Romance cantado a trez vozes, que se refere á morte do principe Dom Affonso, filho de El-rei Dom João II e seu unico successor.

Principes e Emperadores
Que o mundo a sabor mandaes,
E tam pouco vos lembraes
Da rota da vida eterna!
A soberba que governa
Vossos peitos deshumanos,
Derruba os grandes tyrannos
Da mais alta monarchia:
Quem da fortuna se fia
Não lhe sabe a condição!
Soberba lançou Adão
Do Parayso deleitoso,
Ficando victorioso
Do mundo o enganador.
Aquelle edificador
De Babel, que em competencia
Da eterna summa potencia
Presumiu d'ella isentar-se,
Cahiu por alevantar-se.
Apoz elle os successores
Assyrios emperadores
Que a fortuna sublimou,
Em breve os desapossou,
Sardanapalo o sentiu.
Dos Medos tambem se viu
Astiages, que cuidava
Que a seus fados atalhava
Com mandar matar o neto,
Cyro animoso e discreto
Que o despossou de seu estado,{[50]}
E foi o Imperio passado
Aos Persas, onde o perdeu
Dario que desconheceu
Vossa humana condição.
E aquelle filho de Adão
Que negou a natureza,
Cuja soberba altiveza
Teve em pouco e desprezou
O mundo que conquistou,
Sua cobiça atenuada
Foy com morte antecipada,
Seu Imperio dividido.
Cesar não menos temido
Em confirmação d'este erro
Foi morto dos seus a ferro.
E todos quantos subiram
Tyrannamente, caíram:
Caíu Thebas, caíu Troya,
Roma que levou a boya
A toda potencia humana,
Quando foi mais soberana
Por si mesma se abateu,
Que o mundo não concedeu
Haver estado seguro:
Por tanto quem quer ter muro
Inexpunhavel, e um forte
Que não entre humana sorte,
Em Deos ponha a confiança,
O fundamento, a esperança,
Com verdade e com amor:
D'onde tu, Rei Sagramor,
No que ora vires, verás
Exempro que tomarás
E te fique por aviso,
Que todo o mundo é riso,
Sem ter Deos por padroeyro,{[51]}
Guia e norte verdadeiro.
E verás um poderoso
Rey prudente e justiçoso
Liberal, manso, benigno,
Que em Deos tem posto seu tino,
Christianissimo, cremente,
Nos desgostos paciente,
Sesudo em prosperidade.
Soffreu na adversidade,
De David claro traslado,
Que sendo de Deos tocado
Per vezes, em seu louvor
Converte sempre sua dor;
A paciencia lhe sobeja,
D'onde fortuna, de inveja,
Quando mais contente o viu
E descuidado o sentiu,
De si mesma á traição
Poz-lhe o Reyno em condição
De fazer termo mortal,
E acabar-se Portugal:
O bom Rey, que assi o temia,
A seu Deos se convertia,
E com seu povo gemendo
Confiança n'elle tendo,
De um phenix que vivo ardeu
Logo outro phenix nasceu
Por Deos a Portugal dado,
Pera ser mais exalçado
Que Israel per Salamão.
Taes pronosticos nos dão
Os aspeitos celestiaes,
E seus principios reaes,
Como foram trabalhosos
Assi hão de ser famosos
Os meios e fins da vida,{[52]}
Que longa lhe é concedida;
Cá o que se dá sopesado
Dos céos sempre foi estremado,
Tam beninas as estrellas
Lhe serão, que suas velas
No mundo sejam espanto,
E elle, outro Affonso sancto
Que o Reyno renovará,
E os termos lhe augmentará
Muyto melhor do que eu canto.

Memorial das proezas, cap. 46.