LYRA XXVIII.

Deten-te, vil humano,
Não espremas cicutas
Para fazer-me damno.
O çumo que ellas dão he pouco forte,
Procura outras bebidas,
Que apressem mais a morte.

Desce ao Reino profundo,
Ajunta ahi venenos,
Que nunca visse o mundo;
Traze o negro licôr, que tem nos dentes,
Nos dentes retorcidos
As raivosas serpentes.

Cachopo levantado,
Que pôz a Natureza,
Dentro no Mar salgado,
Não se abala no meio da tormenta,
Bem que huma onda, e outra onda
Sobre elle em flor rebenta.

Arvore, que na terra
Ás robustas raizes,
Buscando o centro, afferra,
Não teme ao furacão mais violento;
E menos se se deixa
Vergar do rijo vento.

Sou tronco, e rócha, ó bella,
Que açoita o Sul que brama,
E o Mar, que se encapella:
Não temas que do rosto a côr se mude:
Vence as róchas, e os troncos
A sólida Virtude.

A maior desventura
He sempre a que nos lança
No horror da sepultura:
O cobarde a morrer tambem caminha;
Com que males não póde
Huma alma como a minha?