SONETO IV.
Ainda que de Laura esteja ausente,
Ha de a chama durar no peito amante;
Que existe retratado o seu semblante,
Se não nos olhos meus, na minha mente.
Mil vezes finjo vêla, e eternamente
Abraço a sombra vã; só nesse instante
Conheço que ella está de mim distante,
Que tudo he illusão que esta alma sente.
Talvez que ao bem de a vêr Amor resista;
Porque minha paixão, que aos Ceos he grata,
Por innocente assim melhor persista:
Pois quando só na idéa ma retrata,
Debuxa os dotes com que prende vista,
Esconde as obras com que offende ingrata.