LYRA XXVI.

Aquelle, a quem fêz cégo a Natureza,
C'o bordão apalpa, e aos que vem pergunta;
Ainda se despenha muitas vezes,
E dois remedios junta.

De ser céga a Fortuna eu não me queixo;
Sim me queixo de que má céga seja
Céga que nem pergunta, nem apalpa,
He porque errar deseja.

A quem gastar não sabe, nem se anima,
Entrega as grossas chaves de hum thesoiro;
E lança na miseria a quem conhece
Para que serve o oiro.

A quem fere, a quem rouba, a infame deixa
Que a traz do vicio em liberdade corra,
Eu honro as leis do Imperio, ella me opprime
N'esta vil masmorra.

Mas ah! minha Marilia, que esta queixa
Co' a sólida razão se não coaduna,
Como me queixo da Fortuna tanto,
Se sei não ha Fortuna?

Os Fados, os Destinos, essa Deosa
Que os Sábios fingem que huma roda move
He só a occulta mão da Providencia,
A sábia mão de Jove.

Nós he que somos cegos, que não vemos;
A que fins nos conduz por estes modos;
Por torcidas estradas, ruins varedas
Caminha ao bem de todos.

Alegre-se o perverso com as ditas;
C'o seu merecimento o virtuoso;
Parecer desgraçado, ó minha bella,
He muito mais honroso.