Romance ao modo hespanhol, com gentil arte e disposição, sobre a Guerra de Troya.
Naquella montanha Ydéa
Que Afrodísia frequentava,
Páris, aquelle pastor
A quem Enone amava,
Com ella de companhia
As feras bravas caçava,
As aves de mil maneiras
Armando laços tomava.
Antre murteiras, nos braços
Da Nimpha a sesta passava,
D'onde ter-lhe eterno amor
Muitas vezes lhe jurava;
E de tel-a por senhora
Comsigo se vangloriava.
Aquelle que por ser justo
De hera os touros coroava,
Embaixada de Tronante
Mercurio lhe apresentava:
Pera julgar antre as Deosas
Que a discordia baralhava,
E de cada uma dellas
Promessas lhe apresentava,
Riqueza uma, outra victoria,
Venus formosura dava.{[39]}
O justo pastor se incrina
Ao que os olhos contentava,
E quer ver núas as Deosas
Que nada vêr lhe estorvava.
Oh desenho temerario,
Que tal perigo intentava,
Com rasão e com desejo,
Por Cytherêa julgava.
E a Deosa satisfeita
Da palavra penhorava:
Enlevado na esperança
Ênone já desprezava.
Lagrimas por seu amor
Em satisfação lhe dava:
O seu descanso amoroso
Por trabalhos o trocava.
Venus cumpre sua promessa,
Fortuna Ênone vingava,
Com a fermosa Greciana
A toda a Troya abrasava.
E não lhe valeu Cassandra,
Que furiosa o gritava,
Que estes são os galardões
Que amor vingativo dava.
Memorial das Proesas, etc. cap. VIII