ONDA VIVA
—Chame-te Sudra quem servil te nota,
Deixem-te as castas com horror sagrado,
Calquem-te, Pária, Fellah, bronco Ilóta,
Façam-te Escravo em Roma, ai, é baldado;
És sempre o mesmo homem ultrajado!
A natureza deu-te a força, e vida
Que não succumbe á violação proterva!
Como a prancha que arrasta onda batida,
Como revive a amaldiçoada erva,
Assim poder extranho te conserva.
Erva, cujas raizes derrocaram
De ergástulos e templos velhos muros,
Que nas ruinas seu vigor mostraram,
Cobrindo de verdura os seixos duros,
Só com ter de ár e luz uns haustos puros.
Os que te viram sob o aspecto novo,
A ti, o ignobil da vetusta edade,
Como lisonja te chamaram Povo;
E envolvidos na pávida anciedade
Deixaram-te provar da egualdade.
Como foi que subiste a tanta altura?
Não és aquelle mesmo intonso e hirsuto,
Sem vontade ou direito; por ventura
Bebendo o choro mudo, nunca enxuto?
Vivendo equiparado sempre ao bruto?
Não és aquelle a quem o sol aquenta
Pela graça dos reis, pois que um relance
Das Bastilhas te arroja á morte lenta?
Da crassa escravidão deixaste o alcance?
Da gleba adscripta sacudiste o transe?
Como ousaste pensar por ti um dia,
Rodeado de bonzos como andáras?
Chamaste a Providencia; a Theologia,
A escarnecer-te com devotas caras,
Respondia queimando-te nas áras.
E foi possivel germinar a ideia,
Sob esse craneo duro, tantas vezes
Decepado nas praças, porque cheia
Um dia trasbordára a taça as fézes,
E ousaste resistir a mil revézes?
Explorado do berço á sepultura,
Tu, conservado estupido por plano,
Como foi que subiste a tanta altura?
Lançando da cerviz o jugo insano,
Reclamando isso que é do sêr humano?
«Perguntas bem! Direi toda a verdade:
De luz, terra e trabalho, de ár e ideia,
Da santa aspiração da liberdade,
De tudo quanto o peito vivo anceia,
Um dogma nos privou por culpa alheia.
O velho egoismo nos privou de tudo!
Fomos baixando até cahir exangue;
Rasgava-nos o peito o ferro agudo,
E quando estava já para a dor mudo
Só não poderam esgotar-lhe o sangue.
E o sangue correu sempre,—e quente arrasta
Provocando a embriaguez da liberdade,
Lavando o stigma que separa a casta,
Minando a secular fatalidade
Que fez do atroz arbitrio Auctoridade!
Quando o rei paternal, d'entre o arminho
Triumphante exclamava:—Quero e posso!
Lançava ao ár o cópo cheio de vinho;
Tambem ao derrubar o alto colosso,
Nos derramámos sempre o sangue nosso.
O sangue, o sangue nosso! o vinho forte
Da garantia cívica romana!
Na sua enchente rompe o dique á sorte.
Como Christo augmentou o vinho em Cana,
O sangue fez a egualdade humana.
Theophilo Braga.