Romance da morte de Achilles, e desgraça de Policena.
Diante os muros de Troya
Mui ufano passeava
Achilles, o mui soberbo
Que em seu peito a abrasava.
A fermosa Policena{[40]}
Antre as ameyas estava;
E tal era a fermosura
Com que d'ellas se estremava,
Que ao romper per antre as nuvens
A Aurora semelhava.
O cruel inimigo os olhos
A tal luz alevantava.
De seus raios traspassado
Dentro do peito se achava,
Com a dor que na alma sente
A falar-lhe se chegava;
Mas a troyana princeza
Que em extremo o desamava,
Recolheu-se com gemidos
Que a deoses apresentava,
Pedindo-lhes a vingança
Que ella a tomar não bastava.
O cavalleiro indomavel
Tam preso e triste ficava,
Que com suspiros ao céo
Sua dor manifestava:
Já d'antes a tinha visto
Quando ella Hector pranteava,
Des então do seu amor
Sua alma presa enxergava;
De como pudesse havel-a
Muitas contas só lançava.
Como agora, amor repouso
Nem soffrimento lhe dava,
Soccorreu-se á esperança
Que a vida lhe sustentava;
A Hecuba sua madre
Tal mensagem ali mandava:
Que se quer ver Troya livre
Policena assegurava
Que elle a fará descercar{[41]}
Se por senhora lhe dava.
Hecuba, que mais que a vida
Vingar Hector desejava,
Com Páris logo da morte
De Achilles cruel tratava.
Respondeu-lhe que se vissem
No templo em que Apollo estava.
Recebera Policena,
Se a fé ante elle lhe dava;
E de imigo será filho,
Se lhe Troya descercava.
O triste amador que a via,
Nem cem vidas estimava,
A respeito do desejo
Que Policena causava.
Sem temer e sem receio,
Sem cuidar que aventurava,
Entregando-se á ventura
E Amor que o guiava,
Sem cautella e em seu conselho
No templo de Apollo entrava.
De giolhos posto ante elle
Muitas graças a amor dava.
Páris, que com arco armado
Escondido o esperava,
Fazendo votos a Apollo
Se lhe a seta endereçava,
Em o vendo de giolhos
Muy prestes n'elle encarava;
Pola pranta do seu pé
A vida lhe atravessava,
Cae o triste namorado
De quem tanto o desamava;
N'esta vingança de Hector
Toda a Troya se alegrava
Obra cit. p. 128.{[42]}