SONETO II.

N'um fertil campo do soberbo Douro,
Dormindo sobre a relva descançava,
Quando vi que a Fortuna me mostrava
Com alegre semblante o seu Thesouro.

De huma parte h[~u] montão de prata, e ouro
Com pedras de valor o chão curvava;
Aqui hum sceptro, alli hum trono estava,
Pendião coroas mil de grama, e louro.

Acabou-se (diz-me então) a desventura: De quantos bens te exponho qual te agrada, Pois benigna os concedo, vai, procura.

Escolhi, acordei, e não vi nada:
Commigo assentei logo que a ventura
Nunca chega a passar de ser sonhada.