ADDIÇÕES Á PAG. XXXII

Nos Livros de Linhagens, dos fins do seculo XIV, já lá se fala nas façanhas dos Doze Pares, do cyclo de Carlos Magno: «muitos rricos homeens que hiam pera lhes acorrerem disseram a el-rey dom Fernando que numca virom cavalleiros nem ouviram falar que tam sofredores fossem, e poseram-nos em par dos doze paresMon. Hist. Scriptores. Vol. I, fasciculo III, p. 283.

Dos romances populares feitos á morte de Dona Inez de Castro, cantados pelo povo em Coimbra, fala o P.e Dom Marcos de Sam Lourenço, no manuscripto dos Lusiadas commentados, cujo autographo existe na Bibliotheca das Necessidades: «As filhas de Mondego, diz Camões que, longo tempo fizeram memoria d'esta morte de Dona Inez, o que se entende nas cantigas que logo saem e se compõem quando algum caso notavel acontece, como quando mataram D. Alvaro de Luna, em Castella. Estas cantigas e romances duraram mais na bocca das moças de cantaro e lavandeiras, principalmente onde a gente é alegre e prezenteira como a de Coimbra, onde esta historia aconteceu[78].» Este commento foi escripto depois de 1633, e é natural que andassem ainda na tradição os cantos que agora vão apparecendo em cadernos de uso popular.

Entre os peccados de bocca, el-rei Dom Duarte ennumera, no Leal Conselheiro (p. 357), o cantar «cantigas sagraes.» N'esta passagem refere-se aos romances da paixão que começaram no principio do seculo XV, os quaes foram prohibidos no tempo{[212]} da Reforma, e condemnados nos Index Expurgatorios de Portugal e Hespanha no seculo XVI.

Sá de Miranda na ecloga VIII, allude a um romance antigo:

o baboso da aldeia
Que traz sempre a bocca cheia
Das Filhas de Dom Beltrane.[79]

Gil Vicente tambem allude á morte de Roland, do cyclo de Carlos Magno:

É o precioso terçado
Qoe foi no campo tomado
Depois de morto Roldão.[80]

Seropita faz allusão ao romance dos Sete Infantes de Lara, quando fala dos namorados que aos domingos galanteiam do canto das travessas, «os quaes, pela maior parte, não sahem de obreiros de official que para este passo se almofaçam de maneira que vos pareceram uns Sete infantes de Lara.» (p. 109 das Poesias e Prosas ineditas).

No tempo de Dom Constantino de Bragança, vice rei da India, o povo, ao vel-o mandar construir uma Nau, vinha cantar-lhe injustamente debaixo da janella uma parodia do romance hespanhol:

Mira Nero de Tarpeia
A Roma como ardia,

d'esta forma:

Mira Nero da janella
La nave como se hacia.[81]

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