LYRA V.
Eu não sou, minha Nize, pegureiro,
Que viva de guardar alhêo gado;
Nem sou pastor grosseiro
Dos frios gêlos, e do Sol queimado,
Que veste as pardas lãs do seu cordeiro.
Graças, ó Nize bella,
Graças á minha Estrella!
A Cresso não igualo no thesouro:
Mas deo-me a Sorte com que honrado viva.
Não cinjo corôa d'ouro;
Mas Póvos mando, e na testa altiva
Verdeja a Corôa do Sagrado Louro.
Graças, ó Nize bella,
Graças á minha Estrella!
Maldito seja aquelle, que só trata
De contar escondido a vil riqueza!
Que cego se arrebata
Em buscar nos Avós a vã nobreza,
Com que aos mais homens seus iguaes abata.
Graças, ó Nize bella,
Graças á minha Estrella!
As fortunas que em torno de mim vejo,
Por falsos bens que enganão não reputo;
Mas antes mais desejo,
Não para me voltar soberbo em bruto
Por vêr-me grande quando a mão te beijo.
Graças, ó Nize bella,
Graças á minha Estrella!
Pela Ninfa que jaz vertida em Louro,
O grande Deos Apollo não delira?
Jove mudado em Touro,
E já mudado em Velha não suspira?
Seguir aos Deoses nunca foi desdouro.
Graças, ó Nize bella,
Graças á minha Estrella.
Pertendão Hanibaes honrar a Historia,
E cinjão com a mão de sangue chêa
Os louros da victoria.
Eu revolvo os teus dons na minha idéa:
Só dons que vem do Ceo são minha gloria.
Graças, ó Nize bella,
Graças á minha Estrella!