A SOMBRA

Quando Christo sentiu que a sua hora

Em fim era chegada, grave e calmo,

Sereno se acercou dos que o buscavam.

A turba vinha em armas! Mas, de tantos,

Nem um só se atreveu a dar um passo,

A pôr a mão no Filho do Homem.—Todos

De olhos no chão, as armas encobriam

Ante Jesus inerme.

Então aquelle

Que o tinha de entregar, aproximando-se,

O tomou nos seus braços, murmurando:

«Que Deus te salve, Mestre!» E, sobre a face

O beijou, como fôra contractado.

Então os mais, chegando-se, o prenderam.

Mas Jesus, sem os vêr, lhes perdoava;

De olhos no céo, seguía-os sereno.

Era duro o caminho. Sobre um monte

Iam, e dos dois lados, lá em baixo,

Cobria a treva a terra toda.

Quando,

Porém, sobre o mais alto d'esse monte

Foram emfim chegados, de repente

Viu-se-lhe uma das faces alumiar-se

De uma luz doce e branda, mas immensa!

E quanta terra, desde o monte ao oceano,

Lhe ficava do lado aonde virada

Lhe estava aquella face, reflectindo-a,

Tudo se esclarecia—valle e serra

E a metade do céo—apparecendo

Como em puro luar, ou qual se fosse

Vir nascendo uma aurora d'esse lado.

E essa face radiante era a que Judas

Não chegára a tocar.

Porém a outra,

Que elle beijara, conservou-se escura,

Como se o crime d'elle ali guardasse...

Onde a virava, era uma noite immensa,

Coberto o horisonte de nevoeiro...

Partido o mundo em dois, essa metade

Era a que se ficara envolta em sombras.

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Foi d'essas sombras que se fez a Egreja!

1865
Anthero de Quental, Odes modernas, p. 129. 2.ª ed. Porto, 1875.


Como o vento ás sementes do pinheiro

Pelos campos atira e vae levando...

E, a um e um, até ao derradeiro,

Vae na costa do monte semeando;

Tal o vento dos tempos leva á Idéa,

A pouco e pouco, sem se vêr fugir...

E nos campos da vida assim semêa

As immensas florestas do porvir!

Anthero do Quental, Odes modernas, p. 135


Ha dous templos no espaço—um d'elles mais pequeno;

O outro, que é maior, está por cima d'este;

Tem por cúpula o céo, e tem por candelabros

A lua ao occidente, e o sol suspenso ao éste.

De sorte que quem stá no templo mais exiguo

Não póde vêr nascer o sol, nem póde vêr

As estrellas no céo,—que os tectos e as columnas

Não o deixam olhar, nem a cabeça erguer.

É preciso abalar-lhe os tectos e as columnas,

Porque se possa erguer a fronte até aos céos...

É preciso partir a Egreja em mil pedaços

Porque se possa vêr em cheio a luz de Deus.

1864
Anthero do Quental, Odes modernas, p. 155.