VERSOS ESCRIPTOS NA MARGEM D'UM MISSAL
Bem póde ser que nossos pés dorídos
Vão errados na senda tortuosa,
Que o pensamento segue nos desertos,
Na viagem da Idéa trabalhosa...
Que a arvore da sciencia, sacudida
Com força, jámais deite sobre o chão,
Aos pés dos tristes que ali 'stão anciosos,
Mais do que o fructo negro da illusão...
Que o livro do Destino esteja escripto
Sobre folhas de lava, em letra ardente,
E não chegue a fital-o o olho humano
Sem que se offusque e cegue de repente...
Póde ser, que na lucta tenebrosa
Que este seculo move sob o céo,
venha a faltar-lhe o ár, por fim, faltando-lhe
A terra sob os pés, bem como Anteo...
Que do sangue espalhado nos combates,
E do pranto que cae da triste lyra,
No árido chão da esperança humano
Mais não nasça que a urze da mentira...
Que o mysterio da vida a nossos olhos
Se torne dia a dia mais escuro,
E no muro de bronze do Destino
Se quebre a fronte—sem que ceda o muro...
E que o pensamento seja só orgulho,
E a sciencia um sarcasmo da verdade,
E nosso coração, louco vidente,
E nossas esperanças só vaidade.
E nossa lucta, vã! talvez que o seja!
Cego andará o homem cada vez
Que vê no céo um astro! e os passos d'elle
Errados pelo mundo irão, talvez!
Mas, oh vós que prégaes descanço inerte,
No seio maternal da ignorancia,
E condemnaes a lucta, e daes ao homem
Por seu consolo o dormitar da infancia;
Apostolos da crença,... na inercia...
Vós que tendes da Fé o ministerio
E sois reveladores, dando ao mundo
Em logar de um mysterio... outro mysterio;
Se quanto o Universo tem no seio,
E quanto o homem tem no coração,
O olhar que vê, e a alma que adivinha,
O pensar grave e a ardente intuição,
Se nada—em terra e céo—pôde ensinar-nos,
Do fado humano o immortal segredo,
Nem os livros profundos da sciencia,
Nem as profundas sombras do arvoredo,
Se não ha mão audaz que possa erguel-o
O tenebroso véo do Bem e Mal...
Se ninguem nos explica este mysterio...
Tambem o não dirá nenhum Missal.
1865 Anthero do Quental, Odes modernas, p. 143.