SONETO III.
Enganei-me, enganei-me, paciencia;
Accreditei as vozes, cri, Ormia,
Que a tua singeleza igualaria
Á tua mais que angelica apparencia.
Enganei-me, enganei-me, paciencia;
Ao menos conheci que não devia,
Pôr nas mãos de huma externa galhardia
O prazer, o socego, e a innocencia.
Enganei-me, Cruel, com teu semblante,
E nada me admiro de faltares,
Que esse teu sexo nunca foi constante.
Mas tu perdestes mais em me enganares;
Que tu não acharás hum firme amante,
E eu posso de traidoras ter milhares.