Romance da Historia de Roma.
De ti casto Scipião
Sofonisba ouvi queixar,
Que foste imigo de amor
Por querer d'ella triumphar.
Na forte cidade Cirta
Masenisa fôra entrar,
E por teu mandado Sifax
Seu marido foi matar.
Com furia e odio imigo
Nos seus paços fôra dar,
Mas na mór força da furia
Amor o pôde amansar:
Dos encontros dos seus olhos
O seu coração domar.
De escrava feita senhora
De quem vinha cativar,
De eterno amor dada fé,
As almas foram trocar:
Lagrimas e fermosura
Tudo puderam acabar.
Sabido per Cipião
Que amor não pôde abrasar,{[45]}
Com coração deshumano,
Com razoes não de acceitar,
A Masenisa escrevia
Que lh'a mandasse entregar,
Porque era imiga de Roma
Da geração de Amilcar.
Em grande affronta se vê
Masenisa e gram pesar,
O coração não lhe leva
Á Sofonisba faltar.
Cuidou um mui duro meio
Pera haver de a libertar!
Uma cópa de peçonha
Lhe mandou appresentar,
Em logar da liberdade
Que lhe não podia dar.
Sofonisba muy contente
A bebeu sem receiar,
Sentindo somente a dor,
Que se não pode escusar,
Por amor da Masenisa
Que vive pera a passar.
Dizendo: «Por vós, amor,
Me quero sacrificar,
Não será d'outro cativa
Quem toda se vos quiz dar.»
Mal haja fortuna imiga
Que tal amor foi cortar.
Memorial, etc. cap. XIII.{[46]}