NOTAS DE RODAPÉ:

[1] Primeiros principios, § 72.

[2] Historia da Litteratura grega, cap. I, p. 16. (Trad. Hillebrand.)

[3] Ibid., p. 20.

[4] J. J. Ampère, Grèce, Rome et Dante, onde abundam factos d’esta natureza.

[5] Journal des Savants, 1864.

[6] Émile Chasles, Hist. de la Litterature française, p. 38 e 39.

[7] Du Méril, Poésies populaires latines antérieures au XIIme siècle, p. 103 a 116.

[8] Michelet, Introduction à l’Histoire universelle, p. 61, 211 e seg. Ed. 1843.

[9] Stendhal, Histoire de la Peinture en Italie, p. 50.

[10] Ibid., p. 37.

[11] Michelet, op. cit., p. 208.

[12] Histoire nationale de la Litterature française. Paris, 1870.

[13] Mem. d’Anthropologie, t. I, p. 282.

[14] Hist. nationale de la Litterature française, p. 427.

[15] Este prospecto anthropologico acha-se desenvolvido na Patria portugueza, I, p. 55 a 128.

[16] Op. cit., p. 127.

[17] Op. cit., p. 46.

[18] Hist. de la Litterature allemande, p. 302.

[19] Traducção de Henry et Apffel, p. 9. Paris, 1839.

[20] Grimm, Traditions allemandes, trad. de L’Heretier, p. XXVI do t. I.

[21] Ibid., t. II, p. 442.

[22] Ibid., t. I, p. 201.

[23] Ibid., t. II, p. 175.

[24] Ibid., t. II, p. 135.

[25] Ibid., t. II, p. 107.

[26] Tacito, Vida de Agricola, cap. 28.

[27] Grimm, Ibid., t. I, p. 410.

[28] Historia do Direito portuguez—Os Foraes—cap. IV. Não admira que nos nossos primeiros estudos fixassemos n’esta camada ethnica todas as investigações sobre as origens tradicionaes da Litteratura portugueza.

[29] Romancero general, t. II, p. 663, col. 3, nota 24.

[30] Hist. de Portugal, t. I, p. 76.

[31] Ibid., t. III, p. 191.

[32]

Muçarabes nos llamamos,

Por que entre Arabes mezclados,

Los mandamientos sagrados

De nuestra Ley verdadera

Con valor y fé sincera

Han sido siempre guardados.

[33] Hist. de Portugal, t. III, p. 195.

[34] Ibid., p. 199.

[35] Avelar Severino, Estudos sobre os Roteamentos e Colonias agricolas.

[36] Histoire de la Peinture en Italie, p. 236.

[37] Ibid., p. 237.

[38] Justino (lib. LXIV, 3) refere que as mulheres luzitanas trabalhavam nos campos, como ainda hoje as mulheres do Minho; confirma-o o Dr. Rebello de Carvalho: «as mulheres (do Gerez) robustas e trabalhadoras, dadas ao trabalho das suas fazendas.» Notic. topographica do Gerez, p. 16. Dos costumes de Andalusia, escreve Lafuente y Alcantara: «no puedo menos de recordar la extraña impresion que me produjo no ha mucho tiempo la lectura de una obra (Layard, Discoveries in the ruins of Nineveh and Babilon), en la cual, referiendo el autor una viaje por la Armenia, describe minuciosamente el arado, los carros y otros instrumentos de labranza que usan los Curdos, admirándose mucho de que aun estuviesen en este punto casi como en los tiempos biblicos. Los carros y el arado descritos son exactamente iguales á los que se usan en Andalucia...» (Cancionero popular, t. I, p. XXXVII.)

[39] Transcrevemos as palavras de Paul Meyer, na Romania, em uma noticia bibliographica dos Canti antichi portoghesi: «Je remarque que plusieurs des pièces editées par M. Monaci (n.os III, IV, IX) sont fort analogues, pour le fonds comme par la forme, à nos anciennes ballettes (voir celles que j’ai publiées dans mes Rapports, p. 236-9), ou aux balades provençales. Je n’en conclus pas que les poésies portugaises qui ont cette forme soient imitées du français ou du provençal, mais qu’elles sont conçues d’après un type traditionel qui a dû être commun à diverses populations romanes, sans qu’on puisse déterminer chez laquelle il a été crée.» Romania, n.o 6, p. 265.

[40] Desprez, La Russie et le Slavisme (Rev. des Deux Mondes, 1850, II, 538.)

[41] «La poésie populaire et purement naturelle a des naïfvtez et graces, par où elle se compare à la principale beauté de la poésie parfaicte, selon art; comme il se veoid ez villanelles de Gascoigne et aux chansons qui n’ont cognoissance d’aulcune science, ny mesme d’escripture.» Essais, liv. I, cap. 55.

[42] Les origines de la Poésie lyrique, en France au Moyen-Age, p. 259.

[43] Ibid., p. 260.

[44] Mem. cit., p. 238. Aos cantos das mulheres de Cadiz referem-se Juvenal (Satyra IX, v. 162.) e Martial (Epigram., lib. V, n.o 78.)

[45] Fallando da musica inventada pelas mulheres do Minho, escrevia no seculo XVII o Marquez de Montebello: «Con gran destreza se exercita la musica, que es tan natural en sus moradores esta arte, que succede muchas vezes a los forasteros que passan por las calles, particularmente en las tardes del verano, parar y suspender-se, escuchando los tonos, que a coros cantan, con fugas y repeticiones las moçuelas, que para exercitar la labor de que viveu les es permitido, por tomar el fresco, hazerla en la calle. Al que ignora la musica engañan, pensando que la saben, y al que es diestro en ella, desengañan que de todas las artes es naturaleza la maior mestra.» Vida de Manoel Machado de Azevedo, cap. V, p. 44.

[46] Les origines de la Poésie lyrique, p. 445.

[47] Ibid., p. 446.

[48] Em um trabalho especial a Historia da Poesia popular portugueza, que refundimos para uma nova edição, fica tratado amplamente este problema.

[49] Op. cit., p. XVII.

[50] Op. cit., p. XVII.

[51] «Le canzoni italiane sono tutte domestiche, pochissime romanzesche, ancor meno istoriche.» Gregorovius, na Siciliana, 1861.

[52] Op. cit., t. I, p. 131. (Trad. franc.)

[53] Voyage à travers l’Amerique du Sud, t. I, p. 231.

[54] Geograph., liv. III, cap. II, § 13.

[55] These sustentada pelo Dr. Francisco Martins Sarmento na obra Os Argonautas.

[56] Nas Lendas christãs, p. 275 a 279, deixámos expostos estes factos, examinando a estructura strophica da Canção do Figueiral.

[57] Os Foraes, cap. III e IV. (1868.)

[58] Amplamente desenvolvido no livro O Povo portuguez nos seus Costumes, Crenças e Tradições.

[59] Études germaniques, p. 234.

[60] Publicado por Eduardo de la Barra, no folheto El Endecasilabo dactilico, p. 83; diz ter colligido muitos outros romances anteriores ao seculo XIII.

[61] Etienne, Histoire de la Litterature italienne, p. 537.

[62] Cancionero popular, t. I, p. L.

[63] Poesia popular española, y Mythologia y Litt. celto-hispanas, p. 444.

[64] Cantos populares do Brazil, t. II, p. 216.

[65] Ibid., n.o 69, 70 e 77 do t. I.

[66] Strabão falla dos simulacros de guerra dos Luzitanos.

[67] Historia geral de Hespanha, mandada traduzir pelo rei D. Diniz. Ed. de Coimbra (incompleta), cap. 198.

[68] Catalogo dos Bispos do Porto, p. 150. Ed. 1742.

[69] Historia de Portugal, t. III, p. 167.

[70] Memoriale Sanct., lib. III, cap. 3.—Hist. de Port., t. III, p. 174.

[71] Citado em Raczynscky, Lett., VI, App. B, p. 106.

[72] Lettres, XXVII, p. 458.

[73] Influencia del elemento indigena en la cultura de los Moros de Granada, p. 16.

[74] Ibid., p. 63.

[75] Ibid., p. 35.

[76] Op. cit., p. 36.

[77] Ibid., p. 37.

[78] Viagens na minha Terra, t. II, p. 55.

[79] Fauriel, Histoire de la Poésie provençale, t. III, p. 340.

[80] Piccola Enciclopedia indiana, p. 109.

[81] Ibid., p. 111.

[82] Hovelacque, La Linguistique, p. 256.

[83] O facto do dialecto romanico creado na Dacia por uma colonia militar de soldados italianos, gaulezes e hespanhóes, ali fixada pelo Imperio romano, não é comparavel á creação linguistica de povos com individualidade ethnica e vida nacional, como na Italia, Gallias e Hispania. É um phenomeno de hybridismo, reflectindo a desconnexão dos elementos que o formaram, como observa Gubernatis.

[84] Terrien Poncel, Des Mots et de leur Étude, § 31.

[85] Hovelacque, Linguistique, p. 245.

[86] Exemplifiquemos com algumas palavras: PAE ou PADRE: No sk. Pitri; gr. Patër; sax. Vater; got. Fadar; ant.-alt.-all. Fater, Vatar; din. e velho sax. Fader; angl. sax. Faeder; ing. Father; holl. Vader; suec. Fader; isl. Fader, Foedr; lat. Pater; v. franc. Pair; ital., hesp. Padre; port. ant. Pare; Pae, Padre; val. Pärinte; pers. Pader. (Ap. Poncel, Des Mots, § 55.)

FRADE (irmão): sk. Bhrâtar; gr. Fratër; ant.-alt.-all. Pruodar, Bruader; got. Brothar; angl. sax. Brothor, Brether; ingl. Brother; holl. Broeder; sax. Broder; din. Broder; isl. Brodur; kymr. bret. Brawd; gael. Brathair; pers. Brader; lat. Frater; v. franc. Fraire; mod. fr. Frère; ital. Fratel-(lo); sl. Brat; Fraile e Fray; Freire, Frei e Frade, no hespanhol e portuguez, significando a confraternidade religiosa. (Ibid.)

[87] Aperçu de l’Histoire des Langues neo-latines en Espagne, p. 21.

[88] Ibid., p. 37.

[89] Orig., p. 24.

[90] Grammatica portoghese, p. 6.

[91] Grammatica das Linguas romanicas, t. I, p. 65. Trad. franceza.

[92] Gramm., p. 85.

[93] Ibid., p. 81.

[94] Dialog., p. 229.—Como comprovando esta affirmação escrevia Radau, referindo-se a Malaca, ao fim de trez seculos de decadencia do nosso poder: «O idioma que ahi se falla hoje ao lado do inglez é uma especie de phenomeno philologico: é o portuguez despojado das suas terminações, e por assim dizer, reduzido a raizes. Os verbos não têm tempos nem modos, nem numeros, nem pessoas; os adjectivos perderam o feminino e o plural. Eu vai, significa eu vou, eu tenho ido, eu irei, segundo as circumstancias. Algumas palavras do malaio completam esta lingua que representa um curioso exemplo de retrocesso ao estado primitivo.» (Un Naturaliste dans l’Archipel Malais, Rev. des Deux Mondes, vol. 83, p. 679.)

[95] Obras, t. I, p. 64.

[96] Europa na Edade media, t. I, p. 347.

II
Elementos dynamicos da Litteratura

As instituições sociaes no seu funccionamento normal, transformando-se e acompanhando o progresso humano nas varias cathegorias da evolução economica, politica e moral, e do seu desenvolvimento esthetico, scientifico e philosophico, são como uma energia ou um organismo em estado dynamico. As Litteraturas como expressão da affectividade, reflectem todos os impulsos d’estes varios factores do progresso social, e modificam-se continuamente obedecendo a esse dynamismo. Costumes estaveis e opiniões conscientes criam uma sociabilidade que se alarga pelo sentimento de patria; sentimentos collectivos é que determinam pela necessidade da sua expressão a elaboração esthetica de uma litteratura e de uma arte nacional. A Edade media é o grande campo historico em que as raças barbaras da Europa, depois da ruina do Imperio romano, foram espontaneamente estabelecendo as suas bases de ordem, e organisando-se em novas nacionalidades, que se tornaram por um concurso successivo instrumentos de progresso, como continuadoras da Civilisação occidental. Essas novas nacionalidades foram remodelando os antigos poderes temporal e espiritual no Feudalismo e na Egreja; reconstituindo a familia pela elevação moral da mulher; nobilitando o trabalho pela emancipação das classes servas no proletariado que se tornou o terceiro-estado; creando as linguas romanicas, e uma arte original, sobretudo a architectura e a poesia, para exprimirem este espantoso concurso de sociabilidade. As nacionalidades modernas ao cooperarem n’este movimento, exerceram uma acção hegemonica umas sobre as outras, as mais adiantadas, como a França, sobre as mais rudimentares ou mais remotas. As Litteraturas meridionaes, franceza, italiana, hespanhola e portugueza foram a consequencia d’esta vasta organisação do Occidente, actuando sobre o desenvolvimento das linguas romanicas, e tornando-as aptas para exprimirem poeticamente os sentimentos d’esta mais ampla sociabilidade, e logicamente os pensamentos de uma mais profunda capacidade intellectual. Uma mesma noção, como observou Littré, rege a historia politica e a historia litteraria das nações occidentaes; é impossivel conhecer uma sem a outra. N’este longo periodo de transição entre o mundo antigo e a edade moderna, a Edade media apparece como uma éra de transição; n’ella se criam as condições staticas do futuro progresso humano. É na Edade media que existem todos os germens tradicionaes e estheticos, que receberam ulteriores fórmas conscientes de Arte e de Litteraturas; mas esse mesmo caracter de transição, tirou á estabilidade das instituições, das opiniões e dos interesses sociaes uma continuidade necessaria para serem idealisados lentamente e generalisarem-se como thema de obras bellas. Comte notou admiravelmente esta caracteristica da Edade media, que veiu a influir na vacilação das Litteraturas modernas; bellos germens para uma larga e fecunda elaboração esthetica, e transformações rapidas, ou crises revolucionarias na sociedade europêa alterando as sympathias pelo passado, e fazendo cahir na indifferença os themas da idealisação. O que é o caracter satyrico, predominante nas Litteraturas romanicas, como observou J. J. Ampère, senão a consequencia do desprezo dos velhos themas religiosos e heroicos, quando os dois Poderes espiritual e temporal entraram em uma dissolução no seculo XII? O que é o prurido da imitação classica das Litteraturas greco-romanas, da Renascença humanista até ao pseudo classicismo francez, senão a desorientação d’essa instabilidade social, que procura novas bases de ordem? É d’esta instabilidade que resultou o antagonismo que Frederico Schlegel definiu nas litteraturas modernas, entre os seus germens medievaes espontaneos e a auctoridade dos modelos classicos impostos pela imitação erudita. Comte penetrou a essencia do problema, deduzindo-o do phenomeno da dissolução do regimen catholico-feudal com que termina a Edade media. A evolução esthetica medieval inspirára-se de todos os elementos sociaes existentes: do militar ou feudal, na idealisação das epopêas ou Gestas heroicas; do theologico ou sacerdotal, na hymnologia, na arte architectonica, na musica e nas riquissimas lendas populares; do industrial, na coordenação dos cantos lyricos, das Festas civicas e dramaticas; e por ultimo d’esse estado mental do positividade ou de criterio de bom senso, que reage contra os preconceitos e avança para a comprehensão scientifica e philosophica, que tanto transparece nas satyras e nos contos. Alterados estes elementos sociaes, toda essa riqueza esthetica da Edade media ficou prejudicada, justamente quando o novo grupo das Linguas romanicas estava apto para dar-lhes expressão na elaboração das Litteraturas modernas occidentaes. Observemos pois o processo, em que as Litteraturas acompanham a intensa crise social e mental d’esta longa phase revolucionaria que vae do seculo XII até ao seculo XIX, reflectindo os seus principaes movimentos.

§ 1.—A Edade media

(HEGEMONIA DA FRANÇA)

A Edade media é a origem de todas as fórmas da evolução esthetica moderna; n’essa grande época de elaboração fecunda, as manifestações dos sentimentos pessoaes, domesticos e sociaes, que correspondem ao lyrismo, ao drama e á epopêa, acham na transformação da vida collectiva estimulos para se desenvolverem estes caracteres do individualismo humano. Comte esboça com nitidez esta evolução esthetica, que se alarga idealisando as emoções de cada um dos elementos sociaes que se debatem, o feudal ou militar, o theologico ou sacerdotal, o industrial ou proletario, e o positivo ou esse estado mental tendendo a julgar pela observação: «Sendo as faculdades estheticas por sua natureza, essencialmente destinadas á ideal representação sympathica dos sentimentos que caracterisam a natureza humana, pessoal, domestica ou social, o seu desabrochamento especial, seja qual fôr o ascendente que se lhe attribua, não bastava para definir na realidade a civilisação correspondente.» E continúa deduzindo da Edade media as condições para a grande expansão esthetica moderna: «um estado social tão fortemente pronunciado como o da Edade media—verdadeira fonte necessaria da evolução esthetica das sociedades modernas.—Os costumes feudaes tinham desde logo impresso aos sentimentos de independencia pessoal uma energia habitual até então desconhecida; ao mesmo tempo a vida domestica fôra sobretudo commumente embellezada e alargada, muito além do que fôra possivel aos antigos, principalmente em virtude das felizes mudanças effectuadas na condição da mulher; finalmente, a actividade collectiva, quando ella pôde então ser convenientemente exercida, deveria com certeza constituir uma fonte não menos poderosa de inspirações poeticas e artisticas, segundo a nova convergencia moral que devia apresentar o grande systema das guerras defensivas peculiar a esta memoravel phase da humanidade.»[97]

Apesar de toda esta riqueza de elementos, as Litteraturas modernas permaneceram longo tempo estacionarias, por que dependiam da creação de uma linguagem apta a exprimir um novo estado de consciencia e sentimentos apropriados a uma mais ampla sociabilidade, em que tanto cooperára o espirito da confraternidade christã. O phenomeno da creação ou derivação d’esse systema de linguas era em si já uma elaboração esthetica; basta vêr como ellas se tornam mais fecundas pelo desdobramento morphologico e semeiologico dos duplos ou vocabulos divergentes, e caminham pelos seus recursos analyticos das preposições e dos verbos auxiliares e variedades pronominaes para uma maior clareza logica. Por certo que a lingua que primeiro exprimisse toda esta riqueza poetica seria aquella que se universalisaria por vir no momento em que satisfazia uma necessidade da sociabilidade europêa, como aconteceu com o francez.

O desenvolvimento tardio das manifestações litterarias e artisticas do genio moderno é explicado por Comte pela necessidade de um trabalho prévio, e da creação das linguas modernas. Mas esta mesma elaboração é considerada pelo eminente philosopho como um producto das faculdades estheticas: A creação das Litteraturas modernas esteve estacionaria durante «uma lenta e difficil operação preliminar, cuja indispensavel realisação devia preceder, por absoluta necessidade, a expansão directa do genio poetico; comprehende-se que se trata da elaboração fundamental das linguas modernas, nas quaes, em meu entender, deve vêr-se uma primeira intervenção universal das faculdades estheticas.»[98] E mostrando como estas faculdades são as menos inertes na maior parte das intelligencias, verifica o seu exercicio no facto do aperfeiçoamento da lingua vulgar: «Esta propriedade necessaria tornou-se ainda mais evidente quando se exerceu, não na creação espontanea de uma lingua original, mas na transformação radical de uma lingua anterior, era consequencia de uma nova ordem social.» É n’este ponto que o philosopho mostra como n’esta creação das linguas romanicas, já se deu o antagonismo entre a evolução organica da Edade media e o espirito classico e auctoritario da antiguidade: «Apezar da actividade que o genio philosophico e o genio scientifico puderam manifestar na Edade media,—seguramente muito pouco contribuiram um e o outro para a fundação geral das linguas modernas. Apezar das vantagens essenciaes que cada um d’elles ulteriormente tirou da superioridade logica propria dos novos idiomas, o longo uso que ambos fizeram do latim, depois que cessára inteiramente de ser vulgar, confirma bem a repugnancia e a sua inaptidão naturaes para dirigirem a elaboração da linguagem usual. Era então a faculdades menos abstractas, menos geraes e menos eminentes, mas tambem mais intimas, mais populares e mais activas, que devia necessariamente pertencer esta indispensavel operação. Essencialmente destinada á representação universal e energica dos pensamentos e dos affectos inherentes á vida real e commum, nunca o genio esthetico pôde convenientemente fallar uma lingua morta, nem mesmo estrangeira apezar de todas as facilidades excepcionaes obtidas por habitos artificiaes.»[99] A lingua franceza exerceu um extraordinario perstigio nos espiritos: «cor parmi le monde, et est la plus detilable à lire et à oir, que nulle autre,» como affirmava Martin de Carrale, justificando-se de escrever em francez a sua Historia de Veneza; Bruneto Latini, o mestre de Dante, escreve tambem em francez, Marco Polo, Rusticiano de Pisa, Fazio d’egli Uberti, e tantos, contra o que levado pelo espirito nacionalista protestava Benvenuto de Immola.

Sonhando a independencia do territorio que fôra dado em dote a sua mulher D. Thereza, o Conde D. Henrique chamou para Portugal colonias francezas, as quaes radicando-se no solo o coadjuvassem no plano da autonomia territorial. A vinda de cavalleiros francezes ás guerras das Cruzadas, e a sua passagem por Portugal, contribuiram para a disseminação das tradições poeticas do cyclo carlingio, que percorriam a Europa, e das canções lyricas trobadorescas; assim, além da influencia ecclesiastica, se estabelecia a hegemonia franceza nos primordios da cultura portugueza, quer sob o aspecto social como sob o mental. No seu estudo Les Communes françaises en Espagne et en Portugal, escrevem Helfrich et Clermont: «quasi que não ha provincia ou districto em Hespanha, em que não penetrassem francezes, ou costumes francezes.»[100] Atouguia, Lourinhã, Villaverde, Azambuja, Cezimbra foram fundadas por colonias frankas. Reconhecendo a influencia da lingua franceza no gallego e no portuguez, continuam os mesmos auctores: «Mas a verdadeira influencia, influencia duravel e preponderante que a França exerceu na Hespanha, deve ser procurada no espirito das suas leis.—O ponto de partida, o fóco, por assim dizer da propaganda politica que emanava da França, foi a Abbadia de Cluny, uma das mais grandiosas creações do seculo X, e o centro das ideias religiosas de que mais tarde Gregorio VII se tornou o representante.—Em Hespanha os monges de Cluny fizeram supprimir o ritual gothico para o substituirem pelo ritual gallicano. Em vez da escriptura gallicana introduziram a lettra franceza, esforçando-se para que prevalecesse em Castella a legislação da Bourgogne.» Por esta influencia se estabeleceram em Portugal os monges de Cistér, que segundo Victor Le Clerc substituiram o rito isidoriano (mosarabe) pela liturgia gallicana. Esta ordem religiosa, pelo seu caracter austero anti-artistico repellindo systematicamente o bello (a ornamentação era o caracteristico do estylo arabe), teve uma forte preponderancia nos primeiros seculos da monarchia, obstando em certa fórma á manifestação do genio portuguez. As Cartas de Foral têm grandes analogias de redacção e de garantias ou frankias politicas com as das communas francezas. Na reforma judicial do tempo de D. Affonso III, os Corregedores imitam os Missi dominici dos Capitulares de Carlos Magno. Não só bispos francezes regem as sés de Portugal, como os bispos portuguezes D. Geraldo, D. Mauricio, D. Hugo, D. João Peculiar, D. Bernardo, fizeram a sua educação em França. Obedecendo ainda a esta corrente civilisadora, teve o rei D. Diniz por mestre o francez Aymeric d’Ebrard, a quem fez bispo.

Condições particulares favoreciam a França para esta hegemonia europêa; herdeira da cultura grega em Marselha, e da romana em Tolosa, tinha conservado o impulso como continuadora da Civilisação occidental. Pela região da Aquitania, propagava-se ethnicamente o seu influxo á Italia, em Hespanha, em Portugal, além das relações politicas estabelecidas desde Carlos Magno. Os dialectos da França meridional, do Languedoc, da Provença, do Delphinado, do Lyonez, do Auvergne, do Limousin e da Gasconha, facilitavam a communicação da nova poesia lyrica trobadoresca, que veiu exercitar as linguas romanicas litterariamente. Pelo seu elemento franko podia a França exercer sobre as raças germanicas da Allemanha e da Inglaterra egual hegemonia, propagando até lá as suas Gestas épicas e cantos lyricos, e a cultura mental das Universidades. Assim, pelos dialectos da França septemtrional, taes como o Normando, o Picardo, o Flamengo e o Wallon tornava-se facil e natural a communicação com populações que fallassem qualquer dialecto teutonico. Na Inglaterra essa influencia primeiramente exercida pela conquista normanda, subsiste nas leis promulgadas por Guilherme o Bastardo em lingua franceza, que era tambem obrigatoria para as resas e sermões ecclesiasticos, e ainda em 1328 eram os estudantes da Universidade de Oxford obrigados a exprimirem-se em lingua franceza. É esta importante hegemonia o que mais claramente explica o desenvolvimento de todas as Litteraturas romanicas que tiraram d’ella os germens fundamentaes com que elaboraram as suas creações estheticas, na Edade media. Para bem julgar este imponente phenomeno artistico importa conhecer o caracter social ou politico d’essa grande época historica.

Dois poderes preponderaram na reorganisação social da Europa, depois da queda do Imperio: o poder espiritual ou da Egreja catholica e o poder temporal dos chefes militares ou Feudalismo. Em relação ao mundo antigo representam estes dois Poderes um alto progresso, por que se separaram, e nunca mais, apezar das suas mutuas usurpações, conseguiram confundir-se. É este antagonismo intimo que constitue os grandes conflictos symbolisados nas Duas Espadas, ou luctas entre o Sacerdocio e o Imperio. Mas o principal phenomeno social que resultou d’este antagonismo, foi a transformação d’esses mesmos Poderes: avançando para a affirmação da intelligencia humana, a rasão procura pela critica, pela observação e experiencia um novo poder espiritual na sciencia; por outro lado, a liberdade humana firmando-se na actividade pacifica da industria e mutua regularisação dos interesses tornou cada vez menos necessaria a actividade militar e os chefes feudaes foram fatalmente cahir sob a dictadura ou concentração do poder temporal da Monarchia. Foi pois a Monarchia uma transformação coadjuvada pelas classes industriaes, agricolas e mercantis, por que se absorvia em si todos os poderes era como garantia de tornar a lei egual para todos. Comte formulou esta noção tão clara de toda essa Edade tempestuosa: «Sob qualquer aspecto que se examine o regimen proprio da Edade media, vê-se sempre emanar da separação dos dois Poderes, ou da transformação da actividade militar[101]

O Feudalismo e a Egreja organisaram-se á imitação um do outro, nas suas hierarchias, na mutua dependencia dos seus membros; n’este esforço de se confundirem, desnaturaram-se explorando a sociedade. A Egreja dominava pelo terror moral, o Feudalismo pela compressão material, ambos pelo obscurantismo. Uma tinha a servidão voluntaria (oblatos), o outro a servidão hereditaria (os da gleba); a humildade evangelica e a fidelidade do homem-ligio levavam á mesma negação da dignidade do homem. O papa comparava-se ao sol, como Gregorio VII, considerando os imperantes como a lua, corpos opacos que só podiam receber a luz ou a investidura soberana de Roma. O papado tornára os reinos da Europa seus feudatarios, cobrando alcavalas em paga das graças espirituaes. Em vez das terriveis pestes, cahiam sobre os estados as tremendas maldições e interdictos da Egreja, que absorvia em si todas as capacidades intellectuaes, tornando inconciliaveis o clericus e o laicus. Tal era a antinomia expressa pelo symbolismo medieval das Duas Cidades. É pois natural que aos primeiros lampejos da rasão, as cousas religiosas decahissem de respeito, sendo parodiadas sarcasticamente pelo povo nas festas grotescas (Missa do Asno, Festa dos Tolos), e pelos cultos nas satyras pungentes e desenvoltas dos Goliardos.

O Feudalismo, apezar de todas as eminentes qualidades da cavalleria e da heroicidade, tornava-se odioso pela intervenção arbitraria da força. Falhando-lhe os motivos da actividade militar pela estabilidade social da Europa sustadas as duas correntes de invasão do norte e do sul, o Feudalismo foi seduzido pela proclamação das guerras religiosas da Cruzada. A Egreja que temia esse rival, pela absorpção das grandes propriedades, lisongeou-lhe o instincto da guerra, soprou-lhe um delirio de fervor religioso lançando-o para a Palestina. É no momento em que o Feudalismo se dissolve, que mais deslumbrante se espalha a sua poesia heroica. Os Barões longe dos seus solares, sujeitos á prescripção adoptada do Direito romano pelos jurisconsultos ao serviço da Realeza, feridos na sua nobreza pelo registo dos Livros de Linhagens, privados dos seus direitos immemoriaes pela revogabilidade das doações regias, ouviam soar o sino da communa, que era como a trompa de Gedeão, que fazia cahir por terra os seus castellos. É o sentimento da revolta que inspira as Canções de Gesta celebrando a lucta dos Barões contra o poder monarchico; Carlos Magno foi a figura em volta da qual se centralisaram as lendas das revoltas dos grandes vassallos. N’esta dissolução do Feudalismo, e descredito do ideal guerreiro, as Gestas heroicas tornaram-se satyricas; na Italia cantava-se de preferencia as derrotas de Carlos Magno, e as infamias de seus filhos; em França decahiam na prosa novellesca, e desenvolviam-se os episodios da fabula complexa do Renard. Comte tira nitidamente as deducções d’esta crise social:

«Se o estado catholico e feudal tivesse podido persistir realmente, é indubitavel, a meus olhos, que a expansão esthetica dos seculos XII e XIII, teria adquirido pela sua eminente homogeneidade, uma importancia e uma profundidade muito superiores a tudo o que pôde existir depois, sobretudo quanto á efficacidade popular, verdadeiro criterio das bellas artes. Pela transição rapida, e muitas vezes violenta, que devia realisar-se no curso d’este grande periodo revolucionario, e para a qual a progressão industrial tão poderosamente concorreu, o genio esthetico ficou falho de direcção geral e de destino social. Entre a antiga sociabilidade moribunda e a nova muito pouco caracterisada ainda, elle não pôde bem nitidamente sentir, nem o que sobretudo devia idealisar, nem sobre que sympathias universaes devia principalmente repousar. Tal é, no fundo, a causa progressiva d’esta especialidade exclusiva, que tem até hoje caracterisado a arte moderna, como a industria e como a sciencia tambem, por falta de uma generalidade realmente preponderante. Bem longe de estar degenerado, o genio esthetico tornou-se com certeza mais extenso, mais variado e mais completo mesmo, como nunca o conseguira na antiguidade; porém, apezar das suas eminentes propriedades intrinsecas, a sua efficacidade devia então ser muito menor, em um meio social que lhe não podia offerecer nem a nitidez, nem a fixidez indispensavel para o seu livre desenvolvimento. Obrigado a reproduzir as emoções religiosas ao passo que a fé se extinguia, e a representar os costumes guerreiros a populações cada vez mais entregues a uma actividade pacifica, a sua situação radicalmente contradictoria devia prejudicar-lhe a realidade fundamental dos seus effeitos exteriores, mas tambem a das proprias impressões interiores, até aos tempos ainda remotos em que a regeneração final da humanidade virá offerecer-lhe um meio mais favoravel ao seu pleno desenvolvimento, em consequencia de uma homogeneidade e de uma estabilidade, que nunca puderam existir no mesmo gráo...»[102]

Contra o poder espiritual da Egreja, a Realeza torna-se protectora de um ensino geral nas Universidades; e contra os arbitrios feudaes estabelece os Ordenamentos e fixa a esphera dos direitos reaes pela restauração da jurisprudencia romana; os Feudos são equiparados á Emphyteuse e ao Usufructo dos romanos. Por outro lado, este começo de renascimento humanista ataca a idealisação épica medieval, á qual tambem se tornavam hostis os moralistas catholicos. É n’esta instabilidade, que caracterisa o fim da Edade media, que as linguas romanicas se acham aptas para as obras litterarias, mas os themas da idealisação religiosa e heroica acham-se insignificativos para o sentimento.

Comte explica como: «o estado social da Edade media constitue sob todos os pontos de vista, o berço necessario da grande evolução esthetica das sociedades modernas.» E observa como esta longa crise de transição historica, pela instabilidade social não deixou chegar á perfeição os themas artisticos idealisados na poesia moderna: «A expansão esthetica não faz suppôr sómente um estado social bem fortemente caracterisado para comportar uma idealisação energica: exige, além d’isso, que qualquer que fôr esse estado seja bastante estavel para permittir espontaneamente, entre o interprete e o espectador, esta intima harmonia prévia, sem a qual a acção das bellas-artes não conseguiria obter habitualmente uma plena efficacidade. Ora estas duas condições fundamentaes, naturalmente reunidas entre os antigos, nunca mais puderam sêl-o depois em um gráo sufficiente, mesmo na Edade media,...»[103] «Assim a fonte essencial d’esta singular hesitação social que caracterisa a arte moderna, e que tanto neutralisou até hoje a universalidade necessaria da sua influencia contínua, depois da sua primeira evolução tão firme, tão original e tão popular na Edade media, deve ser directamente procurada na inevitavel instabilidade do estado social correspondente, suscitando sempre novas transições successivas. Uma profunda e perseverante elaboração esthetica era certamente impossivel entre populações em que cada seculo, e algumas vezes mesmo cada geração modificava mui notavelmente a sociabilidade anterior para que cada geração determinada tivesse já essencialmente cessado antes que o poeta ou o artista podessem n’ella contrahir sufficientemente a intima penetração espontanea indispensavel á acção das bellas artes. É assim, por exemplo, que o espirito das Cruzadas, tão favoravel á mais poderosa poesia, tinha irrevogavelmente desapparecido quando as linguas modernas puderam achar-se assás formadas para permittir-lhe a plena idealisação; ao passo que entre os antigos, cada modo effectivo de sociabilidade tinha sido de tal modo duravel, que o genio esthetico podia tornar a sentir e tornar a achar, depois de muitos seculos, paixões e affectos populares essencialmente identicos áquelles de que queria representar o imperio anterior.»[104]

Conhecidos os caracteres da evolução historica da Edade media, a separação dos Poderes e a sua transformação, que ainda se exerce na determinação das fórmas compativeis do Poder espiritual e do temporal com a consciencia e liberdade do homem moderno, por um tal processo de dissolução do regimen catholico-feudal se explica a evolução e as vacillações de todas as Litteraturas romanicas. Vejamos agora os themas poeticos com que a França exerceu a hegemonia esthetica sobre essas litteraturas:

a) INFLUENCIA GALLO-ROMANA

(Lyrismo trobadoresco)

No meio da confusão das raças e das invasões dos povos, em que se elaboraram as novas instituições religiosas e politicas que deram á Europa a estabilidade, foram-se creando costumes e as relações de uma pacifica sociabilidade. É então que se quebra esse mutismo, e as novas linguas se exercem no canto, celebrando pela poesia o amor, a galanteria e a confraternidade. A partir do seculo X espalham-se pela Europa esses cantores vagabundos, sahindo da França meridional, do fóco da Provença, levando a todos os povos a boa nova do amor; póde-se dizer que as canções jogralescas vieram desenvolver pela accentuação as linguas romanicas, tornal-as communicativas e escriptas. Tambem nas linguas germanicas esta ideia de que a linguagem começa pelo canto exprime-se em Singuen e saguen, synonimos como o cantar e decir, nos romances hespanhoes. A situação da Provença favorecera esta influencia esthetica impulsiva. Durante o periodo das invasões dos barbaros do norte, permaneceu quieta a Provença, apenas alvoroçada pela passagem dos Visigodos, que se precipitaram sobre a Peninsula, e pelos Burguinhões então já polidos pela permanencia na Italia. Flor bafejada pela amenidade do meio dia da França, recebendo os restos da cultura grega e da paixão arabe, ella foi como o nectario em que se formou o mel da poesia, que encantou a primeira sociabilidade dos povos da Europa, e que determinou as fórmas do moderno lyrismo. Da lingua usada nas canções dos trovadores, dizia Raymond Vidal: «La parladura ... de Lemosin val mais per far vers et cansons et serventes.» Esta região comprehendia um centro de irradiação commum intermediaria, entre a zona oriental que formam o Auvergne e Velay, e a zona occidental de Poitou, de Saintonge e de Guienne.[105] Escreve Fortoul, fazendo notar a importancia d’este fóco de cultura trobadoresca, em que a burguezia do Limousin, do Périgord e de Quercy, rivalisava com a nobreza na composição das canções amorosas: «No Limousin, em quanto o terrivel Bertrand de Born canta as guerras, que elle ateia constantemente, Giraud de Berneil sáe da condição mais infima para fazer as mais bellas canções de amor, e Bernard de Ventadour aprende ao pé do forno de seu pae a lingua que o faz brilhar na côrte dos seus senhores, na Hespanha, na Italia; de um lado os senhores de Uisel reunem-se para compôrem as arias e os versos dos cantos que tornam a sua nobre familia celebre; do outro, os joviaes burguezes de Uzerche, Gaucelm Faydit e Hugues de la Bezelaria, espalham na sua cidade e até á Lombardia a fórma do seu espirito cortez e agradavel. O Périgord, mesmo, que com o gentilhomem Arnaud Daniel, leva ao suprasummo as difficuldades e os artificios da versificação meridional, produz operarios como Elias Cairel, bastante feliz para fazer brilhar até na Grecia o esplendor da poesia que elles aprendiam nas lojas de Sarlat.»

No seculo XI acodem os provençaes á côrte de França por occasião do casamento de Constança com Roberto; cento e cincoenta annos mais tarde, já se acham diffundidos pelo territorio francez o mesmo gosto poetico e galanteria provençalesca; usavam-se esses certames poeticos a que concorriam com as suas trovas e canções para celebrarem o casamento dos princepes, ou o gráo de cavalleria que recebiam. Em Italia, segundo Folgore de San Geminiano era do estylo: «Cantar, danzar alla provenzalesca.»[106] Dante, no Convito, queixa-se do emprego immoderado do provençal: «Questi fanne vile lo parlare italico, e prezioso quello de Provenza.» E tão precioso era este modo de fallar provençal, que no Purgatorio, Dante obedeceu á corrente da época pondo na bocca de Arnaldo Daniello trez tercetos em provençal.

Na Allemanha não era menos conhecida a lingua e a poesia provençal: no poema do Parzival, lê-se que as verdadeiras tradições foram da Provença para a Allemanha.[107] Os trovadores achavam as linguas do norte sem melodia; e Peire Vidal compara-as a ladrar de cães: «E lor parlars sembla lairar de cans.»

Vejamos a irradiação d’este lyrismo para a peninsula hispanica. O governo suave da Provença continuado na mesma familia por mais de duzentos annos, aprimorou a galanteria cortezã, que tanto distingue as canções dos seus trovadores; quando se extinguiu o herdeiro masculino, em 1092, a corôa de Provença passou para o Conde de Barcellona, pelo casamento com a unica herdeira da familia de Borgonha. Os poetas acompanharam a côrte que transpoz os Pyreneos e veiu fixar-se na Hespanha. Um facto semelhante se deu com o casamento dos Condes de Barcellona, que lhes fez pertencer o reino de Aragão. Os reis, que tambem poetisavam em lingua limosina, abriram nas suas côrtes azylo aos poetas provençaes, principalmente depois da cruzada de exterminio contra os Albigenses. O maior elogio que se póde fazer do sentimento e elevação moral dos trovadores é vêl-os abraçarem o partido dos perseguidos. A cruzada contra os Albigenses recebeu um caracter religioso para lhe imprimirem mais ferocidade, mas era a pressão brutal da França feudal e monarchica do norte contra a França meridional municipalista e semi-republicana.[108] Muitos trovadores se refugiaram na Hespanha, no tempo de Pedro II de Aragão, que morreu em 1213, defendendo a causa d’elles na batalha de Moret. Entre esses foragidos citam-se os trovadores Hugues de Saint-Cyr, Azémar le Noir, Pons Barba, Raimond de Miraval e Perdrigon.

É durante a sua educação na Galliza, que o rei Affonso o Sabio estuda a nova poesia provençal, adoptando o dialecto gallego para as suas Cantigas, por que essa linguagem se achava exercitada na expressão dos mais delicados sentimentos. Em volta de Affonso o Sabio reunem-se os trovadores mais distinctos, sendo elle o mais generoso impulsor da propagação do novo lyrismo. Conforme os centros d’onde irradiava essa poesia, assim ella tinha um caracter mais ou menos aristocratico, mais ou menos popular. Os trovadores da Gasconha, Cercamons, Marcabrun e Peire de Valeira, e por tanto predominando o elemento popular, foram conhecidos em Portugal, prevalecendo o seu gosto nas serranilhas. Marcabrun em uma das suas canções pede a Deus que vele pelo rei de Portugal. De todos os trovadores o que dá prova de ter frequentado a côrte portugueza é Peire Vidal. Estas relações cortezãs explicam-se pelos casamentos reaes; D. Sancho I foi casado com D. Dulce, filha de Raymundo Berengar, quarto conde de Provença e rei de Aragão. No Nobiliario do Conde D. Pedro citam-se muitos fidalgos com a indicação, foi trobador, e que trobou bem; pertencem a esse numero dos partidarios de Affonso III, que antes da deposição de D. Sancho II se refugiram na côrte de S. Luiz, como os Baiões, os Cogominhos, os Valladares, os Porto-Carreros. O rei D. Diniz, um dos mais fecundos e talentosos trovadores portuguezes estudou conscienciosamente a arte do gai-saber, e, affirmando a superioridade do seu ideal, escrevia: «Quero eu em maneira de Proençal—fazer agora um cantar de amor.» O grande apreço que tanto na Galliza como em Portugal se ligava á nova poesia «esta arte que mayor se llama» como escreve o Marquez de Santillana, fez com que a sua influencia se exercesse sobre toda a Hespanha: «en tanto grado, que no ha mucho tiempo quatesquier Decidores ò Trovadores destas partes, agora fuesen Castellanos, Andaluçes e de la Extremadura todas sus obras componian en lengua gallega ó portugueza[109] Esta poesia começa a florir justamente quando os nossos cavalleiros traziam accesas as almenaras dos castellos roqueiros, e faziam investidas, correrias nas terras dos sarracenos.

Na côrte de D. Sancho I e D. Affonso II os duros guerreiros neo-godos brilhavam com a graça das canções, algumas das quaes se acham no Cancioneiro da Ajuda. Em uma d’essas canções um cavalleiro allude ao grito de guerra na tomada de Santarem por D. Affonso Henriques. Ajuntára o monarcha alguns cavalleiros, indo com altas escadas atacar o castello de Santarem; era ao quarto de alva e as roldas dormitavam; o rei dividiu a sua comitiva em dois troços, um que investia pelo lado do monte Alphão, e outro que atacava pelas bandas da ribeira ou parte baixa (sesserigo). Ao lançar as escadas, o ruido despertou as roldas do somno, tocaram alarme, e a mourisma deu de repente sobre os poucos cavalleiros que confiavam no seu ardil. N’aquelle transe desesperado foi preciso levar tudo á viva força; os poucos portuguezes venceram. D’ahi o grito de guerra conservado na canção:

Ay Sentirigo! ay Sentirigo,

Al e Alphão e al sesserigo.

Era dever de todo o homem de guerra, como bom cavalleiro, saber brandir uma espada e discretear galantemente com damas; mas n’estes tempos de luctas como a da facção que depoz D. Sancho II, prevalecia principalmente a satyra, como se vê nas coplas contra os Alcaides que entregaram como não deviam os castellos a D. Affonso III. Fallando do Cancioneiro da Ajuda (publicado por lord Stuart em 1823), Frédéric Diez caracterisava as obras d’esta collecção e a época a que pertence: «Se as fórmas poeticas são rigorosamente as dos trovadores, de longe em longe accusam a nacionalidade, mas não deixam suppôr o conhecimento familiar da fórma provençal. Os versos de dez syllabas predominam nas estrophes, que se correspondem pela rima... Ha uma analogia surprehendente na contextura, e em nenhuma das canções pudemos descobrir vestigios de traducção.»[110] Esta caracteristica de metro define-nos a influencia limosina, que seguiram os nossos trovadores fidalgos. Ainda não imperava a galanteria e o requinte da sensibilidade; só começou com a imitação directa da Provença, na côrte de Dom Diniz, que empregou todos os recursos da arte para exprimir a paixão. As canções provençalescas ou em maneira de proençal dobravam-se a todos os caprichos de uma poetica artificiosa, aos segredos do leixapren e do mansobre, ás exigencias da rima encadeada, aos córtes do verso nos seus hemistichios, para corresponderem ás finas allegorias do sentimento. Depois do direito feudal ter aberto um abysmo inaccessivel entre a castellã e o servo, a canção trobadoresca veiu estabelecer a egualdade perante o amor, conforme a bella phrase de Quinet. O artificio provençalesco não consistia apenas em alardear a plasticidade da lingua rude amoldando-se a todos os requebros, em achar (trouver) os melhores recursos da rima e das combinações estrophicas, mas principalmente em velar ou encobrir o sentimento que fazia com que o apaixonado cantor erguesse os olhos para a castellã orgulhosa. Um compassivo olhar, um leve sorriso precipitava o scismador em um enlevo ou melancholia eterna, em uma louca inspiração. Todas as emoções estão ali descriptas: o sentimento da propria inferioridade, o olhar generoso que o levantou da terra, a anesthesia das dores por um simples relance descuidado, o receio ou terror de que adivinhem por quem é a absorpção do seu espirito, que o traz de longe, a esperança de a vêr mais de perto e a lembrança angustiosa de uma ausencia forçada, tudo isto vibra na canção provençalesca. Avançava-se para o idealismo neo-platonico, que ia suscitar o superior lyrismo italiano.

No Cancioneiro da Ajuda, imita-se toda essa ordem de sentimentos; não só a lingua, como as fórmas poeticas notadas por Diez, como a natureza dos sentimentos, provam a antiguidade e o valor d’este monumento. Os nossos trovadores tambem se apaixonam por castellãs, sem attenderem ao abysmo que os separava; João Soares de Paiva morreu em Galliza por amores de uma infanta. Na côrte de D. Diniz impera já esta metaphysica amorosa, que elle idealisa artificialmente, fallando do temor do seu segredo amoroso, apezar de ter numerosos bastardos. E levado pela necessidade de variar e vivificar com realidade as fórmas poeticas, é que o rei D. Diniz, seguindo o estylo das pastorellas da eschola de Gasconha, imita as serranilhas populares portuguezas e gallegas, dando assim protecção a todos os jograes das côrtes de Hespanha, que vinham a Portugal como ao centro da mais activa elaboração poetica do seculo XIV. Pela poesia trobadoresca se fazia a unificação affectiva dos Estados livres peninsulares, e Portugal, como o confessa o erudito Marquez de Santillana, exerceu então pela primeira vez a sua hegemonia. Durante este periodo a poesia provençal recebeu uma transformação profunda na sua essencia; suffocado o esplendor da Provença pela terrivel cruzada contra os Albigenses, esse lyrismo desceu ás classes populares, d’onde primeiro sahira (son veill antic), convertendo-se-lhe agora em um mister lucrativo (os jocistae, joculatores ou jograes, e os ministralles ou menestreis). O jogral substituia o desinteressado trovador: ia de terra em terra acompanhando o cantor apaixonado, apanhando de memoria as canções que lhe ouvia, e repetindo-as depois nas praças, ou nas côrtes, recebendo da multidão a pequena moeda (a poitevine) e da fidalguia pannos e cintos. É frequente encontrarem-se protestos dos trovadores contra esta exploração jogralesca; Astorga, no seu Poema de Alexandre, tem medo que o tomem por um jogral, e diz: «Mester trago fermoso, no es de ioglaria.» Em uma das suas canções o rei Dom Diniz confessa que celebra os seus amores sem se parecer em nada com esses que «troban no tempo da frol.» Mas a invasão jogralesca era uma consequencia da vitalidade esthetica acordada na alma moderna. No Cancioneiro da Vaticana encontram-se a par de reis, de infantes e fidalgos, numerosos jograes; taes são Affonso Gomes jograr de Sarria, Ayres Paes jograr, Diogo Pezelho jograr, Lopo jograr, que se destacam tambem d’entre clerigos e burguezes. A casuistica amorosa vae encontrar nas fórmas jogralescas moldadas sobre o typo da canção popular, extraordinarias bellezas de simplicidade natural e de riquezas tradicionaes. Assim no momento em que o lyrismo moderno ia receber na Italia a sua fórma litteraria, tocava as fontes vivas da tradição poetica occidental.

O apparecimento da poesia dos trovadores e a sua rapida diffusão nas Litteraturas romanicas e germanicas, só se torna claro pelo conhecimento de um fundo commum tradicional, que já está achado. Circumstancias accidentaes, como a commoção social provocada pelas Cruzadas, n’isso influiram tambem, despertando a curiosidade das classes elevadas, que fixaram essa poesia na fórma escripta. Em quanto duraram as expedições da Palestina, (1095 a 1290) a poesia trobadoresca attingiu o seu maximo esplendor; n’este periodo expandia-se a vida burgueza ou propriamente a classe media, que se tornou a base estavel da sociedade moderna. Terminadas as Cruzadas, e tendo por tanto a Realeza de concentrar em si a dictadura pela decadencia necessaria do poder senhorial, envolveu tambem n’essa absorpção muitas garantias locaes. A França do norte abafando o municipalismo do sul, a poesia provençal extinguiu-se, voltou outra vez para o coração do povo, levando-a os jograes por todas as côrtes da Europa. Podem-se determinar trez periodos a esta efflorescencia lyrica:

Tradição e Nacionalidade, em que a poesia é conservada oralmente, nos antigos cantos populares gaulezes, no centro ethnico da Aquitania, com relações intimas com as pastorellas italianas, com as baladas provençaes e com as serranilhas portuguezas. O caracter de nacionalidade chegou a accentuar-se no uso que d’esta poesia fizeram os trovadores, defendendo a liberdade municipal e proclamando a revolta.

A sua diffusão penetrou como corrente de distincção aristocratica em todas as côrtes da Europa, chegando até á Inglaterra e á Allemanha; porém no Meio Dia volvia outra vez para o povo, e pela exploração jogralesca se aproximava por simplificação do primitivo typo tradicional.

Uso e imitação, nos divertimentos litterarios palacianos; os proprios monarchas a reproduziam e a protegiam como uma distracção culta, como um pretexto de galanteria. Pela necessidade de renovar os artificios da metrica trobadoresca, de que se havia codificado numerosas regras, o desejo da novidade levou á imitação de todos os segredos technicos e por fim á renovação inconsciente do typo tradicional, que transparece na fórma litteraria dos Cancioneiros aristocraticos.

Na Italia foi outra a corrente; da casuistica sentimental dos trovadores o genio italiano transitou para um desenvolvimento subjectivo, fecundando-o pela abstracção philosophica; as Litteraturas romanicas pela influencia do dolce stil nuovo fixaram sobre os rudimentos trobadorescos as fórmas definitivas do lyrismo moderno.

b) INFLUENCIA GALLO-FRANKA

(Gestas ou Epopêas medievaes)

As condições de ordem e estabilidade na Europa datam do apparecimento e acção historica de Carlos Magno; sustaram-se as invasões, e o Feudalismo foi gradualmente cahindo diante da crescente dictadura monarchica. É essa lucta dos grandes vassallos contra a realeza, que se torna o thema fundamental das Epopêas ou Canções de Gesta, que se produziram depois da completa fusão do elemento gallo-franko, como synthese da nova nacionalidade—a França. O typo lendario de Carlos Magno centralisou na imaginação poetica esta lucta da realeza, que durou seculos. A fórma cyclica d’essas composições narrativas e a independencia e superioridade politica do franko, bem mostram que essas epopêas, ainda não totalmente individuaes, são as Cantilenas germanicas agrupadas em torno de um mesmo vulto historico, pelo syncretismo dos factos e das épocas, que é um dos processos espontaneos da tradição. Segundo os medievistas Paulin Paris e Léon Gautier, nas Gestas francezas é germanica a ideia da guerra, da realeza, do feudalismo, dos symbolos juridicos, da mulher e da divindade. Os textos de Tacito e de Eghinard provam a primitiva commoção historica do modo mais completo, e ao mesmo tempo a persistencia das Cantilenas germanicas durante a primeira raça, cantadas em lingua vulgar, como vêmos pelo principal monumento, a Vie de Saint Faron, do seculo VII. A figura imponente de Carlos Magno syncretisando em si todas as individualidades heroicas, que se manifestaram ainda depois d’elle, veiu imprimir a essas Cantilenas um caracter historico, dar-lhes um agrupamento cyclico e uma expressão nacional.

As primeiras Gestas que circularam na Europa foram a Chanson de Roland, a de Girard de Rousillon, a de Ogier le Danois, a de Raoul de Cambrais e de Aliscamps. Este periodo de assombrosa elaboração épica deu-se do principio do seculo XII até 1328. Estas datas são capitaes para nós, por que abrangem o periodo organico da nacionalidade portugueza. Era impossivel que n’estes annos de aspiração autonomica, em que o conde francez D. Henrique imitava as instituições carlingias, como os Missi dominici, em que buscára apoiar-se em colonias frankas, em que os Bispos, que representavam então o maximo poder espiritual e eram os defensores civitatum, vinham tambem de França, impossivel seria que não chegasse a Portugal essa floração poetica das Gestas heroicas. O nome de Gesta e Estorea, significando a poesia épica na Peninsula, e a referencia á maestria de Francia, indicam-nos, que se deu uma intercorrencia da poesia narrativa dos troveiros com a subjectiva dos trovadores. Emquanto estes cantavam nas côrtes e solares feudaes, os troveiros recitavam nas praças, d’onde muitas vezes a auctoridade os repellia ou obrigava a pagarem um imposto.

As tradições épicas do norte da França espalharam-se em Portugal no tempo de D. Affonso Henriques, pela passagem dos cavalleiros que iam por mar á Palestina. Esses cavalleiros, ávidos de aventuras heroicas, o ajudaram a conquistar Lisboa, e no descanso do arraial se desenfadavam com as suas tradições guerreiras.[111] Na Chronica Gothorum, as phrases referentes a D. Affonso Henriques clarus ingenio e lingua eruditus, coadjuvam em parte a tradição de que este primeiro rei portuguez fôra poeta. A sua côrte, apezar dos continuos trabalhos da guerra, foi abrilhantada pelos costumes da galanteria provençal; casado com uma princeza italiana (Mahaut) não nos admira que as canções de Sordello de Mantua e de Bonifacio Calvo fossem conhecidas em Portugal. Mas sobretudo as suas preferencias deviam de ser pelos cantos épicos; as epopêas heroicas desenvolvidas pelo genio francez não puderam encontrar na Peninsula condições para se implantarem, por lhe faltarem uma classe feudal independentemente organisada, e por ser excessiva a admiração pela cultura latina, que se tornou uma distincção na aristocracia e alto clero.

A tradição épica da Edade media não foi extranha a Portugal; na Chronica de Turpin, acha-se citado o nome de Portugal.[112] Infeliz lembrança teve o pseudo-chronista, por que pretendendo dar-se como contemporaneo de Carlos Magno, a designação Portugal desconhecida em todos os documentos anteriores a 1069, descobre o intuito da falsificação.[113] Segundo Fauriel, na gesta de Fier-à-bras ha o retrato allegorico da rainha D. Thereza.

Na analyse do poema, escreve: «Creio entrevêr em algumas particularidades e no desfecho do romance de Fierabras, uma allusão romanesca á creação do reino de Portugal. Affonso VI, rei de Castella, conquistou em 1093 aos Arabes uma parte dos territorios entre o Douro e o Tejo, e d’elles fez um Condado, que deu com uma de suas filhas a Henrique de Borgonha, joven e valente senhor que viera em seu auxilio d’além dos Pyreneos; este Condado chamado Porto-Cale, do nome da sua capital, engrandecido pelas conquistas do seu primeiro senhor, veiu a ser o reino de Portugal. Entre a fundação d’este Reino e o desenlace do Fierabras, não ha, é verdade, relação alguma de datas ou de pessoas; mas cumpre considerar, que para os romancistas dos seculos XII e XIII, toda a historia tanto nacional como estrangeira, se reduz a algumas tradições cada vez mais alteradas e falsificadas, sobre as quaes bordaram sem escrupulo, sem outro designio mais do que o de exaltar as imaginações contemporaneas. Fazer de Portugal um reino de Agramene; de um Henrique um Gui de Borgonha; de uma filha de Affonso VI uma princeza sarracena convertida; transportar para o VIII seculo um acontecimento do seculo XI, tudo isto é quasi historico para qualquer d’estes romancistas.»[114] O caracter altivo de D. Thereza, tal como se conserva na historia, está em harmonia com o retrato de Floripar feito no poema; isto comprova o juizo de Fauriel: «que não ha epopêa primitiva que não seja por algum ponto a expressão de um acontecimento ou de uma ideia.»

Em uma citação do Livro de Linhagens, em que se allude aos Doze Pares, encontra-se o vestigio das Gestas francezas: «muitos ricos-homeens que iam para lhes acorrerem disseram a elrey dom Fernando, que nunca virom cavalleiros nem ouviram falar que tam soffredores fossem e pozeram-nos em par dos Doze Pares[115] A creação dos Doze Pares apparece nas mais antigas Canções de gesta franceza, taes como a Chanson de Roland, a Viagem a Jerusalem e em Renaud de Montauban.[116] O texto em que se faz a referencia aos Doze Pares é do principio do seculo XIV; por tanto é natural, que qualquer d’essas trez epopêas fosse conhecida em Portugal. Nos Karlamagnus Saga, Gui de Bourgogne, Otinel, Fierabras, Simon de Pouille, Ogier le Danois, Huon de Bourdeaux, Galien Restoré, cita-se a instituição dos Doze Pares; estes poemas como mais modernos pouco teriam influido para a vulgarisação da lenda carlingia em Portugal, em um tempo em que começava o perstigio dos poemas da Tavola-Redonda.

Na sepultura do cavalleiro Rodrigo Sanches, morto na Lide do Porto em 1245, batendo-se a favor de D. Sancho II, gravaram-lhe um epitaphio, comparando-o a Roland:

Belliger insignis fuit hic cunctis et amandus,

Laudibus ex dignis, alter fuit hic Rotulandus.[117]

Eghinard escrevera este nome Hruodland, e Radulphus Tortarius Rutlandus, e acha-se na canção de Guerau de Cabrera na fórma Rotlon (Roldão na linguagem popular portugueza, como synonimo de valentão.) Ainda na côrte de D. Diniz eram lembradas as Gestas carlingias, como se vê pela canção de João Baveca:

e ora per Roncesvales passou

e tornou-se do Poio de Roldan.

(Canc. Vat., n.o 1066.)

Reflectiu-se este cyclo épico nos cantos populares portuguezes; nos romances que fallam da derrota de Roncesvalles, allude-se a uma expressão franceza: «Nos portos de mal passar.»[118] N’este sentido de desfiladeiro, fauce entre dous montes, significando a passagem dos Pyreneos, usa-a a Chronica de Turpin, e vem no Roman de Garin: «As ports d’Espagne s’en est entrez Roland.» A influencia popular conhece-se principalmente como foram aportuguezados os nomes dos heróes épicos francezes: Roland é Roldão, Renaud de Montauban, Reinaldo de Montalvão; Ogier le Danois, Dones Ogeiro e Ogeiro o Dão; Olivier, Oliveiros; Bauduin de Vannes, Valdevinos (na giria popular, vagabundo, tunante); Richer, Ricardo; Garin de Monglave, Garinos; Naimes le Bavarois, Duque Maime; Gaifier de Bordeaux, Gaifeiros; Didier, Dirlos; Huon, Dudão; Eghinard, Eginaldo, Gerinaldo e Reginaldo; Aude, a namorada de Roland, Alda; Floripar, Floripes; Fierabras, Ferrabraz (valentão roncador).

O rei D. Affonso III, que residira quando princepe alguns annos na côrte de França, imitou na sua côrte as festas poeticas que lá admirára. Nos festejos que se fizeram em Melun, quando D. Affonso foi armado cavalleiro, o rei S. Luiz deu cincoenta libras aos menestreis que a elles assistiram; vinte menestreis se acham inscriptos nos Documentos para a historia de França.[119] É evidente que a influencia da poesia franceza se havia de reflectir na côrte de Portugal; assim no Regimento da Casa real manda D. Affonso III, que estejam sempre trez jograes ao serviço da côrte, e prescreve o numero dos jograes e dos segreis que venham de longe aos quaes se dará agasalho. As Canções de Gesta caminhavam para a inevitavel decadencia, e este mesmo reflexo vêmos em Portugal na parodia feita por D. Affonso Lopes de Baião de uma Gesta franceza em uma metrificação de doze syllabas, em longas tiradas monorrimas, e com a celebre neuma AOI (seculorum amen) com que terminavam as estrophes longas da Chanson de Roland. No Cancioneiro da Vaticana foi colligida essa composição singular da Gesta de Maldizer, em que o fidalgo Baião, da côrte de D. Affonso III, ridicularisa um cavalleiro Dom Velpelho (de Vulpecula, a raposa), talvez um dos vencidos do partido de D. Sancho II. Aqui o que nos interessa é a prova clara do conhecimento da fórma litteraria das Canções de Gesta.

Na descripção da batalha do Salado, de Rodrigo Yanes, alludem-se aos personagens do cyclo franko:

Nin fue mejor cavallero

El arçobispo Don Turpin,

Ni el cortés Olivero,

Ni el Roldan paladin.

(St. 1739.)

A çanfonha era o instrumento que acompanhava a recitação das Gestas; o seu uso, peculiar aos primeiros seculos da monarchia, e ainda hoje popular na Galliza, leva-nos a inferir que tambem as Gestas seriam cantadas por esse tempo. Em um manuscripto da Edade media, descreve-se a Çanfonha: «Chama-se em França Cymphonie um instrumento que os cegos tocam cantando a Canção de Gesta, e tem este bello instrumento doce som, e mui agradavel de ouvir.»[120] Quando o rei D. Pedro I prohibiu os instrumentos musicos que não fossem a trompa ou a corneta, para não se effeminarem os animos, seguia as disposições da Egreja exaradas nas Summas do seculo XII. Escrevia Guillaume Perrauld, na Summa Vitiis: «O ouvir Canções é muito para se temer... Tambem são muito para se temer os instrumentos musicos, pois tocam e amolecem os corações humanos.»[121] Em uma Summa de Penitencia prega-se a maior complacencia para os jograes que cantam Canções de Gesta, e condemnam-se os que cantam cantilenas lascivas. Tambem nas Leis de Partidas, que estavam em vigor em Portugal, prohibe-se a todo o bom cavalleiro o ouvir canções quando ellas não forem de feitos de armas.

No seculo XV as Gestas dissolviam-se em chronicas historicas; ainda assim, acha-se citada por Azurara a Gesta sobre o Duque Jehan de Lanson, «ca sem embargo de se em todollos regnos fazerem geeraaes cronicas dos rex d’elles, nom se deixa porem de screver apartadamente os feitos dalguns seus vassalos, quando o grandor he assy natural de que se com razom deve fazer apartada scriptura; assy como se fez em França do duc Joham de Lançam[122] Azurara alludia a uma Gesta carolina do seculo XIII pensando que se referia a uma chronica; o mesmo succedeu a Philippe de Mouskes, na sua Chronica rimada, que resumiu essa gesta attribuindo-lhe valor historico. Foi talvez Portugal o unico paiz que ouviu fallar da Chanson de Jehan de Lanson, apezar do que d’ella diz Léon Gautier: «Poucas canções ha que tenham tido popularidade menos vasta e menos duravel. As nações estrangeiras não parecem tel-a conhecido, e não existe d’ella versão em prosa.»[123] Mas não bastou a Azurara o cahir no mesmo erro de Philippe de Mouskes; comparou esta Gesta que idealisa um traidor, e em que é Carlos Magno exposto ao mais pungente sarcasmo, á bella Chronica anonyma do Condestavel, identificando-o com o typo do heroe-santo.

Não admira; no seculo XV começava o perstigio da erudição latina, e o desprezo pela Edade media; e na época da Renascença os heróes das Gestas são conhecidos em Portugal através da corrente italiana, pelos poemas de Pulci, Boiardo e Ariosto. Esta influencia italiana é evidente em Sá de Miranda, que cita Turpin, Roland e Ogier le Danois, pela leitura d’esses poetas:

Grandes cosas se cuentan de como a escuras

D’aquelles tiempos de vista Turpino

A estranos cuentos orejas seguras.

El hadado Roldan, Reynaldo, Dino,

Que le fuera fortuna mas cortés

De sus riquezas, un tal Paladino.

Rogel, del ingenioso ferrarez,

Tanto alabado en tan sabroso estillo,

Astolpho aventurero y vano ingles.

Camões tambem conhecia esse cyclo épico das Gestas francezas através da influencia italiana, desprezando diante da sublimidade dos factos historicos dos portuguezes as façanhas do vão Rogeiro,—«E Orlando, inda que fôra verdadeiro.» Era corrente entre os eruditos da Renascença, como vêmos em Luis Vives, desprezar os poemas da Edade media.

A propria França chegára ao esquecimento total das Gestas, depois de uma decadencia successiva, já pelo agrupamento cyclico, já pelo syncretismo com os poemas de aventuras, e finalmente pela sua dissolução em prosa com pretenções a chronica. D’onde proveiu esta decadencia, não já entre os povos romanicos, mas n’aquella mesma nação que elaborou toda a poesia das Gestas? Comte viu claro, quando esboçou a dissolução do regimen catholico-feudal, e explicou o desprezo em que ficaram os themas poeticos de uma edade que desapparecia; o juizo do philosopho foi mais tarde confirmado pelos eruditos. D’Héricault, no seu Essai sur l’origine de l’Épopée française, accentua a mesma causa: «A nossa epopêa nacional fôra engendrada por uma série de factos, de personagens de uma ordem particular, que tinha desapparecido no seculo XIII. As circumstancias politicas, o estado da sociedade, as tendencias das ideias e dos costumes, a fusão das raças, as victorias alcançadas pelo espirito do catholicismo sobre os restos da barbarie, todo o conjuncto da vida da França tinha tirado a estes factos e a estas individualidades o seu vivo interesse. Já não tinham mais razão de ser, não eram comprehendidos e não podiam por consequencia vir renovar incessantemente a fonte da poesia a que elles tinham dado nascimento.» E mostrando como um outro estado de consciencia, em uma nova éra social, exigia outras fórmas de idealisação, continúa o mesmo critico: «Mas, á medida que se afastavam d’este periodo barbaro, os caracteres humanisaram-se, os espiritos educados em outro meio social, admittiram outras bellezas. Do seu lado, a memoria esquecia a significação precisa d’estes acontecimentos de outra edade. O poema puramente militar teve de desapparecer e com elle a invenção ingenua dos typos unicamente guerreiros, dos caracteres selvagens e grandiosos, personalidades simples, sem meias tintas e sem flexibilidade. As feridas, as ondas de sangue, todas as peripecias de uma batalha ou de um combate singular tornavam-se insufficientes emquanto a interesse, desde que já se não via nos heroes em acção mais do que titeres de ferro.» Por esta falta de interesse, consequencia de um outro estado social, as Gestas guerreiras foram substituidas pelos poemas das aventuras de amor. D’Héricault explica o advento d’esta corrente poetica: «Afastando-se dos factos creadores da poesia, e não ligando seriedade ao papel de chronistas, os troveiros viam-se desapossados d’esta fórma naturalmente dramatica, d’esta acção ingenuamente interessante, d’esta marcha viva que a Canção de Gesta devia á sua preoccupação de imitar os aspectos da historia. O cyclo carlingio estava então exposto a perder o sôpro épico, e accumulava, para o substituir, logares communs, declamações que lhe eram indicadas pelo seu genero, duello entre guerreiros, injurias contra Carlos Magno, exposição da doutrina christã a um sarraceno, confusão geral entre christãos e pagãos, etc. Foi n’este declive que o valente Rei Arthur e os seus cavalleiros vieram suster os guerreiros do Imperador da branca barba. O cyclo da Tavola Redonda acordou a imaginação dos troveiros francezes, e lançou a epopêa em uma via nova, em que a dirigiu impondo-lhe as suas sympathias, a sua arte e as suas fórmulas. Foi principalmente por meio d’estes dois perstigios de predilecção—a mulher e o maravilhoso, que elle revolucionou o nosso genio, triumphou da Canção de Gesta e poz em debandada os Doze Pares.—A poesia do amor tendia assim a substituir a poesia da guerra.»[124]

Quando em França se dava esta decadencia das epopêas feudaes, muito mais profunda foi ella entre os povos que tiveram heróes nacionaes a idealisar, como o Cid em Hespanha, ou que desconheceram o feudalismo, como a Italia e Portugal. Os poemas de amor exerceram uma acção profunda nos costumes das classes elevadas, foram lidos com encanto e deram origem ás Novellas cavalheirescas, que luctaram com vantagem contra a corrente classica.

c) INFLUENCIA GALLO-BRETÃ

(Poemas e Novellas da Tavola Redonda)

A grande raça celtica que occupou todo o Occidente, possuia como as outras raças com que se fusionou, profundos elementos de poesia tradicional. Porém esta poesia só nos apresenta vestigios depois do seculo VI, em um pequeno grupo celtico, que escapou á conquista e absorpção dos Romanos e dos Saxões, e até certo ponto resistiu ás doutrinas do christianismo. Esse grupo celtico, que veiu enriquecer as litteraturas da Europa com novas tradições poeticas, que seduziram todas as imaginações depois do seculo XII com as encantadoras ficções da Tavola Redonda e do Santo Graal, compõe-se dos habitantes do paiz de Galles ou Cambria e da peninsula de Cornwall (os antigos Kymris), dos da Bretanha franceza (a Armorica), dos Gaëls do norte da Escossia, e ainda da Irlanda. Do isolamento que este grupo celtico conservou diante da conflagração dos povos desde as conquistas dos Romanos até ao fim das invasões germanicas, escreve Renan: «Nunca familia humana viveu mais isolada do mundo e mais pura de toda a mestiçagem estrangeira. Confinada pela conquista em ilhas e peninsulas esquecidas, ella oppoz uma barreira inaccessivel ás influencias exteriores; tirou tudo de si propria, e viveu com os seus recursos. D’aqui esta potente individualidade, este odio ao estrangeiro, que até hoje, tem accentuado o traço caracteristico dos povos celticos. A civilisação de Roma apenas os attingiu, deixando entre elles poucos vestigios. A invasão germanica repelliu-os diante de si, mas não os penetrou.»[125] É natural que o elemento kymrico, na Bretanha insular, conservasse mais intensa a memoria das suas tradições; e que a Bretanha continental, ou a Armorica, as renovasse mais tarde, pela relação entre os dois paizes, dando-lhes esse relêvo poetico com que deslumbraram a Europa no seculo XII. Dois periodos de elaboração se destacam historicamente; um, que começa no seculo VI da nossa éra, quando se vulgarisam os cantos dos bardos Taliesin, Aneurin e Liwarc’h-Hen, e se escutam as melodias da chrota britana, os Lais amorosos, e os Contos maravilhosos do Mabinogion; o outro é principalmente litterario, idealisando as aventuras guerreiras de Arthur, os amores de Tristão, de Lancelot, de Merlin, creando por effeito da propaganda christã o cyclo dos poemas do Santo Graal. Se o elemento tradicional foi principalmente elaborado na Bretanha insular, na Bretanha franceza é que esses themas tiveram o seu desenvolvimento artistico, espalhando-se pelos menestreis normandos por toda a Europa. Renan define essa primeira época de revivescencia poetica da raça celtica: «O sexto seculo foi para as raças celticas esse momento poetico do despertar, e da sua primeira actividade. O christianismo, recente ainda entre ellas, não tinha completamente abafado o culto nacional; o druidismo defende-se em suas escholas e nos seus logares consagrados; a lucta com o estrangeiro, sem a qual um povo nunca chega á plena consciencia de si proprio, attinge o seu mais alto gráo de vivacidade.—O sexto seculo, é effectivamente, para os povos bretãos um seculo perfeitamente historico.»[126] Basta-nos fixar esta época para determinar desde quando se espalham os cantos lyricos bretãos, que adquiriram um certo interesse até ao ponto de se desenvolverem em poemas de aventuras. As melodias e instrumentos musicos bretãos, como a rhota britana, citada nos versos de Venancio Fortunato, são levados por todas as côrtes da Europa por cantores vagabundos, desde o seculo VI até ao XII seculo. Falla-se no poema de Guillaume au Court-nez, no prazer de ouvir cantos bretãos entre os prazeres do vinho e da caça. Eram esses cantos os Lais, principalmente agradaveis ás mulheres, como o revela Denys Pyramus: «Lais soulent as dames plaire.» Juntamente se espalhavam os cantos narrativos, a que se chamava Bairtni, designação que se encontra no Arcipreste de Hita como nome de um instrumento musico, e que o rei Dom Duarte, no Leal Conselheiro emprega como o narrador de contos: «em tal maneira que não pareça que os albardões tem mais sabedoria que nós, por que elles nom se trabalhom d’arremedar as estorias melhores, mas que lhe som mais convenientes.»[127] A palavra albardeiro, empregada por Gil Vicente como exprimindo a sua vêa comica parece ligar-se a esta funcção narrativa; assim como as palavras Fatiste no tempo de Francisco I significando compositor «de jeux et novalités»[128] e o portuguez Fadista, cantor de narrativas, se ligam ao nome de Faith, dado na Irlanda aos cantores ou vates. O bardismo, perdido já o seu caracter sacerdotal, conservou-se como um mister de cantores vagabundos: «instituição que atravessou seculos e tornou-se uma feição caracteristica dos costumes gaulezes e irlandezes da Edade media,»[129] como o affirma Belloguet. Ao colligir as leis consuetudinarias cambrianas, no seculo X, estatuia Hoel o Bom ácerca d’estes Bardos: «Quando a rainha quizer ouvir um canto, o bardo domestico será obrigado a cantar um á sua escolha, mas em voz baixa, ao ouvido para que a côrte não seja perturbada.» Com o nome de Segrel (de Secretela, na baixa latinidade) encontra-se nas côrtes peninsulares uma classe de cantores que não são nem jograes, nem trovadores. Pela caracteristica do canto modulado em voz baixa, como se exige nas Leges Walliae, e pela frequencia dos Lais, que achamos citados nos Cancioneiros portuguezes, este nome de Segrel designa o cantor das melodias bretãs. Já no seculo XII o trovador Geraud de Riquier fallava d’esta classe de cantores da côrte: «E ditz als trobadors—Segriers por totas corts.» E no Regimento da Casa de D. Affonso III, de 1245, acha-se estabelecido: «Elrei aia trez jograres em sa casa e nom mais, e o jogral que veher de cavallo d’outra terra, ou segrel, lhe dê elrei ataa cem (maravedis?) ao que chus der, e nom mais, se lhe dar quizer.»[130] Muitos trovadores portuguezes alludem a este nome; como Affonso Eanes de Coton:

a todo o escudeyro que pede don

as mays das gentes lhe chamam segrel...

(Canç. 556)

Abril Peres, satyrisando Bernal de Bonaval, refere-se á situação de dependencia do segrel (Canção n.o 663); e o jogral Picandon, respondendo a um apodo de João Soares Coelho, exalta a sua categoria dizendo:

gram dereyt’ey de ganhar dões,

e de seer en corte tan preçado

como segrel...........

A estas melodias bretãs refere-se o trovador catalão Guerau de Cabrera, como um talento distinctivo: á tempradura de Breton; e no romance de Raoul de Cambrai aponta-se os musicos bretãos como os melhores: «Harpent Bretons et viellent jougler.» E no Lai de l’Épine, de Marie de France, cita-se o lai d’Aielis cantado por um irlandez ao som da rota bretã:

Le lais d’Aielis

Que uns Yrois doucement note

Mont le sonne ens sa rote.

Vê-se que a fórma lyrica bretã do Lai, que encantava a Europa, tinha tambem de reflectir-se em Portugal; o trovador Gonçalo Eannes do Vinhal allude á imitação constante de cantares:

senon aquestes de Cornualha,

mays estes seguidos ben sem falha,

e nom vi trobador per tantos logares.

(Canç. 1007.)

Em uma canção de Fernão Rodrigues Redondo, (n.o 1147) refere tambem esta fórma: «Muy ledo seend’hu cantara seus lays...» O lay tornou-se narrativo, vindo a desenvolver-se nos longos e interessantes poemas de aventuras e amores. No Cancioneiro Calocci-Brancuti foram colligidos cinco Lais, dos que estavam mais em voga na côrte de D. Diniz; são o Lai de Elis o Baço, trez de Don Tristan, e o Lai das Quatro Donzellas. No Poema de Alfonso Onzeno, do seculo XIV, falla-se em: «la farpa de Don Tristan

O enthuziasmo pelos cantos lyricos provocou o seu desenvolvimento em poemas narrativos da Bretanha; assim, figuras quasi sem realidade historica, como o rei Arthur, servem de thema ás ficções da Tavola Redonda, e ás reminiscencias das luctas da nacionalidade celtica contra os Romanos e Saxões; e Merlim, ultimo vestigio da resistencia do druidismo contra o christianismo, não achando mais interesse nas prophecias, torna-se o amante da fada Viviana; os amores de Tristão e de Yseult, de Flores e Brancaflor fascinam todos os povos da Europa, e para satisfazer esse interesse, desenvolvem-se em extensas novellas. É na Bretanha continental que estes assumptos são elaborados no seculo XII, e propagados pelos Normandos: «Cousa estranha! foram os Normandos, isto é, de todos os povos o menos sympathico aos Bretãos, que espalharam a fama das fabulas bretãs. Espirituoso e imitador, o Normando tornou-se por toda a parte o representante eminente da nação á qual anteriormente se impuzera pela força. Francez em França, inglez em Inglaterra, italiano na Italia, russo em Novegorod, o normando esqueceu a sua propria lingua para fallar a lingua do povo que elle tinha vencido e tornar-se o interprete do seu genio. O caracter vivamente accentuado dos romances gaulezes não podia deixar de ferir homens tão promptos a apanhar e assimilar as ideias do estrangeiro. A primeira revelação das fabulas bretãs, a Chronica latina de Geoffroy de Monmouth, appareceu por 1137, sob os auspicios de Robert de Glocester, filho natural de Henrique I. Por estas mesmas narrativas se apaixonou Henrique II, e a seu pedido Robert Wace escreveu em francez, em 1155, a primeira historia de Arthur, e abriu a marcha a que se arrojou uma multidão de poetas ou de imitadores francezes, provençaes, italianos, hespanhóes, inglezes, scandinavos, gregos, georgianos, etc.»[131]

Os elementos d’estes poemas são vagos dados historicos, que pela sua obscuridade foram desenvolvidos em lendas, que se ampliaram depois em phantasias poeticas; esses dados historicos resumem-se em dois factos, um politico, que se refere ás luctas com que o rei Arthur sustentou a liberdade nacional da Bretanha contra a invasão dos Saxões; o outro é religioso, consagrando a resistencia com que a Bretanha se considerava christã pela doutrinação evangelica de Joseph ab Arimathia, e por tanto independente da Egreja de Roma á qual se tinham convertido os Saxões. Tal é o dado essencial dos poemas do Santo Graal e da Cavalleria celeste, que deriva d’essa autonomia das Egrejas nacionaes da Francia meridional e da Hespanha, que se consideravam proto-cathedricas. Foram os Normandos que se apropriaram d’estes germens épicos da Bretanha insular e lhe deram o brilhantismo com que seduziram o mundo; e por isso mesmo que essas tradições não eram suas, mais as diluiram no vago, no maravilhoso, fazendo o syncretismo de todas as ficções provenientes de varios povos pelo encontro das Cruzadas, pelas relações com os Arabes, pela leitura da Biblia e dos escriptos dos rabbinos convertidos e já pela erudição da Antiguidade classica.[132] Os Normandos, occupando a Inglaterra, pareciam aos Bretãos como que os seus vingadores sobre os seus antigos dominadores Saxões: «os Bretãos não estiveram longe, se dermos credito a algumas indicações contemporaneas, de vêrem no vencedor de Harold um libertador, quasi uma incarnação do rei Arthur. Os companheiros de Guillaume podiam então acceitar, como cantos de sua propria gloria, as tradições poeticas creadas pelo odio ao Saxão que elles acabavam de vencer pelas armas, mas que não estavam ainda subjugados nem socialmente, nem politica, nem religiosamente. Qualquer que fosse a sympathia que os novos conquistadores pudessem sentir pela poesia das populações indigenas, qualquer que fosse a relação que taes lendas pudessem ter com o seu proprio genio, elles eram sempre estrangeiros, estrangeiros orgulhosos, e arrogando-se o direito de tratarem como senhores a litteratura bretã. A lingua empregada n’esta litteratura não lhes era familiar, a significação d’estas tradições era para elles obscura, e não comprehendiam bem o alcance philosophico e patriotico; não penetravam todo o conjuncto dos cantos dos bardos, e o vago que era inherente a estes cantos tornava-os mais obscuros, e para elles os fazia ainda mais ideaes.»[133] Era esta situação que dava aos troveiros normandos a liberdade de crearem sobre vagos nomes de heroes e de symbolos nacionaes essa riqueza phantastica dos poemas da Tavola Redonda e do Santo Graal, confundindo com figuras historicas fadas, gigantes, anões e adivinhos, animaes monstruosos, dragões, bebidas magicas e philtros amorosos, encantamentos, e poderes talismanicos das espadas invenciveis. Compondo especialmente para as côrtes, exaltavam a galanteria e tornavam-n’a o culto da mulher, aproveitando assim a tendencia iniciada pela idealisação dos trovadores. O symbolismo da Cavalleria, dos passos de armas, dos torneios, dos votos denodados, lisongeava a paixão dos Barões feudaes, que iam decahindo diante da crescente dictadura monarchica. E como as Cruzadas acabavam, a imaginação dos nobres precisava de uma outra cruzada, a da Cavalleria celeste em procura do Santo Graal, vindo assim a confundirem-se os dois cyclos poeticos, mais mysticos nos poemas dos minnesingers allemães, mais guerreiros e amorosos entre os troveiros francezes. Essa fecundissima actividade poetica que veiu sobrepôr-se á imitação das Canções dos trovadores e á attenção pelas Gestas frankas, espalhava por toda a parte os romances da Tavola Redonda, em prosa: o Santo Graal e Demanda do Santo Graal, o Tristão, Lancelot, Merlin, Morte de Arthur, Giron le Courtois, Palamedes, Meliadus; e em verso os romances do Perceval le Gallois, La Charrette, Chevalier au Lion, Erec et Enide, Cliges, Loucura de Tristão, Frejus, Jaufre, Atre périleux, Claris et Laris, Chevalier à l’Epée e La Dame à la licorne.

Todas estas ficções lidas e escutadas nas côrtes tendiam a confundir-se na imaginação produzindo situações romanescas, que vieram depois a constituir uma nova fórma de idealisação—a Novella de Cavalleria, de que o typo fundamental é o Amadis de Gaula. Os nomes dos personagens d’estes poemas foram adoptados na sociedade civil em Portugal, e é frequente encontrarem-se nos Nobiliarios as Viviana, Iseu, Ausea ou Ausenda (de Yseult), as Ginebra (de Gwenivar), as Briolanja (Brengienne), os Arthur, Percival, Lisuarte, Lançarote, Tristão, desde o seculo XIV até ao fim do seculo XV. Que prova mais evidente do interesse que produziram em Portugal os poemas da Tavola Redonda.

Esta nova corrente litteraria e erudita veiu interromper a elaboração e a propagação das Gestas frankas: em 1155 estavam as Gestas no seu esplendor e fecundidade, quando appareceu o Roman de Brut, de Robert Wace, d’onde diffluiram depois todos os romances da Tavola Redonda. A Bretanha insular e a Armorica provindo de uma mesma origem, collaboraram diversamente n’estes poemas que tiveram por centro o rei Arthur; as tradições bardicas e mesmo christianisadas conservaram-se nas populações insulares, mas só foram desenvolvidas litterariamente pelos troveiros normandos ou continentaes. Foi assim que a Inglaterra recebeu a sua materia poetica elaborada artisticamente pelo genio gallo-bretão. Paul Meyer fundamentou este facto: «que o francez tendo-se implantado em Inglaterra depois da conquista, a litteratura das classes elevadas foi, durante mais de dois seculos, inteiramente franceza, não só pela origem, como pela lingua.»[134]

O Roman de Brut, de Robert Wace, acha-se aproveitado como documento historico pelo Conde Dom Pedro no seu Nobiliario, fazendo a genealogia e contando o nascimento do rei Arthur:

«E hum dia teue corte (o rei Uterpandragon) e forom hi todos seus ricos homeens com sas molheres. E veo hi hum Conde de Cornoalha e trouve hi sua molher que avia nome Ygerna, e veo muy bem afeitada e muy ricamente aparelhada, e ella era a mais fermosa molher de toda a terra. E quando vieerom aa mesa hu se assentou elrrey a comer oolhoua elrrey e nom pode mais comer, tanto se pagou d’ella, e nom fazia all senon oolhala dos olhos. E pensou em seu coraçom que se com ella nom jouvesse que morria. Este Conde seu marido soubeoo e levantou-se da mesa com sa molher e foysse para huum seu castello que avia nome Tinteol. E elrrey foyo cercar com toda sua oste, e emviou por Merlin e veo a elle por seu comsselho e ouve elrrey por molher esta dona, e ouve della huum filho que ouve nome Artur o que disserom Artur de Bretanha, onde ouvistes fallar que foy muy boo.»—«Morreu Uterpandragom e rreynou seu filho Artur de Bretanha, e foy boo rey e leal, e conquereu todollos seus emmiigos e passou por muytas aventuras e fez muytas bondades que todollos tempos do mundo fallarom delle. Este rrey Artur fez huum dia em Chergeliom (Caerleon) sa cidade cortes. E estas cortes forom muy boas e muy altas. A estas cortes veerom doze cavalleiros messageiros que lhe enuiaua Luçius Liber que era emperador de Roma que sse fezesse seu vassallo rey Artur e que teuesse aquella terra de sua mãao. E se esto não fezesse que lhe mandaria tolher a terra por força e que faria justiça de seu corpo. Quando esto ouviu o rrey Artur foy muito irado e mandou chamar toda sa gente que armas podiam levar. E quando foy a Sam Miguel em monte Gargano combateosse com o gigante que era argulhoso e vençeo e matou; o Luçius Liber quando soube que rey Artur hia sobre elle chamou sa oste e toda sa gente e sayolhe ao caminho. E lidarom ambos e vençeo elrrey Artur foy arrancando ho emperador. E elrrey Artur quando moveu da Bretanha por hir a esta guerra leixou a sa terra a huum seu sobrinho que havia nome Mordech.»—«Este Mordech que avia a terra em guarda do rrey Artur e a molher quando elrrey foy fóra da terra, alçousse com ella e quislhe jazer com a molher. E elrrey quando o soube tornousse com sa oste o veo sobre Mordech. E Mordech quando o soube filhou toda sa companha e sayo a ella aa batalha. E elles tiinham as aazes paradas para lidar no monte Cambelet, e acordousse Mordech que avia feito grande traiçom e se entrasse na batalha seria vençido. E enviou a elrrey que saysse a departe e falaria com elle, e elrrey assy o fez. E elles que estavam assy em esta falla sayo huma gram serpente do freo a elrrey Artur, e quando a vyo meteo mãao aa espada e começou a encalçalla e Mordech outrossi. E as gentes que estavam longe viram que hia huum apos ho outro, e foramsse ferir humas aazes com as outras e foy grande batalha, e morreu Galuam (Gauvain) o filho do rrey Artur, e huma espadada que trazia sobressada, que lhe dera Lançarote do Lago quando entrara em reto ante a cidade de Ganes. Aqui morreu Mordech e todollos boos caualleiros de huma parte e de outra. Elrrey Artur teue o campo e foy mal ferido de trez lançadas e de huma espadada que lhe deu Mordech, e fezesse levar a Islaualon (ilha de Avalon) por saar. D’aqui em diante nom fallemos d’el se he vivo se he morto, nem Merlin nom disse del mais, nem eu nom sey ende mais. Os bretões dizem que ainda he vivo.»[135] Vê-se por este trecho, que o Conde D. Pedro estava ao facto da litteratura da Tavola Redonda seguindo o Roman de Brut, de Robert Wace, e referindo-se ás outras composições dos troveiros normandos, Merlin e Lançarote do Lago, que ainda no seculo XV citava o chronista Azurara. Estava esta litteratura artificiosa em harmonia com os habitos da côrte do rei Dom Diniz, e facilmente se apoderou da predilecção dos trovadores portuguezes; Estevam da Guarda, favorito de Dom Affonso III, falla em uma canção dos amores de Merlin com a fada Viviana:

Como aveo a Merlin de morrer

per seu gram saber, que el foy mostrar

a tal molher, que o soub’enganar...

.........................................

E o que lhe é muyto grave de teer

por aquelo que lh’el foy mostrar,

en estar com quem sabe que o pod’ensarrar

en tal logar hu convem d’atender

a tal morte da qual morreu Merlin

hu dará vozes fazendo ssa fin,

ca non pode el tal morte escaecer.

(Canção n.o 930.)

O conhecimento das prophecias e aventuras de Merlin transparece no Poema de Affonso Onzeno, e na livraria do rei D. Duarte vem catalogado o livro de Merli (do bretão Myrdhinn.) No Cancioneiro geral, de Resende, falla Diogo de Pedrosa na lenda dos amores do propheta bretão:

O que foy d’esse Merlyn

E d’outros antes d’aguora,

Ysso ade ser de mym

Por vossa filha senhora.

(Fl. 57.)

As allegorias do Leão dormente e do Porco selvagem, que das prophecias de Merlin passaram para o poema da batalha do Salado, tambem se reflectem nas prophecias de Bandarra no seculo XVI, da mesma fórma que a lenda da immortalidade e vinda do rei Arthur para vingar a raça bretã, se personificou em D. Sebastião, vivendo em uma ilha encantada para vir fazer de Portugal o Quinto Imperio do mundo.

Junto com o livro de Merlin andava tambem o poema de Tristão, nos manuscriptos da Edade media. Na côrte de Dom Diniz era Tristão considerado o typo ideal do namorado, e o proprio monarcha trovador diz que o excede:

Qual mayor poss’e o muy namorado

Tristã, sey ben que non amou Iseu,

Quant’eu vos amo, certo sey eu...

(Canç. n.o 115.)

E compara-se tambem a outro modelo dos amantes exaltados, idealisado no romance de Flores e Brancaflor, que se liga pelo encadeamento cyclico ás gestas carlingias. Os trovadores provençaes citavam esse typo do namorado:

Quar plus m’en mi abellida

Non fis Floris de Brancaflor[136]

E o rei Dom Diniz empregava a mesma comparação:

Qual mayor poss’e o mays encoberto

que eu poss’e sey de Brancha frol,

que lhi non ouve Flores tal amor

qual vos eu ey;..............

O thema da fidelidade no amor tornou-se quasi exclusivo nos poemas de aventuras, em que degeneraram os da Tavola Redonda; sobre o sentimento de fidelidade se elaboraram os poemas Meliadus de Leonys, Frejus et Galienne, Claris et Laris, Helias, Chevalier de la Charrette, Partenopeus de Blois, destacando-se d’entre todos elles pelo seu exagero vertiginoso os poemas de Amadas et Ydoine, conhecidos na Hollanda, Allemanha, Borgonha, Inglaterra, Hespanha e Portugal já nos fins do seculo XIII. Em varios fableaux apparece frequentemente citado o nome de Amadas, como o ideal da fidelidade em amores; não admira que sobre este rudimento novellesco, se agrupassem todas as aventuras da fidelidade amorosa dos poemas conhecidos na côrte de D. Diniz, dando a novella em prosa do Amadis de Gaula. De toda essa elaboração poetica dos troveiros normandos, conhece-se hoje apenas dois poemas, o Amadas et Ydoine, por Jean de Mados, e Sir Amadace; mas além d’estas versões franceza e ingleza, é crivel que existissem pelo menos uma outra neerlandeza anterior a 1290, e uma allemã. De uma versão que chegou á côrte de Dom Diniz é que Lobeira (João, antes de Vasco) elaborou por amplificação e syncretismo a novella de Amadis de Gaula, que por seu turno conquistou todas as imaginações na Europa, mesmo na época da Renascença. O phenomeno litterario de um poema em verso, quer seja Amadas et Ydoine, Sir Amadace, ou qualquer outra redacção passar á prosa de uma extensa novella como o Amadis de Gaula, era frequente na Edade media. O poema de Blanchefleur converteu-se na mão de Boccacio no Filicopo, novella desenvolvida largamente á custa da simplicidade primitiva do poema. D’este facto conclue Du Méril: «Os habitos litterarios da Edade media complicam desgraçadamente todas as questões de origens com difficuldades insoluveis, se se não deixar ao sentimento o tirar as conclusões, quando escaceando os dados precisos, o raciocinio se dá por incompetente.»[137] Quem escreveu a Novella tinha presente na imaginação as situações dos romances que então mais lisongeavam o gosto da aristocracia no seculo XIV; poz em prosa as aventuras cavalheirescas mais conhecidas e sympathicas, e attribuiu-as a um mesmo typo, tambem já conhecido e idealisado em varios poemas em verso. Originalidade poetica, nenhuma litteratura da Edade media a tem, nem mesmo a franceza: os themas tradicionaes são communs a este syncretismo das raças. O que interessa na novella do Amadis de Gaula é a fórma em prosa, e essa é um producto que mais caracterisa a litteratura medieval portugueza.

Na discussão da origem do Amadis o sabio Victor Le Clerc assentou o problema definitivamente: «a primeira redacção do famoso Amadis de Gaula, que todavia não é, como se vê pelo texto mais antigo hoje conhecido o hespanhol, senão uma imitação prolixa dos poemas da Tavola Redonda e dos Romances de aventuras, taes como o nosso romance de Amadas[138] N’este monumental Discurso, escreve: «Nos Amadises, os quaes são derivados dos Lancelot e dos Tristãos, e aonde se tem querido vêr o ideal do amor cavalheiresco, a bella Oriana concede tudo antes do tempo tanto esperado em que os imperadores e os reis hão de vir assistir ás nupcias.»[139] E apresenta o problema da origem litteraria com toda a segurança:

«Quando o poema francez de Amadas, que em 1365 fazia parte dos livros de um conego de Langres e que ainda subsiste, tiver sido vulgarisado; quando o poderem comparar ao Amadace inglez, áquelle bravo, que os fragmentos publicados em 1840 e 1842, segundo differentes textos manuscriptos, concordam em represental-o como o mais brilhante modelo de lealdade, de bravura e de respeito cavalheiresco; quando principalmente se fizer uma ideia mais justa e mais completa da alluvião de romances em prosa que, nos primeiros cento e cincoenta annos da imprensa, para corresponder, tanto em Hespanha como em França, ao enthuziasmo da moda, multiplicaram á compita os nossos antigos poemas, alongando-os com digressões importunas, conversas alambicadas, com uma ampla brigada de gigantes, fadas, encantadores, será então occasião de perguntar, se foi sem fundamento ou se com rasão que o velho traductor francez do Amadis hespanhol, Herberay des Essarts, nos disse que descobrira alguns fragmentos escriptos á mão em lingua picarda, e de decidir se este romance de aventuras, cujo plano pouco se prestava aos embelecos do perfeito amor, por isso que começa por onde outros acabam, nasceu em Portugal, em Hespanha ou em outra qualquer parte.»[140] Du Tréssan, já no seculo XVIII, resumindo esta novella do Amadis de Gaula, tambem declara ter visto na Bibliotheca do Vaticano, o antigo poema no fundo que pertencera á rainha da Suecia, cujo exame lhe fôra facultado pelo cardeal Querini.[141] Da mesma opinião de Le Clerc é Littré: «Amadas lembra o cyclo dos Amadises, que certamente hespanhol no seculo XV, tem por ventura ligações com mais antigas composições francezas.»[142]

Dando-se a transformação de um poema versificado para prosa dramatica e descriptiva, com o intuito de ampliar um thema favorito, as analogias entre as duas composições não devem ser procuradas na fórma mas no pensamento e situações que o desenvolvem. A novella de Amadis de Gaula foi lida e admirada durante toda a Edade media pelo vigor do thema da fidelidade dos dois amantes Amadis e Oriana; o romance de Amadas et Ydoine foi egualmente inspirado pelo mesmo sentimento de fidelidade. Identidade completa de thema: tanto Amadas como o Amadis servem na côrte de um rei, por cuja filha Ydoine ou Oriana (temos a fórma Idana) se apaixonam, e para merecerem-a vão nobilitar-se nas armas para serem primeiramente armados cavalleiros. É durante as longas e arriscadas aventuras que tanto o donzel como a filha do rei se mostram animados de uma sublime fidelidade, terminando a acção por se unirem como sonhavam. Na redacção em prosa, tanto pelo seu caracter como pelo gosto do tempo, os innumeros episodios, as historias genealogicas e os longos discursos fazem esquecer a simples trama, que facilmente se aproximaria da versão poetica d’onde tirou os elementos originarios. Amadis, apezar da nobreza do seu nascimento, teve uma infancia obscura, e sómente pelo seu garbo e gentileza é que foi tomado pelo rei Languinés de Escossia para a sua côrte; Amadas tambem occupava na côrte do Duque de Borgonha um logar secundario como filho do senescal. Oriana é filha do rei Lisuarte, e na côrte de Languinés é que Amadis a encontrou na festa á sua chegada da Dinamarca. Foi n’esta situação que nasceu o amor de Amadis, do mesmo modo que o de Amadas por Ydoine: «Amadis tinha então doze annos, mas pelo seu corpo e pelos seus membros bem parecia ter quinze; servia a rainha e era muito amado d’ella e de todas as damas e donzellas; mas logo que ali chegou Oriana, filha do rei Lisuarte, a rainha lhe deu o Donzel do mar para a servir, dizendo:—Amiga, eis aqui o garção que vos servirá. Respondeu ella: Que era do seu agrado. Esta palavra penetrou por tal fórma o coração do donzel, que d’ali em diante nunca mais lhe saiu da lembrança. E nunca, como esta historia o conta, em dias de sua vida se enfadou de a servir, e seu coração lhe foi sempre dedicado, e este amor durou tanto quanto ambos viveram.»[143]

No romance de Amadas repete-se esta situação; o senescal n’esse dia veiu servil-o á meza, como lhe competia, e a seu lado seu filho Amadas ia-o ajudando; foi então que o Duque mandou o donzel servir a sua filha Ydoine.[144]

Nas referencias que alguns poetas castelhanos do seculo XIV fazem do Amadis, como Pero Ferrus, Fray Miguel, Micer Francisco Imperial e outros, tudo leva a crêr que alludiam á fórma poetica do romance assim conhecido em Hespanha. Ferrus cita o Amadis junto com o Rei Arthur, Dom Galaaz, Lançarote, Carlos Magno, Tristão e Roland, que eram escriptos em verso. As allusões constantes que se encontram no Amadis aos romances do cyclo da Tavola Redonda e a outros de origem franceza, mostram claramente que esse thema não é uma invenção do genio portuguez, mas que foi em Portugal que essa ficção recebeu a fórma em prosa com que se universalisou.[145] No texto da versão hespanhola de Montalbo, e no Cancioneiro Colocci-Brancuti estão as provas irrefragaveis da primitiva redacção portugueza: são a rubrica ácerca da emenda do episodio de Briolanja, e a canção de João Lobeira, Leonoreta, que o traductor castelhano deturpou não conhecendo a fórma estrophica.

Os romances da Tavola Redonda fizeram decahir de interesse as Gestas carlingias, exclusivamente guerreiras, e actuaram tambem para que a poesia lyrica trobadoresca bastante subjectiva fosse substituida pelas narrativas apaixonadas das novellas de aventuras. Com o falecimento do rei D. Diniz decahiu na côrte a lyrica trobadoresca; a sua paixão pela eschola provençal, causára essa exuberante actividade poetica da sua côrte, centro a que convergiam os jograes da Galliza, Catalunha, Leão, Aragão e Castella, e até os seus bastardos, D. Affonso Sanches e D. Pedro o lisongeavam metrificando com esforço, ou colligindo canções. Em uma canção de Joham jogral, fixa-se esta decadencia pela morte do rei:

Os trobadores que poys ficarom

En o seu regno e no de Leon,

No de Castella, no de Aragon

Nunca poys de sa morte trobarom.

(Canção n.o 708.)

Por morte do Conde D. Pedro, elle deixou o seu Livro das Cantigas a Affonso XI, de Castella, por que em Portugal Affonso IV não apreciava as manifestações do lyrismo trobadoresco. E este desprezo continuou-se nos successivos reinados, persistindo cada vez mais o enthuziasmo pelas novellas de Cavalleria, como vêmos nas côrtes de D. João I, D. Duarte e D. João II, em que se lêem a Demanda do Santo Graal, Merlin, José Ab Arimathia, Cavalleiro do Cysne, Galaaz, e outras muitas novellas. A poesia lyrica, revelada tão brilhantemente na côrte de D. Diniz, tornou-se um pallido reflexo da castelhana no seculo XV, e só tornou a reflorir depois do primeiro quartel do seculo XVI, em consequencia de Sá de Miranda trazer a Portugal a nova Eschola italiana.

A nova phase do perstigio das Novellas da Tavola Redonda não corresponde a uma realidade, isto é, aos habitos sociaes da época; entravamos no seculo XV, na corrente da burguezia e da prosa, na creação da historia e da legislação sem symbolos, sob a dictadura do poder real. Não havia pois logar para a cultura do individualismo heroico da Cavalleria; a justiça do rei, como o revela o grito popular Aqui d’Elrei, não permittia a intervenção generosa de qualquer senhor. E é precisamente na côrte de D. João I que se encontra o mais exaltado prurido pela leitura e imitação das novellas da Tavola Redonda e dos seus heroes, chegando os seus nomes a serem reproduzidos nas familias aristocraticas. Explica-se esta antinomia; primeiramente D. João I era um bastardo, que achando-se no throno, quiz cercar-se de todos os symbolismos da soberania e do fausto cavalheiresco; depois pelo casamento com D. Philippa de Lencastre imita o cerimonial da côrte ingleza e toma conhecimento dos livros ahi mais predilectos entre a nobreza. O francez era então usual na côrte de Inglaterra. Convinha mais á côrte portugueza a leitura das novellas com aventuras e situações ficticias; o cyclo do Santo Graal, em que se preconisa a fidelidade á Egreja, harmonisava-se pelo seu maravilhoso com o nosso genio celtico. E essas aventuras, como a da Descida aos infernos, a da descoberta do Preste João (o christianismo entre os Bretãos foi propagado por discipulos de Sam João) e Viagens de Sam Brendan, influiram no genio aventureiro que levou os portuguezes ás descobertas maritimas.

Imitava-se o viver idealisado nas novellas de Cavalleria; na Chronica de D. João I conta Fernão Lopes, que este rei no cêrco de Coria, se queixára de lhe faltarem cavalleiros como os da Tavola Redonda, e que agastado Mem Rodrigues de Vasconcellos fôra comparando os cavalleiros presentes a Galaaz, a Lançarote, a D. Quêa, allegando pelo seu lado que lhes faltava um bom rei Arthur, flor de liz, que sabia conhecer o valor. Esta anecdota já andava repetida desde o seculo XIII, em nome do rei Philippe, que se lamentava de não haver já cavalleiros tão bons como Roland e Olivier. O Condestavel Nun’Alvres queria imitar a virgindade de Galaaz, para manter a pureza da Cavalleria: e faziam-se votos denodados, como os Cavalleiros da Madre Silva, Ala dos Namorados e Doze de Inglaterra. Até nas instituições sociaes penetrava a imitação artificial das cerimonias e symbolismos cavalheirescos; basta abrir o Regimento de Guerra portuguez, codificado pelo Infante Dom Pedro, o que correu as Sete Partidas do mundo, para vêr como debaixo da esquadria logica e unitaria da codificação romana estabelecida pelos jurisconsultos burguezes, irrompe o cerimonial novellesco com que um escudeiro devia de ser armado cavalleiro. E sóbe de interesse esse confronto com o cerimonial do poema Ordene de Chevallerie, de Hugues de Tabarie. As explicações symbolicas do troveiro francez coincidem com os paragraphos da Ordenação affonsina. É com rasão que se considera o Regimento de Guerra como o necrologio da cavalleria portugueza; este ultimo lampejo de vida foi-lhe communicado pela leitura dos poemas anglo-normandos da Tavola Redonda, que figuravam nas livrarias régias.

É hoje conhecida a novella portugueza da Demanda do Santo Graal, que possuia D. João I, bem como a rainha Isabel a Catholica e o princepe de Viana; é uma livre paraphrase da novella franceza La tierce partie de Lancelot du lac avec la Queste du Saint Graal et de la dernière partie de la Table Ronde. No seu texto fazem-se referencias á redacção franceza de Robert de Boron, que seguira o paraphrasta portuguez. D’este manuscripto, a que falta o principio, ha já uma grande parte publicada pelo Dr. Reinhardsttoetner, que o copiou na bibliotheca imperial de Vienna. É tambem da época de Dom João I a novella Livro de Joseph ab Arimathia intitulado a primeira parte da Demanda do Santo Graal; allude a este livro uma passagem do Cancioneiro de Resende em que falla do Mestre Eschola e da novella (João Sanches, Mestre Eschola de Astorga, que a mandára escrever.) Tambem no tempo de D. João I foi lido em Portugal o poema inglez de John Gower, A Confissão do Amante, que Roberto Payno traduziu para portuguez; formado de uma selecção de contos francezes, de imitações de Jean de Meung, de extractos de Lancelot, de Amadas, Tristan, Partenopeus de Blois, era mais um vehiculo para nos relacionar com a vigorosa poesia da Edade media franceza. Na Livraria do rei Dom Duarte, continuou a prevalecer a sympathia por estes poemas, apesar de ir despontando já a admiração pelos escriptores classicos. Ali se guardava o Livro de Tristam, por ventura a redacção de Luce de Gast e de Helie de Boron; Merli, que é uma das partes da Tavola Redonda, como se deprehende do exemplar descripto no catalogo da livraria de Isabel a Catholica; o Livro de Galaaz, que era a leitura favorita do Condestavel; a Conquista de Ultramar, em que uma parte é imitada das aventuras do Cavalleiro do Cysne. Ruy de Pina mostra a influencia d’esta novella na côrte de D. João II: «antre os quaes ElRei para desafiar as justas que havia de manter, veeo primeiro momo, envencionado Cavalleiro do Cisne com muita riqueza, graça e gentileza.»[146] Esta novella começada por Jehan de Renault e terminada por Graindor, exalta Godofredo de Buillon entre complicadas scenas de encantamentos e duellos.

As viagens dos monges bretãos, as narrativas do claustro de Cruenferl, as lendas monasticas de Kadock, Barontus, e de S. Brendan devassando as regiões do norte, contemplando as auroras dos polos e vendo á superficie dos mares as magnificencias do creador, muitas o muitas vezes seduziram a imaginação dos primeiros navegadores portuguezes, attrahidos pelo maravilhoso da geographia antiga. É admiravel a Odyssea monachal das viagens de San Brendan; na Chronica da Conquista de Guiné cita-as Azurara: «Bem he que alguns deziam, que passara per ally san Brandam...»[147] As Ilhas encantadas, da tradição celtica, surgem vagamente na imaginação do povo portuguez, que se arroja ás descobertas. E Camões, profundamente nacional, quando, representando no seu poema o genio d’este povo, quer consolar os cansados navegantes recorre ao sonho deleitoso da antiga geographia das Ilhas Fortunatas, Antilia e Atlantida, no episodio da Ilha dos Amores. Egual seducção com as lendas do Preste João das Indias, cuja Epistola desde o seculo XII circulava na Europa entre as relações apocryphas de Merlin e de Sam Brendan. Quando a nacionalidade portugueza esteve a ponto de extinguir-se na incorporação castelhana, foram os sonhos deliciosos do genio celtico que fortificaram no seu desalento este povo atraiçoado pelo clero e pela aristocracia. O rei D. Sebastião, que vivia emballado em sonhos novellescos de imaginarias conquistas, ao precipitar-se para a catastrophe de Alcacer-kibir, fazia-se acompanhar pela mesma fórma como os antigos monarchas saxões, que entravam em combate seguidos pelos seus menestreis. O povo sympathisou com este typo do hallucinado cavalleiro, idealisou-o na sua tradição, guardou-o, á similhança do rei Arthur, tambem em uma ilha encantada, d’onde o seu Merlin, Bandarra o sapateiro de Trancoso, prophetisou que viria tornar Portugal liberto o Quinto Imperio do Mundo.[148] O elemento celtico, que desde muito cedo differenciou Portugal das populações hispanicas, manifestou-se pela sympathia por estas ficções gallo-romanas, tornando-as como um dos estimulos da sua acção historica.

d) A CULTURA LATINO-ECCLESIASTICA E HUMANISTA

O conhecimento das obras litterarias da civilisação greco-romana não se obliterou completamente mesmo nos seculos mais perturbados da Edade media; mas esta continuidade não contrariou as manifestações do genio esthetico das raças que entravam na corrente historica. É certo que quanto mais avançavam para a civilisação, mais se accentuava entre as novas nacionalidades o antagonismo dos dois espiritos,—o classico, reflexivo, disciplinado e harmonico, e o romantico ou medieval, espontaneo, pessoal e impetuoso. Magnin observa este facto: «de se não poder encontrar na Europa um lapso de tempo de qualquer extensão em que tivesse havido uma solução total de continuidade e de esquecimento completo das tradições antigas. No emtanto, a verdade é, que durante mais de dez seculos, um espirito novo, violento, inculto, posto que subtil e delicado á sua maneira, o espirito do norte, emfim, prevaleceu sobro o genio esgotado de Athenas e de Roma; mas, graças á Egreja, esta vida potente e nova nunca abafou inteiramente a antiga.»[149] A Egreja adoptando o latim para a sua liturgia e para a chancellaria papal, e recebendo da patrologia grega os elementos dogmaticos da sua doutrina, via-se forçada a manter diante da espontanea actividade dos espiritos da Edade media o respeito pela civilisação polytheica, que ella combatia. Nos varios seculos da éra medieval foram conhecidas as tradições homericas, os poemas de Virgilio e de Ovidio, os tratados philosophicos de Seneca, e mesmo algumas comedias de Terencio; mas a Edade media apropriou-se d’elles, imprimindo-lhes o seu caracter, assimilando-os como productos proprios. O Renascimento ou renascença do mundo classico, nos fins do seculo XIII com Petrarcha e Boccacio, e que se continúa com deslumbramento no seculo XV, é esse phenomeno de erudição e de critica que leva a descobrir o verdadeiro caracter da civilisação greco-romana. É então que se estabelece o antagonismo dos dois espiritos. Magnin descreve esse conflicto, que se observa nos costumes, nas instituições e nas litteraturas: «Desde a sua nascença, isto é, desde o fim do seculo V, a civilisação moderna foi submettida a duas influencias em sentido contrario, a influencia do genio romano e a do espirito do norte, dois elementos cuja opposição, bem que temperada por um laço commum, o Christianismo, ainda hoje se faz sentir em todas as controversias que nos agitam.» E conclue d’este dualismo historico: «se a sociedade europêa existe ainda potente e vivaz depois de mais de treze seculos, é por que ella preenche a condição a mais indispensavel aos phenomenos da vida, a de ser o resultado de duas forças, de dois elementos combinados. Depois da dissolução do Imperio do Occidente até ao meado do seculo XV, quer dizer, durante o intervallo ainda imperfeitamente estudado a que se chama Edade media, a influencia da barbarie germanica augmentada, sob os ultimos Carlingios, com a barbarie scandinava, dominou tudo. Depois do meado do seculo XV, inversamente, o genio mais clemente da Grecia e da Italia prevaleceu por toda a parte, mas desegualmente, e são estas desegualdades mesmo que, mais do que o velho caracter indigena, constituem a originalidade nacional da França, da Hespanha, da Italia, da Inglaterra. Seria vantajoso levar até aos seus extremos a eliminação de um d’estes dois elementos? A ter de optar, qual d’estes nossos dois troncos originaes o menos esgotado e o mais rico ainda de seiva e de futuro?—Ha, effectivamente, na sociedade moderna, homens e cousas que mantêm a dupla e desegual feição da sua complexa origem. Ha homens de natureza romana, e homens de natureza septemtrional. As letras e a historia têm em todas as épocas apresentado energicos representantes d’estas duas familias, estes leaes campeões dos instinctos do septemtrião, aquelles fieis clientes da policia e da urbanidade romanas.»[150] A alternancia d’estes dois elementos está ligada á marcha da civilisação europêa, e acompanha a lucta dos dois Poderes. O papado inicia as escholas das Collegiadas e chega á fundação do Estudo Geral para o ensino das Sete Artes. O nome de latino é synonimo de letrado, de culto e intelligente, d’onde se conserva ainda a expressão vulgar de ladino; o clericus destacou-se do leigo pelo uso do latim, a linguagem da sciencia, dos altos dignatarios da Egreja, dos embaixadores e dos homens de côrte, em contraposição com a linguagem do vulgo, a que chamavam romance, como se vê em Benoit de Saint More, na Historia de Troya:

Qui du latin ou je la truis

se j’ai le sens e je le puis

je voudrai ci en romans mettre...

Quando a linguagem vulgar passou a ser escripta, por essa nobilitação litteraria foi chamada ladina; vêmos no Leal Conselheiro, do rei D. Duarte: «e nom screvo esto per maneira scollastica, mas o que leeo per livros de latym e de toda lingua ladinha, do que algũa parte se me entende, concordo com a pratica cortezã na mais conveniente maneira que me parece.» (p. 168.) A mesma ideia em Hespanha, como se vê em Covarruvias: «la gente barbara de España llamava latinos en tiempo de los romanos á los que hablaban la lengua romana: e como estos generalmente eran mas sabios que los naturales espanoles, quedó el nombre de latinos para los que entre elles eran menos bozales, e de latino se corrompiò facilmente en ladinho[151] O Poder real tambem desenvolveu a cultura latina, pela restauração do Direito romano e pelo estabelecimento das Universidades no seculo XIII. Assim como o clerigo, o escholar tambem cultiva a lingua latina, e obedecendo ao espirito sarcastico do seculo faz a parodia das orações e hymnos da Egreja e dos processos das basilicas ou Curias; fórma-se uma classe intermedia aos eruditos latinistas e ao povo, a dos Goliardos, que vagam pelas tabernas e empregam as fórmas da poesia popular, como se vê nas Carmina Burana. Existem Pastorellas latinas que são moldadas nos typos populares occidentaes. A elaboração épica tambem se apropriou dos themas greco-romanos para as Gestas heroicas; o troveiro Jean Bodel, define esta classe de assumptos épicos: «De France, de Bretagne et de Rome la grand.» Apparecem-nos gestas germanicas sob as fórmas latinas como o Waltharius, e os poemas homericos acham-se transformados segundo a concepção medieval no Roman de Troye, de Benoit de Sainte More. No romance de Flamenca, enumeram-se os principaes assumptos eruditos que celebravam os jograes: «Um canta de Priamo, outro de Piramo; outro da bella Helena, como Paris foi á sua procura e depois a trouxe; outro canta de Ulysses, outro de Heitor e de Achilles. Outro canta de Eneas e de Dido, como ella ficou por elle triste e desolada; outro cantava de Lavinia ... de Apollonice, de Tideu, de Etidiocles... Um canta do rei Alexandre, outro de Ero e de Leandro. Um diz de Cadmo e sua fuga, e de Thebas como se edificou. Outro cantava de Jason e do Dragão; outro de Philis como attenta contra si por amor de Demophonte. Um diz como o bello Narciso se afogou na fonte em que se mirava. Um diz de Plutão como roubou a Orpheo a sua bella esposa... Um canta de Julio Cesar como passou sósinho o mar sem implorar nosso Senhor, por que não conhecia o medo.»[152] Muitos d’estes poemas existem manuscriptos: na Livraria do rei Dom Duarte guardava-se a Historia de Troya, o Alexandre e Julio Cesar.

As lendas de Troya, conhecidas no seculo IX por Macelas, no X por Constantino Prophyrogeneta; por Suidas no seculo XI, e no XIII por Constantino Manassés, João e Isac Tzetzés, entraram na corrente das Escholas Geraes, vulgarisando-se d’ahi para os troveiros. Tambem os chronistas das novas nacionalidades iam entroncar em Troya a origem dos povos e estados que historiavam. Os Francezes attribuiam as suas origens aos Troyanos, como affirmam os chronistas Fredegario, Roricon, Paulo Warnfried, chegando Dagoberto a declarar em um documento: «Ex nobilissimo et antiquo Trojanorum reliquarum sanguine nati.» Luiz XII na batalha de Ravena usa a divisa: Ultus avos Trojae. Tambem para mostrar a superioridade da Inglaterra sobre a Escossia, Eduardo III allega ao Papa a sua origem troyana; Veneza, como outr’ora Roma, considerava um dos seus bairros povoado por foragidos troyanos.

A historia de Portugal tambem se fundou por muito tempo sobre as lendas de Troya, de varios heroes gregos e patriarchas biblicos; era corrente a ideia de que Tubal viera ás Hespanhas e fundára Setubal, e Elysa, neta de Noé, fundára Lisboa. Transcrevemos uma pagina caracteristica d’este systema de historia: «na mais bem apurada chronologia, a Elysa e não a Luso, filho ou companheiro de Baccho, nem a Ulysses, se deve verdadeiramente attribuir a primeira fundação d’aquelle celebre emporio do mundo, e a primeira origem dos Luzitanos; pois tudo o mais que dos outros fundadores posteriores se escreve, dado que assim succedesse, foi reedificação e augmento e não primeira origem.»[153] N’esta citação se alludem a todas as lendas greco-romanas, sendo a que teve mais voga e chegou á transmissão popular a da vinda de Ulysses á Luzitania e a sua fundação de Lisboa. A fundação da cidade do Porto foi attribuida por Fr. Bernardo de Brito a Diomedes, que veiu á Hespanha depois de incendiada Troya; e Salgado de Araujo attribuia a mesma fundação a Meneláo, firmado no dizer de Virgilio, de ter-se Meneláo desterrado depois da guerra troyana para as columnas de Pretheo. A aldêa de Fão era attribuida á fundação de Phano, rei da ilha de Chio; um outro erudito, do seculo XVIII, dava como fundador do Porto o princepe Callais, filho de Boreas, rei da Thracia e um dos mais celebres argonautas. Para os jograes e troveiros por certo influiram as obras dos pseudo-Dares, pseudo-Ditys e pseudo-Calisthenes; mas para os chronistas deve essa série de explicações phantasmagoricas derivar-se dos tratados e dissertações do imaginoso dominicano Anio de Viterbo. É curioso o reflexo d’este syncretismo na epopêa dos Lusiadas, que tambem diz de Ulysses: «se lá na Asia Troya insigne abrasa,—Cá na Europa Lisboa ingente funda

O poema de Alexandre era uma das joias da livraria do rei D. Duarte; no seculo XI um medico de Constantinopla, Simeão Seth, traduziu para grego a Historia Alexandri magni regis Macedoniae, de Proeliís, que n’esta fórma latina veiu acordar a imaginação dos troveiros, já como o primeiro modelo da Vida de Carlos Magno attribuida a Turpin, já como norma da chronica do rei Arthur de Geoffroy de Monmouth e do poema francez Alexandre de Lambert li Cort. No seculo XVI foi conhecido em Portugal na sua fórma originaria, em lingua persa; D. João de Castro pedira a Aleixo de Carvalho em 1546, que lhe procurasse uma Historia de Alexandre; dirigiu-se este a Luiz Falcão, que a obteve do goazil Hemires.[154] Fallando das origens orientaes da Historia de Alexandre, diz Berger de Xivrey, nas Traditions Tératologiques: «além da descripção de muitos paizes, uns tratavam da viagem ao paraiso, outros da correspondencia com a rainha das Amazonas, com Didimus ou Lyndimus, rei dos Brachmanas; digressões de antigos textos gregos e orientaes.»[155] Na livraria de Jehan de Bourgogne, conde d’Estampes, guardava-se tambem uma Guerra de Macedonia, escripta por Jehan Nanquelin «selon ce que je l’ai trouvet en ung livre rimet, dout je ne sais pas le nom de l’aucteur, fors qu’il est intitulé histoire Alixandre[156]

Producto do perstigio das tradições greco-romanas na Edade media é a Historia do Imperador Vespasiano, que Herculano classificou como o monumento mais curioso da arte typographica em Portugal no fim do seculo XV; descreve-a da seguinte fórma: «A Historia de Vespasiano consta de vinte e nove capitulos, nos quaes se tratam varios feitos d’aquelle imperador e de seu filho Tito e outros que dizem respeito ao christianismo e á morte de Archeláo e Pilatos.—Fecha a obra por uma subscripção em que se diz ser impressa por Valentim de Moravia em Lisboa, no anno de 1496.»[157] E em outro logar desenvolve: «Esta Historia de Vespasiano não é senão uma novella de cavalleria pertencente ao cyclo greco-romano. Ha ahi, na verdade, alguns factos historicos; mas os costumes e as particularidades da narração não passam de meras ficções. Que a obra seja uma traducção não nos parece duvidoso. Na subscripção d’ella se diz que fôra ordenada por Jacob e Joseph ab Arimathia, que a todas aquellas cousas foram presentes. Isto indica bastantemente a origem estrangeira do livro. Se, porém, nos lembrarmos de que José de Arimathea figura nos romances do Santo Graal, como tendo recebido o sangue de Christo n’esse celebre Vaso, é naturalissimo que o novelleiro, auctor da Historia de Vespasiano se lembrasse de lhe attribuir a propria composição, tanto mais que era quasi como lei entre os romancistas, dar uma origem mysteriosa ou ao menos remota ao fructo de suas imaginações. Accresce para mais fundamentar a nossa opinião, que M. Fauriel menciona uma historia-romance da destruição de Jerusalem por Vespasiano escripta em provençal, e que elle classifica como livro connexo com o cyclo das novellas do Santo Graal[158]

No celebre manuscripto da Corte Imperial, capitulo IX, cita-se um poema erudito o Ovidio da Velha, escripto no seculo XIV em latim com o titulo De Vetula, por Richard de Fournival, e traduzido para verso francez pelo mesmo tempo por João Lefèvre. Ovidio e Virgilio foram os dois poetas queridos da Edade media; Virgilio era tido como o oraculo de toda a sciencia, vendo os theologos n’elle um propheta, e os jurisconsultos um interprete das leis; Ovidio foi mais popular, por que as suas Metamorphoses seduziam as imaginações, e os prégadores moralisavam sobre os seus versos. A predilecção extrema por Ovidio deu causa a uma immensidade de obras apocryphas, das quaes o poema De Vetula é um d’esses contos attribuidos no seculo XIV e XV ao poeta. Eis o trecho da Corte Imperial: «bem sabedes que hun grande poeta muy genhoso e muy sotil ante os outros poetas foy o que ouve o nome Ouvidio Naso e foi gintil. E este fez muitos livros antre os quaes antes da sua morte compos hun livro que chama Ouvidio da velha, e este livro foy achado em no seu muymento cõ os seus ossos en hua cansela de marfim.»—«todas estas cousas sobreditas que dise o poeta Ouvidio Naso som scriptas em aquele seu livro que chamam Ouvidio da Velha, o qual vós diviades a saber pelas quaes cousas bem parece que este poeta gintil asás profetizou de Jehsus xpõ e da sua ley e rraramente segundo avedes ouvido.» No canto III do poema é que se encontra a referencia da Corte Imperial relativa á influencia dos planetas no apparecimento das religiões. Como viria para este paiz o poema de Richard de Fournival?

Na côrte do rei D. Duarte já predominava a paixão pelas obras da antiguidade; no Leal Conselheiro conta as boas conversas que elle e seus irmãos tinham com o rei seu pae; discutia as regras para se traduzirem bem as obras classicas; o infante D. Pedro traduziu para portuguez o livro De Officiis de Cicero, e compilava na Virtuosa Bemfeituria trechos dos moralistas romanos e dos padres da egreja. As tragedias de Seneca eram lidas por Azurara, na livraria de D. Affonso V, herdada de D. Duarte. Essa erudição apparatosa apparece na encyclopedia moral chamada o Leal Conselheiro; o rei D. Duarte falla já com certo desdem da leitura das novellas: «cá se o leeren ryjo, e muito juntamente, como livro de estorias, logo desprazerá, e se enfadarom del, por o nom poderem entender nem renembrar...» (p. 500.) Dos Contos da Edade media ou Exemplos, de que a Gesta Romanorum era a mais afamada collecção, falla tambem com desdem o rei D. Duarte: «E daquesta guysa erramos per este desassessego: se no tempo de orar e ouvir oficios divinos, nos conselhos proveitosos, fallamentos ou desembargos, levantamos estorias recontando longos exempros.» (p. 192.) E falla das novellas como simples diversão: «para despender tempo ou se desenfadar com o livro d’estorias em que o entendimento pouco trabalha por entender ou nembrar.» (p. 7.) No Leal Conselheiro encontra-se o exemplo das Duas barcas, (p. 447) e o do Filho prodigo (p. 61) tão vulgarisado em todas as fórmas da arte da Edade media. A norma do Exemplo é o conto popular introduzido nos sermões a pretexto de pela lisonja do gosto tradicional incutir uma noção de moralidade. A Reforma acabou com os Exemplos nos sermões; Calvino, na Epistola a Sadoleto, diz que uma parte dos sermões se gastava: «em fabulas divertidas e especulações recreativas para excitar e mover o coração do povo á jovialidade.»

Só no seculo XVI é que Gonçalo Fernandes Trancoso, deu redacção litteraria a Exemplos e Contos da Edade media, não com o espirito secular e revolucionario de Boccacio, Sacchetti ou Fiorentino, mas com um intuito catholico de moralisação. Foi principalmente das fontes dos novellistas italianos que elle se serviu.

Tanto na litteratura hespanhola como na portugueza os ramos interminaveis do Roman du Renart não chegaram a lançar a sua efflorescencia; o rigorismo catholico e auctoritario n’estes dois paizes, não deixaria elaborar esse poema de revolta; escreve Du Méril: «Nos poemas do Renart não podia haver outra superioridade real senão a argucia e a força, d’onde resultavam tendencias democraticas e anti-clericaes, que os impediriam de adquirir uma grande popularidade nos paizes aristocraticos ou profundamente catholicos. Tambem os inglezes, os hespanhóes e os italianos não tiveram poemas do Renart[159] Em Hespanha o Renart é conhecido com o nome de Guinarda, e em Portugal com o de Golpelha (de Vulpecula), e em um Auto de Jeronymo Ribeiro falla-se em Raposias, no sentido de logro e de argucia.

O cyclo immenso da epopêa burgueza de Renart divulgou entre o povo um grande numero de anexins, já pela antiga fórma metrica, já pelas situações comicas a que alludem; encontramos nos escriptores do seculo XV, e mais frequentemente do seculo XVI:

O Lobo e a Golpelha

Fizeram uma Conselha.

A Golpelha (diminutivo de vulpes) é a pequena raposa ladina; na linguagem castelhana a Conseja ou Conselha é a designação vulgar do conto tradicional. Um outro anexim:

Da pele alhea

Grande corrêa,

que é commum a Portugal e aos poemas francezes da Edade media, deriva de um episodio do Roman du Renart: «O Leão, diz Fleury de Bellingen, achando-se afflicto com uma grande febre, mandou chamar a Raposa, para saber se no seu conselho poderia ter remedio a sua doença; a Raposa fingindo de medico, lhe disse, que para sua cura precisava cingir os rins com uma larga cinta tirada de fresco da pele de um Lobo. Seguindo esta receita, o Leão doente mandou chamar um Lobo, ao qual a Raposa cortou ao longo do dorso uma comprida e larga corrêa. O Lobo com as dores uivava desesperado, clamando: Ah, senhora Raposa, da pele que não é vossa tiraes larga corrêa.—D’aqui ficou o proverbio.»[160] Este antagonismo entre o Lobo (Ysengrin) e a Raposa (Trigaudin le Renart) apparece bem accentuado em outro anexim portuguez: «Com cabeça de lobo ganha a raposa.» E na farça do Clerigo da Beira, diz tambem Gil Vicente:

Mas são Lobos para mochos,

E Raposas de nação.

(II, 236.)

Uma variedade ou segunda elaboração do Renart é o Roman de Fauvel, em que ha um intuito moral: Fauvel representava as vaidades do mundo; todos vinham para elle com intuito de o montarem, mas cahiam estatelados; d’aqui a acção resumida no anexim do seculo XV: Tel estrille Faveau, qui puis le mort, e tambem o titulo abreviado Estrille-Fauvel. Dois anexins portuguezes parecem derivar-se d’este poema medieval, alludindo á difficuldade de montar o cavallo-Fauvel: «Cavallo-fouveiro, á porta do alveitar, ou de bom cavalleiro.» A locução: «Montar o cavallinho,» exprime o conseguir uma cousa difficil. Tambem em francez: Piquer le Renart, significando beber em jejum, é um modismo ultima diluição dos episodios da grande epopêa burgueza.

Os jurisconsultos da Europa cavaram a ruina da Edade media; serviram-se da esquadria da rasão contra os impulsos espontaneos da cavalleria feudal. Defendendo o povo contra os barões, abafaram a liberdade popular tirando-lhe as garantias das instituições locaes, unificando-as nos codigos reaes ou Ordenações formados segundo o espirito do Direito romano ao serviço da dictadura monarchica. Isto se repetia em Portugal, em contacto com a corrente da civilisação europêa: ao lado de um Condestavel que imitava no seu heroismo a virgindade cavalheiresca de Galaaz, prepondera o chanceller Dr. João das Regras, o homem da toga, armado com os textos legaes, com o pezo da burguezia derruindo o feudalismo. O desembargador Ruy Fernandes codificando o Regimento de Guerra portuguez, como bom legista, propõe para modelos os feitos dos gregos e romanos. Fallando do cargo de Alferes, formúla a Ordenação affonsina: «Os Gregos e Romanos forom homeens, que usaram muito de guerrear, e emquanto o fezerom com siso e entendimento vencerom e acabarom o que quizerom; e elles forom os primeiros, que fezerom em como fossem conhicidos os grandes senhores nas Côrtes dos Princepes e nas batalhas, e nos outros feitos de grande façanha.» E com a preoccupação da antiguidade, transcreve-se extensamente no Regimento de Guerra a auctoridade de Seneca e de Aristoteles.

Já para o fim do seculo XVI prevalecia a admiração da antiguidade, que influia na fórma litteraria da Historia. Villani, ainda no seculo XIV, confessava que a sua visita a Roma e a leitura dos seus escriptores lhe revelára o modo de escrever a historia. Em Portugal escreve-se em latim a historia de Ceuta, por Matheus Pisano, e de Italia é mandado vir o humanista Justo Baldino, para traduzir para latim as chronicas do reino. Os costumes palacianos exigem aos fidalgos a cultura do latim; vive-se em signo de latim, como a apoda graciosamente Ayres Telles. A Edade media ainda sobrevive vagamente em uma ou outra serodia novella de cavalleria; a antiguidade greco-romana impõe-se triumphantemente d’entre a crise intellectual do seculo XVI.

§ 2.—A Renascença

(HEGEMONIA DA ITALIA)

A França precedeu a Italia na iniciativa e influencia do genio esthetico na Edade media, como o proclamou Dante com toda a superioridade do seu espirito; Comte, consignando o facto, explica-o: «ora esta incontestavel diversidade historica parece-me dever ser sobretudo attribuida á menor consistencia da ordem feudal na Italia, apezar da acção mais especialmente favoravel que o catholicismo ali devia exercer sobre o desenvolvimento inicial das bellas-artes.»[161] Poderia a Egreja provocar o desenvolvimento da architectura e artes ornamentaes, mas bastava sustentar o principio de que a sociabilidade polytheica era inferior á christã, para desviar os espiritos da admiração das obras da antiguidade. A queda do regimen feudal envolvendo a do regimen catholico alterou a estabilidade da Edade media, e deixou as capacidades estheticas sem elementos sérios de idealisação; tal foi a causa de se procurar na civilisação polytheica greco-romana, já o typo ideal para a imitação artistica, já as fórmas sociaes para o estabelecimento de um regimen politico, como se vê no esforço laborioso dos Humanistas e dos Jurisconsultos. Comte propõe com a maxima clareza a causa da Renascença: «Se o estado catholico e feudal tivesse podido persistir realmente, não é duvidoso, a meu vêr, que a expansão esthetica dos seculos XII e XIII teria adquirido, pela sua eminente homogeneidade, uma importancia e uma profundidade muito superiores a tudo o que tivesse podido existir depois, sobretudo quanto á efficacidade popular, verdadeiro criterio das bellas-artes. Pela transição rapida, e muitas vezes violenta, que com frequencia tinha de effectuar-se no decurso d’este grande periodo revolucionario, e ao qual a progressão industrial tão poderosamente contribuiu, o genio esthetico teve necessariamente falta de direcção geral e de destino social. Entre a antiga sociabilidade expirante, e a nova pouco caracterisada ainda, não pôde bem nitidamente sentir o que devia sobretudo idealisar, nem sobre que sympathias universaes elle devia principalmente repousar.»[162] É d’esta instabilidade social que deduz Comte a «alteração notavel, vãmente qualificada de regeneração das Bellas-Artes, e que sob muitos aspectos, constituia mais de que tudo uma tendencia retrograda, inspirando uma admiração muito servil e muito exclusiva pelas obras primas da antiguidade relativas a um systema inteiramente differente de sociabilidade.»[163]

Na grande crise revolucionaria, em que á vida guerreira do Feudalismo se contrapõe a actividade pacifica do proletariado e da elevação da vida domestica, a expansão industrial vem espontaneamente estimular as capacidades estheticas. E como a Italia era entre os orgãos da Republica occidental, a que pela sua separação do feudalismo e regimen municipalista mais avançava para a liberdade civil da burguezia, achou muito cedo novos elementos de idealisação, quer na autonomia critica, como em Dante com a Divina Comedia, quer no sentimento do amor como na Vita Nuova e em Petrarcha nos Sonetos e Canções, quer nos quadros da vida domestica, como Boccacio conseguiu representar nos Contos e Novellas, rudimentos essenciaes que precederam a caracteristica creação moderna do Romance. Mas a instabilidade não era simplesmente social; era essencialmente mental, e foi sob este aspecto que se manifestou o espirito critico contra a Egreja, e a necessidade de construir uma nova synthese especulativa. A antiguidade classica apresentava profundos philosophos, para serem consultados na formação de uma tal synthese, e incomparaveis poetas e artistas, para fornecerem typos estheticos para a imitação. Assim a Italia que avançava para o estabelecimento das fórmas definitivas da litteratura moderna, como se vê pelo lyrismo petrarchista e pelas narrativas novellescas, ao entrar no seculo XV, e mesmo no esplendor do seculo XVI, não tornou a appresentar uma pleiada como Dante, Petrarcha e Boccacio. A imitação da antiguidade classica tornou-se uma necessidade, uma como disciplina do gosto, na instabilidade das emoções abaladas pelas alterações do meio social. Observa-o Comte: «Uma apreciação mal aprofundada, conduz mesmo, ao que me parece, que a imitação mais ou menos servil da arte antiga, deveu desde logo, por uma reacção necessaria, tornar-se para a arte moderna um meio facticio de supprir provisoriamente, ainda que de uma maneira imperfeitissima, a esta lacuna fundamental, que o progresso da transição revolucionaria devia tornar cada vez mais funesta á marcha das bellas-artes... Não podendo achar em volta de si uma sociabilidade bem caracterisada e assás fixa, a arte moderna imbuiu-se naturalmente da sociabilidade antiga, tanto quanto podia permittil-o uma ideal contemplação, guiada pelo conjuncto de monumentos de todos os generos, etc.»[164]

O abandono ou desprezo pelas obras classicas greco-romanas durante a Edade media, facilitára em certa fórma a espontaneidade e originalidade do genio esthetico moderno; mas um tal abandono era a consequencia do desdem com que esse passado e edade polytheica eram considerados pelo catholicismo em relação ã nova sociabilidade europêa:

«Convém notar, que uma tal tendencia era, na Edade media, intimamente ligada ao preconceito universal, tão justamente estabelecido pelo catholicismo, sobre a preeminencia fundamental do novo estado social comparado ao antigo.»[165] A época da Renascença caracterisa-se por uma profunda admiração pelas obras e até pela constituição social d’esse passado polytheico; como se deu uma alteração tão profunda no gosto e no criterio, apparecendo a Edade media como barbara, como uma edade de trevas? Desde que a Egreja deixou de acompanhar o progresso da sociedade europêa, e o Poder espiritual se materialisou nas fórmas de uma soberania terrena, estabeleceu-se uma reacção nos espiritos, levando os que eram crentes para a preoccupação de uma Reforma, dentro da propria orthodoxia da Egreja, e os que se emancipavam da credulidade, a acharem no estado de consciencia do mundo antigo greco-romano manifestações mais bellas em quanto á situação moral e social. A revivescencia das obras primas da antiguidade obedecia a um certo espirito revolucionario, já contra a Egreja, e mesmo contra as Monarchias, como se observa no Humanismo francez e no hollandez. Comte notou um d’estes aspectos revolucionarios: «Esta relação natural, mesmo ulteriormente contribuiu, em sentido inverso, para a resurreição da litteratura antiga, na qual tantos espiritos cultivados procuravam, máo grado seu, uma especie de protesto indirecto contra o espirito catholico, desde que elle deixou de ser sufficientemente progressivo.»

Causas especiaes actuavam na Italia para que ella se apaixonasse pelo esplendor da civilisação antiga, exercendo a sua hegemonia litteraria e artistica desde o seculo XV. Não foram os eruditos exilados de Byzancio que trouxeram á Italia o conhecimento dos monumentos da antiguidade classica; essa tradição não perdera ali a continuidade. Dante tomando Virgilio como mestre e guia (tu duca, tu maestro) e proclamando Homero poeta soverano, define com mais clareza do que qualquer prova historica essa relação entre as duas edades. A cultura da Jurisprudencia romana, fazendo convergir ás Escholas de Italia todos os estudiosos da Europa, preparava para essa cultura humanista, que servia de alivio suave aos espiritos no meio da instabilidade politica de uma sociedade, que aspirava debalde á vida nacional no meio das absorpções e traições dos Papas, da pressão semi-barbara dos Imperadores germanicos, e da indifferença de uma burguezia preoccupada exclusivamente do goso egoista das riquezas do seu trafico. O mundo ideal da Arte era um refugio para as almas mais puras; não podendo estabelecer uma relação com o meio social, fugiram da realidade, procurando nas litteraturas antigas as normas que mais encantavam, e cultivando a expressão esthetica (a arte pela arte) pelo instincto vago da perfeição e não pelo seu destino social. Philarète Chasles accentúa esta situação: «Na Italia, ao contrario do que succedia no norte, as molas da sociedade politica estavam gastas; a galanteria dos costumes, o brilho das artes, o encanto do estudo consolava o paiz d’esta divisão intestina que lhe não permittia ter esperança em uma grande vida nacional. Por confissão dos pensadores e dos escriptores philosophos da Italia, Machiavelli, Bentivoglio e Tasso, a época do seu esplendor intellectual é simultanea com a da decadencia moral. O genio das artes, da belleza do estylo e da fórma attingiram uma perfeição admiravel, sem que a sociedade se elevasse.»—«Tinham surgido á luz Dante, Petrarcha, Boccacio; as republicas tinham cumprido o seu ruidoso destino; a fé politica e religiosa tinham desapparecido; tudo se dissolvia na ardente voluptuosidade dos costumes, no luxo das festas principescas e no culto physico das paixões, da belleza e das artes.»[166] Reflectia-se este estado social nas manifestações dos espiritos, em que a inspiração era um phenomeno psychico de tensão encephalgica, de erectismo nervoso. O genio sobresaía no meio das luctas, n’essa atmosphera de revolução em que respiram os grandes homens. No conflicto constante dos dois poderes o Sacerdocio e o Imperio, a Italia géra os organismos mais extraordinarios da humanidade, como Dante e Francisco de Assis, Miguel Angelo e Machievelli, Petrarcha e Raphael. As impressões vivas dão mais intensidade á existencia; vive-se muito em breves momentos. As melhores épocas da arte italiana coincidem com o veneno dos Borgias; o desterro abre a Dante a selva oscura da sua trilogia épica; a balia de Florença embala o nascimento de Miguel Angelo; a tortura policial ou inquisitorial dá a revelação das leis sociologicas a Machiavelli, e confirma em Galileo a ideia do movimento da terra; a perseguição leva Campanella a conceber a utopia da Cidade do Sol, e a Palestrina a concepção da musica religiosa. Cimarosa, o sonhador divino do Matrimonio secreto, cria um mundo novo de harmonia sob a pressão do despotismo austriaco que lhe deu a morte. A situação historica da Italia, na sua longa aspiração de nacionalidade, explica-nos o caracter e successão dos seus grandes homens. Era-lhe sympathica a sociedade antiga, sob o aspecto da liberdade. Em épocas em que as garantias politicas se acham distribuidas em um justo equilibrio, em que a esphera da acção individual está descripta nos codigos, quando o interesse e o egoismo generalisam virtudes negativas e impõem uma moral chata de um concreto bom senso, o homem de genio acha-se asphyxiado, ridiculo, e para resistir procura confundir-se com a multidão e mascarar-se com o vulgarismo das mediocridades. Pelo contrario, as sociedades antigas favoreciam mais a livre manifestação do bello; na vida do Ágora, do Forum, faziam que o homem se possuisse do respeito do si mesmo; fallava como um deus, não conhecia o ridiculo, determinando-se pelas proprias impressões sem contraste entre si os outros concidadãos. A cada passo tinha de recorrer á revolta, para supplantar as tyrannias; nas festas civicas competia com os mais esbeltos, com os mais ligeiros e os mais fortes. A individualidade italiana lisongeava-se na idealisação da sociedade antiga, e nas suas crises sentia identificar-se n’esse mundo não pela erudição mas pela realidade. A Renascença não era para a Italia uma reconstrucção archeologica, nem uma imitação banal; os eruditos da Egreja e da Curia chegavam á illusão de se crêrem na sociabilidade greco-romana, e de quasi tentarem a substituição do catholicismo, que atravessava a crise de uma reforma, pela alegria exterior e fraternal dos cultos polytheicos. Pela acção dos seus genios individuaes na fórma deslumbrante da arte e poesia, a Italia exerceu uma plena hegemonia em toda a Europa; mas essas manifestações de superioridade não a elevaram, por que a cultura esthetica era exclusiva, absorvente, e independente da disciplina intellectual e de toda a acção prática ou destinação social. É por isso que esse influxo da Renascença se torna entre as outras nações um artificio rhetorico, que se prolonga até ao seculo XVIII, sob as fórmas do Culteranismo e do Arcadismo pseudo-classicos.

D’esta preponderancia do ideal classico na Renascença, escreve Comte com notavel segurança: «Concebe-se facilmente com effeito, que a um systema de composição tão facticio, era preciso egualmente preparar, durante algumas gerações, um publico que o não fosse menos; por que, perdendo a sua originalidade da Edade media, a arte perdia egualmente, e inevitavelmente, a ingenua popularidade que era a recompensa espontanea, e que não se tornou a achar em um tal gráo, mesmo nos casos mais favoraveis. Ainda que a sua natureza geral a destina sobretudo ás multidões, a arte moderna era então forçada, por uma excepção inevitavel, de se dirigir especialmente a ouvintes privilegiados, que uma laboriosa educação tivesse préviamente collocado assim, ainda que em um menor gráo, nas condições estheticas analogas á dos proprios artistas, e sem os quaes não poderia existir, entre o estado passivo de uns e o activo de outros, esta harmonia indispensavel a toda a acção das bellas-artes. Na ordem plenamente normal, uma tal harmonia estabelece-se geralmente sem esforço, de uma maneira muito mais intima, segundo a preponderancia commum do meio social que penetra constantemente e ao mesmo tempo o interprete e o espectador; mas sob esta anomalia provisoria, devia pelo contrario exigir uma longa e difficil preparação.»[167] Comte referia-se ao phenomeno, que tanto actuou na decadencia das litteraturas romanicas pela separação entre os escriptores e o povo, e á laboriosa educação classica europêa, que tornou possivel destacar da imitação antiga algumas obras primas.

a) O HUMANISMO QUINHENTISTA

O phenomeno tão complexo da Renascença, na Europa, abrange segundo o auctor da Historia do Materialismo, dois seculos de actividade, desde o meado do seculo XV até aos fins do seculo XVII. Segundo Comte, que analysou assombrosamente a marcha da sociedade moderna partindo da dissolução do regimen catholico-feudal, esta longa phase da Renascença caracterisa-se por uma revolução mais mental do que social. A Renascença apresenta-se com dois aspectos, um litterario, que leva á imitação das obras primas da antiguidade com desprezo systematico da Edade media, separando a idealisação esthetica dos interesses da sociedade moderna; o outro é scientifico, retomando os conhecimentos que a Grecia nos legou sobre Mathematica e Astronomia, caminhando assim a intelligencia europêa para a creação das sciencias experimentaes, para a elaboração da Physica, e particularmente para a formação de uma nova synthese philosophica. Vê-se que d’estes aspectos um é inorganico, renovando o ideal polytheico, e o outro é impulsivo, restabelecendo a hierarchia theorica dos conhecimentos humanos, partindo da renovação da Mathematica e da Astronomia para a Physica e Chimica. Assim póde-se determinar na successão da Renascença na Europa, os seguintes periodos:

Philologico e artistico, em que prevalece a Italia como impulsora do estudo das litteraturas da antiguidade classica, ou propriamente o Humanismo:

Theologico e critico, resultante do estudo philologico dos livros sagrados, e pelo seu exame conduzindo ás ideias da Reforma religiosa, sendo a Allemanha a impulsora d’este movimento insurreccional dos espiritos:

Scientifico e philosophico, em que cooperam a Italia, a Inglaterra e a França, pela acção de sabios experimentalistas como Galileo, e espiritos syntheticos como Bacon e Descartes.

A Italia creava a philologia, renovando os perdidos estudos dos Alexandrinos, e levando a luz da critica e do gosto aos trabalhos confinados dos eruditos byzantinos. A paixão pela nova sciencia occupava todos os espiritos, desde a cathedra pontifical até ao humilde typographo. Era uma revolução em que a humanidade tomava conhecimento de si mesma; toda a Italia era uma eschola, e de todos os paizes convergiam ali os espiritos ávidos de luz, destacando-se como novos pedagogos Victorino de Feltre e Angelo Policiano.

A corrente humanistica do seculo XV, sob o influxo da Italia reflectiu-se muito cedo em Portugal; vêmol-o pela preoccupação de traduzir-se em latim as chronicas portuguezas, como pelo empenho que levava a realeza e a aristocracia a enviarem estudantes para as escholas italianas. Azurara, que escrevia no reinado de D. Affonso V, falla na sua Chronica da Conquista de Guiné, como reconhecendo os caracteres dos elementos da Republica occidental, «da grandeza dos Allemães, e da gentileza da França, e da fortaleza da Inglaterra, e da sabedoria da Italia.» No primeiro quartel do seculo XVI, Portugal, pela extrema actividade das navegações e colonisações na India e Brazil, não acompanhou a marcha da Renascença; por este atrazo, conta André de Resende que viajou pela Italia e Flandres, que n’esses paizes Portugal era pouco considerado: «quibus Lusitanum nomen gratiosum non est.» Na Oração recitada em 1534 na Universidade de Lisboa, o sabio humanista chama a attenção das intelligencias para a direcção mental da Renascença, apresentando o exemplo da Italia, da Allemanha, da França, da Inglaterra e Polonia.[168] Em Portugal estava-se um pouco afastado d’este movimento litterario, mas o nome portuguez resoava gloriosamente na Europa dominando nas principaes escholas. Os Gouvêas, como pedagogos quer em Paris ou em Bordeus, tinham por discipulos homens como Rabelais e Calvino, Montaigne e Ignacio de Loyola; e Erasmo contava entre os seus principaes amigos a Damião de Góes. Em breve destacaram-se da activa phalange dos humanistas do seculo XVI, na Europa, os portuguezes André, Antonio, Diogo e Marçal de Gouvêa (uma dynastia de pedagogos), Achilles Estaço, Ayres Barbosa, André de Resende, Aleixo de Sequeira, Diogo de Teive, Damião de Góes, Francisco de Fontes, Antonio Luiz, D. Francisco de Mello, D. Fructuoso de Sam João, Jeronymo Cardoso, Jorge Coelho, Henrique Caiado.

O humanismo italiano decaiu depois da tomada de Florença, appresentando a França o esplendor dos estudos philologicos, pela acção que os jurisconsultos como Cujacio, Hotman e Pithou exerceram pela analyse dos textos do direito romano, tratando de recompôr a vida social através da interpretação das leis. Era a applicação do methodo juridico, exacto e severo, ás obras da litteratura para revelarem o meio social. Como na Italia, o humanismo francez decahiu por causa das guerras religiosas, e pelo empirismo secco e improgressivo do ensino jesuitico. Esta situação do Humanismo, que se tornára critico exercendo-se sobre os Livros biblicos, cooperou n’esse outro phenomeno social da regeneração do christianismo tentada sob o titulo de Reforma. Os humanistas, principalmente os da eschola hollandeza, eram chamados erasmistas, para significar a sympathia que sentiam pela revolução religiosa, tornando-os responsaveis das finas e livres ironias de Erasmo. Assim como Ayres Barbosa e André de Resende representam o humanismo italiano em Portugal, e Antonio de Gouvêa e Diogo de Teive representam o Humanismo francez, o nosso grande chronista Damião de Góes é o representante d’esse outro humanismo, que desde Erasmo a Heinsius e Grotius, pela vida prática de uma san democracia se identifica completamente com a comprehensão historica da civilisação antiga.

A ideia e aspiração de uma reforma na Egreja, que se manifestou na Allemanha pela simples aspiração a uma remodelação da hierarchia sacerdotal, apparece no seculo XVI agitando muitos espiritos dentro da orthodoxia: e assim um rei catholico e outro fidelissimo intervêm pedindo ao papa que tome essa iniciativa. É frequente encontrar-se nos escriptores do principio do seculo XVI uma nota satyrica contra a Egreja e o theologismo que se agarrava ás argucias do scholasticismo medieval. E assim como Luciano, na dissolução do polytheismo hellenico satyrisava os deuses, em França Rabelais dissolve os velhos preconceitos do regimen catholico-feudal pelos sarcasmos do Pantagruel e de Gargantua, e o cavalleiro de Hutten na Epistolae Obscurorum Virorum, abala o carcomido throno da escholastica e da esteril theologia que atrophiavam a rasão humana.

Em Portugal é Gil Vicente o escriptor que se inspira com toda a decisão no espirito critico d’esta primeira phase da Reforma. É sublime esta grande alma, rebaixando-se á situação de actor (auctor et actor) para dizer diante da realeza quanto era necessario actuar sobre a hierarchia religiosa moralisando-a. São de uma audacia extrema os seus versos contra Roma. Os eruditos da Renascença em Portugal eram contrarios a Gil Vicente; mas ninguem como elle representou nos seus Autos e Farças a vida nacional, e se inspirou mais ingenuamente d’essa espontaneidade popular para exprimir a aspiração da sua época—a reforma da Egreja, iniciada por ella propria.

Um outro humanista, que citava Gil Vicente como auctoridade philologica, o grammatico Fernão de Oliveira, tambem seguiu as ideias da Reforma, porém na phase mais adiantada da transformação da disciplina. Os estudos criticos dos exemplares da litteratura antiga abriam aos eruditos do seculo XVI um horisonte mais vasto do que a rotina das escholas monachaes com a sua Arte velha de Pastrana ou de Alexandre Villa Dei. Os habitos da exploração dos textos desenvolvia o espirito de livre-exame; a intelligencia avesada a interpretar palimpsestos, a restituir a lição dos auctores classicos, a restabelecer os textos truncados, a compenetrar-se do sentimento da antiguidade, não podia abnegar da sua supremacia, e applicára o mesmo processo á Biblia e aos Evangelhos. Foram os humanistas e os philologos que mais concorreram para a obra da Reforma; por isso os Jesuitas, reagindo contra o Protestantismo, tornaram-se essencialmente pedagogos apoderando-se do humanismo. Em Portugal vieram contraminar a obra do renascimento litterario superiormente dirigida por André de Gouvêa e por Diogo de Teive. Antes de ter cahido na illaqueação jesuitica, D. João III tentára attrahir para a reforma da Universidade de Coimbra a Erasmo. Damião de Góes é o que representa em Portugal a corrente da Reforma, não pela manifestação das ideias, por que elle confessa-se sempre orthodoxo, mas pelo seu martyrio, por ser amigo pessoal de Erasmo, por ter tratado com Luthero, quando esteve na Allemanha, e com Melanchton. Em uma confissão no Santo Officio declara: «Depois que vim a Portugal ... El Rei ... e os Infantes seus irmãos, e outros senhores do reino, me perguntaram com muito gosto e mui particularmente pelo discurso de minhas peregrinações, fallando-me em Luthero e nas cousas da Allemanha ... e por El Rei saber que vira eu já Erasmo Rotherodamo e que eramos amigos, me perguntou algumas vezes se o poderia eu fazer vir a este regno pera se d’elle servir em Coimbra.» Por intervenção de André de Resende é que viera tambem para Portugal o celebre humanista Nicoláo Clenardo.

Uma certa sympathia pessoal e litteraria existia entre Damião de Góes e Gil Vicente; fallando em humanidades com Erasmo inter pocula, teve occasião de lhe inspirar curiosidade pela obra dramatica de Gil Vicente, que elle vira representar na sua mocidade na côrte de D. Manoel. Na relação das festas feitas em Bruxellas pelo embaixador D. Pedro de Mascarenhas pelo nascimento do princepe D. Manoel, em 1532, vem o nome de Damião de Góes como um dos que assistiu á representação do Auto da Lusitania, escripto n’esse anno por Gil Vicente, e repetido n’aquella côrte.

Uma das grandes influencias da Reforma, que a ligam ao movimento do humanismo da Renascença foi a summa importancia que se deu ao estudo do hebreu e do grego; as polemicas religiosas, as traducções da Biblia em vulgar, a leitura dos padres da egreja para a controversia, exigiam conhecimentos d’essas duas linguas, que estimulavam o criterio philologico. Melanchton recommendava aos seus discipulos Homero e S. Paulo; é tambem um sectario da Reforma, Fernão de Oliveira, que em 1537 publica a primeira Grammatica portugueza, plagiada por João de Barros para auxiliar a catechese de uns princepes indianos que vieram a Portugal. André de Resende recommendava aos alumnos da Universidade de Lisboa a alliança do grego com o latim; na reforma da Universidade em 1547, vieram de Paris para mestres de grego o Dr. Fabricio e Buchanan, para hebraico Rosetto. Pouco depois tiveram de fugir de Portugal, ao terror inquisitorial que os perseguia pela mão occulta dos jesuitas, para se apoderar da disciplina humanista. Em Jorge Ferreira de Vasconcellos, Dr. Antonio Ferreira, Sá de Miranda e Garcia de Resende, acham-se referencias ao nome de Luthero, e á injuria terrivel da accusação de lutherano. Na epopêa de Camões, em que está implicito todo o espirito da Renascença, ha uma nota de aversão contra o movimento da Reforma:

Vêdel-os Allemães, soberbo gado

Que por tão largos campos se apascenta,

Do successor de Pedro rebelado,

Novo pastor e nova seita inventa...

Vêdel-o duro Inglez..........

Entre as boraes neves se recreia,

Nova maneira faz de Christandade...

Pois de ti, Gallo indigno, que direi?

Que o nome christianissimo quizeste,

Não para defendel-o, nem guardal-o,

Mas para ser contra elle e derrubal-o.

Pois que direi d’aquelles, que em delicias

Que o vil ocio no mundo traz comsigo,

Gastam as vidas, logram as divicias

Esquecidos do seu valor antigo?...

Comtigo Italia fallo, já submersa

Em vicios mil, e de ti mesmo adversa.

(Lus., VII, 4, 5, 6, 8.)

Camões sentia aqui a solidariedade d’estes elementos da Republica occidental, que quebravam a sua unidade catholica; mas as reacções provocadas pelo Concilio de Trento para restabelecel-a, levaram á depressão intellectual suscitando a fórma social da revolução moderna, desde a monstruosa revogação do Edito de Nantes. Já quando em 24 de Agosto de 1572 chegou a Portugal a noticia da matança da noite de Saint-Barthelemy, celebrou-se esse crime da religião com repiques de sinos e luminarias, e um Te-Deum cantado na egreja de S. Domingos, com sermão do mystico Frei Luiz de Granada. Já nos estudos imperava o espirito que ditára a D. João III, que os estudantes da Universidade fossem «mais catholicos e menos latinos.» Pelo sacrificio á unidade catholica, em 1580, a aristocracia e o povo portuguez sacrificaram a propria nacionalidade. Nos paizes catholicos os Jesuitas mataram o Humanismo pelos seus cursos de Artes, e preparam essas gerações que na litteratura desconheceram o sentimento preferindo á verdade natural o conceito affectado e a figura de rhetorica.

O duplo elemento classico e medieval das Litteraturas romanicas, manifesta-se pela influencia que na portugueza exerceram as litteraturas italiana e castelhana.

I. Antagonismo dos dois elementos classico e medieval.—Em todas as manifestações estheticas do genio moderno, na architectura e na pintura, na poesia como na arte ornamental, appresenta sempre a Renascença uma duplicidade nos meios da expressão do bello: umas vezes o artista conserva-se alheio ao movimento da Renascença idealisando a vida medieval (Gil Vicente), outras vezes desprezando tudo quanto possa recordar o obscurantismo d’essa edade (Dr. Antonio Ferreira e Sá de Miranda) e tambem fazendo o syncretismo dos dois espiritos, como vêmos em Camões confundindo nos Lusiadas as divindades do polytheismo como symbolos poeticos da indole dos symbolos christãos.

Van Bemmel, no seu livro De la Langue et de la Poésie provençales, caracterisa essa duplicidade das Litteraturas da Edade media:

«A actividade intellectual, na Edade media, formava dois mundos inteiramente differentes, tendo cada um seu povo, sua lingua e sua litteratura. De um lado era o elemento novo, espontaneo, essencialmente popular, cheio de vida e de futuro; do outro, o elemento conservador, não tendo mais do que uma existencia facticia, fóra do movimento social, inabalavel e sempre o mesmo ao lado da marcha rapida das ideias. De um lado estava a poesia e a lingua que se chamava vulgar ou romana, espalhadas entre o povo; do outro lado a sciencia e as linguas latina e grega, habitando os claustros, as escholas e as Universidades. E por longo tempo estas duas sociedades tão dissimilhantes viveram uma ao lado da outra, sem se conhecerem, sem se verem.» (p. 6.)

Basta observar o antagonismo entre a civilisação e o poder imperial de Roma, e as raças barbaras da Europa, que vieram a prevalecer na reorganisação social moderna depois das invasões das tribus barbaras da Germania, para se notar que estes dois elementos não podendo unificar-se tinham de alternar-se na sua influencia. Entre a civilisação da Antiguidade classica e o mundo medieval, apparece a religião universalista do Christianismo; no periodo proselytico da sua constituição e da lucta apoiou-se a nova religião nas classes servas, na plebe, adaptando-se ao elemento popular; quando ligada ao poder politico se fortificou pela hierarchia, ou Egreja, a nova religião tentou apoderar-se da missão da unidade de Roma, e tornar-se cultora e depositaria da litteratura latina. O antagonismo entre o clericus e o laicus reflecte-se em toda a vida mental da Edade media. Escreve Gaston Paris, sobre este antagonismo: «A Egreja conservou officialmente a lingua do imperio romano, ao qual se tinha associado intimamente com Constantino; em quanto, na época das suas luctas ella tinha favorecido o desenvolvimento da lingua e da poesia populares, a partir do periodo barbaro, procurou conservar a unidade romana, sequer pelo menos na ordem espiritual, acima de todas as variantes nacionaes. A tentativa de renascença feita por Carlos Magno apoiou-se então essencialmente na Egreja, e desde ahi até aos tempos modernos, a lingua da Egreja foi a da sciencia e a da litteratura elevada. Este estado de cousas creou entre o clerigo e o leigo uma separação profunda que domina toda a historia das litteraturas da Edade media. A poesia popular desenvolveu-se com uma grande espontaneidade e uma liberdade completa; mas ficou privada, pela abstenção dos espiritos superiores e mais cultivados, da perfeição da fórma e da seriedade de fundo, que sem duvida com o seu concurso teria podido attingir. Por outro lado, os clercs fechados nas suas fórmulas tradicionaes e herdeiros muito fieis, dispenderam durante seculos esterilmente uma actividade intellectual consideravel.»[169]

«Na Renascença o clericus e o erudito confundem-se em um mesmo typo, o humanista, que detesta a rudeza medieval e só visa a attingir a perfeição da fórma pela imitação da belleza classica. Póde-se seguir esta predilecção exclusiva através de todas as fórmas geraes da Arte. Na Architectura, á efflorescencia gotica, desenvolvida pelos sentimentos da sociedade catholico-feudal, oppõe-se a reproducção das ordens gregas, propagando esse estylo Bramante, Raphael, Peruzzi, Geminiano de San Gallo. O estylo classico foi propagado em Portugal por Sansovino, de Florença. O conflicto entre os dois estylos, deu logar a uma manifestação architectonica encantadora o gotico florido, chamado manoelino, no qual como nos generos que o antecederam existe, como observou o artista Roquemont alguma cousa de privativo, que pertence unicamente a Portugal.»[170] No Auto da Ave Maria, de Antonio Prestes, escripto por 1529, esboça-se a lucta do estylo classico e do gotico:

MESTRE: E a que vem a esta terra?

DIABO: Mostrar mi saber, mis manos;

suena allá que Luzitanos

su gusto aora se encierra

en edificios romanos.

CAVALL: Eu sou dos que estão postos

n’esse gosto;

que não vi melhor composto,

hei-o por gosto dos gostos,

jamais lhe virarei rosto.

As doutrinas estheticas de Bastiano de Sangallo (1481-1551) tambem apparecem citadas n’este Auto do Prestes: «el gran Sebastiano—fué la tinta, yo la pluma...» A corrente classica foi sustentada em Portugal por Francisco de Hollanda, que viajou pela Italia e se educou em Roma, vivendo na intimidade dos grandes artistas da Renascença.

Na Pintura reflecte-se o mesmo antagonismo; o chamado estylo gotico ou propriamente a influencia flamenga e allemã, representada em Gram Vasco, é substituida pelo gosto italiano, revolução determinada pelo sabio Raczynski na época de D. João III, entre 1530 e 1550, sendo os principaes renovadores Gaspar Dias, Fernando Gomes, Manoel Campello e Francisco Vanegas. Na Esculptura e Ourivesaria, o erudito Garcia de Resende, na Miscellanea, mostra um grande desprezo pelos artistas nacionaes, talvez mesmo com intenção de ferir o auctor da Custodia de Belem, dando a palma aos italianos:

Ourivisis e Escultores

São mais sotis e melhores.

A mesma preoccupação erudita fazia com que se não estudassem as chamadas leis do reino na Universidade, e todo o ensino incidisse exclusivamente no Direito romano. E como os Poetas eram geralmente jurisconsultos, como Sá de Miranda, Ferreira, Gabriel Pereira de Castro, André Falcão de Resende, Mousinho de Quevedo, era natural tenderem para a imitação da poesia classica, Gil Vicente, eminentemente nacional, satyrisa esta corrente juridica:

vereys com quanta graveza

busca leys de gentileza

no lindo estylo romano.

(Canc. ger.)

É nas fórmas da Poesia que mais nos interessa observar esta corrente do classicismo pela imitação da litteratura italiana.

O genio sensual da Renascença fizera do estudo litterario um passatempo epicurista; o culto dos exemplares gregos era objecto de um fanatismo e de vaidade pessoal; os Cardeaes entregavam-se a este culto de predilecção, a ponto de resarem odes gregas em vez dos canones da missa, como fazia o cardeal Bembo, ou de representarem comedias classicas como o cardeal Bibiena. Á imitação da academia alexandrina, os eruditos italianos, com o vinculo do mesmo amor pela Antiguidade, reuniam-se em palacios esplendidos, ora em jardins magnificos, terminando regularmente as palestras litterarias com musicas e opiparos banquetes. Este empenho da arte pela arte levou á fundação de innumeras Academias italianas no seculo XVI, com os titulos heteroclitos de Intronati, (1525) Infiammati, (1540) Innominati, (1549) Insensati, (1560) Animosi, (1576) Illuminati, (1598) etc.

A influencia italiana estendeu-se a Portugal tambem em relação ao estabelecimento de Academias. Na côrte de D. João III, a Infanta D. Maria, a ultima filha do rei D. Manoel, fundou uma Academia de mulheres, a que pertenceram Luiza Sigêa e Angela Sigêa, Joanna Vaz, e Paula Vicente filha do fundador do theatro nacional. Era estylo comparar as damas formosas e cultas á celebre Victoria Colonna. João de Barros descreve a Infanta aproveitando o tempo que lhe restava das suas resas em aprender latim. Nos versos feitos por André de Resende á morte de Luiza Sigêa, vêmol-a retratada como uma assombrosa polyglota, versada no latim, grego, hebraico, chaldeo, e correspondendo-se com o Papa Paulo III, a quem dedicou o seu poema Cintra. No livro das Moradias da Casa da Rainha D. Catherina, Anna Vaz apparece com o ordenado de 6$000 réis com verba de latinas, provavelmente mestra das outras damas. Falla dos seus conhecimentos de letras humanas o Dr. João de Barros no Espelho de Casados. No citado livro das Moradias, Paula Vicente, tambem auctora de uma grammatica e collaboradora nos Autos de seu pae, apparece com o assentamento de tangedora. D’entre a pleiada academica distinguia-se então D. Leonor de Noronha, que traduzira do latim as Eneadas de Marco Antonio Sabellico. Vê-se como a moda da erudição abafava a natural sympathia feminina pela Edade media.

a) O LYRISMO PETRARCHISTA

A influencia da poesia trobadoresca irradiou da Sicilia para a Italia continental, empregando-se o dialecto toscano, fallado em Florença e preferido para a linguagem escripta, para propagar as canções amorosas, em que se manifestaram as mais delicadas e ideaes emoções dos Fieis do Amor. Dante falla com encanto d’esse «dolce stil nuovo ch’io odo,»[171] e no De vulgare Eloquio, diz que as composições poeticas em linguagem vulgar se consideram de gosto siciliano. D’esta corrente poetica nasceram as fórmas definitivas do lyrismo moderno, levadas á perfeição por Petrarcha. Em Portugal foram conhecidos os principaes trovadores chamados sicilianos, Bonifazio Calvo, de Genova, e Sordello, de Mantua, mas a sua influencia decahiu com a eschola provençalesca desde o tempo de D. Affonso IV. A Hespanha começou a renovação do seu lyrismo desde Micer Francisco Imperial e chegou ao esplendor da eschola de Sevilha; em Portugal essa influencia manifesta só se determina depois da viagem de Sá de Miranda á Italia em 1521, quando tambem se operava egual transformação do gosto em Hespanha por Boscan, Cetina e Garcilasso. Sá de Miranda, que teve uma clara comprehensão do dolce stil nuovo, conhecia-lhe a sua origem litteraria, e mostra a relação entre os rudimentos poeticos dos trovadores provençaes e o bello lyrismo italiano:

Entrando o tempo mais, entrou mais lume,

Suspirou-se melhor, veiu outra gente,

De que o Petrarcha fez tão rico ordume:

Eu digo os Proençaes, que inda se sente

O som dos brandos versos que entoaram

As suas musas brandas, brandamente.[172]

Parece que tambem allude aqui ao gosto allegorico, que apparece no Cancioneiro de Resende, recebido da communicação com o lyrismo aragonez. Abrindo os livros das poesias de Sá de Miranda, de Bernardes, de Camões, depara-se logo com dois estylos, no systema de metrificação em octonarios e em endecasyllabos, e na galanteria palaciana differente da expressão de emoções intimas subjectivas. Em um dos generos a estrophe é a quintilha, a decima, as voltas e esparsas que se empregam; no outro é a quadra, o terceto, a sextilha, a outava, com a variação de hemistichios. Ha poetas que nunca metrificaram em endecasyllabos, caracteristico do gosto italiano, como Christovam Falcão, e outros que detestaram o gosto de Cancioneiro, ou castelhano de redondilha, como o Dr. Antonio Ferreira. Houve effectivamente uma alteração do gosto no lyrismo, e uma lucta de implantação, que se observa na historia litteraria de Hespanha e de Portugal, deduzida das proprias composições dos poetas.

A poesia castelhana ficára no mesmo estado em que a deixára João de Mena, sendo estafada nos cancioneiros palacianos; por 1526, Andrea Navagero, embaixador veneziano em Hespanha, fez sentir a Boscan o atrazo d’essa poesia, revelando-lhe as bellezas do lyrismo italiano, do dolce stil nuovo. Por este tempo viaja Sá de Miranda na Italia (Roma, Veneza e Milão) e pelas suas relações litterarias com Ruscellai e Lactancio Tolomei tomou conhecimento das composições dos grandes lyricos italianos; logo no seu regresso a Portugal tentou implantar o novo gosto. Seguiram-no D. Manoel de Portugal, Diogo Bernardes, Pero de Andrade Caminha, o Dr. Antonio Ferreira, Francisco de Sá de Menezes, Frei Agostinho da Cruz. Na ecloga Aleixo, referindo-se á situação de Bernardim Ribeiro, Sá de Miranda dá a entender que o encantador bucolico tambem tentára o endecasyllabo italiano. A este tempo Garcilasso alliára-se com Boscan contra Castillejos e os mais poetas que sustentavam a preponderancia da poetica da medida velha; Sá de Miranda tambem se queixa de uns pontosos, que reprovavam a sua generosa tentativa. A lucta azedava-se de parte a parte, por que não viam no lyrismo italiano mais do que o uso dos versos grandes, sem comprehenderem a expressão do sentimento philosophico do platonismo, que elevava esse lyrismo. Mas o resultado das questões de eschola entre metreficadores de redondilhas ou de endecasyllabos foi bom: leram-se os mais perfeitos modelos da excelsa poesia italiana, e começou-se a dar preferencia á lingua nacional, que d’antes era abandonada versejando-se em castelhano ou em latim. Ferreira escrevia de si com orgulho: «Ah, Ferreira, dirão, da lingua amigo.» Da mesma imitação italiana tira a auctoridade, referindo-se á Hespanha e á Pléiade franceza:

Garcilasso e Boscão, que graça e spritos

Destes á vossa lingua, que princeza

Parece, já de todas na arte e ditos!

E quem livrou assy a lingua franceza

Senão os seus francezes curiosos,

Com diligencia de honra e amor acceza?

E vós, oh namorados e engenhosos

Italianos, quanto trabalhastes

Por serdes entre nós n’isto formosos!

Assi enriquecestes e apurastes

Vosso toscano, que será já tido

Por tal, qual para sempre vós deixastes.

Nas suas Cartas, Sá de Miranda descreve o prazer intimo com que lia na quinta da Tapada, junto da fonte da Barroca, a Arcadia de Sanazzaro, o Orlando de Ariosto, as odes e sonetos de Garcilasso e de Boscan, e como ia passo a passo implantando o novo gosto. Em Bernardes tambem apparecem citados os poetas italianos, que mais se admiravam, em uma Carta ao Conde de Monsanto:

E o vosso sobre todos mais mimoso

Ahi conversareis mais de contino,

Digo o suave auctor do Furioso.

Torquato, que sugeito achou divino,

Para mostrar os seus altos conceitos,

Cantando Godofredo e de Aladino.

Petrarcha e Sanazzaro, cujos peitos

O douto Apollo encheu de alta doutrina,

O Bembo e o Lasso, ao mesmo Apollo acceitos.

Veronica com Laura Terracina,

E aquella formosissima Vittoria

Que sobre o nosso sol o seu empina.

(Carta, XXXVIII.)

A edição que se fez em Lisboa das Obras de Garcilasso em 1543 revela-nos o triumpho indiscutivel do novo gosto lyrico. Sá de Miranda tornou-se um chefe espiritual da nova geração de poetas que o saudavam em bellas epistolas no seu retiro da quinta da Tapada, no alto Minho. O lyrismo da eschola italiana já tão perfeito em Diogo Bernardes, attingiu a sua maior belleza em Camões, que pelo poder do genio harmonisou as duas escholas, escrevendo em ambos os generos, dando-lhes a eterna belleza da realidade da paixão.

b) A EPOPEA CLASSICA

Aos grandes factos do mundo economico e politico, como a propagação da Imprensa, a vulgarisação das obras litterarias e scientificas da antiguidade classica, as descobertas maritimas de Colombo, Vasco da Gama e Magalhães, a Reforma religiosa de Luthero, e a fórma da dictadura temporal aspirando á Monarchia universal, corresponde na litteratura do seculo XVI o esforço para a idealisação da Epopêa historica nacional. Absorta diante da Iliada e da Eneida, irracionalmente equiparadas, a imaginação dos poetas acha-se sem audacia para descobrir o thema da Epopêa nova, em harmonia com a corrente positiva do maior seculo da historia; as tentativas infelizes conhecem-se logo pelo assumpto, já consagrando os typos menos dignos da dictadura monarchica, já retomando successos que dependiam da credulidade, que estava extincta. A França absorvida no culto da antiguidade classica chegou a desprezar e esquecer completamente as Gestas heroicas dos seus paladinos do periodo feudal; e sendo ella a creadora das modernas epopêas cyclicas, os seus criticos formularam a deploravel phrase: La France n’a pas la tête épique.

O genio italiano acceitou a epopêa feudal como um elemento de distracção, tornando-a compativel com a vida burgueza, com as resalvas da ironia e das caprichosas digressões. A saudade das bellas tradições da cavalleria que se iam perdendo, levou-o a reconstruil-a poeticamente, encobrindo com uma graça faceta o contraste entre a sociedade real na lucta dos interesses e as ingenuas aventuras galantes. A Epopêa cavalheiresca como a renovaram Pulci, Berni, Boiardo, Alamani, Trissino e Ariosto é um mixto de enthuziasmo guerreiro em indoles pacificas, que se interrompem para sorrir amigavelmente. A novella do Amadis, que recebera a fórma da prosa em Portugal, entrou através da traducção franceza na elaboração italiana, dando-lhe Bernardo Tasso a fórma poetica classica egual á que receberam as Gestas francezas.

Apezar de se resuscitar na vida palaciana o symbolismo e práticas da Cavalleria, no seculo XV, tudo isso estava fóra dos costumes, e caía em um ridiculo quixotismo, como vêmos na côrte de D. João I, em que cavalleiros e damas se baptisavam com os nomes dos heroes da Tavola-Redonda. Em França, Francisco I tambem quiz galvanisar a morta instituição da Cavalleria, facto que, segundo Rathery, despertou o genio de Ariosto e de Tasso. É natural que a Edade media, quando se extinguia como organisação social, lançasse os ultimos lampejos como reminiscencia poetica. As outras Litteraturas romanicas foram apoz as normas italianas da epopêa. Du Bellay suspirava por um assumpto nacional; levanta-se Ronsard com a Pléiade, mas a imitação grega e latina levada ao exagero não conseguiu mais do que o poema morto da Franciade. Os poetas da Pléiade eram discipulos dos grandes eruditos da Renascença franceza Danès, Turnèbe e Domat, e como taes detestavam a Edade media; Du Bellay chega a aconselhar aos poetas: «folheae com mão nocturna e diurna os exemplares gregos e latinos, e deixae-me todas essas velhas poesias francezas aos Jogos Floraes de Tolosa, e ao Puy de Rouan, esses rondós, balladas, virelais, cantos reaes, canções e outras taes confecções, que corrompem o gosto da nossa lingua e não servem senão para prestar testemunho da nossa ignorancia.»[173] É evidente o antagonismo entre as duas correntes do gosto.

Em Hespanha a imitação da poesia épica não encontrou a sympathia com que foi assimilado o dolce stil nuovo, ou o lyrismo italiano. Havia um laço commum da Sicilia tanto para a Italia como para a Hespanha, era a pastorella, apta a receber a perfeição individual do subjectivismo amoroso. A classe culta que seguia o humanismo da Renascença despreza os romances populares e as Novellas de cavalleria, fórmas organicas ou derivadas da epopêa; a elaboração poetica dispendia-se em Eclogas, que se ampliavam em Pastoraes. Os poetas de Hespanha desejavam uma epopêa séria, nacional, e com os olhos fitos em Homero e Virgilio caíam no genero hybrido da epopêa academica; querendo um heróe nacional, cegaram-se com o brilho das intrigas politicas de Carlos V, e sobre este chefe da dictadura monarchica, Zapata compõe o Carlos famoso, Urrea o Carlos victorioso, e Samper a Carolêa. A corrente erudita chegou quasi a fazer perder ao genio hespanhol o sentimento épico, que lhe fez pôr em Romances as tradições heroicas que supplantaram os cyclos das Gestas e poemas francezes.

Como todos os outros povos romanicos, Portugal tambem seguiu a influencia italiana da Renascença; o reflexo d’esse brilhante periodo litterario e artistico começou no tempo de D. João II, até se impôr á admiração nos reinados de D. Manoel e D. João III. Correspondendo-se directamente com Angelo Poliziano, D. João II não encobre a emulação que tem por Lourenço de Medicis, ao qual procura imitar no grande movimento philologico e artistico que prepara o seculo XVI. No Cancioneiro geral, os dois pequenos poemas á morte de D. João II e á tomada de Azamor, têm certas analogias com o genero a que os italianos chamaram poemetti, que Lourenço de Medicis e Angelo Poliziano iniciaram.

Na litteratura portugueza tambem se reconhecia a necessidade de uma epopêa culta. Desde que começou a dominar o espirito classico, conheceram-se desde logo os épicos antigos; Azurara cita frequentes vezes Lucano, o creador da epopêa historica; o texto de Homero era explicado na Universidade com pasmo dos estrangeiros. O syncretismo erudito levava as imaginações para a mythificação etymologica dos nomes de Luso e Lisboa ou Ulyssêa; o sentimento da realidade impellia-nos para o facto das grandes navegações. Tinhamos descoberto o caminho maritimo da India; João de Barros no Panegyrico recitado diante de D. João III em 1533, sentia que se não ligasse á poesia épica o interesse que provocavam as canções lyricas: «ás mezas dos princepes e grandes senhores se cantavam antigamente em metro os feitos notaveis dos grandes homens, d’onde primeiro nasceu a poesia heroica, e segundo eu tenho ouvido ainda n’este tempo os Turcos em suas cantigas louvam feitos de armas de seus Capitães, o que se fosse usado em Hespanha e toda a Europa, se me eu não engano, mais proveito de tal musica naceria, do que de saudosas cantigas e trovas namoradas.» Fallava contra a preoccupação exclusiva dos lyricos petrarchistas e bembistas de Hespanha e Portugal; elle queria a epopêa historica, chegando a metrificar algumas outavas de fórma castelhana para amostra. No fim da Oração recitada por André de Resende na Universidade de Lisboa em 1534, vem um poemeto latino sobre a fundação de Lisboa, no qual o antiquario eborense deixou em um hexametro a designação épica de Lusiadas, segundo o patronimico heroico: «Inter Lusiadas nisi amor revocasset amatae.» N’esse poemeto falla dos vastos dominios de Portugal, cita a Taprobana e muitos outros nomes com colorido poetico. Os eruditos faziam sentir a necessidade de uma epopêa nacional, mas séria e em contraposição á italiana, que era phantasmagorica. Sá de Miranda fallando d’esses poemas recommenda: «A estraños cuentos orejas seguras;» o que equivale ao rifão: A palavras loucas, orelhas moucas. Camões contrapõe ao—Orlando, ainda que fôra verdadeiro, e ao Rogeiro vão, a realidade dos factos historicos, mas acceita da epopêa italiana a magnifica e incomparavel Outava rima esboçada por Boccacio e universalisada por Ariosto. Os nossos poetas quinhentistas eram sugeridos pela realidade historica para a idealisação épica; em uma Carta a Caminha, o Dr. Antonio Ferreira incita-o, por 1554, para que se entregue ao labor de uma epopêa nacional:

O Portuguez Imperio que assim toma

Senhorio por mar de toda a gente,

Tanto barbaro ensina, vence e doma,

Por que assi ficará tão baixamente

Sem Musas, sem sprito, que cantando

O vá do Tejo seu ao Oriente?

O vaticinio de Ferreira, desejando que o filho do princepe D. João protegesse o futuro épico, foi realisado por Camões. Mas nem João de Barros, nem Antonio Ferreira chegaram a vêr os Lusiadas; o chronista expirou quando Camões chegou a Lisboa, e n’esse mesmo anno Ferreira succumbia á Peste grande. Na gigante epopêa de Camões apparecem os dois espiritos antagonicos, conciliados pela intuição do seu genio esthetico: a mythologia, posta em moda pela Renascença, e as lendas do Christianismo medieval cooperam na mesma estructura. Qualquer d’estes preconceitos de eschola ou de crença era bastante para lhe imprimir o sello da mediocridade, se as impressões directas da viagem da India, e as saudades da Patria ditosa sua amada, o não temperassem com a verdadeira emoção poetica. Assim através das correntes contradictorias da erudição humanista, como bacharel latino, e da crença catholica que se transformava no Jesuitismo, Camões teve o dom de realisar nos Lusiadas a epopêa nacional simultaneamente europêa e moderna.

c) A COMEDIA E A TRAGEDIA CLASSICAS

A imitação do theatro classico na Renascença atacou a obra organica da fundação do Theatro nacional, inaugurado por Gil Vicente sobre modelos tradicionaes e populares. Já no seculo XV apparecem citadas por Azurara varias tragedias de Seneca, que existiriam por certo na Livraria de D. Affonso V. Em 1534 mestre André de Resende citava as comedias de Menandro e as tragedias de Euripides pelos textos gregos. Imitámos, porém, os modelos da antiguidade com os olhos fitos na Italia, como aconteceu com as outras litteraturas romanicas. Nas principaes côrtes da Europa, e nas Universidades, entregavam-se aos divertimentos dramaticos; os cardeaes e grandes senhores pisavam os palcos, como Bibiena, e o sacerdote Torres de Naharro abrilhantava com as suas comedias lubricas as noites de Leão X. D. Manoel queria hombrear com a pompa da côrte pontifical, e tambem celebra as festas do paço com um Auto ou Farça; á maneira italiana tivemos muito cedo o theatro particular nas casas nobres. Manoel Machado de Azevedo quando deixou a côrte e regressou á sua quinta de Entre Homem e Cavado, celebrou o nascimento de seu primeiro filho com divertimentos dramaticos, para honrar os princepes que foram de Lisboa á festa do baptisado. Por 1528 leu Jorge Ferreira de Vasconcellos nos serões do paço a Comedia Eufrosina, antepondo a prosa ao verso, segundo o gosto italiano. Reagia-se contra o theatro nacional ou medieval, como se descobre pela rubrica da farça de Inez Pereira, em que Gil Vicente reage contra os humanistas (homens de bom saber). Gil Vicente não foi vencido, mas a corrente erudita continuou a lisongear um publico restricto de eruditos, que desprezavam os Autos hieraticos.

Sá de Miranda que tinha iniciado o novo estylo italiano na poesia lyrica, tambem ensaiou a mesma reforma na poesia dramatica; no prologo da sua primeira comedia, representa a tradição da Arte classica theatral contando as suas peregrinações desde a antiguidade hellenica até ao seculo XVI, queixando-se de que os barbaros lhe tivessem pervertido o nome de Comedia em Auto, e a obrigassem a deixar a prosa para fallar em verso. A allusão feria directamente Gil Vicente, que pelo seu lado parece visal-o no Francisco filho do Clerigo da Beira (segundo Camillo, o conego Gonçalo Mendes de Sá.) A feição italiana da Comedia é inferior á ingenuidade do Auto medieval: n’este ha o typo popular, com as suas superstições, locuções, costumes, interesses, emfim todo elle é um documento ethnico e historico; na comedia imitada do italiano a acção nem mesmo se passa em Portugal, é em Palermo, com costumes sensuaes de cortezãs, com intrigas não comprehendidas, sem realidade. O cardeal D. Henrique mandava representar as Comedias de Sá de Miranda; foram imitadas nos divertimentos da Universidade, nos Collegios, e, quando prevaleceu o humanismo jesuitico, volveu a fórma da comedia ao texto latino.

Nos divertimentos da vida escholar escreveu Antonio Ferreira as comedias de Cioso e Bristo nos moldes italianos; entre os cinceiraes de Coimbra nasceu a comedia Eufrosina, como declara Jorge Ferreira de Vasconcellos; a comedia dos Amphytriões escreveu-a Camões á imitação de Plauto, quando seguia o curso de Artes. Os divertimentos dramaticos adquiriram um maior desenvolvimento quando veiu para Coimbra o Collegio de Mestre André, ou o Collegio real, de que os jesuitas se apoderaram.

A renascença da tragedia não foi devida á imitação directa dos tragicos gregos, mas ao perstigio de um poeta da decadencia latina, Seneca, imitado por Albertino Mussato, por Angelo Poliziano, Trissino, Rucellai, Alamani, Cintio e Dolce. Em Portugal, já no seculo XV eram conhecidas as tragedias de Seneca; mas na Universidade de Lisboa nos principios do seculo XVI liam-se as tragedias de Sophocles e de Euripides, e o Dr. Antonio Ferreira conhecedor da lingua grega, ao escrever a tragedia Castro, seguiu os modelos gregos. Antes de Ferreira, em 1555, Ayres Victoria imprimia uma traducção do Agamemnon de Sophocles. O merecimento da Castro de Ferreira não está sómente no lyrismo dos córos, accentua-se no senso artistico com que soube fixar um assumpto nacional, sendo o primeiro que na Europa iniciou a tragedia fundada sobre um facto historico da civilisação moderna; por que a Sophonisba de Trissino representada em 1520, embora em lingua vulgar, não lhe derroga a prioridade, por falta de nacionalismo. Ferreira morreu em 1569 deixando manuscripta a sua tragedia, que appareceu imitada na Nise lastimosa de Jeronymo Bermudez, em Madrid em 1577, assumpto que desenvolveu na Nise laureada, em que se dramatisa a vingança da que «depois de morta foi rainha.» Depois de Ferreira nunca mais os poetas abandonaram o thema tragico de Ignez de Castro, ao qual imprimiram a galanteria de capa e espada do seculo XVII, o imbroglio do seculo XVIII, e mesmo o sentimentalismo romantico do nosso seculo. A tragedia classica não progrediu; pela cultura humanista decaíu na fórma allegorica das Tragicomedias dos jesuitas.

A Comedia popular, como Gil Vicente a creára continuou a ser apreciada na côrte, como vêmos pela declaração de Luiz Vicente, dizendo que Dom Sebastião se recreiava com os autos de seu pae na meninice. E por que constituia eschola, o Auto foi atacado com prohibições severas nos Indices Expurgatorios. No meio d’estas duas correntes classica e medieval, Camões pela sua intuição de artista concilia os dois espiritos; elle adopta a fórma popular do Auto para dramatisar assumptos da mythologia e da tradição hellenica.

II. Sympathia pela Edade media na Eschola da medida velha.—Caracterisando a revolução occidental, Comte precisa-lhe os aspectos essenciaes por onde ella se manifestou: «a transição moderna abrangeu simultaneamente a intelligencia e a actividade, mas deixando de parte sempre o sentimento[174] E como a dissolução do regimen catholico-feudal comprehendeu o systema das ideias dominantes da synthese theologica que perderam a credulidade dos espiritos, e a fórma da sociabilidade, cuja hierarchia aristocratica se quebrou com o advento do proletariado, essa profunda crise, que constitue a historia moderna, foi conjunctamente social e mental. Nos jurisconsultos vêem-se estes dois aspectos, quando pela erudição fazem reviver as leis romanas em favor da dictadura monarchica; servem a mesma causa os humanistas coadjuvando a emancipação mental com a vulgarisação dos philosophos gregos, cuja metaphysica oppõem á theologia catholica. Póde-se bem explicar toda a Renascença dos fins do seculo XV a principios do seculo XVII como uma profunda revolução mental; com a Revolução de Inglaterra é que a grande crise europêa toma o intuito social. N’esta instabilidade de critica e de acção não havia logar para as emoções affectivas; queria-se subtileza para a argumentação e audacia para o combate. O sentimento fôra inevitavelmente abandonado, tornando-se por isso mais violentos os conflictos; o que amar, quando tudo era agitado e incerto? A poesia teve de inspirar-se na admiração da antiguidade morta; alguns espiritos femininos foram com a forte corrente da erudição, mas a mulher alheia ao perstigio classico, sentia a saudade do passado, e, como diz Comte: «aspirava espontaneamente á Edade media.» De animo submisso, era n’essa edade extincta que a alma repousava na crença, que se exaltava na galanteria trobadoresca e na generosidade da cavalleria; a mulher mantinha o sentimento da Edade media. Foi sobre essa tendencia que se estribaram sempre todas as reacções catholicas. Quando as Litteraturas romanicas caíam na imitação fria das obras primas greco-romanas, foi a predilecção feminina pela poesia dos Cancioneiros e pelas Novellas cavalheirescas, que fortificou a reacção contra o gosto e auctoridade dos eruditos.

a) OS POETAS DA MEDIDA VELHA

Na Arte de Galanteria notou D. Francisco de Portugal, que as damas não sympathisavam com os versos endecasyllabos por serem longos e não exprimirem conceitos tão delicados como as redondilhas. E Camões em uma das suas Cartas falla das damas que mostravam frieza ouvindo um pensamento de Petrarcha. Evidentemente o lyrismo italiano encontrou certa antipathia, que foi explorada em Portugal e Hespanha pelos poetas que continuaram com intuito de reacção a metrificar no verso octonario. Esta persistencia nada mais é do que o prolongamento da influencia da poesia castelhana, que desde as relações do Infante D. Pedro com João de Mena, se exercera nas côrtes de D. Affonso V, D. João II e D. Manoel. Ideia e fórma são imitadas dos versos de João de Mena, Jorge Manrique, Stuniga, como era moda nas côrtes de D. Juan II e Enrique IV. Os casamentos com princezas de Castella tornaram a lingua castelhana usual na côrte portugueza, n’ella escrevendo os seus motes, voltas e coplas. No Cancioneiro geral, de Garcia de Resende, vinte nove poetas palacianos escrevem em castelhano, facto já observado por Pidal; Jorge Ferreira chegou a queixar-se do despotismo que as trovas castelhanas exerciam no nosso ouvido, e Damião de Góes tambem consigna o facto da grande importancia que tinham na côrte os chocarreiros de Castella. Era este lyrismo a ultima transformação do gosto ou estylo trobadoresco, e como um producto archaico, os fidalgos e os princepes são os que sobresáem como poetas, nos serões do paço. Foram poetas o rei D. Duarte, o Infante D. Pedro, seu filho o Condestavel de Portugal, e D. Philippa; mesmo o terrivel D. João II considerava o talento poetico uma excellente manha, e animava a habilidade poetica de Garcia de Resende. Tambem o infante D. Luiz era poeta, e de seu irmão o infante D. Duarte escrevia André de Resende: «Fazia trovas sentenciosas, e guardava todas as leis e arte de bem trovar.» A musica, tão cultivada pela aristocracia, como vêmos em D. João de Menezes, Sá de Miranda, Manoel Machado de Azevedo e outros, coadjuvava a sympathia pelos versos curtos de redondilha menor e maior, emquanto que os endecasyllabos só podiam ser recitados. A persistencia da medida velha manifestava-se pela paixão dos colleccionadores de Cancioneiros; d’este costume falla Jorge Ferreira de Vasconcellos, na comedia Ulyssipo: «Fazem por si mundo em segredo, vivem como morcegos, tem Cancioneiro de boa letra e má nota e mostram-no em particular a quantos lh’o querem ouvir.» (Fl. 213, V.) De varios d’estes Cancioneiros formou Garcia de Resende o Cancioneiro geral, publicado em 1516, á imitação do Cancionero general de Hernando del Castillo, começado em 1491 e impresso em 1511. Em 1514 fôra Resende a Roma como secretario da embaixada a Leão X, e por tanto não fez mais do que confiar ao prelo sem ordem os materiaes que lhe entregaram, por entender que a poesia: «nas côrtes dos grandes prinçepes he muy neçessaria na jentileza, amores, justas e mômos, e tambem para os que máos trajos e envenções fazem, per trovas sam castigados, e lhe dam suas emendas...» Na Aulegraphia revela Jorge Ferreira o antagonismo das duas poeticas: «hey muito grande dó de uns juizes poldros, e tão curtos da vista, que acceitam toda novidade sem pezo, a olhos, e assi me parece de vós, senhor, que por andar com som do moderno sereis todo um Soneto, e condemnaes logo o outro verso, sem mais respeito nem consideração.» (Fl. 165, v.) E D. Francisco de Portugal, na Arte de Galanteria, tambem allude ao antagonismo das duas poeticas: «las otras modas de versos hizieranse para leydos, e estos para sentidos...» E explica claramente a influencia hespanhola em Portugal: «las coplas castellanas son las mas proprias para palacio...»

Os versos de redondilha deram expressão ás mais sentidas emoções amorosas, como no Crisfal de Christovam Falcão e nas Eclogas de Bernardim Ribeiro. N’este genero de redondilha chegou Gil Vicente a renovar os typos tradicionaes das serranilhas, e Camões na galanteria do paço tornou-se inimitavel na graça com que reanimou toda a poetica dos velhos cancioneiros. O proprio inaugurador da poetica italiana era admirado e imitado no seculo XVII mais pelas suas bellas Eclogas e Cartas em redondilhas. As duas escholas, como notou Sá de Miranda estabelecendo a relação entre os provençaes e os italianos, não eram incompativeis, provinham da mesma origem.

b) ROMANCES E NOVELLAS DE CAVALLERIA

A instabilidade social na grande transição para a edade moderna, fez com que a creação épica dos Romanceiros da peninsula hispanica estacionasse em simples rudimentos narrativos. Facilmente foram dissolvidos na prosa das chronicas, como testemunhos historicos, e no seculo XV consideravam-se infimos e despreziveis os que com romances se recreavam. Esses infimos constituiam o proletariado, incorporado na sociedade moderna, e por isso não admira que os Romances começassem a ser colligidos no seculo XV em folhas volantes, máo grado o desdem dos cultistas litterarios e admiradores da antiguidade. Explorando esta corrente de sympathia popular, a fórma de Romance foi adoptada pelos escriptores cultos para n’ella metrificarem a prosa das chronicas nacionaes. Puzeram em romance a historia de Hespanha, Sepulveda, Juan de la Cueva e Lasso de la Vega; o mesmo trabalho se effectuou em Portugal, quando Gil Vicente, Jorge Ferreira, Balthazar Dias transformaram o romance anonymo, que se tornou subjectivo e um pretexto para a composição musical.

A lingua castelhana usada como expressão aristocratica na côrte portugueza, era empregada de preferencia nos romances. André de Resende, na Vida do Infante D. Duarte, conta: «Veiu ter a esta cidade de Lisboa um mancebo castelhano chamado Ortiz, que graciosamente tangia e cantava chistes; filhou-o o Infante, e folgava de o ouvir.» (Cap. 11.) Tambem Jorge Ferreira allude aos romances póstos em musica: «Eu não vos nego que sabeis muito bem harpar um Conde Claros, que elles logo dizem que não ha tal musica.» O gosto feminino, suscitado pela musica tambem provocava a fórma litteraria dada ao romance, como o affirma Diego de San Pedro na Carcel de Amor, fallando das excellencias da mulher: «Por quien se cantan los lindos romances.» Os romances foram glosados, desenvolvendo-se lyricamente; na comedia Eufrosina, allude Jorge Ferreira a este gosto dominante: «Bem estaveis agora para glosar Recuerde el alma dormida, etc.» E na comedia Ulyssipo: «Este meio é de uns porretas que grosam Retrahida está a Infante, e Para que pariste, madre?» É frequentissimo o encontrar-se em todos os escriptores quinhentistas referencias aos romances populares que mais espalhados andavam na tradição, e com especialidade nos poetas dramaticos, que pintavam os costumes vulgares. O romance decaíu da sua importancia épica para as fórmas allegoricas e subjectivas do lyrismo culteranista; e quando conservou a expressão objectiva foi para representar as aventuras de salteadores e contrabandistas nos romances de guapos e temerones, ou as Xácaras.

As Novellas de Cavalleria é que resistiram mais no gosto publico contra a corrente erudita que desdenhava de tudo quanto provinha da Edade media. Aqui são em geral as mulheres, que se interessam pelas narrativas novellescas. Em varios logares das suas comedias refere Jorge Ferreira a grande importancia que tinham as novellas na sociedade portugueza; diz na Eufrosina: «Ride-vos dos aphorismos de Hypocras, nam das Xergas de Esplandião.» E na comedia Ulyssipo, alludindo ás predilecções femininas: «Já se entram em saber latim ou musica, nenhuma cura lhes sinto. E se são lidas por Espelho de Cavalleria, ou Carcel de Amor, e Conde Partinoples, e não leixam udo nem meudo; ride-vos vós de mais Donzella Theodora.» Os humanistas eram inimigos encarniçados das Novellas medievaes; escreve o auctor do Dialogo de las Lenguas: «Dez annos, os melhores da minha vida, gastei em palacios e côrtes, não me empregando em exercicio mais virtuoso do que lêr estas mentiras, em que achava tanto sabor, que me deixava levar por ellas; e olhae que cousa é ter o gosto estragado, que se pegava em algum livro escripto em latim, que são os de historias verdadeiras, ou que pelo menos são tidos como taes, não podia resolver-me a acabal-os de lêr.» E no livro De institutionae Faeminae christianae o humanista hespanhol João Luis Vives deblatera contra as Novellas, pedindo a intervenção prohibitiva dos governos: «Deviam fazer o mesmo d’estes outros livros vãos, que são: em Hespanha, o Amadis, Florisandro, Tirante, Tristão de Leonis, Celestina, a alcoviteira, mãe da malvadez; em França, Lançarote do Lago, Páris e Viana, Ponto e Sidonia, Pedro de Provença, Magalona e Melusina; e em Flandres, Flores e Brancaflor, Leonela e Cananior, Curias e Floreta, Pyramo e Tisbe. Ha outros traduzidos do latim em vulgar, como são as infacetissimas Facecias e Graças desgraçadas de Poggio, e as Cem Novellas de João Boccacio, livros todos elles escriptos por homens ociosos e desoccupados, sem letras, cheios de vicios e sordidez, nos quaes eu me maravilho como se póde achar cousa que dê deleite, a não ser que os nossos vicios nos tragan tanto al retortero;... eu por mim digo na verdade, que nunca vi, nem ouvi dizer que lhe agradavam obras d’este genero senão ás pessoas que nunca tocaram nem viram um bom livro, e eu tambem fiz d’essas leituras algumas vezes, mas nunca achei vestigios alguns de bom engenho.» Tambem na Historia imperal e cesárea, Pedro Mexia clama com sarcasmo contra as novellas: «e em paga de quanto trabalhei em a recolher e abreviar, peço agora attenção e aviso, já que o costumam prestar ás proezas e mentiras de Amadis, de Lisuartes e de Clarianes, e de outros portentos, que com tanta rasão deviam ser desterrados de Hespanha como cousa contagiosa e damnosa á Republica, pois tão mal fazem gastar o tempo aos auctores e leitores d’elles, e o que é peior, que dão mui máos exemplos e bastantes perigos para os costumes.» E n’esta increpação crescente de deshonestidade, conclue: «É um mui grande e damnoso abuso, do qual, entre outros inconvenientes se segue grande ignominia e descredito das Chronicas e Historias verdadeiras, permittindo que andem cousas tão nefandas a par com ellas.» Vives, no seu livro De causis corruptarum Artium, condemna implacavelmente o Amadis e Florisandro, hispanicos, o Lancelot e Tavola Redonda, francezes, e o Orlando, italico; mas apezar de tudo a paixão cavalheiresca actuava na sociedade, como vêmos pela paixão de Ignacio de Loyola pelo Amadis de Gaula, na mocidade. Cervantes, no capitulo VI do D. Quijote, synthetisa esta antipathia, no exame feito pelo barbeiro Mestre Nicoláo e pelo Cura ás novellas por onde lia o Cavalleiro da triste figura: «O primeiro que lhe deu Mestre Nicoláo foi os quatro (sc. livros) do Amadis; e disse o Cura:—Parece cousa de mysterio esta, por que ao que tenho ouvido referir, foi este livro o primeiro de Cavallerias que se imprimiu em Hespanha, e todos os mais tomaram principio e origem d’este, e assim me parece que como a dogmatista de uma seita tão má o devemos sem excusa lançar á fogueira.—Não, senhor! (disse o barbeiro), pois tambem tenho ouvido dizer, que é o melhor de todos os livros que d’este genero se tem composto, e assim como a unico em sua arte se deve perdoar.—É verdade isso, volve o Cura, e por tal rasão se lhe outorga a vida por agora.» No exame do Palmeirim de Inglaterra, resolvem tambem «que este e Amadis de Gaula quedem livres de fogo, e todos os outros sem fazer mais reclamações pereçam.» Cervantes revelava n’este episodio o seu superior sentimento esthetico, diante d’essas duas creações do genio portuguez, que continuava na historia a sua paixão pelas aventuras. Na Côrte na Aldeia refere Rodrigues Lobo uma anecdota caracteristica: «Na milicia da India, tendo um Capitão nosso cercado uma cidade de inimigos, certos soldados camaradas que alvergavam juntos, traziam entre as armas um livro de Cavallerias, com que passavam o tempo. Um d’elles, que sabia menos que os mais d’aquella leitura, tinha tudo o que ouvia lêr por verdadeiro, (e assim ha alguns innocentes que cuidam que se não póde mentir em letra redonda) os outros ajudando a sua simpleza, lhe diziam que assim era. Veiu occasião de um assalto, em que o bom soldado invejoso e animado do que ouvia lêr, lhe pareceu ensejo de mostrar seu valor e fazer uma cavalleria que ficasse de memoria, e assim se metteu entre os contrarios com tanta furia, e a começar a ferir tão rijamente com a espada, que em pouco espaço se empenhou de sorte, que com muito trabalho e perigo dos companheiros e de outros muitos soldados, lhe ampararam a vida, recolhendo-se com muita honra e não poucas feridas. E reprehendendo-o os mais amigos daquella temeridade, respondeu:—Ah, deixae-me, que não fiz a metade do que cada noite lêdes de qualquer cavalleiro do nosso livro.»

Era com este espirito que iamos á descoberta do Preste João das Indias e das Ilhas encantadas, e davamos a volta do mundo. Mas a edade da burguezia tinha chegado, e o nosso ultimo rei cavalleiro D. Sebastião amando mouras encantadas e sonhando o Quinto Imperio do mundo, ao lançar-se para a conquista de Marrocos levava já comsigo a corôa de ouro com que havia de significar a sua soberania, e ia acompanhado do poeta que havia de exaltar na tuba épica o seu triumpho. Seria um prototypo de Quixote, se a este tresloucamento não andasse ligada a perda da autonomia da nacionalidade portugueza. As Novellas de Cavalleria tambem degeneraram nas allegorias pastoraes do gosto italiano, e nas historias moraes encabeçadas em nomes de personagens da antiguidade. Mas d’esta fórma se transitava para o typo mais caracteristico da arte moderna—o Romance, na accepção actual, que por este seu proprio titulo nos relaciona com a poesia da Edade media.

c) OS AUTOS HIERATICOS

Como em todos os povos catholicos em que as festas religiosas do Natal, Reis Magos e Paixão, eram a base do theatro hieratico, tivemos esses Autos ou vigilias, que se ligavam ás manifestações do culto, sobretudo no tempo em que a Egreja admittia o povo á participação da liturgia. Foi por um monologo de natureza de Visitação da lapinha ou do presepio, que Gil Vicente começou a elaborar a fórma litteraria do Auto hieratico.

Os velhos mythos da lucta do Verão e do Inverno, base de um grande numero de festas publicas europêas, tambem foram aproveitados pelo genio de Gil Vicente na farça popular. Por fim a fórma dos Mômos e entremezes da côrte de D. João II, a que se allude no Cancioneiro geral, constituiam o elemento do theatro aristocratico. Gil Vicente, sugerido pela generosa rainha D. Leonor, compoz n’estes trez generos os seus Autos, Farças e Tragicomedias, quasi que exclusivamente para os serões do paço. As Constituições episcopaes atacaram o costume popular das representações hieraticas; e os eruditos da Renascença fizeram caír pelo descredito os mômos e entremezes. Sob o regimen da repressão catholica o povo ficou triste e mudo; Gil Vicente fez-se o seu interprete nas côrtes de D. Manoel e D. João III, dando a conhecer a miseria geral. Em um Auto falla no perigo de mandar os galeões para a India com capitães nobres mas imbecis; em outro pede tolerancia para a pobre gente supersticiosa na sua rudeza: em todos desmascara as grandes ambições do clericalismo. É esta fórma litteraria do Auto mais directamente medieval a que se manifesta mais radicalmente satyrica; ahi conserva as orações farsis dos goliardos, e tem como personagem comico o Diabo, como nos antigos Mysterios. Ainda entre o povo portuguez se encontra a locução—Fazer diabos a quatro, que teve origem dos Mysterios dramaticos, em que a importancia da peça augmentava com o maior numero de diabos que entravam; em Rabelais se encontra esta phrase: la grande diablerie à quatre personages, empregada no Pantagruel. D’este personagem popular foram herdeiros da sua malicia e vivacidade Scapin, Paillasse, Arlechino, Pathelin, Celestina e Sganarello.

Possuido da inspiração e espontaneidade do sentimento da Edade media, Gil Vicente, com essa liberdade sarcastica, toca em todos os pontos capitaes da grande lucta da secularisação social e emancipação mental, encontrando-se por vezes na mesma aspiração da Reforma. Em Antonio Prestes causa impressão como elle no Auto da Ave-Maria considera a Rasão como indispensavel para o merecimento da Fé. Não nos admira pois que o theatro nacional depois do Concilio de Trento fosse combatido nos Indices Expurgatorios, que conservaram muitos titulos de autos e comedias que a intolerancia religiosa fez perder.

A influencia castelhana da comedia em prosa, tambem de costumes populares, como o typo immortal e immoral da Celestina, acha-se introduzida por Jorge Ferreira de Vasconcellos na Eufrosina, Ulyssipo e Aulegraphia; elle cita com frequencia esse typo incomparavel: «E vós dar-lhe-heis mais virtudes que a madre Celestina.» João de Barros e Camões tambem citaram esta comedia portentosa, que se impoz á imitação portugueza. Na Côrte na Aldêa escrevia Rodrigues Lobo: «Ainda me parece que haveis de chegar á Celestina, que posto que o officio é commum de dois, accomoda-se melhor ao feminino.» Na linguagem popular egualmente se encontra a phrase: Artes da madre Celestina encantadora.

Em consequencia da incorporação na unidade castelhana em 1580, começou-se a representar em castelhano, e os escriptores portuguezes enriqueceram o vasto reportorio dramatico da Hespanha. Pedro Salgado, Jacintho Cordeiro, Mattos Fragoso escreveram em castelhano, comedias famosas de capa e espada. Rodrigues Lobo refere-se á estructura castelhana começada a usar: «E tambem os poetas nas suas comedias, que são mais proprias para recreação e passatempo, dividiram a obra em actos a que agora chamam Jornadas...» Por falta de um interesse nacional, que fecundasse o theatro, ou de um sentimento que recebesse a expressão esthetica do drama, os divertimentos scenicos dos Pateos das Comedias tiveram por fim a especulação da caridade. Comtudo a riqueza fecunda do theatro hespanhol actuou nas litteraturas da Europa no seculo XVII, inspirando genios superiores como Corneille, Molière e Shakespeare.

b) O CULTERANISMO SEISCENTISTA

(Hegemonia da Hespanha)

Na marcha progressiva da Renascença, o pensamento europeu preoccupa-se com a renovação das sciencias experimentaes e com a elaboração de uma nova synthese philosophica. É n’esta corrente que finda o seculo XVI, e que se absorve completamente todo o seculo XVII, o qual segundo a phrase de Cournot, occupa na historia do espirito humano um logar unico, sem analogo no passado nem no futuro, em que as descobertas tornam-se revoluções em geometria, na astronomia e na physica, pela determinação das leis geraes do movimento e da acção da gravidade, da figura e movimento dos corpos celestes e do systema do mundo. N’esta marcha grandiosa da revolução mental, que se manifestára pelo Humanismo, na sua fórma philologica e critica, a Egreja oppuzera uma reacção, primeiro de compressão material pela Inquisição, e depois de apropriação pela astucia por meio do ensino e da direcção espiritual do Jesuitismo. O encontro d’estas duas correntes depressivas deu-se no Concilio de Trento, que veiu perturbar as nações catholicas na sua actividade scientifica; e pela sua assimilação na dictadura monarchica (a Inquisição ao serviço de Philippe II, e a Companhia de Jesus servindo-se de Luiz XIV) a revolução tornou-se mais intensa saíndo do campo theorico para a prática social. A Hespanha, sob o dominio da Casa de Austria que se dava como garantia da unidade catholica, ficou alheia ao movimento scientifico e philosophico do seculo XVII. As suas Academias, fórma caracteristica adoptada pela cooperação dos investigadores da natureza e experimentalistas, tornam-se Tertulias de passa-tempo litterario. É n’esta exuberancia poetica sem plano, que se cultiva a fórma figurada da expressão, sem destino social; a cultura humanistica dos Collegios jesuiticos, com a sua falsa rhetorica, em pouco tempo se apoderou das novas gerações e lhes imprimiu o sello da mediocridade. As relações politicas do dominio da Hespanha na Italia, e a fusão do genio d’estes dois povos, quando a Companhia de Jesus se remodelou sob os geraes italianos, produziram as perversões moraes da casuistica molinista, do cauteloso equivoquismo do pensamento, e do vazio concettismo da phrase. A falta de convicções era supprida pela emphase, e a ausencia de ideias pelo pedantismo mascarado com antitheses e parallelismos. O Humanismo italiano, materialmente imitado entre os outros povos da Europa, degenerou no Preciosismo em França, no Euphuismo em Inglaterra, e no Cultismo em Hespanha. Tem-se irracionalmente attribuido á Hespanha este contagio do máo gosto; mas a sua generalidade só póde explicar-se por causas sociaes persistentes e não por influxo individual de um ou outro escriptor. A Hespanha exerceu no seculo XVII uma acção sobre todas as litteraturas: revelou-lhes o drama moderno. Como todas as outras nações, ella tambem foi victima do máo gosto, por que soffria as mesmas causas sociaes: a compressão monarchica.

O imperio do equivoco na expressão vulgar e artistica, a linguagem sempre figurada e translata, não para receber mais relevo pittoresco mas para subtilisar as comparações sem a justa relação entre o sentimento e a imagem, e tudo isto feito por um esforço e pedantismo indigesto, constituem o gosto amaneirado, culteranesco, conceitista, geral a todas as Litteraturas do seculo XVII. O gongorismo ou culteranismo em Hespanha e Portugal, os concetti em Italia, o preciosismo em França, o euphuismo em Inglaterra, são o mesmo phenomeno, indicando no seu vasto contagio de corrupção no estylo litterario uma causa commum á sociedade europêa. Qual essa causa? A falta de liberdade. A dictadura monarchica do seculo XVI, acha-se no seculo XVII dando o apoio do seu poder temporal á compressão das dissidencias religiosas, e depois das grandes carnificinas (S. Barthelemy, Dragonadas) prohibe a liberdade de consciencia e a liberdade do pensamento (Revogação do Edito de Nantes). Renan descreve em palavras incisivas o effeito d’esta suppressão da liberdade mental, apezar de não traçar o quadro historico da alliança ou colligação da Monarchia e da Egreja: «É tal a actividade da intelligencia humana, que o encerral-a em um circulo apertado é forçal-a a delirar. A liberdade de pensar é imperscriptivel; se barrardes ao homem os vastos horisontes elle se vingará pelas subtilezas; se lhe impondes um texto elle exime-se pelo contrasenso. O contrasenso nas épocas de auctoridade, é a reprezalia que toma o espirito humano contra a algema que lhe impõem; é o protesto contra o texto. Esse texto é infallivel; seja-o, embora. Mas é diversamente interpretavel, e n’isso começa a diversidade, simulacro de liberdade, com que se contenta á falta de mais. Sob o regimen de Aristoteles, como sob o da Biblia, pôde-se pensar tão livremente como no dia de hoje, mas com a condição de provar que tal pensamento estava realmente em Aristoteles ou na Biblia, o que nunca era difficil. O Talmud, a Masora, a Cabala são productos extravagantes do quanto é capaz o espirito humano acorrentado a um texto. Contam-se as letras, as syllabas, entregam-se aos sons materiaes mais do que ao sentido, multiplicam-se até ao infinito as subtilezas exegeticas, os modos de interpretação, como o faminto que depois de ter comido o seu pão apanha as migalhas. Todos os commentarios dos livros sagrados parecem-se entre si, desde os de Manu até aos da Biblia, até aos do Coran. Todos são o protesto do espirito humano contra a letra escravisante, um esforço infeliz para fecundar um campo infecundo. Quando o espirito não acha um objecto proporcionado á sua actividade, cria um para si com mil habilidades.—O que o espirito humano faz diante de um texto imposto, fal-o diante de um dogma definido. Por que se mostrou tão aborrecido o seculo XVII? Por que morria de tedio madame de Maintenon em Versailles? É por que não havia ahi horisontes.—É por esta mesma rasão, que este seculo de orthodoxia e de regulamentação foi o seculo do equivoco. É a regra estricta que dá origem ao equivoco. Por que é o direito a sciencia do equivoco? É por que de todos os lados se vê confinado por fórmulas.»[175]

A transcripção foi extensa, mas merece ser desenvolvida na sua eloquente verdade. A severidade na etiqueta da vida palaciana, obrigava a uma linguagem affectada e de convenção, que por seu turno viria a influir na corrente da linguagem e do estylo litterario.[176] A severidade das regras deduzidas dos modelos classicos, e a indiscutivel admiração que lhes era consagrada, escravisavam a imaginação a imitar ou melhor a parodiar caricatamente essas eternas idealisações do sentimento. O phenomeno deu-se em Portugal com a parodia dos Lusiadas, e em França com o Virgile travesti, de Scarron. Desde que se imitassem minuciosamente, respeitando as regras da rhetorica, os modelos classicos, estava admittido como litterario qualquer absurdo. Facilmente se perverteu a corrente scientifica das Academias em Tertulias e Arcadias, corporações destinadas á inalterabilidade das rhetoricas de Aristoteles e de Quintiliano, e a fomentar a livre expansão do equivoco, ou da linguagem conceituosa das pessoas cultas. Era ao que Gracian codificava sob o titulo de Agudezas de Ingenio.

O que se passava na Litteratura repetia-se com a mesma fatalidade do absurdo na Theologia, com as doutrinas do Quietismo, do Molinismo, do Congruismo, do Probabilismo, que transportadas para a polemica clerical e para os pulpitos deram os enormes ridiculos dos prégadores, retratados no Frei Gerundio de Campazas, e nas Provinciaes de Pascal, que reduziu a systema esse acervo de contrasensos. O equivoco artificioso invadiu os pulpitos, onde os prégadores, em uma época sem liberdade politica, arrastavam os textos sacros ás interpretações allusivas, e ás censuras encapotadas ou indirectas aos poderes publicos, como vêmos nos sermões do Padre Vieira.

Este mesmo motivo suscitou a immensa fecundidade do theatro hespanhol nos fins do seculo XVI e em quasi todo o seculo XVII; a nação estava sem liberdade, e era sobre a scena que o pensamento achava uma brécha para expandir-se. É por isso que o drama hespanhol não representa o estado de consciencia do poeta que o elaborou; exprime todos os caracteres da alma hespanhola, repassada das suas tradições, sedenta de heroismo, cheia de garbo e de paixões violentas, mas não tendo em que empregar a sua vida affectiva. A cavalleria é atacada pelo ridiculo, a crença religiosa vae cedendo o logar á verdade scientifica; resta-lhe o drama sobre o palco, o espectaculo que lhe lisongeia o instincto. N’esta crise de uma sociedade a que lhe foge o antigo ideal, os individuos sem recursos para exporem o seu pensamento fizeram do palco a tribuna; d’ahi a rasão da extrema fecundidade creadora em uma época de repressão. Sobre este ponto é lucido o juizo de Philarète Chasles: «Este drama, no seculo XVII, desempenhou o papel que representa a imprensa periodica moderna. Correu a Europa e o mundo, avivando o pensamento e a acção, do Mexico a Berlim, e de Londres a Lima.»[177] E accrescenta: «Todos os acontecimentos, todas as ideias, todas as loucuras, todas as esperanças creavam algum drama novo.» Separada da influencia da Hespanha a responsabilidade do contagio do máo gosto ou o Culteranismo, a sua acção foi impulsiva e fecunda sobre todas as litteraturas romanicas no seculo XVII em quanto ás fórmas novellescas e dramaticas. Competiu por sua vez á Hespanha a hegemonia.

Fallando da influencia do theatro hespanhol nas litteraturas da Europa, no seculo XVII, escreve Philarète Chasles: «Elle é que ensinou á Italia o imbroglio pueril dos acontecimentos que se embatem, se cruzam e se entrelaçam. Mestre e precursor do theatro europeu, produziu Corneille e Beaumarchais, os dois genios mais oppostos que possam nomear-se. Desde o meado do seculo XVI a Inglaterra imita a scena hespanhola. Os contemporaneos de Shakspeare, homens de talento agrupados em volta do homem de genio, Marston, Dekker, Johnson, Marlow, Webster, Heywood, nomes pouco conhecidos em França, copiam ou antes calcam os imbroglios de Lope de Vega e dos seus discipulos. Assim se formou o drama inglez. A Italia fornecia o assumpto, o conto original, a trama primeira; a Hespanha dava o movimento dramatico: trapaças, velhacarias, aventuras nocturnas, raptos, disfarces, mudanças e substituições de nomes e de estado. Tudo o que pertence á vida activa vinha do meio-dia; o genio nacional do norte ajuntava-lhe a sua profundidade nativa, a analyse, a reflexão. Consultem-se as peças de Congrève, de madame Centlivre, de Farquhar, todo o máo drama inglez do XVII seculo até á bella e brilhante comedia de Sheridan Fort Scandal, appresentam o cunho hespanhol em quanto á intriga.»[178]

Transcreveremos como insuspeitas as palavras do critico francez, para se notar quam profunda foi tambem a influencia do genio hespanhol na litteratura franceza.

Sobre esta hegemonia successiva das modernas nações da Europa umas sobre as outras, fecundando-se por allianças reciprocas, exprime-se Philarète Chasles: «N’este vasto ensino mutuo dos povos, vê-se cada nação poderosa elevar-se á missão de instituidora. Os Arabes e os Provençaes succedem aos Romanos, os quaes tambem tinham succedido aos Gregos. Do seculo XIV ao seculo XV a Italia dá a lei ao mundo intellectual. O turno da Hespanha deu-se sob Luiz XIII.» E resumindo a sua actividade historica, accrescenta: «A Hespanha attraía as attenções do globo; nação conquistadora e poeta, que tinha descoberto um mundo e o guardava; que assentava um pé sobre o Perú, o outro sobre a Allemanha e Flandres. Desde 1590, o genio hespanhol suscita a Liga franceza; encontra-se em Bruxellas, em Napoles, em Roma, em Vienna, no Mexico, na Hispaniola, na Florida; por toda a parte é detestado, temido e admirado, diria mesmo, amado, pois se ama voluntariamente o que se teme. No proprio momento em que as imprecações do mundo civilisado se misturavam ás lagrimas longinquas dos Indios, e aos gemidos dos escravos, a Europa tomava por modelo a Hespanha.—No principio do seculo XVII o diccionario hespanhol invade e sobrecarrega com o peso das suas palavras sonoras a nossa lingua flexivel.—Não desenrolaremos todos os emprestimos que o diccionario francez tomou da Hespanha sob Anna de Austria e durante a menoridade de seu filho. A phrase castelhana enche com as suas pomposas circumlocuções as Memorias de Richelieu e as de M.me de Motteville.—Balzac é hespanhol. Os seus sermões leigos são o segundo tomo das verbosas e solemnes amplificações de Balthazar Gracian; as miniaturas galantes de Voiture, ainda que conservam um pouco o colorido italiano, são sobretudo castelhanas. Desde 1610, a emphase apodera-se do discurso familiar e do estylo epistolar.—Em Paris, em 1640, só se dirigem ás damas e aos grandes cumprimentos harmoniosos e vazios, uma pompa elogiosa, uma lisonja banal, que os hespanhóes chamavam espirituosamente—musica celeste.» E fallando da influencia dos trajos hespanhóes nos desenhos de Callot, define-o: «artista mais historiador que os historiadores, multiplica a parodia deliciosa d’estes gentishomens que marcham com o punho na cinta, d’esses poeticos maltrapilhos, d’esses mendigos que o sol aquenta, d’estes almocreves insolentes, verdadeiros filhos de Castella.»[179]—«Este prurido hespanhol durou até meio do reinado de Luiz XIV;... este reflexo da Hespanha cáe sobre Versailles, sobre os seus costumes solemnes, seus usos, sua admiravel mistura de nobreza e de elegancia, sua litteratura gravemente doce, perfeitamente e nobremente bella. Por um singular destino, a Hespanha que dominava tudo pelo seu exemplo, seus costumes e sua lingua, ia morrer sem esplendor, morrer no meio do seu triumpho. A agonia preparava-se-lhe pela ignorancia, pelo orgulho e pela priguiça. Ella tinha conquistado a fonte do ouro, e o berço dos diamantes; possuia os grandes escriptores, os sublimes pintores, os altos caracteres; viu-se sublime, creu-se immortal e adormeceu.»[180]

«Triste suicidio! morrer assim, depois de ter creado o primeiro poema épico da nova Europa, o primeiro romance da nova civilisação, depois de ter aberto as portas da America ás nações modernas! Nem a Hespanha, nem a Europa se aperceberam d’esta decadencia; a Hespanha admira-se e os seus visinhos copiam-n’a; as obras creadas por ella servem de ensino a todos. Em França estes germens são fecundos; Scarron toma-lhe as grosseiras tramas de uma intriga embrulhada e a facecia popular dos pícaros; d’Urfé diverte as mulheres imitando as phantasias zagalescas; Saint-Amand acha bella acima de tudo a exageração das imagens; Voiture imita o estylo culto; Corneille acha n’esta mina de ouro o elemento primitivo do seu genio, uma grandeza sobrehumana e os energicos combates da paixão e do dever. Seu irmão, intelligencia dotada de plasticidade e habilidade ... tira da Hespanha o que ella tem de menos profundo e de menos potente: a intriga habilmente atada, o imprevisto dos movimentos; o jogo dos acontecimentos extravagantes; a lucta da sorte contra si mesmo; o amor, o odio, a felicidade e a desgraça enlaçando-se em um tecido fragil; um movimento vivo e rapido em vez de uma imitação séria da vida; disfarces e golpes de espada; encontros extraordinarios, escondrijos maravilhosos, e o facil recurso dos aposentos nos quaes se topam os inimigos e os amantes.—Tristan, Hardy e Mairet fizeram a parodia d’isto, mas sem graça, perpetuando-se até Quinault, do qual o Timocrates é uma verdadeira peça hespanhola, que sobreviveu até Luiz XIV; Rhadamisto e Zenobia recebeu a mesma successão. Os Visionarios de Desmarets, e as vesanias divertidas de Cyrano de Bergerac são fructos do mesmo solo.»

«Faltava ainda explicar o mais difficil, a mais intima, a mais nobre, a mais séria porção do genio hespanhol; coube esta ao grande Corneille. Potencia de paixão, do pensamento, de combinação, eis o que elle pediu ao theatro de Hespanha.—Las Mocedades del Cid transformadas fornecem-lhe a mais bella tragedia moderna. Um drama pseudonymo de Alarcon transforma-o em uma comedia de costumes.»[181] «O Menteur é uma obra prima de bom senso, de arranjo e de imitação. Corneille não quiz mais do que isso. Descobriu a fonte hespanhola, e fez brotar a comedia de caracter.» E na marcha do seu estudo Philarète Chasles chega a affirmar: «O nosso theatro contém mais de duzentos dramas que vieram de Hespanha. As obras de Montfleury, de Scarron, outr’ora tão popular, de Dufresny, mesmo de Destouches, algumas de Molière, tem uma origem hespanhola.»[182]

Philarète Chasles, caracterisa a influencia do theatro hespanhol em França, depois de alludir ás imitações de Corneille no Polyeucte e no Cid: «Racine escapa á influencia hespanhola; n’elle só se encontra sob a fórma de galanteria e de elegancia. Depois da morte de Racine, Lagrange-Chancel e Crébillon succedem-lhe, mediocres fabricantes de intrigas hespanholas. Os Timocrates e os Rhadamisto, que abriram a senda ao melodrama moderno, vieram-nos de Hespanha. Foram Lope, Alarcon, Tirso de Molina, que crearam para nosso uso esta architectura cheia de escadas secretas, gabinetes occultos, pavilhões mysteriosos, retiros para galanteadores, balcões para escalar, e muros faceis de saltar, todo este material que ainda se não abandonou. O mais insignificante vaudeville de intriga que se representa na Europa ainda agora é uma creação da Hespanha.»[183] E caracterisando esta força creadora do genio hespanhol, accrescenta Philarète Chasles: «O enredo hespanhol encontra-se em todos os theatros do mundo. Em Veneza, Roma, Paris, Londres, San Petersburgo, Vienna, New-York, Don Juan, o Cid, o Menteur, o Matrimonio secreto, antigos caprichos de alguns poetas de Madrid, sustentam-se obstinadamente, tal é a vida dramatica n’estas invenções.—Ao primeiro relance, Calderon, Alarcon, Roxas e Tirso são um mesmo poeta; os mil dramas hespanhóes que do seculo XVI ao XVII brotaram d’esta fonte, parecem-se e são gémeos. Para reconhecer o cunho das variedades de talento que os dictaram, é preciso reparar bem de perto; a originalidade d’estas obras é a originalidade de um povo, não a de um homem; o talento especial do poeta como que se sacrificou e perdeu no genio dominante da multidão.»[184]

Sobre a litteratura ingleza, especialmente no theatro é que o genio hespanhol irradiou a sua intensa paixão, a ponto de por um effeito reflexo os dramas inglezes de origem hespanhola popularisarem-se sobre a scena franceza. É pois absurdo attribuir á Hespanha a perversão do gosto do estylo euphuista propagado á Inglaterra.

A influencia da Litteratura hespanhola em Inglaterra, facto manifesto em Shakspeare e nos poetas dramaticos, tem sido confundida com esse phenomeno de perversão do estylo metaphorico chamado o Culteranismo. Esta epidemia litteraria, tão caracteristica dos poetas e prosadores do seculo XVII, teve em Inglaterra o nome de Euphuismo, nome tomado do titulo de uma obra do seu propagador John Lyly. Bem examinadas as origens do euphuismo, vê-se que este estylo entrou em voga na Inglaterra no meado do seculo XVI, na prosa de George Petty, imitador dos italianos, como tambem o implantou Philip Sidney, seguindo-o todos aquelles que tentavam reproduzir o petrarchismo, como Thomas Wyatt, Surrey e Spenser. O requinte na expressão do sentimento levava á linguagem amaneirada, ás antitheses, ás aliterações, e póde-se considerar, segundo Morly, que n’este meio é que se desenvolveu o euphuismo. Lyly imitou Petty, e seguidamente os italianos, a Petrarcha directamente na sua Galathea, e a Surrey especialmente. Embora o gosto do euphuismo seja menos dominante nas poesias de Lyly do que nas suas novellas, e tenda a ser abandonado em outras composições, comtudo mantiveram-n’o outros escriptores, como Rich, Nash, Green, Lodge, o que revela uma influencia mais profunda e não pessoal. É pois absurdo attribuir á Hespanha esta perversão do gosto na litteratura ingleza, já derivando-a da imitação do estylo de Guevara, como o imaginou Laudmann, já de Gongora como anachronicamente o indicou Hillebrand. A imitação da poesia italiana em Inglaterra começou com Chaucer, e esse gosto propagou-se até Shakspeare; e emquanto em Inglaterra degenerava o estylo no emprego de paronomasias simples, de aliterações alternadas, de antitheses parallelas e cadencias rythmicas, tambem em Hespanha essa mesma influencia degenerava segundo o genio peninsular em hyperboles phantasticas, em atrevidas metaphoras e tropos inchados. Assim o Euphuismo e Culteranismo sem serem eguaes, nem derivarem um do outro, identificaram-se facilmente, produzindo esse engano nos criticos.[185] Não é nas aberrações do estylo litterario que se deve procurar a influencia hespanhola na litteratura ingleza, mas sim nos themas fundamentaes e nos processos da idealisação artistica; e a acção exercida sobre as litteraturas da Italia e da França ajuda a comprehender quanto ella suscitou nobremente o genio esthetico na Inglaterra.

No seculo XVII Portugal estava incorporado na unidade castelhana; não existia como organismo nacional, e pelas manifestações da sua litteratura não se poderia prevêr a revolução autonomica de 1640. Esse impulso veiu de fóra; a liberdade de Portugal era um dos córtes do plano de Richelieu contra a Casa de Austria. Na litteratura portugueza os principaes poetas, como D. Francisco Manoel de Mello escrevem em castelhano: e uma grande parte das Comedias famosas do theatro hespanhol são compostas por portuguezes. Parece que mentalmente, ou nos dominios da intelligencia Portugal e Hespanha formavam uma mesma civilisação. O uso do castelhano pelos escriptores portuguezes no seculo XVII não era um symptoma de depressão do sentimento nacional; já no seculo XV os poetas portuguezes palacianos enriqueceram os Cancioneiros de Hespanha; na época quinhentista Sá de Miranda, Gil Vicente e Camões escreveram em castelhano grande parte das suas poesias. No Catalogo razonado de Escriptores portuguezes que escreveram em castelhano, colligido pelo Dr. Garcia Perez, é extraordinario o numero que ahi se encontra, como revelando uma certa unidade de civilisação iberica. O genio portuguez cooperou para o esplendor da litteratura hespanhola, quando aquella nação decahia sob o despotismo da Casa de Austria. Por via da paixão de Jorge de Monte-mór actuou sobre o gosto das allegorias pastoraes na Europa, com a Diana; com a Historia da Guerra da Catalunha de D. Francisco Manoel de Mello, appresentava a norma realista para os modernos historiadores. Estavamos sob o jugo politico, mas em plena egualdade mental; o genio portuguez communicou á Hespanha a paixão, o elemento vivo que mais longe levou o seu influxo litterario. As causas da decadencia da Hespanha foram as mesmas que actuaram em Portugal, aggravada porém a nossa situação por um factor deprimente—a alliança ingleza com todos os seus tratados diplomaticos.

c) O ARCADISMO E A REACÇÃO PROTO-ROMANTICA

(Hegemonia da Inglaterra)

As liberdades da elocução poetica, tanto na Italia, França, Inglaterra, Hespanha e Portugal, que foram designadas pelo nome de Culteranismo, e pelo de Seiscentismo por predominarem no gosto do seculo XVII, não devem ser consideradas como uma degenerescencia das Litteraturas meridionaes, mas como um esforço espontaneo de renovação desordenada e mal comprehendida. A imitação da Antiguidade com que as Academias poeticas chamadas Arcadias procuraram reagir contra essa corrente de uma intemperança rhetorica, era injustificavel, por que nos poetas classicos encontravam-se exemplos para justificar os maiores absurdos e os laboriosos artificios do estylo culto. Verney, nas cartas sobre o Verdadeiro methodo de estudar, analysando todos esses destemperos das rimas forçadas, dos labyrintos, acrosticos, anagrammas, chronogrammas, equivocos, eccos, usados na litteratura hespanhola e portugueza, cita fórmas analogas nos escriptores gregos e latinos. As Arcadias restringiram os modelos classicos a um pequeno numero de poetas, como Theocritico, Virgilio e Horacio; e contra os rasgos da imaginação expressos pela linguagem figurada, impuzeram-se um estylo rasoavel, frio, de um bom senso prosaico, sem emoção, nem colorido. O esforço para a manutenção das normas classicas, começou no proprio seculo XVII, com a auctoridade implacavel de Boileau em França, e com o estabelecimento da Arcadia de Roma, em 1690, fundada por Crescimbeni e Gravina, academia poetica que se tornou o typo de todas as Arcadias que encheram quasi todo o seculo XVIII. O pseudo-classicismo francez, propagado pelo perstigio dos grandes escriptores do seculo XVII, identifica-se com o Arcadismo, em que o espirito de erudição procurava transformar as academias culteranistas.

Mas no seculo XVII o conflicto entre as duas escholas tomou um aspecto consciente na celebre Querella dos Antigos e Modernos, suscitada por Charles Pérrault. Tratava-se de saber se a civilisação moderna tinha recursos mais ricos e fecundos do que a antiga, e se no meio de uma mais activa e delicada sociabilidade, com sentimentos mais humanos, não havia logar para uma idealisação tão bella nas artes e na poesia, como a da sociedade greco-romana. Pérrault sustentava que sim, e mostrava-se deslumbrado pelo esplendor da côrte de Luiz XIV; Boileau, reconhecendo esse esplendor como digno da éra de Périeles e de Augusto, cahia no contrasenso de proclamar a primasia da antiguidade, vindo a final a transigir com o seu antagonista.

Operára-se pela generalisação das ideias philosophicas do Cartesianismo uma forte corrente contra o formalismo da Scholastica, libertando o criterio e dando-lhe a audacia com que actúa no espirito do seculo XVIII; reflectiu-se essa situação mental tambem nas doutrinas litterarias, suscitando a ruidosa mas significativa Querella dos Antigos e Modernos, e determinando o abandono da Poetica de Aristoteles. Escrevia o barão Taylor para uma sessão do Congresso historico de 1840: «A mesma reacção que se opéra contra a antiguidade philosophica, não tarda a manifestar-se contra a antiguidade litteraria, e a Poetica de Aristoteles é atacada com tanta vivacidade como a Logica. Pérrault, Lamothe e Fontenelle são os campeões das ideias modernas, e ouso dizel-o, appresentaram melhor a fórmula romantica, do que a eschola actual, do que o proprio Chateaubriand, que quiz fechar a Litteratura no cyclo christão.» [186] Desde que as ideias e os sentimentos da civilisação moderna são evidentemente mais verdadeiros e humanos, são essas ideias e sentimentos que devem ser universalisados na arte e na litteratura, que com taes elementos não podem ficar inferiores ás obras primas antigas. Apezar d’este impulso resultante da Querella dos Antigos a Modernos, na primeira metade do seculo XVIII prevaleceu a admiração exclusiva pelas obras classicas greco-romanas, a imitação reflectida ou pautada d’esses modelos, e a preoccupação de um purismo de linguagem e primor de estylo, que em vez de exprimir sentimentos visava a seguir as convenções e a obter os applausos academicos. Um esforço para derivar a idealisação poetica da realidade da vida moderna começou pela generosa tentativa dos Romancistas inglezes; a liberdade politica e philosophica da Inglaterra, affirmadas nas suas duas fecundas revoluções do seculo XVII, deram-lhe essa plena hegemonia que exerceu pela sua influencia na França sobre a Europa do seculo XVIII. As ideias com que Montesquieu leva a insurreição aos espiritos no Espirito das Leis foram recebidas de Inglaterra, como a audacia das Lettres persanes nos apparece cultivada na associação de livres-pensadores do Club de l’entresol, em que dominava Bolingbroke. Tambem pela emigração na Inglaterra alcançou Voltaire a comprehensão mais clara da sua missão negativista. O romance da vida intima ou domestica, como o fundou Richardson, veiu mostrar ao genio francez a fórma definitiva, que elle só tem a aperfeiçoar; e as tragedias de Shakspeare, máo grado os protestos academicos, revelaram uma esthetica nova, em que a verdade da paixão prevalece sobre a fórma transitoria, que se torna bella e mesmo profundamente philosophica por essa verdade.

Na grande crise social que vae fazer a sua explosão nos fins do seculo XVIII, os litteratos foram os instrumentos de uma propaganda das ideias philosophicas do negativismo revolucionario. Mas, não conseguiram vencer a rhetorica; o Arcadismo, mantinha-se n’esse deploravel aspecto incolôr das obras litterarias que se não referiam á sociedade viva, á época, á nação, mas esboçavam abstractas entidades, umas vezes segundo os moldes consagrados pelas Academias, outras vezes com a intenção de servir ou de combater as aspirações revolucionarias. A litteratura protegida pelas côrtes do seculo XVIII, para evitar os perigos da liberdade, fechava-se na disciplina do arcadismo. Como a falta de sentimento imprimia aos poetas uma fórma apagada e sem colorido, elles procuravam mascarar a futilidade ou inutilidade dos seus versos tornando-os rasoaveis, compondo poemas didacticos ou scientificos. Taine caracterisa magistralmente o caracter incolôr da litteratura: «No seculo XVIII não é proprio o figurar a cousa viva, o individuo real, tal como existe effectivamente na natureza e na historia, isto é, como um conjuncto indefinido, como um rico tecido, como um organismo completo de caracteres e de particularidades sobrepostas, entremeadas e coordenadas. Falta-lhe a capacidade para recebel-as e para contel-as. Affasta-as o mais que póde, tanto, que por fim não conserva senão um extracto mesquinho, um residuo evaporado, um nome quasi ôco, em summa, o que se chama uma inane abstracção.—Por toda a parte a seiva está esgotada, e em logar de plantas florescentes, só se deparam flores de papel pintado. Tantos poemas sérios desde a Henriada de Voltaire até aos Mezes de Roucher ou á Imaginação de Delille, que é tudo isso senão trechos de rhetorica guarnecidos de rimas? Percorrei as immensas tragedias e comedias de que Grimm e Colé nos dão o extracto mortuario, mesmo as boas peças de Voltaire e de Crébillon, mais tarde a dos auctores que estiveram em voga, Du Belloy, La Harpe, Ducis, Marie Chénier: eloquencia, arte, situações, bellos versos, tudo isso têm, excepto homens; os personagens não passam de mannequins bem adestrados, e as mais das vezos trombetas pelas quaes o auctor lança ao publico as suas declamações. Gregos, Romanos, Cavalleiros da Edade media, Turcos, Arabes, Peruvianos, Guebros, Byzantinos, pertencem todos á mesma mechanica discursiva. E o publico não se encommoda; não tem o sentimento historico; admitte que o homem é em toda a parte o mesmo, e consagra pela admiração os Incas de Marmontel, o Gonzalve e as Novellas de Florian...»[187] E mostrando o mesmo aspecto incolôr nas obras dos historiadores: «O Grego antigo, o christão dos primeiros seculos, o conquistador germanico, o homem feudal, o arabe de Mahomet, o allemão, o inglez da Renascença, o puritano, apparecem nos seus livros com pouca differença das suas estampas e dos seus frontispicios, com algumas differenças de trajo, mas com os mesmos corpos, as mesmas caras, a mesma physionomia, attenuados, apagados, decentes, accommodados ás conveniencias. A imaginação sympathica pela qual o escriptor se transporta a outrem, e reproduz em si um systema de habitos e de paixões contrarias ás suas, é o talento que mais falta ao seculo XVIII.»[188] Comparando o romance francez com o romance inglez, Taine conclue pela surprehendente superioridade de Foë, Richardson, Fielding, Smollett, Sterne e Goldsmith até Miss Burney e Miss Austen, e diz: «eu conheço a Inglaterra do seculo XVIII; eu vejo clergyman, gentishomens do campo, rendeiros, estalajadeiros, marinheiros, gente de todas as condições, infimas e elevadas;... tenho nas mãos uma série de biographias circumstanciadas e precisas, um quadro completo, de mil scenas, da sociedade inteira, o mais amplo montão de informações para me guiarem quando eu quizer fazer a historia d’este mundo extincto. Se, em seguida, leio a série correspondente dos romancistas francezes, Crébillon filho, Rousseau, Marmontel, Laclos, Rétif de la Bretonne, Louvet, M.me de Staël, M.me de Genlis, e os outros, comprehendendo Mercier e até M.me Cottin, quasi que não tenho notas a tomar;... vejo modos delicados, mimos, galanterias, velhacarias, dissertações de sociedade, e aqui está tudo.»[189] Pela fórma do romance é que a Inglaterra exerceu tambem a hegemonia litteraria no seculo XVIII, determinando em França essa tentativa de idealisação da realidade, ou o Proto-Romantismo, e na Allemanha, depois da Guerra dos Sete annos, o impulso que a levou a idealisar as suas tradições nacionaes, e a abrir a época da renovação das Litteraturas modernas no seculo XIX ou o Romantismo.

Quando se fundou a Arcadia de Roma para corrigir os exageros do estylo marinista, oppuzeram os seus associados outros exageros, simulando ingenuidades pastoris, resuscitando as allegorias buccolicas que desde Sanazzaro se propagaram entre os eruditos; reuniam-se no monte Janiculo, chamando á sala das sessões Bosque Parrasio, e tomando nomes poeticos de pastores gregos, das eclogas de Theocrito ou de Virgilio. Os Papas, Reis, cardeaes, bispos e magistrados honravam-se em pertencer á Arcadia; Dom João V, que teve n’esse gremio pastoral o nome de Albano, mandou-lhe construir em Roma um palacio para as suas sessões. A Arcadia, que se propagára a todas as cidades da Italia, tambem teve em Portugal o seu rebento. Mas aqui, a lucta contra o elemento seiscentista foi porfiosa, por que as Academias ou Tertulias litterarias eram os baluartes do Culteranismo. Do gosto dominante, escrevia Verney: «Geralmente entendem, que o compôr bem consiste em dizer subtilezas e inventar cousas que a ninguem occorressem...»[190] E sob a influencia da litteratura castelhana: «Envergonham-se de poetisar em portuguez, e têm por peccado mortal ou cousa pouco decorosa fazel-o na dita lingua.» Por este mesmo tempo estava a moda das Academias arcadicas no seu maior fervor em Hespanha, como affirma Valderrábano no prefacio ao poema Angelo-machia: «Entretinham-se os saráos fazendo relações, trechos de comedias, cantando ao fandango xácaras de valentões, e recitavam-se poesias burlescas. Tudo cessou de quarenta annos a esta parte, (1786) e mais vale que se não renovem, a não ser com melhor cultura e melhor influxo nos costumes.»[191] Era tambem ardente este prurido arcadico em Portugal, como o confessa o bispo Cenaculo, no seu estudo As Letras na Ordem Terceira de Sam Francisco: «Ainda durava o seculo das Academias. A duração era effeito dos bons principios, e tambem por que o caracter da nação é o do monarcha. Sendo paixão de el-rei D. João V aquelle genero de estudos, por que passava quatro e cinco horas continuadas n’esta lição, para este fim dispoz uma união de academicos escolhidos, que competissem com o grande merito do seu assumpto, qual era a historia da patria. Espalhou-se pela monarchia este calor: os paroxismos vieram-lhe da desordem em que poz o reino o Terremoto de cincoenta e cinco. Mas d’antes, nas casas particulares, nos conventos de religiosos, e por outras maneiras se ajuntavam a cada passo, não só os letrados, mas tambem os que tanto pretendiam, tratando com diligencia os assumptos.—Nos mesmos claustros achei praticada aquella curiosidade. Nos dias do P. Fr. Joaquim (de Santa Clara) sendo collegial, elle o fomentava em o nosso Collegio de Coimbra, com sociedade de bons amigos, e no Collegio de S. Thomaz e de S. Jeronymo. Admittiram-se os contemporaneos habeis, sendo todos collegiaes, e que foram depois professores ou doutores em a Universidade, e prelados maiores das suas Ordens e alguns bispos.»[192] No seculo XVIII, como o sentia o bispo Cenaculo, o caracter do monarcha era o da nação: D. João V já se não penalisava de não poder trocar a corôa de rei pela cugula de Inquisidor, mas acceitava para maior perstigio da soberania o papel de pastor-arcade; elle amava o canto-chão, e assim como importava da Italia os productos da arte rococo para ornamentar a sua côrte, chamava tambem o veneziano Frei Jorge para ensinar o funebre canto-chão em Sam José de Ribamar. O sentimento da nacionalidade apagava-se, e bem preciso era o entoar o canto mortuario sobre o paroxismo de um povo. Á imitação dos monarchas do seculo XVIII, D. João V tinha por modelos Luiz XV e Leopoldo na sensualidade e na prodigalidade. Gastando quatro e cinco horas em tertulias academicas, bocejava ouvindo a conferencia dos ministros, que interrompia de vez em quando para saber quanto rendia a caixa das almas, como nol-o pinta Alexandre de Gusmão; de noite refocilava-se com as freiras do beato harem de Odivellas, como o descreve o bispo de Gram-Pará. A censura litteraria era exercida pelo cardeal Cunha, que mandava riscar dos repertorios os prognosticos de trovoadas e chuvas.

Em uma nação em que a vida toda se reconcentrava na côrte, em volta do rei e dos seus aulicos favoritos, a influencia franceza tinha de ser preponderante, por que a França era então considerada como o modelo da elegancia e do gosto. Esta influencia franceza na litteratura manifesta-se como uma reacção do purismo pseudo-classico contra o Culteranismo, ou a influencia hespanhola. D. João V tomava como seu figurino Luiz XV com a sua côrte sensual e sumptuosa. Os fidalgos portuguezes começaram a ter nos seus jardins fontes feitas por Bernin, como se usava em França; Mafra era um arremedo de Versailles, e as Aguas-Livres um despique com o Aqueducto de Maintenon. O Conde da Ericeira mantinha relações de amisade com o chefe do pseudo-classicismo francez, o austero Boileau, e traduzia-lhe a sua Poetica para nos dar um codigo de bom gosto. Boileau agradeceu-lhe em uma carta (é a XIV.a) tamanha consagração. Francisco de Pina e Mello imita as Odes sacras de João Baptista Rousseau; Verney, proclamava o Telemaco de Fénélon «uma Epopêa das mais bem feitas e escriptas que tem apparecido.»[193] A Athalia de Racine era traduzida por Candido Lusitano, e o Lutrin, imitado no Hyssope de Cruz e Silva. A fundação da Academia de Historia portuguesa, em 9 de Dezembro de 1720, fôra iniciada pelo Conde da Ericeira no seu palacio da Annunciada «por emulação dos Scientes de França» como se lê em uma Oração panegyrica. É curiosa a transformação das Academias culteranistas do seculo XVII nas arcádicas do seculo XVIII, aproximando-se do classicismo francez. Assim, a Academia dos Generosos, iniciada pelo trinchante-mór de Dom João IV, mantendo-se de 1647 até 1668, é renovada em 1684, e por seu filho D. Luiz da Cunha, continuando até 1693, é disfarçada com o titulo de Conferencias discretas, com que celebrava as suas sessões de 1696 a 1699 em casa do Conde da Ericeira; e n’esse mesmo palacio durante quatorze annos (1714 a 1728) se confundiu com a Academia dos Anonymos, refundindo-se a final na Academia de Historia portuguesa, com caracter particular em 1717, e official depois de 4 de Novembro de 1720. Assim a divisa da Academia dos Generosos: Non extinguetur, com o emblema de uma vela accesa, tornava-se uma realidade, por que n’estas renovações transmittia sempre o gosto do Culteranismo. O antigo secretario da Academia dos Generosos, Manuel Telles da Silva, funda em 1747 a Sociedade dos Occultos, com o fim da transformação do gosto litterario. Existiu até 1755 em que foi dispersada pela tremenda catastrophe do terremoto de Lisboa, e só veiu a reconstituir-se em 11 de Março de 1756 com o titulo definitivo de Arcadia Ulyssiponense, datando as suas conferencias do Monte Ménalo (á imitação do Parrasio, da de Roma.) Quando morreu D. João V, o protector das sociedades arcádicas, celebraram-lhe a memoria as Academias dos Escolhidos, dos Anonymos, dos Applicados e dos Occultos, que funccionavam em Lisboa. Foi contra esta forte corrente culteranista que luctou a Arcadia Ulyssiponense, mas com aquella frieza sensata e incolôr do classicismo francez. A poesia culteranista impunha-se, por que, como o confessa Verney: «a sua contextura é tão facil, que por máo que seja o poeta sempre acerta com ellas. A Decima, o Madrigal, as Liras, a Silva, o Romance lyrico, Quartetos puros e de pé-quebrado, Tercetos, etc., nada mais pedem que a naturalidade do conceito e expressão...»[194] A Arcadia dispendeu a sua energia em questões banaes, propondo a imitação dos Quinhentistas e as regras do emprego dos archaismos e neologismos da linguagem. Sob a pressão material e moral do absolutismo monarchico e do intolerantismo catholico, a auctoridade academica veiu acabar de deprimir os espiritos, e a poesia degradou-se na obscenidade, como se vê nos versos de Caetano da Silva Souto Mayor (o Camões do Rocio), de Antonio Lobo de Carvalho (o Diogenes da Madragoa), nos de Filinto e de Bocage.

No emtanto, sente-se no meio d’esta linguagem falta de expressão emocional o influxo da poesia ingleza em Garção, apezar do seu horacianismo, e em José Anastacio da Cunha. Entre as obras de Garção encontra-se a «Traducção de uns versos inglezes feitos a um grande pintor[195] E da ode A uns annos de uma senhora ingleza, se deprehende qual a sua convivencia, e ensejo de familiaridade com as obras dos poetas inglezes. José Anastacio da Cunha traduziu a Oração universal, de Pope, um dos fundamentos com que o agarrou a Inquisição de Coimbra em 1778; no seu processo do Santo Officio se lê, que era muito amigo do brigadeiro Ferrier «escossez de nação, protestante, o qual lhe pedia traduzisse algumas peças e versos de alguns livros francezes e inglezes, que elle fazia em verso portuguez...» No sequestro que a Inquisição de Coimbra fez dos seus Livros, vem enumerados muitos livros inglezes.[196]

A superioridade das poesias lyricas de José Anastacio da Cunha sobre todas as dos seus contemporaneos explica-se por esses modelos que o conduziram á realidade e á expressão natural e simples da paixão. O pseudo-classicismo reconhecendo a sua inutilidade, cultivava a poesia didactica, pondo em poemas os estudos scientificos tão predilectos do seculo XVIII, ou propagando tambem em tragedias racinianas as doutrinas revolucionarias do criticismo encyclopedista. Póde-se considerar como a ultima phase do Arcadismo, que a Revolução franceza, apezar das grandes paixões postas em conflagração, não conseguiu desviar da sua inalteravel rhetorica. É certo, que em França, pelo mesmo negativismo critico, se operava uma libertação da auctoridade classica e das tradições medievaes, e se proclamava o individualismo humano e o regresso á natureza. É esta corrente proto-romantica franceza, que vae reflectir-se na Allemanha, acordando o espirito dos creadores d’aquella grande litteratura; Lessing imita Diderot no theatro, Goëthe admira o creador do Neveu de Rameau, Wieland reelabora as Gestas francezas, Schiller desenvolve a Tragedia philosophica com intuitos revolucionarios, e o proprio Kant confessa-se fecundado pelas ideias individualistas de Rousseau. Os emigrantes francezes, por occasião da revogação do Edito de Nantes, tinham levado para a Allemanha o impulso da civilisação moderna; era inevitavel a preponderancia do pseudo-classicismo francez. Interrompeu-se essa imitação, quando a Allemanha, suscitada pelo conhecimento da Litteratura ingleza, comprehendeu o valor das suas antigas tradições nacionaes. O rompimento com a cansada imitação da França só podia começar em uma nação forte pela raça e pela riqueza das suas tradições, para fundar a sua Litteratura na idealisação d’ellas. Foi um trabalho consciente. Por occasião da Guerra dos Sete annos a Allemanha separou-se da imitação franceza, e a leitura dos antigos poetas inglezes revelou-lhe que fóra das normas do classicismo francez existiam outras fórmas artisticas mais coloridas e bellas. Lessing, na Dramaturgia, funda a nova prosa allemã e derrue as theorias dos tragicos francezes; a côrte de Weimar, sob o influxo pacifico da regencia de Anna Amelia de Bronswick, agrupa essa pleiada de genios creadores, de que Goëthe era o chefe. Os irmãos Grimm encetam os seus vastos estudos sobre a lingua, a mythologia, o direito, as velhas epopêas e os contos populares da Allemanha; e sobre estes elementos da Patria germanica, resplandece uma nova litteratura, que se torna uma das mais opulentas do seculo. O Romantismo, para os povos do Occidente foi o regresso ás suas tradições da Edade media, não comprehendidas, desprezadas e esquecidas desde a Renascença, pelo prurido da imitação classica sob a protecção official monarchica. Desde então o movimento das Litteraturas romanicas se resume n’este impulso da Litteratura allemã, revelando as fontes organicas de toda a elaboração esthetica.[197]

§ 3.—O Romantismo

(HEGEMONIA DA ALLEMANHA)

Os espiritos mais eminentes do seculo XVIII previram a crise violenta, que a decadencia das instituições politicas provocava, e que as revoltas da consciencia iam apressando. A Revolução franceza foi essa explosão temporal de um movimento, que desde o seculo XII procurava um novo equilibrio; movimento complicado pelo longo esforço negativista de decomposição, e pela incerteza de uma base positiva para a reconstrucção de uma outra synthese humana. A queda dos Jesuitas fôra o resultado da final decomposição do poder espiritual do regimen catholico; e a execução da realeza, na pessoa do desgraçado Luiz XVI, era a transformação do poder temporal, que desde as bandas guerras germanicas, e dos privilegios das classes aristocraticas, se fôra concentrando na dictadura monarchica. Devera seguir-se um forte trabalho de reconstrucção sobre as ruinas do regimen catholico-feudal; a Convenção comprehendeu genialmente o seu destino, e esboçou o poder espiritual com as grandes reformas pedagogicas, e o poder temporal com a substituição provisoria da Republica-democratica. Na complicação dos acontecimentos esta marcha foi perturbada; o poder espiritual desvairado pela metaphysica deista de Robespierre facilmente regressou a uma reacção neo-catholica; e o poder temporal, envolvido nas guerras defensivas e no delirio do terror, foi cahir nas mãos de um aventureiro militar, que com o nome de Consul e de Imperador esgotou a França com uma orgia de guerras sangrentas, que levou a Europa a colligar-se e a fazer a restauração da monarchia. Eis a série de factos que na sua inconsequencia se accumularam na transição do seculo revolucionario para o seculo XIX; a nova edade continuou a antiga lucta, porém com menos clareza. Com rasão considerava De Maistre o nosso seculo como um prolongamento do seculo XVIII. Não se avançou mais no trabalho da construcção da nova synthese; estabeleceu-se a hypocrisia systematica das contemporisações e dos partidos medios (juste milieu); as Cartas-outorgadas e o regimen monarchico-representativo foram a sophismação do poder temporal; da mesma fórma a religião de estado e o subsidio official a todas as desconnexas especialidades scientificas corrompeu o poder espiritual em uma espantosa pedantocracia.

N’esta angustiosa crise, que esterelisou o seculo XIX, que deixará na historia a marca da sua incapacidade para a construcção da synthese definitiva, as Litteraturas reflectiram todos estes abalos de um regimen decahido, e da comprehensão de um ideal superior. Representaram a melancholia e o estado de desalento dos espiritos; deram expressão aos sentimentos que se compraziam em evocar o passado, que procurava restaurar o seu antigo dominio; espalharam os protestos de revolta dos genios insubmissos, e lisongearam o gosto banal de uma burguezia cordata. Todas estas manifestações eram a revelação dos caracteres de uma nova época litteraria: chamou-se-lhe o Romantismo. Veiu da Allemanha esta designação, como viera o exemplo de sympathia pelas tradições da Edade media. Na renovação das Litteraturas romanicas competiu á Allemanha a hegemonia, nos começos do seculo, como resultante da solidariedade da civilisação europêa; e essa acção ligava-se á diversidade que n’este longo periodo de lucta se estabelecera entre o regimen catholico-monarchico e o aristocratico-protestante, dos povos romanicos e germanicos.

Considerando como uma base da Sociologia o estudar a civilisação em todos estes povos que conjunctamente participaram do movimento da Europa occidental, na Italia, França, Inglaterra, Allemanha e Hespanha, estabelece Comte: «Estas cinco grandes nações podem ser consideradas como tendo constituido depois da primeira metade da Edade media, apezar de immensas diversidades, um povo unico reunido sob o regimen catholico e feudal e sujeito a todas as transformações successivas que este regimen provocava consequentemente.»[198] No estudo das Litteraturas modernas torna-se indispensavel este criterio; embora o genio nacional tenda a individualisar-se e a manter o separatismo patriotico como um estimulo de inspiração, é nas Litteraturas que se observa a hegemonia esthetica que cada nação europêa foi exercendo uma após uma sobre o conjuncto das outras, creando assim uma verdadeira solidariedade sentimental na civilisação do occidente. Comte fez sentir o valor d’esta successão hegemonica: «Ainda que a arte tenha sido accusada de fomentar antipathias nacionaes, em virtude da sua incorporação no desenvolvimento proprio de cada população, ella tem, sem duvida, actuado com mais energia em sentido contrario, aproximando as nações, pela viva predilecção universal que as obras primas estheticas suscitavam para o povo que as produzia. Cada uma das bellas-artes teve o seu modo especial de excitar a sympathia universal da Europa e de auxiliar a communicação mutua; mas a influencia mais geral e a mais efficaz, sob este aspecto, pertence á poesia, que obrigou ao estudo das linguas estrangeiras, sem o qual as diversas obras primas não teriam sido apreciaveis.»[199]

Na crise systematica da revolução occidental, a começar do seculo XVI, as capacidades estheticas revelam-se diversamente entre os povos catholicos e os protestantes. Com o catholicismo prepondera a monarchia com a sua absorvente dictadura temporal, apoderando-se das Litteraturas por uma exagerada protecção official, pela instituição de academias destinadas a subordinar a inspiração individual a regras rhetoricas, manietando pela auctoridade do gosto ou dos modelos consagrados todos os impulsos de originalidade. Nada satisfazia melhor este plano do que a imitação da antiguidade classica; e de facto o prolongado perstigio da poesia do polytheismo greco-romano durou com o perstigio das monarchias absolutas, e soffreu a sua reacção depois da explosão revolucionaria. Com o protestantismo preponderou o elemento aristocratico, a quem era sympathico o ideal cavalheiresco do individualismo heroico; e as naturezas artisticas, sem outro apoio mais do que a espontaneidade da sua vocação e a sympathia popular, não perderam completamente a originalidade, por que se não afastaram de todo da Edade media. É por isso que a Inglaterra exerce no seculo XVIII uma influencia sugestiva no pseudo-classicismo francez, e que no seculo XIX a Allemanha actúa nas Litteraturas occidentaes revocando-as pelo exemplo ás suas fontes tradicionaes da Edade media. Nem de outra fórma se explica como o Protestantismo tão anti-poetico pôde exercer uma influencia renovadora; não renegára completamente a Edade media. Comte observou esta differença, concluindo quanto uma verdadeira theoria do progresso humano póde esclarecer o estudo do desenvolvimento historico da arte: «Dos dois modos politicos, o monarchico-catholico e o aristocratico-protestante, o primeiro era mais favoravel á arte do que o outro. Comprehende-se facilmente que a arte recebesse um impulso mais homogeneo e mais completo de um poder mais central e mais elevado, cujo ascendente protector devia incorporar bastantemente a animação contínua de todas as bellas-artes ao systema geral da politica moderna. Assim vêmos os governos monarchicos fundarem Academias poeticas ou artisticas, (Arcadismo) as quaes, primeiramente instituidas na Italia, adquiriram immediatamente em França, sob Richelieu e sob Luiz XIV uma importancia superior. No modo aristocratico e protestante, ao contrario, a preponderancia da força local entregava as bellas-artes ao penivel e insufficiente recurso das protecções particulares, nas povoações em que o protestantismo tendia a neutralisar a educação esthetica começada na Edade media.—A dictadura monarchica em França devia de ter repugnancia pelas recordações da Edade media, em que a realeza era tão fraca e a aristocracia tão poderosa;... Em Inglaterra ao contrario, em que o systema feudal estava menos alterado, as sympathias as mais geraes voltavam-se para as recordações da Edade-media, o que explica a popularidade que teve a sua representação pelo grande Shakspeare.»[200]

a) REHABILITAÇÃO DA EDADE-MEDIA

Uma das causas da incoherencia mental do seculo XVIII fôra o desconhecimento da continuidade historica; no seu negativismo religioso e politico desprezou completamente a Edade media; Helvetius e Raynal chamavam-lhe esteril barbarie, e edade de trevas sem nome. Comprehende-se que a Allemanha feudal, reagindo contra a influencia litteraria da França, procurasse nas tradições heroicas ou cavalheirescas da Edade media elementos sympathicos para a idealisação poetica de espiritos reflexivos. O nacionalismo levava a achar as fontes organicas da sua elaboração artistica. O mesmo espirito feudal, na Inglaterra, comprazia-se com a representação de uma existencia cavalheiresca, que Walter Scott reconstruia pacientemente e com esmero na portentosa série dos seus romances historicos. Em França este regresso á Edade media não se deu por um intuito artistico; determinou-o um fim politico. O conde José de Maistre, servindo a causa da restauração neo-catholica, tratou de estabelecer a solidariedade historica da Edade media com o presente. Nada percebia do progresso humano depois do christianismo, como o previra Condorcet, porém via com lucidez a continuidade do passado nos seus elementos conservantistas. Foi esta incapacidade que provocou a lucta entre Classicos e Romanticos, que rompeu em 1818; n’essa lucta revelava-se a antinomia de doutrinas. Os Classicos, que eram voltairianos, que continuavam sob a Restauração o ideal republicano, ou como academicos se conciliavam com a monarchia liberal, sustentavam o predominio absoluto dos modelos greco-romanos. Os Romanticos, começaram por servir a reacção catholica, e para isso é que Chateaubriand idealisou a Edade media no Genio do Christianismo; sendo renovadores na litteratura, caíam no contrasenso de cooperarem para o retrocesso da consciencia. A esta phase religiosa chamou-se o Romantismo emmanuelico, sendo os seus principaes vultos depois de Chateaubriand, Lamartine, Alfred de Vigny e Soumet.

Mas a Edade media não fôra sómente catholica; fôra feudal e cavalheiresca. Sob este aspecto começou a apparecer como um mundo ignorado, rico de formosos symbolos e de uma sociabilidade altamente dramatica; desenvolve-se então o romance historico sobre os typos de Walter Scott, e o drama de sensação, pelo gosto de Schiller. É então que apparece Victor Hugo com a Notre Dame e os Burgraves. Na Edade media tambem luctaram pela liberdade as Classes servas, que chegaram a constituir o terceiro Estado, que triumphou com a Revolução; foi esse o campo do Romantismo liberal, que foi achar a sua disciplina na renovação dos estudos historicos por Agostinho Thierry, Guizot, Michelet, Barante, etc.

Assim como a palavra Romance designa a fórma a mais original e caracteristica das Litteraturas modernas, em que se idealisa o elemento domestico desconhecido na arte antiga, tambem a palavra Romantismo é uma feliz denominação de uma edade ou phase das Litteraturas modernas em que ellas reataram a continuidade com a Edade media, onde se elaboraram todos os germens tradicionaes das raças incorporadas pela civilisação romanica. Nenhuma expressão poderia achar-se mais significativa, por que na diversidade das nações europêas tem implicita a ideia da sua unidade, tantas vezes e tão calamitosamente obliterada na historia. Nas Conversas com Eckermann, Goëthe conta: «A determinação de poesia classica e de poesia romantica, que n’este momento circula pelo mundo, e que causa tantas discussões e dissensões, partiu, quanto ao fundo, de mim e de Schiller. Eu adoptára para a poesia o processo objectivo, o unico que me parecia bom, Schiller, que pelo contrario, procedia de um modo inteiramente subjectivo, julgou o seu methodo melhor, e foi para se defender contra mim que elle escreveu o Tratado da Poesia ingenua e da Poesia sentimental. (1795.) Os Schlegel apoderaram-se d’esta distincção para a levarem mais longe, de sorte que presentemente estendeu-se pelo mundo todo.» Á maneira da Querella dos Antigos e Modernos, levantou-se a polemica entre Classicos e Romanticos, avançando para uma melhor comprehensão historica de cada Litteratura, ambas bellas nas suas differenças estheticas. Segundo Schiller, para os gregos a poesia é uma imitação da realidade quanto possivel, tendendo para a verdade; o poeta moderno ou sentimental reproduz a sua propria impressão idealisando-a como realidade. Mas esta distincção, sendo aliás fundamental é incompleta, por que a objectividade pertence a todas as épocas de espontaneidade irreflectida, o que se repete nas Gestas da Edade media; e a subjectividade caracterisa as épocas em que ha um intenso trabalho mental, critico e reflectido. A revolução occidental do seculo XII ao XIX foi na sua maior parte mental, metaphysica, critica e negativista; bastava esta intensa subjectividade para caracterisar as Litteraturas creadas n’esta longa instabilidade. Comte viu mais claro o problema; distinguiu as Litteraturas antigas pela idealisação da vida publica (as Epopêas, as Tragedias, os Córos e Odes triumphaes), e as Litteraturas modernas pela idealisação da vida domestica, como se vê nos Romances e na Comedia molieresca, creados apezar de todas as correntes contrarias a uma natural evolução esthetica. N’esta longa crise revolucionaria, o completo abandono do sentimento sem intervenção social deixou manifestar-se o individualismo em revolta; é este elemento pessoal que apparece na arte moderna de uma fórma original e extraordinaria, dando logar ás expansões de um esplendido lyrismo.

b) O ULTRA-ROMANTISMO

Os Classicos e Romanticos já se não entendiam entre si, chegando os sectarios das normas do gosto greco-romano ou academico, a pedirem a intervenção do governo contra os quebrantadores das regras litterarias; os romanticos achavam n’este titulo um apódo de desprezo com que os queriam ferir, e renegavam-o com desdem. Assim, em 1824, lamentava Victor Hugo que empregassem o nome de Romantico sem definirem o termo, explorando «um certo vago indefinivel que lhe redobrava o horror.» E por fim, quando uma pleiada fecunda de talentos exprimia nas fórmas litterarias os sentimentos modernos, ainda Victor Hugo, em 1830, se felicitava de que «estes miseraveis termos de questiunculas tivessem cahido no abysmo...» Tambem Garrett no seu poema Camões repellia de si a imputação de romantico, e Herculano considerava essa lucta como a dos antigos Nominalistas; este seguia o romantismo emmanuelico idealisando a saudade pela vida monachal, e Garrett seguia o romantismo liberal, como o declara no Arco de Sant’Anna. Mas se estes dois chefes não comprehenderam a lucta dos Classicos e Romanticos, tiveram a intuição da missão da nova edade litteraria; Garrett avançou para o estudo das tradições nacionaes no Romanceiro, e Herculano fixou-se no estudo das instituições da Edade media portugueza, a que elle chamou Historia de Portugal. O que era definitivamente o Romantismo, que ninguem sabia explicar, viu-o lucidamente M.me de Staël, destacando as duas edades, a classica «que precedeu o estabelecimento da religião christã» e a que se lhe seguiu, isto é, todos os germens tradicionaes das novas nacionalidades do Occidente unificadas sob o regimen catholico-feudal da Edade media até aos tempos modernos. O regresso a estas origens communs das Litteraturas romanicas é que é o facto capital da transformação esthetica do seculo XIX. A paixão pela Edade media tornou-se uma monomania; era facil de reproduzir os seus symbolos caracteristicos e de simular os seus conflictos de classes, em dramas e romances. A representação exclusiva da Edade media, á falta de objectividade, levou ao exagero da phrase, a emphase rhetorica, produzindo um estylo chamado o Ultra-Romantismo. A subjectividade fôra tambem considerada como um caracteristico das litteraturas modernas, e n’essa parte parece ainda reconhecer-se a hegemonia allemã.

No decurso da longa edade revolucionaria, primeiramente mental e depois social, houve o interregno do sentimento, deixado á espontaneidade da sua concordia natural. No seculo XVIII irrompeu esta nova força, primeiramente na fórma de philanthropia, inspirando reformas a favor das classes soffredoras; veiu a passividade emocional diante da natureza, a sensibilidade idyllica, tornou-se moda a voluptuosidade da melancholia, até se chegar á sensiblerie das lagrimas, ao desalento da vida e ao pessimismo. A grande actividade mental do seculo, que tudo analysou, conduzia a um exagerado subjectivismo, e as commoções da explosão temporal foram determinar nas fórmas da arte moderna a expressão da sentimentalidade acordada n’essa crise. A alma humana carecia de consolos, e a musica entrou na sua phase de expressão em Haydn, Mozart, Beethoven, Weber e Cimarosa. A Poesia saíu do allegorico e deslavado arcadismo para tornar-se pessoal, e traduzir este estado morbido do sentimentalismo melancholico. N’este meio social e moral, é que appareceu na Allemanha o wertherismo, não creado por Goëthe na sua novella de Werther, mas de que esta narrativa de uma paixão vaporosa e fatal que leva ao suicidio foi um resultado. Em França, este mesmo contagio de tristeza ou o obermanismo teve o evangelho no Oberman de Sénancourt e no René de Chateaubriand. Na Inglaterra choram-se as Noites elegiacas do Dr. Young, e surgem depois os poetas Lakistas cantando os luares, os nevoeiros, os crepusculos da tarde, todas as emoções tenues da alma; Wordsworth inspirava-se de um platonismo religioso e animava cada cousa com entidade moral; Southey e Wilson completavam a pleiada dos poetas visinhos dos lagos de Westmoreland e de Cumberland, para quem a poesia era um pantheismo christão, uma somnolencia de extasis, uma bonança mystica no meio da grande derrocada do regimen theologico-feudal do fim do seculo XVIII.[201]

No renascimento esthetico do seculo actual reapparecia o elemento pessoal da Arte, que estivera abafado sob a imitação das obras classicas; consequentemente resoava um lyrismo novo, subjectivo, affinado pelo estado das almas em uma éra perturbada que começava. Na Allemanha, Novalis tirava novos accentos d’esse sentimento vago e indeterminado da melancholia; a existencia tornava-se uma nostalgia e saudade da outra vida; o tumulo, os goivos dos cemiterios, a solidão, os dobres funerarios, a cruz do ermo eram os symbolos sympathicos do lyrismo que mais aggravava esta doença das almas ingenuas e sensiveis. Os poetas tomavam a sério o pezo imaginario da sua angustia, declamavam ao vento as suas elegias plangentes, e muitas vezes expiravam minados por consumpção nostalgica irremediavel. Em França, Lamartine propagou esta sentimentalidade larmoyante dando-lhe uma uncção religiosa; e Millevoye, com menos talento abandonou-se como Novalis ao seu desgosto intimo, cahindo em um languor sem remedio. A paixão pelo genio melancholico estendeu-se por toda a parte pela impressão dos poemas de Ossian, inventados por Macpherson; as sombras dos guerreiros vagando na cerração dos promontorios, os eccos da harpa bardica perdidos nos banquetes estridentes, as lembranças dolorosas das tribus extinctas, um mixto de objectividade homerica com a subjectividade das lamentações e dos psalmos biblicos (em um syncretismo consciente) tornavam o genero agradavel e suggestivo.

Transitou-se assim para o lyrismo religioso ou emmanuelico, como uma reacção contra a incredulidade do seculo encyclopedista, contra o philosophismo que devastára os espiritos. O Lyrismo portuguez estava esterilisado pelas imitações arcádicas; o proprio Garrett ainda se chamava Jonio Duriense, e Castilho chamava-se Mémnide Egynense, na Arcadia de Roma.

A emigração politica é que nos revelou o Romantismo; emquanto Garrett e Herculano comiam o pão do exilio, acompanharam o movimento litterario que se operava em volta d’elles. Garrett comprehendeu que o renascimento da vida politica da nacionalidade carecia da base affectiva da litteratura e das tradições, e Herculano do conhecimento da sua historia. A feição do Lyrismo iniciado por estes renovadores foi a que predominava nas outras litteraturas, melancholica e emmanuelica. Garrett foi completamente elegiaco, e de um subjectivismo exagerado no poema narrativo Camões; invoca a saudade, o gosto amargo, o pungir delicioso que lhe repassa os imos seios da alma, em uma especie de obermanismo, e já no fim da vida ficou fiel a essa emoção nas Folhas cahidas, o principal modelo do nosso lyrismo. Herculano foi tambem sentimental, mas pela rigidez do seu temperamento não podendo conciliar-se com a sensiblerie lamartiniana, pendeu para a emoção religiosa, e tomou por modelo Klopstock; na Harpa do crente, destacam-se a Semana santa, a Cruz mutilada, a Arrabida, como um protesto a favor do christianismo medieval, que Chateaubriand tentára revivescer pela arte e José de Maistre esclarecer pela continuidade historica, que a Revolução quebrára.

A feição da sentimentalidade nostalgica, affinada pelos Lakistas, pela melancholia de Novalis e pelo desalento de Millevoye, teve em Portugal já tardiamente o seu representante em Soares de Passos; são-lhe sympathicos os poemas de Ossian, as balladas do norte e as Harmonias de Lamartine.

O seculo XIX, na sua instabilidade politica e ausencia de uma doutrina philosophica aggravada pela fragmentação das especialidades scientificas, continuava o seculo XVIII no insurreccionismo dos espiritos. Os que não cahiam na passividade revoltavam-se; o Lyrismo reflectiu este estado emocional, que levava á concepção pessimista do universo, como em Leopardi, ou ao imperio absoluto do mal, como o satanismo de Byron. O immortal poeta contrapõe ao mundo a sua individualidade, que representa no Child Harold, no Don Juan, no Manfredo, mas sente em volta de si um vacuo moral que lhe annulla a intelligencia capaz de abranger o infinito, e um coração puro em que podia accolher o universo. Tem o atheismo na cabeça e a aspiração religiosa no intimo da alma, mas vê-se forçado pelo meio deleterio ambiente ao sarcasmo, á ironia, á blasphemia. O seu ideal, como o de Shelley, sendo apto para trazer a concordia ás almas e revelar-lhes a synthese affectiva humana, é deturpado em uma missão negativa. Comte definiu de uma fórma nitidissima o genio e a missão de Byron: «O mais eminente poeta do nosso seculo, o grande Byron, que até hoje, tem a seu modo melhor do que ninguem presentido a verdadeira natureza geral da existencia moderna, simultaneamente mental e moral, tentou espontaneamente e sósinho esta audaciosa regeneração poetica, unico desfecho da Arte actual. Sem duvida, a sã philosophia não estava então ainda bastante avançada para permittir ao seu genio o apprecial-a sufficientemente, na nossa situação fundamental, além do aspecto puramente negativo, que elle, apezar de tudo, soube admiravelmente idealisar... Mas, o profundo merito das suas immortaes composições e o seu immenso successo immediato, apezar das vãs antipathias nacionaes, entre todas as populações cultas, tornaram já irrecusavel quer a potencia poetica privativa da nova sociabilidade, quer a tendencia universal para uma tal renovação.»[202] N’esta orientação esthetica seguia Shelley, desviado da sua obra por uma morte desastrosa. A parte negativa do genio de Byron é que foi seguida por outros lyricos, segundo os seus caracteres nacionaes; pelo allemão Henri Heine, no humour e launa, e em Alfred de Musset por um alcoolismo com que se sobreexcita, como o phantastico Foë. Falhos de uma concepção geral, os Lyricos modernos esgotaram-se reproduzindo a nota negativa de Byron. Em Portugal repercutiram-se estas cambiantes, como se vê nos Sonetos de Anthero, confessando elle mesmo que tem um pouco de Heine; no Lyrismo brazileiro prevaleceu o mussetismo, pela mesma fórma desgraçada da dissipação da vida, como se observa em Alvares de Azevedo e Castro Alves.

A poesia lyrica do Romantismo esgotou-se em uma exagerada subjectividade; o elemento pessoal da arte não encontrava caracteres nem concepções, na invasão das mediocridades. Os poetas lyricos modernos preoccuparam-se de um modo exclusivo da fórma, antepondo a expressão á concepção, ou o parnasismo. A facilidade da acquisição da technica desvairou os talentos subalternos. No estado actual dos espiritos e na crise por que está passando a consciencia moderna para fundar e universalisar a sua nova synthese, a Poesia soffre tambem os effeitos d’esta instabilidade moral. Compete aos poetas dignamente modernos empregar todo o seu poder de expressão em dar universalidade ás concepções positivas, para que se criem assim os novos costumes estaveis, elementos de idealisação para a Arte pura. Os poetas que cultivam exclusivamente a expressão, sacrificando-se ao preconceito da arte pela arte, abdicam de uma missão social, chegando por isso raras vezes a despertar a sympathia social. Quando idealisam com elevação sentimentos eternos e humanos, como o amor, ainda conseguem ser lidos; mas ha n’este sentimento um personalismo que amesquinha a emoção, e que reduz a obra de arte a uma confidencia que nos é indifferente. M.me Ackermann formulou em poucas palavras a orientação do poeta moderno: «Fazer poesia subjectiva é uma disposição doentia... É em nome da natureza, é sobretudo em nome da humanidade, que é precisa a voz. Estas fontes de inspiração são as unicas verdadeiramente profundas e inexauriveis.» Restabelecida a continuidade historica da Edade media, estava conciliado o mundo romantico com o classico, e logicamente se segue o conhecimento de uma mesma Humanidade. É esse sêr ideal e real que tem de ser idealisado em todas as manifestações artisticas, cooperando a formação segura de uma Philosophia da Historia com a idealisação simultanea de uma Poesia da Historia.

c) DISCIPLINA CRITICA E PHILOSOPHICA

Depois de estabelecidas as bases criticas dos poemas homericos, por Vico, e amplamente comprovadas por Wolf, veiu a comprehensão dos cantos nacionaes e o reconhecimento da sua importancia scientifica. Notou-se que o homem assim como formava os seus systemas de linguagem e de mythos religiosos independente dos grammaticos e dos theologos, tambem antes dos litteratos soubera manter a tradição e dar fórma aos sentimentos que realisaram a unificação das nacionalidades. Em 1794, a descoberta da collectividade homerica por Wolf, coincidia com a manifestação da consciencia de um povo na Revolução franceza. A eloquencia dos factos justificava a concepção especulativa do philosopho; nas modernas revoluções da Europa, a poesia continuou a manifestar-se como o grito da liberdade: a Marseillaise, de Rouget de l’Isle, exaltava as multidões; as estrophes de Krasinski e de Miçkievich convulsionavam os estudantes da Polonia; os hymnos de Poetefi ajudavam a causa da emancipação da Hungria; os hymnos de Riego e da Maria da Fonte atacavam o despotismo que deixava cahir a mascara da hypocrisia liberal. Conheceu-se que a alma popular tinha a sua poesia, e que era accessivel a esse encanto. Esta descoberta affirma-se pelas descobertas da critica e da philologia; estudaram-se os cantos gaëlicos e as narrativas do Mabinogion, na Inglaterra, foram achadas as Canções de Gesta da França, reproduziram-se os Niebelungen, da Allemanha, e os Romanceiros da Hespanha. A archeologia, a linguistica, a mythographia, a critica da arte, a philosophia, cooperavam para darem novas bases á sciencia da Historia, determinando o que ha de verdade nas tradições. Jacob Grimm, dominado por esta sympathia percorre a Allemanha, e no decurso de dez annos explora a rica mina das tradições dos povos germanicos. E o que elle fazia como erudito genial, os poetas tentaram como artistas reconstruindo pelo sentimento as edades passadas. Uhland, na Allemanha, foi o poeta que mais trabalhou para a comprehensão da alma popular; chamavam-lhe por isso o ultimo trovador; a sua imaginação de fada repovoava os castellos em ruinas, reconstituindo as lendas dos solares extinctos pelas vagas tradições locaes. Era um propheta do passado prégando o amor da Edade media. Nas suas balladas acha-se a mesma consagração das Côrtes de Amor, ainda os peregrinos voltam desconhecidos da Terra Santa e cantam ao sopé dos castellos o lai plangitivo do ausente; o cavalleiro errante é ainda impellido pelo sentimento do amor e da justiça; na Cathedral continúa vibrando o sino que toca á revolta, e ainda lá dentro nascem os amores immaculados dos petrarchistas. O cantico de uma edade que passou torna-se no seu plectro uma aspiração da liberdade moderna.

Na Inglaterra Lockart, guiado por Walter Scott, traduzia os romances hespanhóes, que Jacob Grimm tambem reproduzia na Silva de Romances viejos. A sympathia da tradição iniciava a unificação dos povos; pelo estudo das origens da Divina Commedia e do Decameron se viu como todas as raças da Europa contribuiram com o syncretismo das tradições medievaes para a elaboração das obras primas litterarias. O Fausto, de Goëthe, era essa tradição restricta, illuminada por um pensamento philosophico e universalisando um estado da consciencia humana enganada pelas noções absolutas da metaphysica com que fôra seduzida; a salvação do doutor vem da tolerancia da relatividade.

Só muito tarde é que chegou a Portugal a necessidade de saber se eramos um povo vivo, ou, o que valia o mesmo, se possuiamos uma poesia tradicional; Garrett regressára da primeira emigração de 1823, e tendo assistido na Inglaterra á impressão provocada pelas publicações de Ellis, Percy, Rodd e outros collectores, veiu aqui encetar essas pesquizas. Retocou os cantos populares ao gosto de Uhland e de Percy, misturando com as dezaseis rhapsodias achadas nas lareiras da provincia as suas composições litterarias da Adosinda e Miragaia. O criterio d’estes estudos, empregado pelos irmãos Grimm, é que prevaleceu, e trabalhando já n’este periodo de disciplina scientifica fomos levados do estudo dos Foraes para a investigação dos Romanceiros. Raiou-nos uma luz nova: o que parecia rudeza era o documento de um estado social extincto, ou de uma raça; o que parecia imagem sem sentido era um symbolo foraleiro do periodo hispano-germanico, conservado nos costumes pela persistencia do elemento mosarabe; o que se affigurava um erro grammatical era um archaismo de linguagem; o que parecia um fragmento obliterado era um episodio abreviado de uma Gesta carlingia ou de uma novella arthuriana. Assim comprehendemos a inerrancia das tradições populares, que proclamára Jacob Grimm.

A Edade media foi no seu conjuncto estudada scientificamente em todas as suas manifestações; as novas linguas romanicas, os rudimentos litterarios épicos, lyricos e dramaticos, as creações artisticas e a sumptuaria, as instituições civis e religiosas, as luctas de classes sociaes, o feudalismo, as jurandas, as communas e a realeza, a persistencia das instituições romanas através do dominio dos invasores germanicos, a constituição das nacionalidades, os conflictos doutrinarios das escholas philosophicas e da theologia, tudo se tornou objecto de numerosas monographias historicas, que deram logar ao conhecimento pleno d’esta moderna antiguidade. O Ultra-Romantismo dissolveu-se diante da seriedade da sciencia. Qual seria então a marcha das Litteraturas, quando melhor se conhecia o seu berço organico da Edade media? Infelizmente a marcha social da Europa estacionou no seu trabalho de reorganisação nos expedientes aventurosos da transição parlamentarista; em quanto á parte mental, a falta de opiniões definitivas e sua versatilidade não deixou crear caracteres dignos e costumes estaveis, por tanto, as Litteraturas resentiram-se d’esta situação deploravel. Gastaram-se vivos esforços em renovar as fórmas litterarias reproduzindo a realidade no Naturalismo, mas as obras primas não conseguiram cativar a sympathia popular. Faltava-lhes um ideal, e esse não póde ser senão a fórma esthetica da grande synthese philosophica para a qual a humanidade tende. Notando a insufficiencia da Arte e das Litteraturas modernas, Comte formulou nitidamente as condições necessarias para a sua renovação final: «As bellas-artes, destinadas á multidão, devem com effeito, pela sua natureza sentir a indispensavel necessidade de se apoiarem sobre um systema conveniente de opiniões familiares e communs, cuja preponderancia prévia é egualmente indispensavel para produzir e para gosar, a fim de preparar suficientemente entre o interprete activo e o espectador passivo esta harmonia moral que d’ante mão dispõe um a secundar espontaneamente os meios de expressão empregados pelo outro, e sem a qual nenhuma obra de arte conseguiria ser plenamente efficaz, mesmo sob o ponto de vista individual, e, com mais forte rasão sob o aspecto social. É a deficiencia de uma tal condição, rarissimamente preenchida na arte moderna, o que basta para explicar o pouco effeito real de tantas obras primas, concebidas sem fé e apreciadas sem convicção, e que, apezar do seu eminente merito, não podem excitar em nós senão impressões geraes inherentes ás leis geraes da natureza humana; de sorte que d’aqui resulta quasi sempre uma influencia muito abstracta e consequentemente pouco popular.»[203] O atrazo mental na reconstrucção da synthese humana, contrasta com a dispersão de energias em especialidades scientificas verdadeiramente inuteis, e com a falsa direcção das intelligencias desprovidas dos sentimentos que fecundam os nobres caracteres. É ás Litteraturas que compete o irem adiante, dando disciplina aos sentimentos, e acordando-lhes o ideal que tem andado confundido em indefinidas aspirações. Os mais difficeis problemas da reorganisação social só podem ser resolvidos affectivamente; assim se operou no christianismo na transição da Edade media. Servindo este destino, as Litteraturas desenvolvidas sobre concepções sympathicas, que tendem a tornar-se estaveis, reatarão essa mutualidade perdida, essa antiga collaboração entre o poeta que idealisa e a multidão que se impressiona.