Romance da morte de Policena para Vingar os manes de Achilles.
No templo de Apollo, Achilles
Desprovido, namorado
Jaz morto n'alma do pé
De uma seta trespassado.
E não lhe valeu no mar
Por Thetis ser encantado,
Aquelle que dos Troyanos
Era temor e cuidado.
Dos Gregos o defensor
Pouca cinza já tornado,
A pequena Urna não enche
Aquelle grande esforçado.
Contem de sobre suas armas
Todo capitão notado,
A Thelamão e a Ulysses
Todos o logar tem dado.
Não nas leva o cavalleiro
E levou-as o avisado,
A Troya é toda abrasada,
O Illião derrubado.
Querem-se partir os Gregos
Não fica Achilles vingado.
Da terra sae a sua sombra,
E com o seu vulto ayrado,
Como quando a Agamenão
Tentou matar denodado:«Quereis vos partir, (dizia)
Grego exercito malvado?
E fique eu na sepultura
Sem vingança deshonrado.»{[43]}
Pede Policena a alma
De Achiles d'ella engeitado.
Agora Pirho o soberbo
Filho, do pae o traslado,
Dos braços da triste mãy
Que por todos tem chorado,
Traz Policena ao sepulchro
Virgem de animo estremado;
E vendo Pirho, o cruel,
Contr'ella determinado,
Com rosto seguro, honesto,
Fermoso, mas descorado,
Diz: «Derrama o generoso
Sangue real apurado:
Farte-se a grega crueza
Cumpra-se meu triste fado;
Seja meu pescoço ou peito
D'essa espada trespassado.
Livre naceu Policena,
Servir outrem não lhe é dado.
Não será com minha morte
Algum idolo applacado,
O coração só quizera
Da minha mãe esforçado.
O gosto da morte minha
Esta dor m'o tem tirado:
Deve chorar só sua vida
E invejar meu estado.
A filha do rei Priamo
Sobre os reis afortunado,
Vos roga que á triste mãe
Seja seu corpo entregado;
Não seja como o de Hector
Por outro inda resgatado,
Contentae-vos que com lagrimas
A coitada o tem comprado.»{[44]}
Isto disse, e de um só golpe
Do cruel Pirho indomado,
O pescoço cristalino
Do corpo lhe foi apartado;
De recolher, em caindo,
As fraldas, teve cuidado
Por conservar o decoro
Nas Virgens sempre estimado.
Memorial, cap. XXXV.