Romance á morte do principe D. João.

Soberbo está Portugal
Em sua gloria enlevado,
Vê-se de um rei sabedor
Mimoso e bem governado.
O mundo todo anda em guerras
Injustas mui baralhado:
Elle só estava em remanso
Seguro e mui descansado,
Plantando antre os infieis,
Pendões do Crucificado,
Por capitães animados
Que os levam per seu mandado.
E como Deos de taes obras
Folga ver-se penhorado,
C'os olhos em Portugal
Está sempre occupado.
E como filho mimoso
De quem não perde o cuydado,
Porque nam se ensoberbeça{[53]}
Em se vêr tão prosperado,
Na força das suas glorias
No tempo mais festejado,
D'antre os olhos lhe tirava
O seu Principe estremado.
Vendo no pae paciencia
Pera ser mais apurado,
Dá graças ao Criador
Inda que desconsolado.
A menina que seu amor
Em flor assi viu cortado,
Vencida com soffrimento
A dor do amor encortado,
No peito se abrasa em magoa
O rosto mostra esforçado;
O coração lhe dizia
O mal de que era assombrado,
Entende, soffre e gemia,
Padece e maldiz seu fado.
A si mesmo se esforçava
E fazel-o era forçado,
Por dar esforço e consolo
A um pae desconsolado,
E pera poupar o fructo
Do seu amor desejado.
Oh animosa princeza,
Quanto vos fica obrigado
Um reino, que destruido
Por vós ficou restaurado!
Esforça-te, Portugal,
Pois já te vês melhorado
De um Rey que antre os Reys
Estremo será chamado.

Memorial, etc. cap. XLVII.{[54]}