponto de juncção das raças brancas do norte da Africa com as da orla europêa mediterranea; a persistencia d’esse fundo lyrico impressionou Theocrito e Virgilio, como os themas da Gasconha ou da Aquitania impressionaram os Trovadores e os levaram á imitação. Reconhecendo as relações do Contrasto italiano com as fórmas francezas, escreve Jeanroy: «mas nós nos guardamos de sustentar que este genero fosse exclusivamente francez, da mesma maneira que não podemos conceder a M. d’Ancona que elle fosse propriamente siciliano; deve ser effectivamente uma propriedade commum de todo o territorio romanico.»[42] «Ainda mesmo que houvesse já Contrasti na Sicilia no tempo de Atheneu e de Diodoro, não nos auctorisava isto de modo algum a crêr que elles fossem originarios da Sicilia.—É essa uma fórma, que longe de ser exclusivamente siciliana, se acha na poesia popular de um grande numero de povos.»[43] E mostra como longe da Sicilia esta fórma lyrica tradicional é seguida pelas aldeãs de Ferrara nas Romanellas, em Portugal nos Desafios á desgarrada, e nos Dayemans da Lorena.
Mas estendendo mais o campo da observação, é um caracteristico commum a este lyrismo tradicional o ser a canção amorosa composta e cantada pela mulher. Nos cantos populares da Galliza a mulher conserva o costume que vêmos nas serranas e pastoras do Cancioneiro trobadoresco da Vaticana. Já o erudito Sarmiento, nas Memorias para la Historia de la Poesia española, escrevia: «he observado que en Galicia las mugeres no solo son poetisas, sino tambien músicas naturales.—En la mayor parte de las coplas gallegas hablan las mugeres con los hombres; y es por que ellas componen las coplas sin artificio alguno; y ellas mismas inventan los tonos ó ayres à que las han de cantar, sin tener idea de arte musico.»[44] É ainda este o costume do Minho;[45] o caracter da lyrica de elaboração feminina determina-lhe a sua mais alta antiguidade; escreve Jeanroy, apesar de ter receio da litteratura pre-historica: «W. Scherer, em uma muito instructiva noticia, citou um grande numero de factos que o provavam: desde o seculo X, a canção de mulher existia na Allemanha, como o mostra uma pequena peça latina d’essa época; as canções servias são ordinariamente collocadas na bocca de uma rapariga, e Talvj pensa que são realmente as raparigas que as compõem; peças analogas se acham na Islandia, na Russia, na China, nas Kabylas, e em muitas tribus selvagens. A attribuição das canções a uma mulher, é por consequencia uma feição commum á nossa antiga lyrica popular e a muitas outras.»[46] Por este exame de Scherer, encontramos sempre este caracter do lyrismo tradicional entre povos em que persiste o elemento mongoloide (como a Servia, a Russia, as Kabylas, a China, notando-se tambem que entre os Germanos se fusionou o Geta.) E continuando a citação: «Scherer faz notar, que o parallelismo mais ou menos rigorosamente seguido entre a descripção de algum objecto natural e a pintura da paixão se encontra em um grande numero de poesias populares, particularmente entre os Servios, os Allemães, os Malaios, os Chinezes. A poesia slava, sobretudo, abunda n’este genero em uma infinidade de especimens, dos quaes alguns têm impresso o cunho da mais alta, da mais bella poesia, etc.»[47] É por consequencia um processo logico o procurar estas origens do Lyrismo na raça branca, não árica nem semita, que precedeu ou occupou a Europa antes dos Celtas; o centro ethnico da Aquitania como ponto de irradiação do Lyrismo, levou-nos á investigação apparentemente aventurosa: as fórmas tradicionaes communs á Italia, Provença, Galliza, Catalunha e Portugal, (populações romanicas que não lhes deram origem), têm um typo perfeitamente egual ao das Canções accádicas, descobertas e traduzidas pelos modernos assyriologos, e são na sua estructura semelhantes ás canções chinezas do Chi King, traduzidas pela fórma homeometrica, homeostrophica e homeorythmica por Legge. D’aqui a inferencia sobre o estado moral e relações anteriores d’esse typo iberico conservado mais puro na Aquitania. O desenvolvimento da poesia provençal fôra attribuido á influencia dos Arabes no lyrismo do Occidente; mas a poesia lyrica dos povos semitas, como o provam os estudos assyriologicos, foi produzida pela imitação da poesia dos Accads. Reconhecida esta demonstração, comprehende-se como, apparecendo na poesia arabe a fórma da Pastorella, esse grande ramo semita viesse estimular a revivescencia de uma tradição, que se extinguia entre a transmissão oral das camadas populares. Como relacionar esse fundo occidental ou iberico com os povos accádicos? Esse é o problema a que conduzem todas as similaridades do Lyrismo tradicional; a elle respondeu Roisel no seu livro Les Atlantes, mostrando como a civilisação da Chaldêa foi iniciada por navegadores atlanticos da raça branca primitiva e autochtone da Europa.[48] Comprehende-se como os cantos arabes fossem communs entre o povo hespanhol e portuguez; nos versos do Arcipreste de Hita ainda vem enumerada a lista dos instrumentos musicos para os cantares arabicos, e em Gil Vicente ha uma referencia a uma canção arabe Calbi arabin. No Cancioneiro da Vaticana existe uma canção trobadoresca com o estrebilho Lelia vai Lelia, que dava nome a um genero lyrico tão popular e persistente nos costumes, que Philippe II prohibia que se cantassem as Leilas arabes. A designação com que no seculo XV se conhecia esta fórma tradicional da Pastorella era a de Serranilha, da palavra arabe serra. Na poesia moderna do povo da Galliza persiste este genero na fórma da Muiñeira; e em Portugal tornou a communicar-se aos escriptores como Gil Vicente, Sá de Miranda, Christovam Falcão e Camões, tomando a fórma litteraria das Modinhas brazileiras, especialmente nas Lyras de Gonzaga. Determinada, pois, esta base tradicional, temos a disciplina critica para conhecer o desenvolvimento do Lyrismo trobadoresco, e successivamonte da sua transformação italiana do dolce stil nuovo, e imitação geral nas Litteraturas romanicas da Renascença até ao Romantismo.
b) DAS FÓRMAS ÉPICAS
Nas composições poeticas tradicionaes distinguem-se o genero lyrico ou subjectivo, e o genero narrativo ou épico, essencialmente objectivo. Observando esta distincção nas Origens da Poesia lyrica em França, escreve Jeanroy: «Os differentes criticos estrangeiros que se têm occupado respectivamente da historia da sua poesia, MM. Bartoli, d’Ancona, Scherer, Richard M.-Meyer, Braga, entre outros, sustentam unanimemente a opinião que estas ultimas (as narrativas) constituem o fundo original da sua poesia. Sendo nos trez paizes esta parte identica ou muito analoga, elles não podem egualmente ter rasão. Nós tentaremos demonstrar que estão egualmente em erro, e que n’isso em que vêem uma emanação espontanea do genio nacional, importa vêr uma imitação de toda uma poesia franceza hoje perdida.»[49] Mas referindo-se aos themas tradicionaes d’esses cantos narrativos, Jeanroy presente um fundo ethnico que não é propriamente francez: «Nós demonstraremos bem que estes themas não são exclusivamente italianos, allemães, portuguezes; mas demonstraremos nós por isso que elles são exclusivamente francezes? Não; e seria uma pretenção evidentemente excessiva. Queremos só fixar um ponto, e vem a ser, que as peças estrangeiras consideradas como autochtones, devem, na sua fórma actual alguns dos seus traços á imitação franceza, que ellas não lhe escapam, como se tem dito. Mas, será certo que o assumpto mesmo tenha sido importado da França, que o thema nos pertença tão bem como a fórma que o revestiu? Não. É mesmo mais que provavel que, se a nossa poesia achou tanto enthuziasmo no estrangeiro, é por que ella ali encontrava assumptos analogos aos seus, e que o terreno estava como que preparado para receber a communidade de certas tradições poeticas. Bem longo de affirmar que estes themas são exclusivamente francezes, nós não ousamos sustentar que elles sejam exclusivamente romanicos.»[50] Não andavamos em erro quando localisámos as nossas investigações no fundo anthropologico persistente na Europa, de que o elemento iberico, eusk e gaulez na Italia, França e Hespanha, e o elemento getico e seythico na Allemanha, conduzem a uma unidade de tradição poetica.
É incalculavel a extensão e profundidade da tradição popular hispanica d’onde se tem colligido desde o seculo XIII até hoje esses pequenos cantos narrativos, verdadeiros rudimentos de uma Epopêa cyclica que não chegou á elaboração, como as Gestas germanicas. Esses cantos aproveitados por Affonso o Sabio como elemento historico para a Cronica general de España, explorados pelos impressores do seculo XV, estudados e colligidos com amor desde o principio d’este seculo, constituem o vasto campo do Romanceiro, que se deve considerar o elemento poetico mais rico das Litteraturas peninsulares. A tradição apparece por vezes commum a Portugal e Hespanha; outras vezes os paradigmas encontram-se em França, na Italia, e na Grecia moderna, o que revela uma fonte primordial. Nos Romances peninsulares ou meridionaes, encontram-se costumes de uma sociedade barbara, como na Sylvana e Rico-Franco, vive-se em estado de guerra, e a lei é a vontade irrefreiavel de um só.
D’onde provém essas tradições? Nada se encontra semelhante na civilisação romana; mesmo entre as colonias mais romanisadas, como a Italia, a poesia tradicional narrativa é pouco profunda.[51] Se os dialectos romanicos se desenvolveram pela acção dos Romanos, os costumes e as tradições são mais antigos, devem ser procurados em um sub-solo ethnico; os dialectos romanicos servindo de expressão e unificação d’esses elementos, contêm as indoles, como os proprios romanos lhes chamavam, mas cuja natureza não é romana.
Os recentes estudos accádicos e assyriologicos, e as conclusões da anthropologia e ethnogenia peninsulares, dão auctoridade ás palavras de Strabão, que consignava a existencia de poemas heroicos entre os Turdetanos, de mais de seis mil annos do antiguidade. As inscripções lapidares encerram tambem os nomes de muitos deuses ibericos; e as superstições comparadas com as do magismo accádico, espalham uma grande luz sobre a ethnologia iberica. A persistencia do typo iberico na Peninsula, quer pelas migrações do norte, como se vê pela Aquitania, quer pelo sul, como se comprova pelos Berberes, acha-se confirmada pelas differenças cephalicas representadas nos dois typos bascos francez e hespanhol. Por tanto o estudo da poesia tradicional narrativa da Peninsula deve fixar-se n’este fundo ethnico iberico, remontando essas camadas de civilisação até á constituição das suas nacionalidades. Como o estudo dos cantos lyricos feito comparativamente leva a achar nas Serranilhas gallezianas e Pastorellas francezas um typo commum ás populações romanicas, o estudo dos cantos épicos, ou Romanceiros, deve seguir egual methodo, que conduz aos mesmos resultados, como observaram Nigra, Wolf, Köhler e Liebrecht.
Do elemento iberico.—Os cantos heroicos peninsulares foram chamados Romances pelos eruditos, por considerarem os dialectos em que eram cantados como despreziveis em comparação com a lingua e cultura latina; ainda no seculo XVII romancista era o homem sem cultura litteraria ou scientifica. O povo, porém, chamou-lhes Aravia, e mais geralmente Estoria; a primeira designação é vulgar em algumas das ilhas dos Açores, e contém um sentido que nos leva ao intimo do problema: a Aravia significou um dialecto vulgar das classes que estavam em contacto com os Arabes ou propriamente com Berberes; esta classe sendo constituida com as populações hispanicas preexistentes á invasão arabe, facilmente assimilou a si o elemento mauresco determinando a revivescencia do typo iberico. Para os eruditos do seculo XV e XVI, a Aravia é a linguagem corrupta com que christãos e arabes se entendiam, é uma especie de giria não escripta, e a propria designação de um canto do povo. Mem Moniz, que esteve no seculo XII no cêrco de Santarem: «sabia fallar mui bem a aravia.» E Gil Vicente, nos seus Autos: «Que linguagem é essa tal?—Ui! e elle falla aravia.» Quando no fim do seculo XVI o P.e Fernão Guerreiro, na phrase «entoar uma aravia» a empregou no sentido de canto, já era usada pelo povo nas colonias portuguezas dos Açores, e nas colonias hespanholas do Perú, depois que a cultura latina atacou a originalidade nacional. Na propaganda catholica, os missionarios hespanhoes introduziram na toada dos cantos peruanos os romances castelhanos ao divino. Prescott, na Historia da Conquista do Perú, fallando dos troveiros peruanos chamados Haraveques, como os que registavam os annaes d’essa extraordinaria civilisação, diz: «D’esta maneira formou-se um corpo de poesias tradicionaes semelhantes ás balladas inglezas e hespanholas, pelas quaes o nome de um chefe barbaro, que teria desapparecido á falta de historiador, chegou á posteridade por causa de uma melodia rustica.»[52]
Esta relação notada por Prescott entre os Yaravis peruanos e as balladas inglezas e hespanholas é tanto mais importante, quanto pelos estudos ibericos se sabe da correlação entre a Peninsula e as ilhas Cassiterides ou Inglaterra. Do mesmo fóco atlantico que iniciou a civilisacão dos Accads na Chaldêa, partiu o impulso das civilisações rudimentares da America. Continúa Prescott, fundado na auctoridade de Garcilasso no Commentario real: «A palavra haraveque significa inventor, auctor, e no seu titulo e nas suas funcções este poeta menestrel póde-nos lembrar o trouvère normando.» A funcção do menestrel saxonico que cantava á meza dos princepes, dos feitos e batalhas reaes: «era em parte exercida pelos Haraveques, que escolhiam os incidentes os mais brilhantes para assumpto das suas canções e balladas, que se cantavam nas festas reaes á mesa dos Incas.» Dos cantos populares do Perú, escreve o moderno viajante Paul Marcroy: «Estas composições chamadas Yaravis ... foram a principio cantos de victoria, odes, dithyrambos destinados a celebrar o triumpho das armas dos Incas, suas qualidades particulares e seu poderio. Com o andar do tempo tomaram fórmas mais variadas, e cantaram o amor, a natureza e as flores.» E em nota accrescenta, definindo a palavra Yaravi: «Litteralmente, cantos tristes. Os Yaravis são hoje simples romances, cuja musica é sempre escripta em tom menor e com um movimento lento. Cantam-se com acompanhamento de guitarra.»[53] Tanto o Yaravi, como a Aravia açoriana, ou o romance peninsular ainda hoje são acompanhados á quitara arabe, ou á guitarra actual, e entre os Arabes, os Ravi eram os narradores. Dá-se aqui o mesmo influxo de revivescencia tradicional no Occidente ao contacto da civilisação arabe, como se notou nos cantos lyricos por essa influencia da poesia accádica no lyrismo semita. A parte communicativa da raça arabe na invasão da Peninsula eram os mouros, cruzamento do Arabe com o Berber, coadjuvando assim a regressão mais pronunciada ao typo iberico. A origem dos cantos epicos occidentaes tem sido já procurada n’este sub-sólo social de uma raça não árica; Liebrecht encontra paradigmas do romance Donzella que vae á guerra nos cantos chinezes, e Lange acha nos poemas homericos inclusas tradições mongolicas. Strabão referindo-se ás tradições de Troya no occidente da Europa, allude a cantos narrativos na Italia e na Hespanha, que em vez de se diffundirem dos poemas homericos foram unificados n’elles: «Não só na Italia se conservam passagens d’essas historias, senão tambem na Iberia, existem mil vestigios de taes expedições, assim como da guerra de Troya.»[54] As tradições argonauticas que se crearam nas primitivas expedições atlanticas, é que foram depois incorporar-se nos poemas odyssaicos, circumscrevendo-se ás expedições mediterraneas ou jonicas.[55]
No velho romanceiro peninsular ainda se encontram fórmas que revelam o primitivo modo de recitação coral, em que a rima masculina e feminina, grave e aguda, se alternam em um canto amebeo. Na tradição asturiana dá-se a este genero o nome de cantos de estavillar (do typo Ay! un galan d’esta villa.) É ainda vulgar na Finlandia esta fórma de recitação das runas, como observa Léozon le Duc. A rima do canto No figueiral figueiredo é um vestigio precioso d’esta perdida estructura poetica, que tanto nos aproxima da origem das tradições épicas peninsulares.[56]
Do elemento germanico.—Nas invasões germanicas na Peninsula, foram os Visigodos os que preponderaram, submettendo os outros ramos á unidade nacional. Da grande familia germanica foi o Godo o que deixou menos vestigios de tradições poeticas, apesar das immensas riquezas lendares de que se serviram Jornandes, Paulo Diacono e Saxo Grammatico nas suas historias. A causa d’esta obliteração, segundo Jacob Grimm, foi por ter o godo adoptado o arianismo, soffrendo depois os renhidos combates ou repressões do catholicismo; comprova-se isto com o Borguinhão, que tambem era sectario do arianismo, e cujas tradições épicas se perderam. Ao godo da banda guerreira, que veiu a formar a aristocracia feudal, fascinado pela civilisação romana, facil lhe foi despojar-se das suas crenças e tradições; a banda agricola e pastoral, que pela decadencia dos homens livres veiu a constituir a classe dos lite (lendes, lazzi) e dos Vassu, com a fusão com o colonato romano e assimilação do elemento mauresco, formou esse rudimento de povo, que avançou para o estabelecimento da liberdade civil e foi conhecido pelo nome de Mosarabe. Entre esta grande classe que sacudiu a servidão, é que se conservou pela sua situação atrazada aquillo que mais se apodéra da alma humana, os Symbolos, as Superstições, os Costumes, emfim, a tradição poetica até aos seus mais inconscientes vestigios.
Em nenhum povo da Europa, como notou Reyscher, apparece a conservação dos Symbolos como na familia germanica; comprovámol-o no symbolismo juridico do direito consuetudinario das Cartas de Foral exigidas ou concedidas ás povoações mosarabes. Estudada esta efflorescencia dos Symbolos juridicos,[57] por elles fomos levados a comprehender a importancia tradicional dos Romanceiros.
Raro será o romance popular portuguez que não contenha um symbolo germanico francamente expresso, mesmo com a ingenuidade de quem já o não comprehende. Enumeremos alguns dos mais profundos: no romance de Gerinaldo, o rei deixa o punhal collocado entre sua filha e o pagem que dorme com ella, como o signal de que ha entre elles a distancia inaccessivel de classe; depois de perdoar ao pagem e de o casar com sua filha dá-lhe a egualdade pela cerimonia de sental-o comsigo á meza. No romance insulano Flores e Ventos apparece a penalidade germanica do banido completamente desenhada, negando-se-lhe tecto, lar e agua, tal como nos Foraes portuguezes; isto mesmo se encontra no romance castelhano de Lanzarote del Lago, em que os criminosos chegam a transformar-se em cães e veados, especies de Wargus. No romance portuguez de Clarinda ha a pena de fogo para o adulterio da mulher, como no Codigo visigotico. No romance da Infantina ha a condição do servo germanico notada com o nome de malato, como se encontra nos documentos juridicos. O symbolo do cabello atado, como signal de mulher casada, e em cabello (mancipia in capillo, da fórmula foraleira) conserva-se nos anexins: «Moça em cabello não m’a louves companheiro.»
Passemos ás superstições: o culto do carvalho sagrado Ygdrasill, debaixo do qual se celebrava a assembléa juridica dos homens livres germanicos, é a carvalheira á porta da egreja, debaixo da qual julgavam os homens-bons dos Foraes; é esse mesmo roble em que está a donzella encantada, a Infantina dos romances hespanhoes o portuguezes, tendo além d’isso a particularidade do tanque de agua fria, que é a fonte de Urda. Esta mesma tradição encontra-se em muitas terras de Portugal, que tem carvalhos consagrados ao pé de poços de aguas santas. O symbolo não comprehendido torna-se superstição, como o Wargus, o banido que era equiparado ao lobo nocturno, e que ficou para o nosso povo o lobishomem.[58]
Nos costumes populares portuguezes temos a Cavalgada furiosa na fórma da Corrida do porco preto, em Braga; e Wodam, no Homem das ervas, das festas de maio. Ainda que as festas populares de S. João, Maias e Natal, vestigios polytheistas do Combate do Verão e do Inverno, sejam anteriores ás tradições germanicas, comtudo a sua persistencia entre o povo mostra-nos que o rigorismo catholico e a cultura romana pouco actuaram n’este ponto entre os Mosarabes.
A palavra Rima, significando a composição poetica em geral, é empregada n’este sentido pelo Chanceller Ayala, que em versos de lingua vulgar diz: «mi tiempo passar, En fazer rimos...» Tambem no seculo XV chamava D. Duarte Rymanço á fórma que melhor se decorava por causa da rima. Parece que o termo de romance, referindo-se á linguagem vulgar se identificou com o rimance, que segundo a origem germanica designava a tradição poetica. Nas fórmas poeticas conservou-se tambem a aliteração, que com a rima constituem a poetica dos povos do norte. Nos anexins populares é frequente a aliteração, como: Gota a gota, o mar se esgota.—Vento e ventura, pouco dura, etc.
Dos themas poeticos germanicos parece-nos pertencer ao typo scandinavo de Sigurd, o romance: Eu bem quizera senhora, etc. A vida historica da raça germanica começou no seculo V; n’este periodo ella cria uma fórma poetica, breve, narrativa, cantando os feitos bellicos e a independencia individual, adaptando-se aos successos novos, correndo de bocca em bocca, sempre anonyma, com interesse immediato, dando vida a todos os dialectos e animando as tribus á invasão. Tacito falla d’esta ordem de poemas, a que os medievistas, fundados em um texto de Oderico Vital deram o nome de Cantilenas. D’este typo rudimentar, que pela aggregação cyclica formou as Epopêas feudaes ou Gestas, além de outros especimens, existe desde 1812 em que se descobriu, a magnifica cantilena de Hildebrand e Hadebrand. Não temos hoje as cantilenas goticas da Peninsula, posto que sua efflorescencia poetica appareça em symbolos e superstições populares. Á designação de Chacone, tanto em Portugal e Hespanha, como em Italia e França, por onde se estendeu a occupação germanica, corresponde esse costume primitivo da raça, em que os cegos, principalmente entre os Lombardos, eram os que diziam as Cantilenas heroicas, como Ludgero e Bernlef o frisio; chamaram-se por isso Chiecone. Nas raças germanicas entraram populações scythicas, como colonos e servos, e era costume entre os scythas cegar os escravos (Herodot., IV, 2); cegar era synonimo de escravisar, e filho de cego significava propriamente escravo. Eram esses os cantores narrativos, dos quaes escreve Ozanam: «No seculo XVIII via-se ainda nas aldeias pagãs da Frise, cegos e mendigos ganharem o seu pão recitando nos ajuntamentos de aldeãos—as aventuras do tempo antigo, e os combates dos velhos reis.»[59] Isto explica a persistencia do genero da Chiecone, pelo sentido do poeta identificado no de cego, como em Cieco d’Ascoli, Cieco de Ferrara. Homens cultos e aristocraticos, como o Marquez de Santillana, no seculo XV, tinham por infimos e despreziveis os que tratavam romances vulgares. O nome de Chacoula é ainda designativo de canto popular no Alemtejo.
As Cantilenas germanicas, antes do seculo IX, decaíam por falta de importancia historica; estava terminado o periodo das invasões. O que se dava no ramo mais vigoroso da familia germanica, com mais intensidade deveria dar-se entre os Godos, por causa da reacção do catholicismo fortalecido com a cultura romana. As Cantilenas germanicas, logo que appareceu o vulto de Carlos Magno receberam um novo interesse, uma actualidade devida á transformação social, ou fixidez em que entravam os estados da Europa; emquanto esta acção não chegou a Portugal, a Cantilena gotica não se perdeu completamente. Nem do outro modo se explica a existencia dos cantares historicos de que se serviu Affonso o Sabio na sua Chronica. Alguns d’esses typos se recompõem nos versos da Cronica rimada do Cid; no Cancioneiro da Vaticana acha-se um romance: Desfiar enviarom, assignado por João Ayras, que nos aproxima do typo da Cantilena. O romance de Don Favila, colligido da tradição popular na Republica Argentina, é uma prova d’esta elaboração poetica anterior aos cantares da Gesta.[60] O romance do Figueiral figueiredo, que Miguel Leitão ouvira a uma velha de muita edade no ultimo quartel do seculo XVI, pelo seu conteúdo, é um vestigio da Cantilena, que se ia apagando, da mesma fórma que os romances se modernisaram no seculo XVI.
Depois que a poesia dos jograes e trouvères se espalhou pelo Occidente, o que por colonias francezas, casamentos de princepes e romarias provocadas pelas santificações locaes, se tornaram as communicações affectivas mais directas entre os diversos povos, as Cantilenas, que haviam recebido pelo genio gallo-franko uma transformação profunda, formando as grandes Canções de Gesta, vieram já em uma época historica fecundar as Aravias, que conservaram sempre a fórma breve e anonyma, que se continua no Romance popular. Na antiga poesia hespanhola falla-se na Maestria de França; em Portugal achamos empregado o titulo de Gesta em uma composição satyrica em verso alexandrino por D. Affonso Lopes de Baião, imitando a neuma tradicional dos recitadores. A palavra Francias designou os contos facetos dos Fabliaux, em parte derivados de cantos poeticos, como vêmos ainda na poesia popular da Madeira, no romance do Boi Rabil, que é um conto na Gesta Romanorum.
Transformação erudita do Romance popular.—Cansados de esgotar os innumeros artificios do lyrismo trobadoresco, que em Portugal se manteve por todo o seculo XV, os cavalleiros, condemnados pela organisação social em que a Realeza caminhava para o predominio da dictadura monarchica, a viverem a vida parasita de cortezãos e a divertirem os serões do paço, lançaram-se á imitação dos cantos populares; as fórmas lyricas subsistem nos Cantares d’Amigo, nos cancioneiros aristocraticos, mas as fórmas narrativas não se conservaram com o mesmo esmero. Affonso Sabio só admittia que esses cantos fossem de feitos de armas; e mais tarde o Marquez de Santillana condemnava-os ao desprezo pela inferioridade da sua origem. Mas no seculo XV os Romances conseguiram vencer esse desdem dos latinistas e aristocratas. O que havia de profundamente humano e pittoresco n’esses cantos tradicionaes, em que o mosarabe alludia ainda aos seus Symbolos já sem os comprehender por extranhos á legislação codificada, não deixou de impressionar os Poetas palacianos. D. João Manoel adoptára esses cantares-romances, e impuzera-se a moda; a rainha D. Joanna, filha do rei Dom Duarte, casada com Henrique IV de Castella, pedia aos cavalleiros da sua côrte que lhe glosassem Romances, como o que começa: Nunca fue pena mayor, tambem glosado em Portugal por Pedro Homem, estribeiro-mór, e referido em Gil Vicente. Garcia de Resende tambem glosou o romance Tiempo bueno, Sá de Miranda e Gil Vicente, o romance da Bella mal maridada. Colligindo-se todas as referencias a romances velhos nos escriptores quinhentistas, vê-se a sua vivissima vulgarisação oral, antes da primeira collecção formada e impressa em Sevilha em 1551.
Quando no seculo XV a erudição latina tomou um ascendente no gosto, fazendo decahir os elementos medievaes das litteraturas, os dialectos populares chamados romance continuaram a empregar-se na poesia popular, vindo este nome a designar esta fórma épica tradicional. Bernardim Ribeiro usa-o com este duplo sentido: «não soube inteiramente mais que por um cantar-romance, que d’aquelle tempo ficou.» E em um verso do Cancioneiro geral: «mais ande cantar romance.» (t. III, 358.) O povo ficou empregando a palavra Estoria no mesmo sentido de narrativa poetica, como a usava Fernão Lopes no sentido de tradição, e que Bernardim Ribeiro emprega: «ouvi-a já então contar a meu pae por estoria.» Quando a erudição, para variar as fórmas poeticas, teve de contrafazer a poesia popular narrativa no seculo XV, perdeu a noção da sua origem, e mais ainda a sua comprehensão. A fecundidade do povo, que se fixa entre o seculo XII e XIV, acabou em resultado da extincção das liberdades locaes ou foraleiras pela dictadura monarchica, e com a liberdade de consciencia pela intolerancia catholica a pretexto de combater a Reforma. Ambos estes poderes fizeram reviver e prevalecer a cultura latina nas letras o na politica.
A reacção clerical contra a Reforma, matava a alegria entre o povo; os romances sacros ou ao divino foram considerados peccados de bocca, como anteriormente o dissera o rei D. Duarte, e os Indices Expurgatorios de 1564, 1581, 1597 e 1624 condemnaram com excommunhões todos os romances populares em geral. Gil Vicente consigna essa depressão de tristeza produzida pelo estabelecimento da Inquisição em Portugal, quando no Auto do Triumpho do Inverno, diz ser: «Jeremias o nosso tamborileiro.» Os romances populares foram parodiados ridiculamente, e a sua fórma applicada ás narrativas historicas, recebeu fórma litteraria em Lorenzo de Sepulveda, Lasso de La Vega, Timoneda, Juan de la Cueva, em Hespanha, e em Portugal por Gil Vicente, Jorge Ferreira e Balthazar Dias, que traduziu na Imperatriz Porcina as lendas de Crescencia, tiradas do Speculum historiale de Beauvais.
No fim do seculo XVI os romances populares reflectiram o estado da sociedade civil: estava acabada a cavalleria, e como as Gestas feudaes tinham caído na faulse Geste, ou idealisação dos traidores, assim os Romances celebraram os facinoras e contrabandistas, os Valentones, os Guapos e os Xaques. Appareceu o genero meio popular meio litterario das Xácaras ou Xacarandinas, metrificadas por Quevedo e entre nós egualmente seguido por Dom Francisco Manoel de Mello, que falla d’este genero: «um rascão musico, que a poder de rácaras e seguidilhas a trazia martelada (a uma escrava da casa).» Imitaram-se tambem os romances mouriscos e granadinos em um monotono prurido litterario, dissolvendo-se por fim no gosto allegorico e subjectivo. D’aqui em diante a poesia épica do povo perde-se totalmente: a dominação castelhana, obscurantismo religioso, restauração bragantina, tudo conspirou para fazer esquecer-se a tradição nacional, a ponto de chegarmos a ser conhecidos na Europa como o povo mais escravisado e embrutecido, como o referiu o P.e Theodoro de Almeida na Oração inaugural da Academia das Sciencias em 1779. Só muito tarde, na renovação das Litteraturas pelo Romantismo é que se tornou a achar este veio riquissimo da Tradição.
c) DAS FÓRMAS DRAMATICAS
Como manifestação da vida social o theatro attingiu nas civilisações antigas e nas raças vigorosas o caracter de uma instituição. O Drama, a fórma de arte em que o homem apresenta a consciencia da sua personalidade, comprehendeu primitivamente elementos do Lyrismo e da Epopêa; as mais vetustas composições dramaticas começam pelo Côro, puramente lyrico, d’onde se destaca um personagem que narra incidentalmente; mas a necessidade de figurar e desenvolver as tradições épicas, de as tornar vivas diante da multidão, reduziu o Côro á rubrica explicativa, á decoração material, vindo o dialogo dos personagens (de persona, a mascara com que o som da voz era reforçado) a constituir a tragedia. Deu-se isto na Grecia de um modo natural e logico, por que ali o theatro tomou o caracter de uma instituição nacional. O theatro indiano derivou-se tambem da Epopêa. E assim como nas civilisações rudimentares o theatro é uma continuação dos actos liturgicos, como o Mitote, no Mexico, os Ludi, nas festas christãs, os Mysterios francezes, as Reprezentazioni italianas, na Edade media, em nossos dias repete-se este processo generativo, em que dos côros lyricos e elegiacos sobre as desgraças da familia de Oly, entre os Persas modernos, se formam os grandes dramas chamados taziéhs, a que a multidão assiste com fervor commentando pela acção scenica as doutrinas do Babysmo.
Recebe o theatro a importancia de instituição quando se torna para um povo a sua satisfação moral, uma fórma de protesto, uma manifestação da—opinião publica. É por isso que o theatro attinge a sua maior vitalidade nas épocas burguezas. Os dogmas religiosos e civicos foram pela primeira vez discutidos n’esse tribunal, como se vê pelas tragedias de Eschylo e pelas comedias de Aristophanes; assim foi tambem comprehendido na fórma hieratica da Edade media, em que o Velho e o Novo Testamento eram postos em acção debaixo das abobadas da Cathedral popular; em que os actos respeitaveis da Bazilica eram parodiados pela Bazoche, nas farças mordentes em que os papas e os reis figuravam no conflicto dos dois poderes. O renascimento das fórmas classicas greco-romanas veiu desviar esta creação das Litteraturas romanicas dos seus germens organicos ou tradicionaes. Esses germens tinham vigor bastante para efflorescerem, se não tivessem apparecido outros meios mais faceis para manifestar-se a Opinião publica, taes como a Imprensa.
Assim como as fórmas do Lyrismo e da Epopêa apresentam nos povos meridionaes a persistencia de typos tradicionaes que se ligam a uma communhão ethnica de raça, tambem existiu uma forma de Drama, com egual origem, e que ainda persiste nos costumes populares na Italia, Hespanha e Portugal. Os criticos não comprehenderam ainda o seu valor; mas esse typo dramatico hade merecer o interesse dos eruditos como a Pastorella e o Romance. Já vimos que a antiga raça italica tinha a comedia mimica e improvisada das Atellanas oscas, com os seus personagens typicos e invariaveis o Macus, o Pappus, o Casnar, o Sannio, o Manducus. Esta fórma pertencia evidentemente a essa raça que constituiu o fundo popular das nações occidentaes: na Italia resistiu sempre aos dramas classicos ou litterarios, em todas as épocas, com o nome de Commedia dell’Arte, e de Commedia a soggeto. O assumpto era previamente definido, o canevaccio, os dialogos é que eram improvisados em scena pelos typos immutaveis de Arlechino, Brighella, Zanni, Pantalone, Truffaldino e Dottore. Emquanto a comedia litteraria ou sostenuta se mostrava sem interesse, o povo preferia a comedia improvisada, na qual os varios dialectos da Italia se unificavam, por isso que eram empregados pelos diversos typos comicos segundo os caracteres que representavam. A linguagem dialectal fornecia as vivas graças e chascos que ha sempre de terra para terra; e as mascaras tinham a expressão dos traços provinciaes. Quando fallava o typo amoroso, empregava a lingua culta da Toscana; se era o pae tyranno, era o dialecto de Bolonha; se conversavam a criada ladina ou serigaita com o criado dialogavam em bergamasco. Em Gil Vicente tambem se encontra esta necessidade de mudarem de linguagem os seus typos, chegando a dizer que—o castelhano é bom para fingir, e empregando por vezes o cigano e o creoulo.
A vitalidade da commedia dell’Arte resistiu ás reformas do gosto dramatico tentadas por Goldoni no seculo XVIII, e chegou a influir no desenvolvimento do theatro francez; os antigos typos apresentam novos nomes, como Scaramouche, Scapin, Tartaglia, e chamava-se commedia a braccio, pela gesticulação exagerada. Quando Goldoni tentou a comedia do género menandrino, os actores não se queriam sujeitar ao estudo de papeis definidos, e o publico preferiu a improvisação dos representantes, que ás vezes pelos seus repentes felizes adquiriam uma grande celebridade, a ponto de Biancolelli receber de Luiz XIV o tratamento de amigo, e Cecchini cartas de nobreza pelo imperador Mathias.[61]
Este mesmo genero improvisado encontra-se em Andalusia, com o nome de Juegos de cortijo, usados ao terminar os trabalhos das colheitas, e especialmente nas bodas. Lafuente y Alcantara, no prologo do seu Cancioneiro popular descreve esta forma da Encortijada, e dá alguns themas comicos, eguaes ás Atellanas oscas e ás commedias dell’Arte: «Começa este jogo por uma especie de introducção ou scena preliminar, reduzida a um breve dialogo que hade terminar com algum chiste, já mettendo a ridiculo qualquer dos presentes com allusões grotescas, ou simplesmente algum conceito mais ou menos opportuno, ou alguma sandice inesperada. Chama-se a isto entrada de juego, e geralmente não tem connexão alguma com a scena que se representa depois. Nesta ultima só é premeditado e convencionado o assumpto principal e o desenlace; o dialogo e demais incidentes são improvisados pelos actores.»[62] Lafuente y Alcantara apresenta alguns dos themas usuaes, quasi sempre descambando nas facecias desenvoltas, como o Juego del galan, e o del Jalapago, e del Licenciado.
Comprehende-se que os latinistas ecclesiasticos condemnassem a forma dramatica conservada tradicionalmente nas classes populares; nas obras de Isidoro de Sevilha, lê-se: «O theatro é um verdadeiro prostibulo, porque terminados os Jogos, ali se prostram as meretrizes...» (Etym., l. 18 e 39.) Continúa o erudito bispo hispalense: «Entram os histriões nos espectaculos com a face coberta, pintam o rosto de azul e de roxo sem se esquecerem dos demais arrebiques; e levando ás vezes por simulacro um lenço sujo e manchado de varias côres, untam com elle todo o pescoço e mãos de grêda para egualar a côr da careta e enganar a multidão emquanto se representam as farças; umas vezes apparecem em figura de homem, outras de mulher; ora tosquiados, ora com grande cabelleira; umas vezes de velha, outras do virgem, e em todos os aspectos, com diversa edade e sexo, a fim de enganarem o povo emquanto representam.» Recommendando como se devem cantar os psalmos, o bispo prohibe que a voz tenha effeitos theatraes. D’este texto se deprehende a existencia do theatro popular na baixa Edade media, e que apezar de todas as condemnações da Egreja persistiu nas fórmas elementares dos Jogos dialogados, e Dansas figuradas.
Do theatro primitivo da peninsula iberica falla Marcial: antiqua patria theatra (Epigr., IV, 55) referindo-se a um scenario natural em um valle, a que concorria a gente de Rigas, ou como diz um glosador lendo Ripas: «quod prisci juxta ripas ederent spectacula...» A estes theatros naturaes alludo Juvenal (Sat. III, p. 172) em relação á Italia, herbosa theatra. A Dansa guerreira dos Gallegos acompanhada de canto, descripta por Silio Italico (Pun., III, 353), ainda nos apparece na Dansa dos Espingardeiros, e as Dansas coreadas religiosas dos Celtiberos, persistiram até ao seculo XVIII nas procissões portuguezas. Da mesma fórma diz D. Juaquin Costa, a quem seguimos aqui: «Los Dances[63], con sus representaciones scenicas, ora historicas, ora religiosas, ora pastoriles, como, por ejemplo, el Baile de la inconstancia, de Benabarre, la Marisca, de Ainsa, la Pastorada, de la Fueba, etc, que son una verdadera juris continuatio del teatro indigena, conservado mas tenazmente que en ninguna otra region, en los escondidos valles del Pireneo, tanto en la vertiente española (Aragon) como en la franceza.»
A fórma improvisada do theatro acha-se tambem na tradição portugueza conservada no Brazil, e usada nas festas chamadas Reinados e Cheganças. Celso de Magalhães viu representar na Bahia o Auto dos Marujos, e descreve-o assim: «Um grupo vestido á maruja conduzia um pequeno navio armado de ponto em branco, com velas de seda e cordame de linha, montado sobre quatro rodas, embandeirado em arco e puchado por rodas. Cantavam versos da Náo Catherineta, Fado do marujo e lupas (cantigas de levantar ferro). Outro grupo apparecia mascarado. Na frente um individuo montava um cavallo de pasta vistosamente ajaezado do galões falsos e fazia-o dansar ao som da musica e do canto aspero e acompanhado de pandeiros e pratos.» E Roméro acrescenta: «Depois fingem uma lucta, vão coser o panno, no fim do que ha o episodio do Gageiro, cantando-se os versos da Náo Catherineta...»[64] São muito curiosos os especimens d’este genero, como Os Marujos, os Mouros, o Cavallo Marinho,[65] conservados na antiga colonisação brazileira. Nas aldeias ainda hoje se conservam dansas dialogadas hieraticas, elemento consuetudinario a que Gil Vicente deu a fórma litteraria.
O primeiro vestigio theatral que nos apparece é a representação mimica, de que a Sicilia era o fóco que mais sortia Roma; é o Arremedilho do jogral Bon-Amis, coadjuvado por outro a que se chamava Acompaniado. É provavel que Bon-Amis seja já nome comico, como o de bonifrate. Foram depois regulamentados os costumes do Tamo, ou das festas do casamento (Epithalamio) a que pertenciam os Jueyos de cortijo na Andalusia. O uso popular dos Clamores e Endexas dos mortos era tambem dramatico, havendo banquetes sobre as sepulturas. A parte representada acha-se nas cantigas com Voz e Côro acompanhadas de dansa, sobre a sepultura do Condestavel, pela paschoa florida; os banquetes ainda ha muito pouco tempo deixaram de usar-se nos cemiterios de Lisboa. Estes ritos eram tambem usados pelos Belgas sob o nome de Dadsila ou festim sobre a sepultura das pessoas cuja memoria era cara; o touro, o bode eram as victimas regularmente immoladas; na primitiva egreja conservou-se este costume, como se vê pela recommendação de Santo Agostinho acerca d’esses banquetes: «Non sint sumptuosae.»
Muitos dos elementos dramaticos dos costumes populares foram incorporados na grande festa de Corpus Christi; D. João II, para celebrar a victoria da batalha do Toro, mandou organisar a Procissão em que figuravam os officios com os jogos que lhes eram peculiares e emblematicos. No Regimento da procissão, dado por D. João III, encontram-se esses rudimentos tradicionaes: «Dois Diabos, e a representação da Dama e Galante; dois Diabos e um Princepe; o Gigante e o Anjo.» Da figuração do Sam Jorge matando o Dragão para salvar a Donzella que ia ser devorada, vemos a persistencia no alto Minho com o nome de Santa Coca como parte obrigada da procissão. Nos costumes actuaes, na procissão do Carmo em Vianna, figurava o Rei da Mourama, e entre lôas á Virgem jogavam-se as mais desbragadas chufas á mourisma; a Dansa dos Pretos em Arcozello da Serra, na festa da Senhora da Assumpção, em que crianças de nove a dez annos em trajo de negrinhos fingem de escravos, e queixam-se á Senhora com ditos pela maior parte indecentissimos para os libertar. A Dansa das Donzellas consta de um côro de meninas, que pedem para ser baptisadas ao Anjo que as acompanha, e elle exhorta-as em um monologo final, dando-lhes o baptismo. A Dansa dos Espingardeiros,[66] é um thema inspirado pela resistencia nacional contra a absorpção castelhana; consta de oito ou dez rapazes, marchando ao som de tambores, divididos em dois bandos, simulando o exercito castelhano e o portuguez; postam-se diante uns dos outros, vão parlamentarios lançar os ditos, trava-se o combate, e vence o general portuguez, que concede a vida ao inimigo depois de lhe ajoelhar aos pés. Além d’estes themas ha outros ligados aos trabalhos do campo ou da industria, como o Enterro das Séstas, as Malhadas do centeio e as Azeitoneiras; e os divertimentos domesticos, taes como o Jogo da Condessa, o da Almolina, o de Villão do cabo, em que ha dialogos e movimento scenico.
O typo nacional do gracioso da comedia popular era designado o Ratinho, que Miguel Leitão diz ser tomado do caracter broma dos moradores da aldeia de Rates. Gil Vicente que teve perfeito conhecimento de todos estes elementos tradicionaes, allude ao typo comico nacional:
Muitos ratinhos vão lá
De cá da serra a ganhar;
E lá os vemos cantar,
E bailar bem como cá. (II, 443.)
E no mais triste ratinho
S’enxergava uma alegria
Que agora não tem caminho. (II, 417.)
Ratinho és de má casta (II, 211.)
E deixas lavrar ratinhos (ib., 220.)
Que eu era ratinho, senhor. (ib., 237.)
Todos os que seguiram as fórmas estabelecidas por Gil Vicente aproveitaram-se d’este typo do Ratinho, como António Prestes e o Chiado. Muitos d’estes costumes populares foram condemnados nas Constituições dos Bispados, principalmente os Autos, Colloquios e Lapinhas, nas trez grandes festas a que o povo deu relevo com as figurações dramaticas—o Natal, os Reis e a Paixão. Era a grande trilogia, em que o povo continuava a sua creação poetica depois de terminado o cyclo de formação dos Evangelhos apocryphos. O trabalho de Gil Vicente, como se deprehende da tragicomedia do Triumpho de Inverno, foi rehabilitar pela litteratura as tradições populares, condemnadas pela Egreja, e este esforço do genio foi para a época da Renascença como o de Garrett, na restauração do theatro portuguez, na época do Romantismo.
Profundos accidentes historicos separaram da unidade politica portugueza paizes que pela lingua e tradição pertencem ainda a um mesmo todo moral. Pelo estudo d’estes documentos ethnicos se reconstitue a indole de um povo; por isso dizia Gregorovius: «As leis, as instituições, separam, mas a lingua, na qual o povo falla e canta, é um elemento de aproximação; ahi se encontra o que os latinos chamavam indoles.»
A tradição nacional e popular, verdadeiro germen de toda a efflorescencia artistica, e que era a base de todas as creações originaes das litteraturas da Edade media, achou-se depois do seculo XII abandonada ou combatida pelo prestigio da Antiguidade preferida pelos eruditos latino-ecclesiasticos. Formada n’este começo da grande crise da dissolução catholico-feudal, a nacionalidade portugueza foi desviada das sympathias da Tradição; a separação dos interesses e gosto da classe popular, ou a praça, e da aristocracia e alto clero, ou a côrte, torna-se um caracter commum ás recentes nacionalidades europêas, e exprime-se claramente esse antagonismo nas Litteraturas novo latinas.
Em Portugal encontramos este antagonismo reflectindo-se na Religião pelo abandono do culto mosarabe ou Egreja nacional substituido pelo catholicismo romano; no Direito, pela absorpção das instituições locaes ou autonomia foraleira na codificação real das Ordenações: na Arte, como a architectura especialmente, e a poesia, pela imitação dos modelos classicos.
As fórmas cultuaes e crenças religiosas no meio de uma população que tendia a unificar-se politicamente era um esboço de integração affectiva. Tal foi o christianismo durante a occupação arabe. O godo lite ou aldius, meio lembrado do seu velho culto odinico, abraçára o Christianismo pelo que elle tinha de sentimental; não comprehendia as abstracções dos mysterios dogmaticos, e seguiu por instincto natural a doutrina de Ario: acreditava na humanidade de Jesus, e repugnava-lhe a consubstanciação e a sempiternidade do Verbo. É n’este ponto que se dá a dissidencia entre a classe popular e a sociedade aristocratica convertida ao catholicismo romano sob Rekáredo. As crenças, usos e tradições populares são combatidas pelo clero como superstições, e começa a preponderancia do clero na sociedade politica, predominando os Bispos nas Côrtes, nos conflictos dynasticos e em todas as fórmas de intolerancia.
Para o godo ao contacto com o arabe dominador, era a religião de seus paes o sentimento mais energico e vital; adoptára a cultura, os costumes, em parte a linguagem do vencedor, pelos cruzamentos ajuntára ao instincto de independencia das raças do norte a paixão meridional, mas permanecera sempre hispano-godo no seu afferro ao christianismo. O culto dos mosarabes deve considerar-se como uma fórma pura do Christianismo independente da Egreja de Roma, viciada pelo intuito da auctoridade temporal a que ambicionava. Como a Egreja da Bretanha e da França, que se attribuiam uma origem proto-cathedrica, a Egreja hispanica ou mosarabe considerava-se fundada expressamente por um Apostolo; procurava derivar a sua origem da missão immediata do apostolo Sam Thiago; não tinha por tanto de reconhecer a supremacia papal. No culto mosarabe o christianismo achava-se desligado das affectadas fórmas liturgicas; não existia n’elle a confissão auricular, com que o catholicismo romano adquiriu o imperio nas consciencias; na sagração não se partia a hostia; o povo tomava parte nos officios ecclesiasticos com as suas Prosas e Sequencias, fecundando com a emoção religiosa a sua sensibilidade poetica e animando a abstracção; a linguagem vulgar era a que se empregava nas cerimonias liturgicas, com exclusão completa do latim, costume que determinou ainda nos seculos XII e XIII as traducções vernaculas do Velho e Novo Testamento e de alguns hymnos da Egreja. O catholicismo romano reconheceu os perigos que para a sua disciplina tinha a simplicidade do culto mosarabe, e combateu-o de frente, apoiando-se no poder real para o extinguir completamente na peninsula. O christianismo-mosarabe tinha a riqueza do sentimento poetico de uma forte raça; Roma banindo-o com as censuras dos seus legados, impunha-lhe uma religião cuja força não residia na santidade da crença, mas na auctoridade do padre. Quando Affonso o Sabio escrevia a Historia geral de Hespanha, existiam apenas seis egrejas em Toledo do culto mosarabe; a lucta continuou-se lenta e insensivel a ponto de, no tempo do Cardeal Ximenez, restar sómente uma capella em que se celebrava pelo missal mosarabico; era uma opulencia cardinalesca conservada não como crença, mas com o intuito archeologico de uma tradição da Egreja primitiva. É tambem como lembrança historica, que na sua Cronica falla o rei Affonso o Sabio: «Depoys que a cidade de Toledo foy metida em poder dos mouros per preytesia ... todos aquelles que hy quyzesem vyver so o senhoryo dos mouros era contheudo no trauto que tevessen sua ley, e vivessem segundo o que ela mandasse e ouvessem clerigos de myssa e bispos e outras ordeens. Estes christaãos teveram das entom ataagora ho officio de Santo Ysidro e de San Leamdre. E oie em dia o mantem seys Igrejas em Toledo, e chamansse os crerygos d’estas Igrejas moçarves. E vyverom os christãos de ssuum com os mouros e so seu poder teendo sua ley e guardandoa ataa o tempo dos Almoades que começaram em tempo do emperador dom Afonso no tempo que era dom biuam arcebispo de Toledo.»[67]
D’este missal e breviario composto por ordem do Concilio toledano em 633 para uso geral da egreja de Hespanha, falla o bispo D. Rodrigo da Cunha, referindo-se á hostilidade com que era combatido o mosarabismo: «D’este Missal e Breviario usaram muitos annos as egrejas de Hespanha, por confirmação da sé apostolica, que por varias vezes os approvou, pretendendo seus legados o contrario, como se póde vêr em Ambrosio de Morales.» (Lib. 12, c. 19.)[68]
Desde que o catholicismo imperou absolutamente na peninsula, o povo não tornou a crêr, mas a temer, submisso pelos Autos de fé ante o terror dos inquizidores; o christianismo que fôra sob o dominio dos arabes um consolo, tornára-se no tempo dos reis catholicos um pezadello.
Quando a fé era sentida, a sua exaltação e fervor inspirava as obras de arte; por isso, escrevia Herculano ácerca da população mosarabe: «cuja especial influencia na organisação da monarchia portugueza não tem sido apreciada.»[69] Sob a emoção ingenua do christianismo, ella cria as fórmas da architectura das bellas cathedraes, e a fixação do seu direito no estatuto territorial. Se a população mosarabe tem sido desconhecida na organisação politica da nacionalidade, mesmo para o historiador que descreveu essa influencia, mais desconhecido foi o seu genio artistico manifestado na Arte. Os grandes terrores do fim do mundo despertaram o fervor da fundação de templos por toda a Europa no seculo X; foi quando a immobilidade pezada do acanhado estylo byzantino, de origem erudita, se quebrou para sempre para dar logar a esplendidas creações ogivaes. Os christãos que viviam por toda a peninsula em contacto com os sarracenos, obedeceram a esse impulso, e deram começo ás grandes cathedraes pela tolerancia illustrada dos invasores. Quer do norte da França (Ars francigena) como hoje se reconhece, ou da Allemanha, o gotico ogival só entrou na peninsula quando ia na sua phase secundaria; os Mosarabes ao construirem os seus templos reformaram a sombria architectura byzantina, tiraram-lhe o aspecto de refugio e deram-lhe a largueza da futura assembleia politica. Fundada ao lado da mesquita arabe, a egreja imitava naturalmente a elegancia da architectura oriental, n’esta efflorescencia do ornato, apparentemente caprichoso, mas dominado por uma lei geometrica constante. Os escriptores coévos da invasão, ao fallarem da reedificação dos templos accusam essa elegancia arabe; tal é o documento apresentado por Herculano: «quicquid novo cultu in antiquis basilicis splendebat, fuerat que, temporibus arabum, rudi formationi adjectum.»[70] Nas antigas basilicas resplandeciam os ornatos accrescentados no tempo dos arabes á rude fabrica; assim interpreta Herculano esse texto, pela rudeza da architectura visigotica comparada com o esplendor da architectura arabe. Mais tarde, quando pela reacção neo-gotica os arabes foram submettidos, os cativos eram obrigados a trabalhar nas construcções dos mosteiros, obliterando-se os ultimos restos do byzantinismo. Sousa Loureiro, director da Academia de Bellas Artes em 1843, dizia dos primeiros monumentos architectonicos de Portugal, como Santa Cruz de Coimbra, Sam Vicente de Fóra e Alcobaça: «N’estes edificios não ha o estylo gotico d’aquelle tempo; nem o estylo arabe da Hespanha no seculo XI se reconhece ali; tem um typo, um caracter luzitano, porque a Luzitania existiu sempre como uma região, como uma nação, como um povo particular e separado da união geral, mesmo no tempo que a Hespanha foi successivamente invadida por potencias estrangeiras...»[71] E considerando anteriores á monarchia, a fundação da capella de Nossa Senhora da Oliveira, de Guimarães, e de Santa Maria de Almacave, de Lamego, classifica-as juntamente com as egrejas de Santa Maria de Tarquere e Santa Cruz de Coimbra como luzitanas, cuja architectura é ainda bastante simples.
Se alguma feição luzitana apparece na cathedral antiga é simplesmente a reunião do gotico-byzantino com o estylo arabe, por effeito dos mouros cativos e alvenéres que trabalhavam então nas construcções; e a fusão da raça goda e sarracena produzindo essa nova população mosarabe, com o seu direito proprio nos Foraes e Concelhos, com o seu culto religioso proto-cathédrico, com uma poesia lyrica e narrativa fecunda, que se authentica nos Cancioneiros e Romanceiros, tambem formou uma architectura nova, pondo em accordo na egreja christã o byzantino-gotico com a arte arabe. Escrevia o Conde do Raczynscky com a sua alta competencia: «Os Portuguezes, no meu entender, deixaram provas do seu gosto constante pelas obras de architectura. A perfeição dos seus monumentos, sob o ponto de vista da execução, bem prova que esta arte era verdadeiramente nacional.» E accrescenta: «Uma circumstancia que prova mais fortemente ainda, que a architectura, mesmo nas épocas mais remotas, devia até um certo ponto ser filha do paiz, é a perfeição com que a pedra foi sempre trabalhada e esculpturada aqui, e o gosto, a nitidez com que todos os ornamentos foram e são ainda hoje executados.»[72]
Sustentando a prioridade da civilisação hispanica em frente do dominio arabe, escreve Simonet em relação á architectura dos Arabes em Hespanha: «que a maior parte das construcções que se levaram a cabo sob o seu dominio, tanto em Hespanha, como na Africa e no Oriente, foram obra de artifices christãos e indigenas, ora Mosarabes, ora Mulladies, ora captivos.»[73] Em uma nota fundamenta o asserto com o facto citado pelo historiador arabe Annowairi, que Abderahman III, ao tratar as pazes com os christãos do norte da peninsula exigiu doze mil operarios para lhe construirem o alcazar de Medina Azzahrá. Este mesmo trabalho dos operarios christãos se nota nas construcções arabes do Egypto, como observou Stanley Lane Pool.[74] O historiador tunesino Ibn Jaldon, considera que a perfeição das artes na Hespanha sarracenica era devida a uma tradição da edade visigotica; Simonet recuando-a até á edade romana, accrescenta: «Semelhante tradição deveram transmittil-a os indigenas; assim os Mosarabes, que conservaram a sua fé christã e com ella os mais elementos da sua civilisação, como os Mulladies, isto é, os hespanhoes renegados, que ao arabisarem-se e fazer-se mussulmanos mantiveram da sua antiga cultura hispano-romana tudo aquillo que era compativel com o islamismo, e ainda uma não pequena parte do espirito christão e nacional.»[75]
Este elemento indigena ou hispanico vem citado nos poemas e leis antigas com o nome de Mosarabe; nos cantos populares ha uma referencia importante aos Mulladies, sob o nome de Malados:
Eu sou filha de um malado
Da maior malatararia.
Homem que me a mim tocar
Malato se tornaria.
O desprezo que se ligava a este nome não era por nenhuma doença asquerosa, mas pela degradação de terem renegado a religião christã. E esta classe era tanto ou mais importante do que a dos Mosarabes; era maior o seu numero, mais intelligente e activa essa população, possuindo em si mais familias nobres, e pela sua preponderancia tomavam parte entre todas as discordias dos Arabes desde a segunda metade do seculo IX, como o observam Dozy e Simonet.[76] Muitos Mosarabes se tornaram Mulladies, especialmente em Granada, para se eximirem aos fortes tributos, e principalmente a gente dos campos: «la poblacion agricola, que aqui abundaba mucho, merced á la feracidad del suelo, aprovachándo-se de las franquezas y beneficios que la ley mahometana concede á los islamizados habia logrado por este medio conseguir su libertad y librarse del odioso impuesto de la capitacion.»[77] A maior parte da população de Granada no principio do seculo XIV, como o affirmam Zurita e Marianna, eram Mulladies. É pois este fundo de população hispanica, que se conservou inalteravel entre os dominadores Arabes, e a que se deu o nome de Mosarabes e Mulladies, que persiste nas suas tradições tanto poeticas como artisticas. Arte mosarabe, como chama Garret á Architectura, Epopêas mosarabes, como chamámos aos Romanceiros, são designações verdadeiras emquanto d’este elemento persistente sob a dominação arabe se transita para o reconhecimento da população iberica.
O nome que deve ter esta architectura, filha do genio do povo portuguez, não seremos nós que o imporemos; tomamos a designação que lhe deu um poeta que teve mais do que ninguem a intuição das cousas bellas, e que suppria a falta de sciencia por um tino raro e gosto aprimoradissimo; escrevia Garret: «E aqui a proposito, por que se não hade adoptar na nossa Peninsula esta designação de mosarabe para caracterisar e classificar o genero architectonico especial nosso, em que o severo pensamento christão da architectura da Meia Edade se sente relaxar pelo contacto e exemplo dos habitos sensuaes moirescos e de uma luxuosa elegancia.»[78] O portuguez tem o genio architectonico; o artista Roquemont reconheceu-lhe essa capacidade ingenita. É a influencia exterior da natureza que fez este povo architecto, como o fez tambem navegador. O norte de Portugal abunda em excellente pedra para construcções grandiosas, tem o granito duro para as fórmas eternas; de facto é ao norte de Portugal aonde se encontram os primeiros e mais venerandos trabalhos de architectura, não tão delicados como os rendilhados lavores da pedra calcárea do sul, mas em maior numero e em todas as edades como productos de uma necessidade vital. Este genio artistico acha-se reflectido na technologia do povo, apresentando uma riqueza de vocabulos ainda na linguagem do mais humilde alvenér.
As Constituições apostolicas mandavam que a Egreja fosse edificada em fórma de uma náo (ad instar navis) voltada para o Oriente. Comprehendeu Portugal o symbolismo no sentimento aventureiro e maritimo com que no seu christianismo transpoz os mares, no meio das invasões dos Turcos na Europa, levando a Fé e o Imperio ao Oriente, sem se preoccupar com o antagonismo das Duas Espadas. Foi Portugal o unico povo que soube fazer a mirifica alliança da Architectura e do sentimento maritimo; e emquanto se inspirava da simplicidade evangelica, propriamente mosarabe, este povo era creador, edificava a Batalha e Belem, que já não pôde acabar depois que o catholicismo romano, pela repressão do Concilio de Trento, mandado observar em Portugal como lei vigente, e pela acção dirigente dos Jesuitas na instrucção e na politica, levou este povo a uma esterilidade de morte, a uma indifferença diante da perda da sua autonomia.
Participando da fecundidade germanica e da sensibilidade do arabe, o mosarabe mostrou a espontaneidade do seu genio creador, além da Religião e da Arte, tambem no Direito. N’este campo a depressão é exercida pela monarchia na sua absorpção temporal, fazendo em quanto á vontade o que a Egreja fez em relação á consciencia. Para o Mosarabe o direito não era uma imitação dos Codigos romanos, como o Codigo visigotico privativo da classe aristocratica; não era uma fórmula ambiciosa da theocracia imposta nos Concilios nacionaes; era a realidade da vida prática em uma fórma consuetudinaria e não escripta; a lei em vez de ser uma prohibição validada com penas atrozes era uma garantia commum, mantida pela consciencia, sanccionada pela transmissão tradicional.
No momento em que o godo não pertencente á banda guerreira, e que decahira na condição do lite, se viu desassombrado da nobreza que se refugiou nas Asturias, ficou entregue á liberdade franca tolerada pelos invasores e foi reconstituindo as suas primitivas instituições livres. É por isso que o Symbolismo germanico dos codigos barbaros floresceu de novo; o Mallum antigo, ao ár livre, ou á sombra da arvore secular torna-se a assembleia, o Malhom, em que se allega o costume; a individualidade germanica reapparece na prova dos Juratores; as cerimonias juridicas supprem a magestade das fórmulas abstractas romanas; a prova faz-se pelo Ordalio, perante o testemunho da natureza, pelo Duello judiciario; a pena é a banição da terra, o Wargus, sem tecto, lar, nem agua. Todos estes caracteres são privativos do Direito dos mosarabes, que vigorou sem ser escripto no periodo da tolerancia arabe, e que ainda transparecem nos textos escriptos das Cartas de Foral, quando a restauração senhorial e o poder monarchico procuraram submetter ou alliarem a si, conforme os tempos, esse elemento popular, que constitue as nacionalidades peninsulares. Nunca os Foraes poderão ser comprehendidos senão como a antithese do Codigo visigotico. O momento em que este direito começou a ter fórma escripta coincide com o da formação do Terceiro estado na Europa; em nenhuma legislação se proclama com mais clareza a independencia do trabalho, a liberdade territorial, a remissão do homem por contribuições ou resgate do colono. Quem se lembrou de vêr nos Foraes uma liberalidade régia? Os jurisconsultos que seguiram este erro eram romanistas, ou melhor cesáreos, que ignoravam as instituições da Edade media e a organisação da sociedade portugueza. Mas a vida local que exigia estes Codigos foi extincta diante da lei geral das Ordenações, redigidas pelos jurisconsultos romanistas ao serviço da auctoridade monarchica. Já no seculo XVI e quando a dictadura monarchica tendia para o egoismo dynastico, a pretexto de reformar as palavras obsoletas dos Foraes e do reduzir as moedas antigas ao dinheiro corrente, o rei D. Manoel substituiu esses textos, tirando-lhes as garantias e deixando-lhes a contribuição ou prestação do fôro. Desnaturou-se a propriedade com a fórma romana da Emphyteose. As descobertas favoreceram o centralismo da capital e da côrte; as liberdades locaes decahiram, e o povo já depremido pela intolerancia do catholicismo, deixou desde a reforma manoelina esquecer as suas tradições juridicas, o seu energico symbolismo, e alheio aos interesses publicos, alheio ficou á occupação castelhana.
O povo portuguez ainda hoje allude nos cantos tradicionaes aos costumes do tempo das Cartas de Foral; o estado de Malado é lembrado no romance da Filha do rei de França; a Sylvaninha, como mulher é desherdada pelo pae, segundo o costume germanico; o adulterio é castigado com a pena de fogo, no Dom Claros de alem-mar; a expulsão do fidalgo do burgo, como nos Foraes do Porto, Coimbra e Santarem, subsiste no romance do Santa Iria. Os romances ou Aravias alludem ao instrumento a que são cantados, a quitára arabe; é tambem pela influencia bondosa da mulher, segundo o costume arabe, que o prisioneiro Virgilios recobra a liberdade; vê-se em tudo isto a alliança do genio germanico e arabe. A bella e sentidissima efflorescencia dos Romances sacros, ou ao divino, em que o Velho e Novo Testamentos se acham dramatisados com a maior audacia, sem attenções pela versão canonica, que outra origem tem na rhapsodia popular da peninsula se não uma origem arabe? É do genio arabe que lhe veiu esta liberdade da creação poetica, que tambem por egual impulso apparece em velhos poemas provençaes: «É em arabe que se encontram os primeiros exemplos d’estas falsificações romanescas das narrativas venerandas da Biblia e do Novo Testamento.»[79]
Sobre o elemento vital da Edade media a tradição das raças, que actuavam no desabrochar das instituições sociaes e da poesia, prevaleceu o principio da auctoridade, em quanto á consciencia religiosa pelo canonismo catholico, em quanto á liberdade pelos codigos monarchicos, e em quanto ao ideal pelo prurido da erudição classica. A decadencia do culto ou rito mosarabe coincide com a extinção das garantias foraleiras; no mesmo seculo em que entrava em Portugal a legislação imperial romana, que renascia nas Universidades, triumphava tambem o rito romano. Dom Diniz ressuscita os direitos imperiaes com o ensino das leis romanas na sua nascente Universidade, ao mesmo tempo que admittia o rito da Egreja de Roma na sua Capella. Applicavam-se as Leis de Partidas; e o povo era excluido da participação da liturgia. O papa Eugenio IV impoz-nos o rito romano, que Dom João II e Dom Manoel acceitaram; e com as Ordenações manoelinas acabaram os ultimos restos da vida das instituições locaes. Para completar esta obra da cretinisação de um povo, Dom João III deu entrada em Portugal á Inquisição com o seu queimadeiro, distrahindo a multidão fanatisada com os espectaculos de cannibalismo, e entregou as intelligencias á perversão do ensino jesuitico. Gil Vicente conheceu este primeiro golpe na tristeza das cantigas do povo: «Todas tem som lamentado—carregado de fadigas—longe do tempo passado.» Camões sentiu esse segundo golpe já reflectido no estado geral da nação: «De uma austera, apagada e vil tristeza.»
Para fazer revivescer o genio mosarabe ou nacional, era preciso descobrir-lhe a sua tradição em uma poesia tantos seculos obliterada sob o desdem dos eruditos que a julgavam desprezivel, pela Egreja, que a perseguia pelas Constituições dos Bispados e pelos Indices expurgatorios; e ao mesmo tempo a sua liberdade e autonomia, debaixo de um unitarismo politico que a monarchia parodiava copiando o direito imperial romano. O renascimento dos dialectos peninsulares e o estudo das tradições são o prenuncio de uma vindoura revindicação.
§ 3.—A Linguagem oral e escripta
O que distingue a obra litteraria original, da Tradição que é do dominio de todos, é o cunho da individualidade, o caracter. É por isso que um thema commum, como se observa com a fabula, póde ser original, recebendo successivamente a fórma litteraria de Esopo, de Phedro ou de Lafontaine. O mesmo acontece com a lingua nacional, que é fallada por todas as classes, destacando-se a feição individual do escriptor que lhe imprime o seu estylo. A linguagem, que é um phenomeno natural e social independente da intervenção directa do individuo, torna-se pela expressão esthetica a materia prima da elaboração das Litteraturas; e o estylo, que tanto destaca um escriptor de outro escriptor, conserva, como diz Fontenelle, son tour d’ésprit de cada seculo, apezar da supremacia do genio individual.
Ha na creação da linguagem dois trabalhos, o da espontaneidade oral, em que apparecem os elementos radicaes que se transformam por meio de themas e flexões até constituirem a palavra, e uma fixação pela escripta, que vae systematisando e regularisando o apparelho grammatologico. Se a lingua não é escripta, tende a uma exuberancia synonymica e dispersão dialectal; se o seu uso escripto começa prematuramente, cáe em uma immobilidade de fórmas definitivas, que não avançam para se não quebrar a regularidade constituida. É sobretudo o facto historico da nacionalidade e da sua cultura, que actúam na fórma escripta da linguagem, imprimindo-lhe pela concentração das energias associativas em uma capital um typo linguistico, que se impõe e prevalece sobre as differenciações dialectaes. A linguagem oral continúa no seu originario poder de creação, mas apoia-se principalmente na auctoridade conservadora do passado, e mantém fórmas do Archaismo no vocabulario, no vocalismo e construcções populares; a linguagem escripta, exprimindo necessidades do espirito amplia os seus meios de expressão pelo Neologismo, abandonando fórmas desconnexas do vulgo para sustentar uma determinada regularidade. São variadissimas as relações entre estas duas funcções oral e escripta da linguagem; se se separam completamente uma da outra, a linguagem fallada torna-se um patois variavel de burgo para burgo, e a fórma escripta obedece a um aperfeiçoamento racional e artificioso, ficando privativa da classe culta, como aconteceu com o sanskrito e com o latim classico; se porém as duas fórmas de expressão se aproximam e se fecundam mutuamente, os escriptores encontrarão na linguagem do povo bellos elementos para enriquecerem o estylo com modismos pittorescos (como acontece com a obra esthetica em relação ás tradições anonymas), e o povo fallará com a perfeição da cultura social que reflecte, como se viu com o predominio do dialecto attico na Grecia. Em Portugal a separação da linguagem oral da escripta, deu-se desde que por effeito da corrente da civilisação preponderou a cultura latino-ecclesiastica, e chegou a ponto tal essa differenciação, que os velhos documentos juridicos tiveram de ser traduzidos para leitura nova em tempo de Dom João II; porém, desde os fins do seculo XVI até hoje tem-se operado a identificação entre estes dois modos de linguagem, e o poema de Camões é lido e entendido geralmente como se fosse escripto na actualidade.
Da observação d’este facto de transformação progressiva que exerce a escripta na linguagem, resultam explicações essenciaes de grandes phenomenos linguisticos accusados na historia. É assim que sendo a Linguagem congenita com a Raça, apparece muitas vezes o caracter da linguagem em contradicção com os dados anthropologicos, como notou Paul Broca. Basta a linguagem ser a consequencia de um estado elevado de civilisação, para ser facilmente admittida por um povo mais atrazado em relação áquelle que o absorveu ou subjugou. Vê-se que a linguagem é um importantissimo documento de paleontologia ethnica, mas um inseguro recurso para as classificações anthropologicas. Pelo desenvolvimento escripto do Latim na sua vasta legislação civil e administrativa, e continuado pelo catholicismo nas constituições apostolicas e doutrinação moral, tinha forçosamente esta lingua de dominar sobre as vastas populações prevalecendo sobre os dialectos celticos da Italia, das Gallias e da Hespanha, vulgarisando por meio da sua legislação uma linguagem cultivada artificialmente por escriptores barbaros, gaulezes, hispanicos e italiotas. Foi este facto que deu origem ao erro de se imaginar que as Linguas romanicas tinham sido formadas pela corrupção do Latim em uma vulgaria, como normas rusticas ou sermo pedestris. O uso do Latim entre os povos do occidente foi um artificio, uma educação, a ponto das provincias da Africa, Hespanha, Gallias e Italia cisalpina darem magnificos escriptores a Roma. Vêmos em Osca fundar Sertorio um centro de estudos classicos; continuam em Roma a litteratura latina os cordovezes Sextilio Henna, Lucano, Porcio Latro, os dois Senecas, Anneo Mella; os gaditanos Cornelio Balbo e Columella, Marcial, natural de Calatayud e o rhetorico Quintiliano, natural de Calahorra; á Hespanha pertencem os escriptores Claudio Apollinario, Felix, Marco Licinio, Pomponio Mela, Lucio de Tuy, Allio Januario, Cordio Sinforo, Silio Italico, Floro e Julio Higino, os imperadores Trajano e Adriano. Tambem a propagação do christianismo no segundo seculo, pelo emprego do latim na liturgia, fez que a classe sacerdotal concentrasse uma certa cultura e se imitassem as fórmas do Latim urbano; e ainda no ultimo seculo do Imperio empregavam o latim classico na litteratura ecclesiastica os bispos, Osio, de Cordova, Paciano e Olympio, de Barcelona, Gregorio Betico, de Granada, Potamio, de Lisboa, o papa S. Damaso, Dextro, Juvenco, Idacio, Paulo Osorio, Prudencio, Elpidio. É escusado ampliar este ponto de vista com escriptores latinos da França; egual phenomeno se dera com o grego transformado no dialecto commum, que os padres da Egreja, os Chrysostomos e os Basilios empregavam com o esmero de reproduzirem ou restaurarem o puro atticismo. Por certo que a lingua latina não penetrou nas populações sertanejas, os Pagi e Vici, as aldêas e os concelhos, para ahi se corromper. A par da Lingua latina existia a linguagem oral com riquezas proprias e differenças da fórma escripta. É essa lingua oral o fundo primitivo, que no Occidente constituiu o ramo complexo denominado no seu syncretismo, por Schleicher, Lingua Greco-Itala-Celtica, contrapondo-se no norte da Europa o outro ramo Slavo-Tudesco. Não admira, que ao destacar-se o Latim dos dialectos italicos pela fórma escripta e pela preponderancia historica, muitos dos seus elementos superiores fossem facilmente assimilados pelas populações occidentaes que recebiam o impulso da civilisação romana; o mesmo se póde inferir sobre a apropriação de elementos das linguas germanicas na França, Italia e Hespanha. Desde que se descobriu a unidade das linguas áricas ou indo-europêas, melhor se comprehende esta linguagem, de que se destacou o Latim classico, que coexistiu com as linguas falladas em todo o Occidente.
Esta coexistencia e duplicidade encontra-se expressa na designação de Latino e Ladino, contrapondo-se a Romance. São abundantes os trechos francezes, castelhanos o portuguezes, em que o termo Latino significa o espirito culto, o que falla bem, o arguto e ardiloso; romance significava a linguagem popular, a que se falla de visinho a visinho, como diz Berceo, a tradição oral, e já em épocas adiantadas da historia, o vernaculo ou nacional. Esta lingua syncretica estava diffundida em uma infinidade de dialectos, que foram desapparecendo á medida que a lingua escripta, pela absorpção nacional, se foi impondo ao uso das povoações ruraes. Raynouard cahira na illusão da unidade plena d’este fundo linguistico, chamando-lhe Lingua romance, e fazendo derivar da sua dissolução durante a Edade media as novas linguas meridionaes.
A coexistencia da linguagem oral com o Latim classico ou escripto acha-se notada no vocabulario pelos proprios escriptores latinos, taes como Festus, Vegecio, Palladio, Ennio, Terencio, Pacuvio, Lucrecio, Varrão, Aulo Gellio, Plauto, Columella, Cicero, Suetonio, Apuleio, Theodosio, Justiniano, Plinio, Vitruvio, Celso, Lactancio e todos os Padres da Egreja e escriptores latinos das provincias conquistadas. Ao passo que nas Gallias ás fórmas litterarias urbs, iter, os, hebdoma, osculare, se sobrepunham as fórmas vulgares ville, voyage, bouche, semaine, baiser, as quaes egualmente prevaleceram na Hispania, vêmos tambem na peninsula prevalecerem sobre os vocabulos latinos esses outros vulgares Burgo, Batalha, Camisa, Carregar, Cabana, Cafua e muitissimos outros apontados por Isidoro de Sevilha, nas suas Etymologias. Poder-se-ha contrapôr um vasto vocabulario da linguagem oral ao vocabulario classico latino, mas não é esse phenomeno ainda o que explica a formação das Linguas romanicas; o processo organico ou formativo operou-se intimamente, avançando essa lingua oral para a expressão analytica, que é verdadeiramente um progresso; e quando Plauto ou Cicero, e muitos escriptores classicos esclareceram os casos com preposições, ou as fórmas verbaes com auxiliares, não se deve entender que transigiam com a futura decadencia do latim, mas que sentiam a necessidade do processo analytico. Desde que o latim escripto deixou de exercer uma missão social pela queda do Imperio, e pelas invasões germanicas no Occidente, essas linguagens falladas na Italia, nas Gallias e na Hespanha, sem a disciplina imposta pelos cultos, procederam na transformação em que iam, desenvolvendo as fórmas analyticas e periphrasticas. Olhou-se mesmo com certo desdem para o Latim classico: no quarto Concilio de Carthago, no IV seculo, prohibiu-se a leitura dos livros profanos, que eram latinos; o papa Gregorio Magno, desprezava intencionalmente o emprego dos casos, dizia elle para não submetter as palavras divinas ás regras de Donato. A importancia das linguagens vulgares era tal, que em 230 Alexandre Severo promulgou uma lei permittindo fazer-se ou redigir-se fideicommissos n’ellas. Não era pois uma decadencia, que trazia essas linguas á fórma escripta. O proprio clero catholico, como se vê pela auctoridade de Licinio, bispo de Carthagena, e de Gregorio de Tours, tinha cahido em um certo analphabetismo, relaxando-se assim a preponderancia exclusiva do latim escripto. As linguas falladas, que tinham existencia propria, avançaram quando os fócos nacionaes as impulsionaram, e sem se moldarem no latim chegaram á accentuação e á rima, a uma fórma de poesia nova, a que o proprio Latim foi submettido na hymnologia da Egreja. Vê-se quanto é absurdo explicar a formação das linguas romanicas por meio de degenerações phoneticas operadas no vocabulario do latim classico. As modificações do vocalismo e consonantismo romanico são as mesmas que dominam todo o organismo das linguas indo-europêas, de que ellas são um producto.
Combatendo a theoria da escóla philologica que deriva as linguas e os dialectos romanicos immediatamente do Latim, já em quanto á estructura e mesmo ao vocabulario por processos de modificações phoneticas, Gubernatis oppõe-lhe os seguintes factos historicos: «porque é que os Romanos tendo penetrado na Grecia mais do que na Hespanha, não fizeram fallar latim aos gregos, como querem que o fizeram aos hespanhoes?—Porque é que uma colonia militar romana que occupou poucos seculos a Engadina, devia introduzir entre os Alpes suissos o dialecto latino, ao passo que numerosas colonias romanas fixadas na Illyria não conseguiram submetter os Slavos ao Romanismo?—Por que é que os Italianos da Italia superior fallando o Celtico, e os povos da França fallando Celtico, e os Bretãos fallando Celtico, o Celtico desapparece da Italia e quasi inteiramente da França, e sobrevive na Bretanha? e comtudo, os Romanos não occuparam certos remotos valles alpinos, certas provincias remotas da França, tanto como tinham occupado a Bretanha.»[80] Gubernatis reconhece a grande importancia do latim escripto e das leis promulgadas em latim pelo Imperio sobre os dialectos dos povos occidentaes, mas estabelece como principio historico que essas linguas vulgares não derivaram do latim, coexistiram com elle como irmãs: «contemporaneamente ao latim fallado em Hespanha e França, na Italia pela pluralidade das gentes pertencentes á mesma raça que os Latinos; Roma tendo predominado, a lingua romana prevaleceu e exerceu aquella mesma influencia que agora vêmos exercer-se da lingua italiana sobre os dialectos italianos, dos quaes o fundo é sempre italico...» E procurando o typo d’esta linguagem dos povos occidentaes, exemplifica: «De facto, quem de Genova se metter em viagem pelos Pyreneos, as variedades da linguagem modificam-se com um modo tão progressivo e espontaneo, que os dialectos da França meridional ficam como laço natural entre os da Italia e da Iberia, onde se os Bascos dominaram foram com o andar do tempo reduzidos como os Celtas...» E conclue: «Se não existisse um fundo italico nas populações e na sua linguagem, Roma teria triumphado com o seu latim no valle do Pó, provavelmente da mesma maneira negativa com que triumphou na Grecia e na Bretanha.»[81]
Como se vê, esta doutrina vae de encontro á escóla de Diez, que deriva as linguas romanicas do latim, principalmente por processos de degenerescencia phonetica, embora sustente ao mesmo tempo que ellas não provieram de um latim corrompido, mas sim de um latim vulgar coexistente com o latim escripto: «Ao lado do latim litterario, existia effectivamente uma lingua latina correntemente fallada, que os Legionarios e colonos levaram para a Iberia, para as Gallias, para a Dacia. Foi esta lingua popular que se transformou lentamente, tornando-se aqui o Hespanhol, ali o Francez, além o Roumenio, do mesmo modo que em Italia se tornou o Italiano.»[82]
É verdadeiramente maravilhosa esta explicação do metamorphismo do Latim vulgar, identificando-se nos seus resultados com os d’essa outra theoria tão combatida de Raynouard, da Lingoa Romance, cuja unidade quebrada produzira as linguas modernas meridionaes.[83] Nas linguas romanicas operou-se um trabalho de transformação de progresso, e não de decadencia; se o Latim como lingua flexional é synthetico na sua expressão, estas tornam-se essencialmente analyticas, pelo desprezo das flexões casuaes, e pela simplificação da Conjugação pelos verbos auxiliares. Alguma cousa de fecundo se passou n’esse periodo de elaboração analytica, tal como a substituição da quantidade pelo accento, que conduziu as linguas modernas á creação da mais bella poesia, e á construcção syntactica directa, actuando na nitidez do pensamento. A quantidade, ou o prolongamento ou abreviação do som vocalico de uma syllaba, liga-se á origem primitiva da raiz, breve na sua formação, longa, na sua derivação; o accento é o ponto de apoio em uma syllaba dominante, quando modificações profundas se operam na palavra por meio de flexões e de suffixos, para exprimirem varios pensamentos, mas sempre conservando a ideia primaria. Como observam Weil e Benloew, nas linguas mais antigas predomina a quantidade, que domina e determina o accento, ao passo que nas que mais avançam para a civilisação o accento prevalece sobre a quantidade.[84]
O predominio da accentuação representa historicamente o prevalecimento do espirito logico actuando sobre todas as fórmas da linguagem, como conclue Benloew, dominando a sua ordem ou disposição e a sua versificação.
O velho Latim anterior (treze seculos antes da nossa éra) ao Latim classico, só differia d’este em ter diphtongos, que o litterario reduziu a vogaes simples;[85] vê-se pois que o chamado latim vulgar não estava em decadencia, e se se differenciou do latim tornando-se analytico é por que avançava para uma expressão logica. Mesmo nos escriptores classicos apparecem preposições junto dos casos, e vozes de auxiliares simplificando fórmas verbaes, no periodo do esplendor de Roma. A lingua latina, empregada na Jurisprudencia e nos Editos administrativos, tornou-se quasi hieratica ou sacramental: Uti lingua nuncupassit ita jus esto; e a sua versificação retrogradou para a quantidade. Os outros povos occidentaes eram vivos e progrediam, sem precisarem do estimulo da conquista romana; estavam no periodo da accentuação, e foi esse o principio fundamental das Linguas chamadas romanicas, por meio do qual adaptaram ao seu vocabulario palavras latinas, celticas, germanicas e arabes com um rigor inalteravel como uma lei natural: a persistencia do accento tonico.
A primeira condição para o estudo scientifico das Linguas romanicas foi a descoberta da unidade das Linguas indo-europêas, de cuja filiação se veiu a descobrir uma grammatica geral a esse grupo de linguas; successivamente a analyse comparativa dos seus sons e fórmas, o consequentemente o mesmo methodo proseguido no exame dos seus varios dialectos e derivações.
A unidade linguistica indo-europêa foi entrevista em 1786 por William Jones, e em 1808, Schlegel formulava com toda a nitidez essa intuição: «O antigo indiano, sanskrito, isto é, culto ou perfeito, designado Gronthon, quer dizer, escripto ou dos livros, tem grandissima affinidade com a lingua grega, com a latina, com a germanica e persa. A semelhança consiste não tanto no grande numero de vozes communs a esta lingua, mas principalmente no que pertence á intima estructura e á grammatica. Não se trata de uma concordancia casual, que possa explicar-se por mestiçagem de povos: é concordancia organica, que denuncia uma origem commum.» A comprovação d’este ponto de vista produziu uma revolução scientifica, na creação da Glottologia, da Mythographia e no criterio da Historia, por um conhecimento mais profundo das civilisações áricas.
Começou a ser estudada esta familia linguistica no seu conjuncto, e pela applicação dos novos methodos por Jacob Grimm á Grammatica allemã, começada em 1819, descobriu este erudito genial a lei das modificações e equivalencia dos sons nas linguas germanicas, Umlaut e Ablaut, que constituem o desenvolvimento historico da lingua allemã. Os sons modificam-se em uma escala constante, de fortes, brandos e aspirados, de modo que na situação em que se fixaram pela fórma escripta as palavras, se póde deduzir qual seria a sua fórma anterior. Esta grande lei, que torna a Phonetica uma sciencia natural, applicou-se a um exame mais vasto e verificou-se que dirigia todas as linguas indo-europêas. Existe hoje reduzida a quadro essa escala de sons no sanskrito, zend, grego, latim, erse, esclavonio, lithuanio, gotico e alto-medio allemão. É maravilhoso o resultado da sua applicação ao vocabulario indo-europeu, e as deducções das mutuas similaridades para a chronologia da sua formação, e para a recomposição da lingua árica,[86] de que ellas por circumstancias sociaes e historicas se differenciaram.
Esta lei da permutação dos sons foi tambem applicada ás linguas romanicas tomando por ponto de partida o Latim, e seguindo as suas modificações no Italiano, Valachio, Hespanhol, Portuguez, Provençal e Francez; é a continuação do phenomeno que se patentêa nas linguas flexionaes indo-europêas. Não são pois na sua formação moderna uma decomposição, mas um processo reconstructivo, em que pela modificação de certos sons deixam de ser notadas fórmas que vão desapparecendo.
Foi em 1816 que Bopp, na sua Theoria da Conjugação, estabeleceu o processo da analyse da palavra, tomando o Verbo como aquella que na sua fórma fundamental agrupava a maior somma de differenças desinenciaes, taes como as flexões pessoaes, temporaes, numeraes e modaes. Foi por este processo que chegou a determinar as raizes attributivas, a isolar as raizes pronominaes, a achar a formação dos themas, em volta dos quaes pelos suffixos, prefixos, affixos e infixos se organisa esse corpo complexo e adiantadissimo da palavra. A exposição completa d’este methodo constitue na sua applicação o assombroso trabalho da Grammatica geral das Linguas indo-europêas.
Levada a sciencia da Glottologia a esta perfeição, foi depois o methodo applicado por Frederico Diez á familia das Linguas romanicas, organisando tambem a sua grammatica comparativa. Cahiram por terra as theorias imaginosas de Maffei, Ciampi, Aldrete, Court de Gebelin, La Tour d’Auvergue, Raynouard e Ribeiro dos Santos, formadas a proposito de cada uma das linguas romanicas isoladamente. Pelo estudo dos documentos litterarios provençaes, é que em 1827, Frederico Diez, no seu livro Da Poesia dos Trovadores, lançou as bases da philologia romanica, que depois systematisou na Grammatica das Linguas romanicas, publicada de 1836 a 1844. Tomando o Latim como ponto de partida, por ser escripto ao tempo em que as linguas romanicas ainda eram oraes, determina-lhes as modificações dos seus sons e particularidades prosodicas, as suas similhanças morphologicas, e a identidade syntaxica.
No exame dos sons, chega-se á lei fundamental das linguas romanicas: A persistencia do accento tonico ou vogal accentuada. Mil accidentes podem obliterar o vocabulo, como acontece sendo fallado por boccas estrangeiras, e n’este caso estão os vocabularios romanicos que soffreram a influencia dos povos germanicos, arabes e ainda de eruditos greco-romanos; porém a vogal accentuada conserva-se inalteravel, como o eixo em que se apoia a palavra. É á custa d’esta segurança, que a palavra se abrevia no uso, perdendo uma grande parte do seu corpo. Exemplifiquemos: Episcopus, Bispo; Ecclipse, Cris; Dominus, Dono, Dom; Presbyterus, Preste (ainda em Arcipreste) Prètre; Ungula, Unha; Quadragesima, Carême; Genuculum, Joelho; Rotundus, Rond.
Forçosamente, uma lei phonetica assim tão exclusiva deveria actuar no desprezo pelas inflexões da quantidade, e pelo abandono das flexões casuaes, e da grande variedade das desinencias verbaes. Foi a consequencia d’essa outra lei phonetica das linguas romanicas: A suppressão das vogaes breves não accentuadas. N’este processo a palavra tende a contrahir-se, como em Trifolium (trèfle, trevo), mas tambem se duplica, conservando-se inconscientemente a fórma do caso obliquo, como em Pulvis (pó) e Pulverem (pólvora), Index (endes e indice).
A terceira lei phonetica fundamental é a da: Queda de certas consoantes mediaes, a qual tambem actuou na fórma contrahida das palavras nas linguas romanicas, sendo essa usura referente á sua chronologia. Sirva de exemplo o adverbio Semeptissimus; no provençal encontra-se na fórma semetessme, na lingua d’oc metesme; no italiano medesimo; em lingua d’oc, medesme, meseyme, meisme; no portuguez antigo, medes, meesmo, e em francez même. Com certeza estas contracções mais ou menos intensas representam um trabalho de usura, ligado a causas historicas e sociaes.
Todos os outros sons consonantaes, quer sejam iniciaes ou mediaes, soffrem modificações especiaes em cada uma das linguas romanicas, e é isto o que as differencia umas das outras, por isso que a glotte de cada um d’esses povos não emitte os mesmos sons. Em quanto ao systema vocalico, tambem por elle se fixam as differenças na familia romanica:
«Na vocalisação do hespanhol (sc. castelhano) acha-se muitas vezes o A puro, em quanto que o U, que recebeu do latim, é em geral attenuado e mudado em O; d’este modo a lingua recebeu o caracter de uma lingua artificial, e as durezas são substituidas por sons mais euphonicos. Depois do A, ou antes concorrentemente com elle, o O é a vogal que mais caracterisa o hespanhol.—A lingua franceza, pelo emprego exagerado da vogal E, renunciou á custa da sua euphonia á vocalisação latina; é sobretudo uma lingua artificial, admiravelmente propria para a conversação, mas em geral pouco propria para a poesia, por que a vogal intermediaria E que intervem a cada instante prejudica a vocalisação pura, e além d’isso nunca produz uma elevação e um abaixamento completos. Quanto ao Italiano, de todas as linguas romanicas é a que guardou mais harmonia, por que sustenta a elevação e o abaixamento produzido por A e por U transformado em O pela intervenção do I agudo.»[87]
Na vocalisação da lingua gallega Helfferich e de Clermont, acham o emprego do U, exemplificando com um documento de 1255; em que vem as palavras cunuzuda, tudos, escritu, julgadigu, razues, consellu, buus, etc.[88] Tambem na sua these da Origem da Lingua portugueza, Soromenho nota o mesmo caracter: «No norte de Portugal, na provincia de Entre Douro e Minho, predomina o U na terminação dos nomes. N’um só documento de 936 encontramos reirigu, agru, conclusu, ipsu, dublatu, tolinu, sasarigu, ermegildu, fagildu, sesuldo.»[89] D’Ovidio observa tambem no portuguez «que o e e o finaes não accentuados pronunciam-se como i e u, como no nosso dialecto calabrez, siculo, leccez, sardo meridional e septentrional, e ainda, quanto ao u, sardo central, corso, genovez, com outros dialectos sardo-italicos.»[90]
Aqui temos já uma caracteristica que assimila as duas linguas congenitas o Gallego e o Portuguez, que tanto se differenciaram por causas historicas. A lingua portugueza não é um dialecto do castelhano, como se julgou inscientificamente, é um organismo autonomo como a sua nacionalidade; faltam-lhe os sons castelhanos c palatal, a spirante guttural tenue j e g, o que influe na maior suavidade da pronunciação portugueza, e possue sons que faltam ao castelhano, como o s doce, o sh e o sg (ex.: rosa, campos, jaspe) e distingue com uma grande delicadeza, que se reflecte nas vozes verbaes, as vogaes fechadas a, e, o das abertas (andamos, andámos), e possue as vogaes nasaes.
Em toda a Europa meridional, as linguas romanicas receberam a fórma escripta, e a disciplina grammatical pela circumstancia da formação das novas nacionalidades; mas a par do Francez (dialecto da ilha de Paris), do Italiano (o toscano), do Hespanhol (o castelhano), do Portuguez (destacando-se do gallego), subsistiram numerosos dialectos, muitos dos quaes conservam preciosos vestigios archaicos de fórmas que revelam o processo formativo. Na Hespanha esses dialectos representam pela sua vitalidade invencivel o vigor dos organismos nacionaes, que ainda luctam através de todas as imposições do centralismo politico.
Mas se a vida historica ou nacional actuou pela fórma escripta no desenvolvimento das linguas romanicas, nem por isso a parte oral deixou de cooperar no seu vocabulario. O estudo do lexico, não se faz simplesmente para determinar os elementos contributivos dos varios povos celticos, latinos, germanicos e arabes, que occuparam o occidente, onde se formaram as linguas romanicas; elle apresenta-nos esse phenomeno do Polymorphismo, em que as leis phoneticas determinam o desdobramento ou duplicidade de palavras, que vão exprimir uma riqueza ideologica. Assim, quando de Plano pelo processo phonetico popular se fez chão e lhano, adquirimos novos vocabulos para designar outras relações materiaes e moraes. São uma das grandes riquezas das linguas romanicas essas Derivações divergentes, que se produzem por varias causas: já como resto da declinação conservada no caso obliquo, como Serpe e Serpente, Chantre e Cantor, Animal, Almalho e Alimaria, Pyrame e Pyramide, Calix e Calice; já pela fórma dupla do participio, como Matado, Morto, Confessado, Confesso, Teudo, Tido; já pela apropriação phonetica vulgar, como Cadencia e Chança, Calido e Caldo, Clave e Chave, Palacio e Paço, Glandula e Landra, Decano e Deão. Muitas vezes regressa-se a uma fórma litteraria, pela necessidade de um neologismo scientifico, como: Amendoa e Amygdala; Coitar e Cuidar, Cogitar; Obra e Opera; Conselho e Concilio; outras vezes pela differença de significação ou semeiologia, como: Tradição e Traição, Bodega e Botica (de Apotheca), Rêlha e Regra, Macula e Malha, Medula e Meolo; algumas vezes por abreviação popular, como: Cem e Cento, São e Santo, Gram e Grande, Tão e Tanto, Galam e Galante, Rol, Rolo e Rótulo.
N’este processo de abreviação popular toca-se um phenomeno de origem etymologica, quando a palavra é a contracção de uma phrase, como em Bacharel, que é uma abreviação de Bas chevallier (d’onde no velho francez Bacheleur); como em Freguez, contracção de Filius ecclesiae (d’onde a fórma Feligres). A palavra Sengo e Senga, significando intelligente, astuto, experimentado, a que na linguagem popular corresponde, lá dizia a velha; é, como observa Diez, a fórma Senectus do latim vulgar, modificada no castelhano em Senecho (senechas, no Canc. de Baena, e no anexim castelhano: Al buen callar llaman Sancho) e Sengo nos autos populares portuguezes do seculo XVI.
Ao mesmo processo de divergencia obedecem os nomes proprios, como vêmos em Benedicto, Benito, Beneyto, Bieito, Benoit, Bento e Vieito; em Didacus, Thiago, Iago, Diogo; em Dominicus, Domingos, Mingo e Mengo.
Frederico Diez considera os varios elementos ethnicos que cooperaram para a creação das linguas romanicas; fallando do germanico, diz que este systema do linguas: «não soffreu nenhuma perturbação essencial do seu organismo; o grupo romanico escapou quasi completamente á influencia da grammatica allemã. Não se póde negar, que haja na formação das suas palavras algumas derivações e composições germanicas, achando-se tambem vestigios germanicos na syntaxe; porém estas particularidades perdem-se na totalidade da lingua.»[91] Se a lingua popular resistiu, manteve-se a par, e por ultimo se impoz ao Latim classico, como não havia de resistir aos incoherentes dialectos germanicos? O proprio Diez reconhece que a sua influencia era insufficiente para differenciarem entre si as diversas linguas romanicas.
O elemento arabe nas linguas romanicas manifesta-se tambem no vocabulario, mas sem influencia directa no regimen phonetico ou morphologico; tem sido esse elemento estudado em quanto á Italia por Narducci, em relação á França por Marcel Devic, em relação a Portugal por Fr. João de Sousa, por Dozy e Engelmann, e em relação á Hespanha por Yanguas e Simonet. Os Arabes representavam uma aristocracia militar incommunicavel; as communicações da população hispanica fizeram-se entre Berberes e Mouros, e a Aravia era um dialecto indistincto tanto de romanico como de arabe com que se entendiam com elles os Mosarabes e os Mulladies, isto é, os que se conservaram christãos e os que apostataram. Quando se pôde examinar nas linguas peninsulares as palavras arabes, escriptas nos documentos mais antigos, reconheceu-se que eram palavras romanicas modificadas pelos arabes e recebidas d’elles por segunda via. E o que se verifica na Architectura arabe, o caracter dos operarios mosarabes, tambem se observa na linguagem, que exprimia a riqueza de uma civilisação de que os arabes se apropriaram. Tal tem sido a revindicação laboriosamente fundamentada por Simonet. A civilisação occidental não teve por unico fóco Roma; e se ella se lhe impoz pelas Gallias e pela Hispania, tambem se impoz aos Arabes como se vae reconhecendo. Um certo sentido pejorativo se ligava a grande numero de palavras arabes, taes como o nome de Caschich, dado ao sacerdote christão, e que é uma interjeição popular Cachicha! com que se exprime a repugnancia pela porcaria; Azambrado, Madraço, Léria, exprimem tambem ideias de chasco e descompostura em contraposição ao seu sentido natural; a injuria Safardana era o titulo de gloria dos Judeus de Hespanha que a si se chamam Sephardin, para se distinguirem dos outros elementos da raça. Devem apparecer nomes arabes designativos de funcções sociaes, cargos administrativos, da mesma fórma que das palavras germanicas apparecem os termos que designam instituições feudaes e material de guerra.
Na longa lucta da reconquista, as povoações sedentarias ficavam indifferentes á sorte das batalhas; os Mulladies voltavam ao seu culto primitivo, e a Aravia, que os Mosarabes fallavam eram os dialectos vulgares ou Ladinha christenga, que em breve se iam desenvolver como linguas nacionaes. A designação de Aravia passava a significar o cantar-romance, que veiu a servir de primeiro elemento tradicional da historia.
Se causas sociaes profundas, como a dissolução do Imperio romano e invasões germanicas, actuaram no desenvolvimento dos dialectos ou Linguas romanicas, eguaes causas, como o fim das invasões dos Saxões do norte da Europa e o combate successivo contra o dominio dos Arabes no sul, determinaram a estabilidade necessaria para o estabelecimento de novas nacionalidades, em que as Linguas romanicas attingiram a sua fórma e perfeição litteraria.
Essas linguas, assimilando por uma fórma viva elementos latinos, germanicos, gregos e arabes, tornam-se orgãos importantes para a continuação da Civilisação occidental, de que cada nação foi um activo factor, cabendo durante toda a Edade media essa hegemonia á França.
Na peninsula hispanica a constituição das novas nacionalidades depois da reconquista christã está intimamente ligada aos seus dialectos; aquelles territorios que alcançaram autonomia ou que a souberam sustentar desenvolveram com a cultura litteraria os seus dialectos locaes. Muitas d’essas nacionalidades, como a Galliza, a Catalunha e Aragão foram incorporadas na unidade politica de Castella, mas o seu espirito autonomista ou regionalista sobreviveu e luctou sempre com a vitalidade dos seus dialectos gallego, catalão, aragonez, contra o uso official do castelhano. No Poema de Alexandre e no Poema do Cid esboçam-se as fórmas linguisticas que se fixam no castelhano; nos poemas de Gonzalo de Berceo, em que se reflecte a influencia dos trovadores, destaca-se já a feição peculiar do catalão; o rei Affonso o Sabio escrevendo a prosa em castelhano, prefere de um modo exclusivo o gallego para a poesia.
A cultura litteraria da região gallega que escapára ás invasões arabes, fez com que essa lingua fosse muito cedo escripta, de modo que ella conserva ainda hoje fórmas archaicas já modificadas no portuguez, ou que em Portugal ficaram plebeismos. A lingua gallega e a portugueza constituem um grupo homogeneo, que tenderia a unificar-se em um centro nacional, se o territorio da Galliza até ao Mondego ou até ao Tejo se não desmembrasse pela creação de dois Condados; mas conservariam sempre differenças dialectaes, como se vê no gallego septemtrional e no meridional. A lingua portugueza, como observa Diez, tem caracteres originaes proprios. Conforme porém os centros de cultura preponderassem, assim seria exercida a influencia, do gallego sobre o portuguez, como primeiramente se deu, ou do portuguez sobre o gallego, como se vê impresso na lingua.
A primitiva unidade territorial já fôra reconhecida pelos geographos antigos; Strabão chamava Gallaicos aos Luzitanos. Quando o Marquez de Santillana considerava os gallegos e portuguezes os primeiros que exerceram na Hespanha a arte de trovar, mal sabia que essa região pertencia áquelle elemento ethnico que creou o lyrismo trobadoresco. Desde 863 existia a Galliza como um Condado independente, luctando fortemente pela sua autonomia contra a annexação leoneza em 885, que desfez ao fim de vinte e cinco annos, e vindo por ultimo a cahir na unificação dos outros estados peninsulares, abafada a revolta separatista de 981. Bastava esta energia social para que a Lingua se desenvolvesse; deu-se o facto; tinha uma côrte, e ahi se educára Affonso o Sabio, que nas Cantigas de Nossa Senhora empregou a lingua que melhor lhe exprimia os seus sentimentos. Forçosamente a lingua gallega devia actuar nas fórmas do portuguez, que ainda não tinha uso litterario. E esse cunho gallego, como o pronome che por te, douche por dou-te, chegou a reflectir-se nos escriptores portuguezes dramaticos do seculo XVI.
Quando, porém, Affonso VI desmembrou da Galliza o Condado de Portugal, que em breve tempo se tornou um estado livre, a lingua portugueza começou a ter um desenvolvimento proprio, devido a esta circumstancia, por que incorporada a Galliza desde 1073 na unidade castelhana, Portugal foi estendendo o seu dominio para o sul, abrangendo as populações mosarabes da Beira, e recebendo uma certa cultura dos bispos francezes chamados para as dioceses recem-estabelecidas. Na marcha successiva da organisação da nacionalidade portugueza, a sua côrte torna-se um centro de convergencia de trovadores occitanicos, e por seu turno a lingua portugueza actúa sobre o gallego. Em grande parte o vocabulario portuguez é egual ao gallego mascarado com ortographia castelhana; mas a situação politica da Galliza, entre Portugal autonomo e Castella, de que é uma provincia, reflecte-se fundamentalmente na sua lingua. Exemplificando: soubo, analogo ao portuguez soube, muda o e em o pela influencia do supo castelhano; o mesmo nas palavras derivadas com o suffixo em ouro no portuguez, que o gallego conserva em oiro (sumidoiro, dobadoira), modificado pela influencia do castelhano, sumidero, devanadera. D’Ovidio synthetisa esta dupla influencia sobre a lingua gallega nos nomes dos dias da semana, parte tirados do castelhano como lunes (lues), martes, e parte do portuguez, como corta feira (quarta-feira). A lingua gallega conserva, além das suas fórmas originaes, outras archaicas do portuguez e mesmo populares nas nossas provincias; estes phenomenos ajudam a penetrar o processo de formação da lingua portugueza supprindo a falta de documentos. Desde Fernando o Magno o territorio portucalense formava parte da Galliza, cujas fronteiras em 1065 se estendiam até ao Mondego, e depois de 1093 até ao Tejo, apoz a tomada de Santarem, Lisboa e Cintra. A vinda dos cavalleiros frankos á peninsula, que ajudaram o monarcha leonez na batalha de Zalaka em 1086, influiu no acto de desmembração de Portugal, por que as cidades livres ou Behetrias esparsas n’este territorio e a sua situação na proximidade do mar, provocavam á creação d’esse organismo nacional. Á medida que a vida de côrte actuava no desenvolvimento da lingua portugueza, a paixão pela poesia trobadoresca forçava a imitar essas novas fórmas lyricas, apropriando-se de elementos provençaes, e creando um dialecto em parte artificial, o galleziano, em que versejavam todos os jograes que vinham a Portugal de Aragão, Valencia, Castella, Galliza e mesmo do Béarn. Certos provençalismos e italianismos dos antigos Cancioneiros portuguezes são consequencia de uma necessidade do artificio prosódico. Pela situação da Galliza como provincia submissa, a lingua gallega deixou de ser escripta, cahindo assim com o tempo na espontaneidade popular, e na sua immobilidade archaica. Muitas das suas palavras alteraram-se por metateses negligentes, como drento (dentro), prubico (publico), prove (pobre); a sua conjugação conserva certos tempos já transformados no portuguez, como: Falades (fallaes), faledes (falleis), falariades (fallarieis). Em consequencia da actividade de um organismo politico nacionalista, o portuguez torna-se escripto, e este facto determina o processo de um constante neologismo no seu lexico, já pelas traducções latinas das obras ecclesiasticas, já pela cultura juridica das escólas, já pela communicação dos poemas e novellas francezas, e pela fórma escripta foi continuamente a separar-se da corrente popular ou das fórmas vulgares, por um excesso tal que chegou a ser reconhecido.
Na época da constituição da nacionalidade portugueza foi grande a influencia da cultura franceza; o Conde D. Henrique, cavalleiro borgonhez, chama para o territorio sobre que governa cavalleiros francezes, a quem reconhece um certo numero de costumes feudaes; dá ás novas colonias frankas privilegios especiaes chamados franquias; muitos bispos, como S. Geraldo, D. Mauricio, D. Hugo, D. Bernardo, eram francezes, e em letra franceza foram trasladados os Evangelhos, segundo ordenava o Concilio de Leão de 1090. Continuou a corrente sob D. Affonso Henriques, concedendo as terras de Athouguia a Guilherme des Cornes, para as povoar com francezes e gallegos. Iam estudantes portuguezes estudar a Paris a theologia e a medicina, como vêmos com D. João Peculiar e Frei Gil Rodrigues. É natural que os poemas carlingios aqui tivessem écco na passagem dos jograes vagabundos, sobretudo sendo as romagens a Sam Thiago bastante populares em França no seculo XII e XIII. É certo que a lingua franceza deixou numerosos vestigios no velho lexico portuguez, como se encontra nos textos das versões do Velho e Novo Testamento; mas poder-se-ha attribuir-lhe os sons nasaes tão caracteristicos da lingua portugueza? Esses sons nasaes já tinham sido explicados por Helfferich et De Clermont como provenientes do contacto com os Suevos, mas sem demonstração. A influencia do francez foi nas classes cultas, e nas fórmas litterarias da linguagem, mas não no seu organismo intimo, nem no povo, em cuja loquela estacionou.
A vida nacional, com côrte, egreja e escólas, leis escriptas, processos judiciarios e regulamentos de administração, provocava um desenvolvimento artificial da lingua portugueza; debaixo das fórmas alatinadas dos escribas e tabelliães existem as palavras vulgares, que mais tarde appareceram em uma graphia nacional, como se verifica no Livro dos Testamentos de Lorvão, no Livro Preto da Sé de Coimbra, e nos Diplomatae et Chartae. João Pedro Ribeiro publicou documentos em portuguez de 1192, redigidos no reinado de D. Sancho I; reconhece que o seu emprego se tornou mais frequente por 1293, e de um uso geral e exclusivo de 1334 em diante. Não provam estes factos a crescente ignorancia do latim, que pelo contrario começava a estudar-se a sério pelo renascimento das leis romanas, canones ecclesiasticos e livros sagrados da Vulgata; a lingua fallada é que entrava em um periodo de fecundidade, como idioma nacional. As traducções em vulgar, tão numerosas, representam um esforço para transportar o pensamento de uma lingua classica para uma dicção pobre, e vacillante nas suas fórmas e construcções; por isso as traducções portuguezas dos seculos XIII, XIV e XV encheram o portuguez de neologismos do vocabulario classico, dando logar aos duplos divergentes, á imitação da morphologia dos superlativos em issimo, e a grande numero de themas que só serviram para as derivações de novas palavras. Era natural a illusão, por effeito d’estas aproximações litterarias, de considerar a lingua portugueza a mais proxima da latina do que todas as outras romanicas; pensou-o assim a Renascença erudita, quando Fernão de Oliveira e João de Barros fundaram a Grammatica portugueza nas regras da latina, e quando Camões synthetisava poeticamente esse sonho de uma missão historica universalista: «Com pouca corrupção crê que é a latina.» Os philologos do seculo XVII, como Alvaro Ferreira de Vera e Manoel Severim de Faria, chegaram pacientemente a escrever trechos em prosa que se podiam lêr simultaneamente em portuguez ou em latim, segundo as inflexões da voz. Causas vitaes actuaram ao mesmo tempo no vigor da linguagem fallada.
A lingua portugueza, pela intensidade da vida provincial, primeiramente, e mais tarde pela expansão da actividade nacional na Africa, Archipelagos atlanticos, Brazil e India, desdobrou-se em differentes dialectos. As differenças ethnicas das provincias portuguezas já tinham sido notadas pelo grammatico quinhentista Fernão de Oliveira, fallando das dicções populares: «Algumas d’estas ficaram já de muito tempo: ha tanto, que lhe não sabemos seu principio particular ... tambem se faz em terras esta particularidade, por que os da Beira tem umas fallas, e os d’Alemtejo outras; e os homens da Extremadura são differentes d’Antre Douro.»[92] A linguagem da Beira já no seculo XVI apresentava aos grammaticos um caracter archaico; continúa Fernão de Oliveira: «muitas vezes algumas dicções que ha pouco são passadas, são já agora muito aborrecidas, como: abem, ajuso, acajuso, a suso, e hogano, algorrem e muitas outras; e porém se estas e quaesquer outras semelhantes se metterem em mão de um homem velho da Beira ou aldeão, não lhe parecerão mal.»[93] Estas differenças que Fernão de Oliveira notava como grammatico encontram-se observadas por Gil Vicente como poeta; duas farças e uma tragicomedia versam sobre os costumes mosarabes da Beira, o Clerigo da Beira, o Juiz da Beira e tragicomedia da Serra da Estrella. Os bailos da Beira, a que allude Gil Vicente, e o typo comico beirão do Ratinho, bem como a persistencia dos cantos tradicionaes, provocavam este desenvolvimento dialectal. Quando a vida local se atrophiou pela concentração da dictadura monarchica (Ordenações) e pela absorpção da capital, os dialectos portuguezes ficaram méras fórmas archaicas. Em consequencia da expansão historica em um vastissimo dominio colonial, o individualismo portuguez manteve-se tambem pela linguagem, e dando logar não só a cruzamentos de raça mas á creação de numerosos e importantes dialectos. Citaremos o Creoulo, nas populações de Africa e Cabo Verde, o Matuto, no Brazil, o Reinol ou Indo-portuguez em Columbo, capital de Ceylão, em Malaca, em Cochim, e o Macaista. Alguns d’estes dialectos têm sido estudados; o da Guiné portugueza por Bocandé, os da India por Hugo Shuchartt, e outros varios philologos. São estudos que revelam intimos processos psychologicos formativos no phenomeno da linguagem. E referindo-se a esta acção fecunda dos portuguezes, escrevia João de Barros no seculo XVI: «As armas e os Padrões portuguezes póstos em Africa e Asia, e em tantas mil Ilhas fóra da repartiçam das trez partes da Terra, materias são e pode-as o tempo gastar; pero, não gastará doutrina, costumes, linguagem, que os portuguezes n’estas terras deixaram.»[94] E o que se dava com a expansão maritima, repetia-se em circumstancias muitas vezes transitorias, como na frandunagem, a que allude Filinto Elysio: «lingua franduna—a que trouxeram os soldados portuguezes das guerras dos Paizes Baixos.»[95] No dialecto brazileiro encontra-se o diminutivo do participio, (ex. dormindinho) que no gallego é ainda um phenomeno primitivo (ex. correndinho.)
Mas assim como a uma grande dispersão nas expedições maritimas e na occupação territorial, se tornava mais profundo o sentimento da patria portugueza, affirmada conscientemente no facto da Nacionalidade, tambem a Lingua portugueza, disciplinada grammaticalmente e escripta pelos Quinhentistas, elevou-se a esse typo unitario que uniformisou a linguagem fallada com a escripta, phenomeno digno de consideração e caracteristico da evolução da lingua do seculo XVI a XIX. Causas profundas determinaram esta unificação, e não o contacto dos escriptores com o povo, nem a elevação da cultura popular, ou a retrogradação dos homens de letras. A lingua foi um sustentaculo da Nacionalidade, como o foi ainda uma outra vez de 1580 a 1640 sob a incorporação castelhana. É pela sobrevivencia e resistencia das suas linguas, que actualmente resistem as nacionalidades peninsulares.
Como um phenomeno que se continúa no tempo, a Lingua, como qualquer outra creação social tem tambem a sua historia; basta evolucionar e acompanhar a psychologia humana para merecer esse estudo. É por isso que aqui esboçamos a historia da Lingua portugueza, nos seguintes quatro periodos:
I. Elaboração popular, antes do seculo X, até á unificação nacional no seculo XIII. Comprehende as modificações dos sons celtibericos, romanos, germanos e arabes, constituindo o vocalismo e consonantismo, de que resultaram o Gallego e simultaneamente o Portuguez.—Influencia do Gallego pelo seu mais rapido desenvolvimento sobre o portuguez fallado, até que pela perda da autonomia nacional o Gallego estaciona, sendo ulteriormente influenciado pelo Portuguez. Cria-se o vocabulario vulgar com todos os materiaes de um passado historico importante.
II. Divergencia erudita, durante o seculo XIV e XV: Fazem-se numerosas traducções latino-ecclesiasticas e juridicas, ampliando o vocabulario pelos neologismos latinos, italianos e francezes. Fazem-se derivações de themas que nunca entraram na linguagem fallada, e empregam-se fórmas exclusivamente classicas. Separam-se os escriptores das relações com o povo, e da antinomia entre a linguagem fallada e a escripta apparece a necessidade de unificar a linguagem, fazendo-se sob D. João II e D. Manoel a reforma dos velhos textos dos Foraes.
III. Disciplina grammatical, estabelecida na primeira metade do seculo XVI, no momento mais activo e exclusivo da Renascença humanista ou greco-romana. Preponderam as classes cultas, a Côrte e a Egreja; Fernão de Oliveira e João de Barros explicam o portuguez pela grammatica latina, e os Jesuitas impõem o latim com exclusão completa da Grammatica nacional.
IV. Unificação da lingua fallada com a escripta, operada desde o seculo XVII a XIX. Começa o estudo da lingua pelo criterio historico em Duarte Nunes de Leão; ainda subordinado ao latim, Bluteau realisa a grande obra do Vocabulario portuguez, mas consultando sempre a linguagem fallada, de que extrae inauditas riquezas. A Arcadia de Lisboa sustenta a necessidade dos archaismos, impondo a norma classica da linguagem dos Quinhentistas, combatendo os latiniparla e os gallicistas ou o Neologismo. E como a tradição é um vinculo do individualismo nacional, n’este vasto concurso da civilisação moderna, a lingua escripta tendo de acceitar novas nomenclaturas de sciencias, de artes e de instituições, tinha de manter a sua feição ampliando-se com os recursos sempre pittorescos da linguagem fallada. O Romantismo sympathisou bastante com o portuguez archaico renovando o vocabulario medieval; mas, pelo criterio do naturalismo na Litteratura, veiu a reconhecer-se como belleza do estylo a espontaneidade e a variedade pittoresca da linguagem fallada em todo o dominio portuguez.
§ 4.—Patria e Nacionalidade
As gerações que se succedem sobre o mesmo territorio, organisando a sua synthese activa ou a Industria na coexistencia da liberdade de todos e no accordo dos interesses pelo direito, quando se elevam á synthese affectiva pelo aperfeiçoamento dos costumes de menos em menos egoistas, pela intuição do sentimento subordinam-se á noção moral, e criam pela arte e poesia a expressão da sua collectividade, que sobrevive a cada individuo no tempo. Eis o ideal de Patria, que é uma grande familia; é esse sentimento unificador que inspira os membros de uma mesma sociedade a uma acção commum, a uma impulsão progressiva, que constitue a sua vida historica de Nacionalidade. Quanto mais profundo fôr o sentimento de Patria, mais intensa é a consciencia da Nacionalidade, para resistir aos accidentes das edades. É esta relação affectiva que faz com que a Arte e a Litteratura sejam a estampa do caracter nacional.
Quando se constituiu no seculo XII o estado de Portugal, já existiam todos os rudimentos de patrias hispanicas que vieram a formar as nacionalidades peninsulares. Como porém essas nacionalidades eram violentamente agrupadas pela audacia de um chefe militar, que se tornára prestigioso na reconquista christã, foi o sentimento de patria que fez resistir a estas incorporações dos pequenos estados, revindicando as suas autonomias locaes. A formação da Nacionalidade portugueza é um facto resultante d’esse movimento de unificação e de desmembração que constitue a trama da historia da Hespanha da Edade media aos tempos modernos. Póde-se definir este phenomeno como uma oscillação, em periodico vae-vem, a cujo impulso obedeceram mesmo todas as raças que occuparam o solo hispanico.
As raças iberica, celtica, phenicia e carthagineza só chegaram aqui á unidade politica sob o dominio dos Romanos: facto que originou a illusão de attribuirem-se todas as fórmas da civilisação peninsular á influencia de um povo sem numero material para actuar directamente na modificação ethnica, como o notára Erasmo. A unidade romana, que levára dois seculos a radicar-se, dissolveu-se repentinamente, ao primeiro choque da invasão dos povos germanicos. O que se deu na Hespanha succedeu egualmente nas Gallias e na Italia, como observa Guizot: «O Imperio retirou-se d’estes paizes, e os Barbaros occuparam-os sem que a totalidade dos habitantes exercesse alguma acção, fizesse sentir em alguma cousa o seu logar nos acontecimentos, que a entregavam a tantos flagellos.» Remontamo-nos a este facto, por que a influencia romana que mais tarde apparece nas instituições politicas e nas Litteraturas, determina-se por uma reproducção artificial das monarchias avançando para a dictadura e ás quaes interessava o apoio da unidade catholica, que pela cultura latina aspirava ao imperio theocratico. Os vestigios de uma civilisação romana, estradas, aqueductos, circos, templos e inscripções lapidares, são documentos de um facto moral, a superioridade de Roma, mas attestam principalmente a existencia de uma população obreira explorada pelo vencedor. Diz Guizot, com a sua habitual segurança, que o Imperio se dissolveu por falta de uma classe media. O que existia na peninsula capaz de assimilar a cultura romana fugia para Roma, como vêmos com Quintiliano, com os Senecas, com Lucano, com Marcial. A tradição da unidade romana manteve-se pelo catholicismo, quando ainda na lucta dos Romanos da peninsula com os Carthaginezes da Africa, aqui entraram os sectarios da nova religião. Na futura constituição da unidade hespanhola, as monarchias centralistas virão a receber a sua principal força da unidade catholica, dando-lhe em paga a destruição das egrejas nacionaes ou do culto mosarabe.
Para a peninsula a historia começa propriamente no dominio romano, mas segundo Hallam: «A historia da Hespanha durante a Edade media devia começar pela dynastia dos Visigodos.»[96] Carece de explicação este asserto. Com a invasão germanica deu-se o facto contraposto á unificação realisada pelos Romanos, sendo pela desmembração a Hespanha repartida entre Alanos, Suevos e Vandalos. Foram depois os Visigodos, que submetteram estes elementos outra vez a uma unidade politica pelo regimen da força; por dissensões internas vieram do arianismo ao catholicismo, e pelo desenvolvimento da fórma monarchica, fizeram renascer os Codigos romanos, como as aristocracias clericaes e militares imitaram os costumes romanos. Assim a unidade visigoda manteve-se á custa de abusos, que embaraçavam a creação de uma classe media, sendo quebrada repentinamente por uma incursão de Arabes. Á medida que a unidade germanica se funda na imitação do Imperio romano e na intolerancia catholica, foram decahindo os homens-livres, confundindo-se com o colonato romano, e com outras classes servas, que, diante da invasão dos Arabes, reconhecem o novo dominio com uma facilidade extraordinaria, regendo-se pelos seus costumes, seguindo a sua crença, e pagando apenas uma capitação. Tal é o elemento mosarabe, em que se fórma uma activa classe media; n’ella entraram o aldius, que trabalhava nos campos e se reunia nas pobras ruraes; o mesteiral, que exercia os officios mechanicos; o burguez, que vivia nas cidades muradas, que se confederavam na Behetria; o cavalleiro-villão, em quem revivia o antigo homem-livre decahido na servidão; e ainda o clerigo adscripto á egreja local, que é como uma especie de propriedade feudal. Fóra da unificação visigotica tinham ficado pelo seu espirito separatista os Asturos, os Cantabros e os Bascos; e foram tambem estes povos os que pelo seu natural instincto autonomico reagiram contra os Arabes, sendo o primeiro germen de uma terceira desmembração.
Não conseguiram os Arabes realisar a unificação politica da Peninsula; pelo seu genio semita e pelo caracter das povoações preexistentes, desmembraram-se nos reinos de Toledo, Badajoz, Sevilha, Granada, Malaga, Almeria, Murcia, Valencia, Denia e Baleares. Pelo seu lado a reconquista do territorio hispanico inicia-se pelo impulso da unidade catholica, e pela unificação politica das Asturias e de Leão, que comprehendia a Galliza, Portugal, Castella, e da parte da Navarra o Aragão. Se por um lado a unidade catholica coadjuvava esta convergencia social, a ambição dos chefes militares, explorando o espirito separatista da autonomia local, procedia á desmembração, como se verifica na constituição independente dos reinos de Castella, de Aragão, de Portugal, dos Condados de Galliza e de Barcelona.
D’esta corrente separatista é que se desmembra o estado de Portugal, que, pelo apoio da colonisação franceza, e aproveitando-se da acção catholica da reconquista para engrandecer-se para o sul, soube tirar da visinhança do mar as condições de resistencia. A oscillação politica dos outros estados peninsulares coadjuvou a consolidação lenta da unidade nacional portugueza; Sancho o Magno unifica pela força Navarra, Castella e parte de Leão, e desmembra o novo estado em testamento pelos seus quatro filhos; tambem Affonso VII, imperador de Leão, unifica Castella, Leão, Aragão, Navarra e varios Condados, desmembrando-os depois por seus filhos; o mesmo se dá com Fernando, com a usurpação de Sancho, com todos os outros monarchas, até á unificação castelhana em Fernando e Isabel, no ultimo quartel do seculo XV, quando Portugal, tendo passado a estabelecer possessões em Africa explorava já as ilhas do Atlantico, e se occupava no empenho da passagem do Cabo Bojador. Foi esta actividade maritima que tornou Portugal mais do que um simples appendice da Hespanha, e suscitou na sua maxima intensidade o sentimento de Patria, que brilhara pela primeira vez na victoria do Salado, que se impuzera em Aljubarrota, e que agora ia resistir contra todos os planos de unificação ensaiados pelos casamentos dynasticos da Casa de Austria em Hespanha. Pelo casamento de Dom Affonso V, com Dona Joanna (a Excellente Senhora) foi elle jurado em 1471 rei de Castella e de Leão, sendo esta unificação do monarcha portuguez embaraçada por Fernando e Isabel que trabalhavam pela unificação castelhana. Os casamentos do princepe Dom Affonso e de Dom Manoel com as filhas de Fernando e Isabel; o de Carlos v com uma filha do rei Dom Manoel, foram sempre planeados no intuito da unificação de Portugal com a monarchia hespanhola. Escrevia Resende, na Miscellanea, consignando o facto:
Vimos Portugal, Castella
Quatro vezes ajuntados,
Por casamentos liados; etc.
Pelo casamento do princepe Dom João, pae de Dom Sebastião, continuou Carlos V insistindo no pensamento do unificação, empregando todos os seus meios politicos para ser jurado herdeiro de Portugal o princepe Dom Carlos seu neto. Foi este pensamento realisado, pela morte de Dom Sebastião em Africa, por um neto de Dom Manoel, o terrivel Philippe II, em 1580, quando a fidalguia portugueza desnaturada do seu sentimento de Patria entendeu que servia a causa da unidade catholica, então representada pela Casa de Austria, entregando Portugal á soberania do Demonio do Meio Dia.
Aqui deixamos tracejada em breves linhas a evolução da ideia iberica, ou da unidade monarchica da Hespanha á custa da extincção das nacionalidades peninsulares. Quando porém a politica de Richelieu procurou enfraquecer o colosso da Casa de Austria, foi aproveitado o instincto separatista no levantamento simultaneo da Catalunha e da Revolução de Portugal em 1640. Restaurou-se a nacionalidade portugueza, mas não a sua autonomia; a nova dynastia dos Braganças só tratou de fixar o seu throno, e tendo esgotado todos os meios de por casamentos na dynastia hespanhola reunir as duas corôas, entregou-se á alliança da Inglaterra, comprando-lhe o apoio com a cedencia de Bombaim e com os mais ruinosos tratados, como o de Methwen, o de 1810, emfim com essa abdicação tacita que tornou Portugal uma feitoria ingleza.
Collocada entre a Hespanha e o mar, a nacionalidade portugueza achou e comprehendeu o seu destino historico: Pelo mar vieram as armadas dos Cruzados coadjuvar a conquista de Lisboa e do Algarve; d’essa comitiva de cavalleiros fixaram-se no solo portuguez muitos barões, que eram outras tantas forças interessadas na sua independencia. A comprehensão da proximidade do mar, fez que muito cedo começassem os reis a desenvolver a marinha portuguesa; D. Sancho II mandava comprar nos estaleiros de Italia os galeões com que ia atacar os Mouros invadindo as costas do Algarve; D. Diniz chama de Italia Micer Passagno para servir de almirante portuguez, e mandava assoldadar marinheiros genovezes, que attrahia com privilegios para capitanearem as nossas caravelas; o rei D. Fernando rehabilita-se na historia pelo impulso que deu á marinha. E descontando o que ha de ficticio na lenda do Infante D. Henrique, forjada por Azurara, é certo que aproveitando-se da iniciativa dos armadores portuguezes, pela exploração do Mar Tenebroso começa esse estupendo cyclo de navegações desde Zarco a Vasco da Gama e Fernão de Magalhães, que tornaram Portugal o iniciador da civilisação moderna. A vida historica de Portugal coincide com o periodo das expedições e descobertas maritimas; então comprehendia-se a nossa situação junto do mar, reagindo contra a pressão do continente. Fomos um povo de mareantes; o sentimento de Patria n’esta phase da vida nacional, as incertezas da navegação, o acaso das descobertas, as qualidades moraes da coragem exercendo-se por um ideal superior, a riqueza fecundando a collectividade social, tudo isto se reflectiu na nossa pequena Litteratura, convergindo para produzir uma obra unica, em que mais accentuadamente foi expresso o espirito da nacionalidade, os Lusiadas, esse poema, que apesar da sua origem individual teve e terá sempre o dom de influir uma unidade sympathica. Extingam-se todos os monumentos da civilisação portugueza, todos os vestigios do nosso vasto dominio no mundo, qualquer intelligencia clara irá recompôr a vida historica dos portuguezes pelos Lusiadas, como o fizeram um naturalista, um philosopho e um litterato, Humboldt, Schlegel e Quinet. Esta alma apaixonada, tão celebrada pelo amor, será comprehendida no seu genio aventureiro nas Relações dos naufragios, nos seus romances e na architectura.
Desde que Portugal se achou collocado entre a Hespanha e a alliança ingleza, o mar foi-se tornando uma fronteira isolada; perdemos a India, e foram-se á custa do nosso espolio enriquecendo duas novas potencias colonisadoras, a Hollanda e a Inglaterra. A historia de Portugal desde 1640 até ao presente é unicamente o processo de uma longa decadencia. Cultivou-se o terror da conquista hespanhola, para nos lançarmos incondicionalmente como servos da politica, e da absorpção industrial e economica da Inglaterra. A dynastia de Bragança, contentando-se com todos os apparatos theatraes da soberania, tornou-se um kedivato da Inglaterra, que lhe dava em paga a segurança do throno. Conseguido isto, poderam os reis d’esta dynastia praticar todos os attentados contra a nacionalidade portugueza, esgotar-lhe as suas riquezas, abandonal-a á invasão inimiga, desmembral-a em interesse proprio, chamar contra ella intervenções armadas estrangeiras, por que nada d’isto lhe poderia abalar o throno. Para esta segurança bastou ir minando dia a dia o sentimento de Patria, e comprar aos fieis alliados o apoio com tratados que ou matavam as nossas industrias como o de 1810, ou que lhes entregavam os nossos territorios, como o de Gôa. O amortecimento do sentimento de Patria, deu essa decomposição dos caracteres dos homens publicos, e deixou correr a affrontosa mentira de que a dynastia dos Braganças era o penhor da autonomia de Portugal. Se a educação jesuitica, desde 1555 até 1759, foi apagando constantemente nas gerações o sentimento da patria portugueza, o final d’esta decomposição acha-se ligado aos sophismas liberaes do regimen da Carta outorgada, em mais de meio seculo de depressão moral, intellectual e social.
Foi das tendencias separatistas dos estados peninsulares que se constituiu Portugal em uma nação livre; é d’esse separatismo tornado consciente e scientifico, na fórma politica da Federação, que Portugal tirará a condição digna e estavel da sua independencia. É esse o grande futuro historico da peninsula hispanica.
Na Litteratura portugueza reflectem-se todos os aspectos da expansão da nacionalidade. Logo que acabou a conquista do territorio portuguez, a côrte de Dom Diniz, torna-se o centro de convergencia dos trovadores e jograes castelhanos, catalães, leonezes, gallegos e asturianos, e pela sua poesia lyrica Portugal exerceu uma verdadeira hegemonia na Hespanha, como o confessa Santillana. A brilhante expedição do Salado inspira a primeira pagina escripta de narrativa historica, que se encontra intercalada no Nobiliario. Manifestada a soberania da nação em 1380, pela revolução que leva ao throno D. João I, e iniciadas as descobertas maritimas, a litteratura portugueza enriquece-se com as mais importantes producções da historia por Fernão Lopes, Azurara e Ruy de Pina, que rivalisam com os mais pittorescos historiadores europeus do seculo XV. Escrevia Schlegel uma phrase que nos explica a importancia d’esta creação litteraria: «Feitos memoraveis, grandes successos e largos destinos não bastam para captivar-nos a attenção e determinar o juizo da posteridade. Para que um povo tenha este privilegio é preciso que elle possa dar conta das suas acções e dos seus destinos.» Eis um caracter nacional bem accentuado. Camões, que idealisou de um modo immortal a patria portugueza, synthetisou-a no verso em que se retratava: «N’uma mão sempre a espada, e na outra a penna.» Poetas, como Heitor da Silveira, Christovam Falcão, Camões, batem-se nos cêrcos indianos; e chronistas, como Diogo do Couto, Gaspar Corrêa, Fernão Lopes de Castanheda e Antonio Galvão, nos rapidos descansos da lucta militar e das tempestades maritimas escrevem a historia dos feitos portuguezes no Oriente. Depois da leitura da primeira Decada da Asia de João de Barros, Camões sente o valor do verdadeiro argumento para a epopêa das navegações portuguezas; e outros tentam essa empreza de glorificação nacional, como Jorge de Montemór e Pero da Costa Perestrello, embora não conseguissem realisal-a. Desde o apparecimento dos Lusiadas as suas immediatas traducções em castelhano tornaram Camões o princepe dos poetas da Hespanha; era a verdadeira unificação affectiva e esthetica das nacionalidades peninsulares; mas foram sempre os Lusiadas, nos seculos mais decahidos da nossa historia, que mantiveram nos espiritos sempre vivo o sentimento nacional. O successo da revolução de 1640 não deixou écco na litteratura seiscentista, mas os Lusiadas prepararam-no; tambem já no nosso seculo os patriotas que fugiram por 1818 das forças de Beresford que assim sustentava o protectorado inglez em Portugal, e os que em 1823 fugiram para França ás alçadas do restaurado despotismo bragantino, taes como o Morgado de Matheus, Domingos Antonio Sequeira, Bomtempo e Almeida Garrett, idealisaram por todas as fórmas da arte a obra de Camões, como o melhor estimulo para uma revivescencia nacional.
A influencia dos litteratos que no seculo XVIII vulgarisaram as ideias politicas, reflectiu-se em Portugal principalmente pelas traducções das tragedias philosophicas de Voltaire, como a Alzira, a Merope, a Semiramis e Mahomet. Já na transformação politica da nação portugueza, do absolutismo para o constitucionalismo, foram tambem os litteratos que cooperaram n’essa renovação social os que melhor comprehenderam a renovação esthetica ou sentimental do Romantismo, de que foram os iniciadores, como Garrett e Herculano. Era uma éra nova destinada a crear uma geração fecunda; porém a obliteração do sentimento de patria, nas reacções palacianas de 1842, de 1847 e 1851, e nos successivos ministerios de resistencia desde 1890, explica sufficientemente a degradação dos caracteres e o imperio das mediocridades. Todos estes phenomenos staticos são solidarios, e embora independentes da vontade individual podem ser perturbados dando em resultado todas as fórmas mais ou menos patentes da decadencia de uma civilisação.