AO COMBATE!...

Retumba pelo espaço desolado

Como que um brado immenso, prolongado,

Como os eccos sinistros de batalha;

Anda no ár um fluido mysterioso,

E ouve-se, ao longe, o passo vagaroso

Da «livida canalha».

É ella, é ella, a triste, a desherdada,

Cheia de lodo vil, esfarrapada,

Arrastando, nas trevas, as algemas:

Caminha em busca de um ideal mais puro,

E vae fundir, nas chammas do futuro,

Os sceptros e os diademas.

.................................

E eil-a que assoma, no horisonte escuro,

Essa phalange heroica do futuro,

Como as vagas do mar phosphorecente:

Vem perseguir as sanguinosas féras,

Os monarchas e as lúbricas pantheras,

A prostituta gente.

Vêm caminhando sempre; nada impede

A carreira ao colosso que nem cede

Ás legiões dos cezares sombrios.

Trazem nas mãos as paginas da Historia,

E a Justiça e o Direito e, na memoria,

A fome, a sêde e os frios.

São elles os escravos e opprimidos,

Esses que dormem tristes, escondidos,

Nas ruinas das velhas cathedraes:

Andam minando a antiga sociedade

E hão de, em breve, sentar a Liberdade

Nos thronos imperiaes,

Andam cavando a sepultura immensa

Que ha de involver, na escuridão intensa,

As venenosas viboras reaes;

Revigora-os a força do heroismo,

E hão de calcar, aos pés, o despotismo

E os tigres e os chacaes.

Hão de esmagar-vos, sim! ó reis sagrados,

Vós, os deuses dos seculos passados,

Tereis mais de um Calvario, em breve... agora;

Mas não vereis um pranto piedoso,

Heis de morrer, ao grito tumultuoso,

Dos miseros d'outr'ora;

Miseros que hão de ser mais que gigantes,

Que hão de arrancar, com suas mãos possantes,

O fundamento ás velhas monarchias;

Que hão de lançar ás trevas do passado

O velho despotismo, ensanguentado,

E gasto nas orgias;

Miseros, sim! mas d'esses cuja gloria

Se ha de inscrever nas paginas da Historia

Dos sublimes combates da Justiça;

Miseros!... e vós, ó reis repletos,

Sereis como que uns symbolos completos

D'uma feroz cubiça:

Tendes nas mãos o ferro dos destroços,

E levantaes os thronos sobre os ossos

De milhares de povos immolados;

Bebeis com sangue o vinho, em aurea taça,

E adormeceis, ao grito da desgraça,

Sinistros e embriagados.

...........................................

...........................................

...........................................

...........................................

...........................................

Lançaes, por toda a parte, o luto e a morte...

Mas vae haver uma vingança forte...

Tremei agora, ó grandes criminosos;

—Approxima-se a hora da batalha...

Eil-a, já perto, a livida canalha,

Os vís, os asquerosos.

São elles os plebeus, os desgraçados,

Cheios de fome, tristes, descarnados,

Como espectros das lendas tenebrosas;

Deixam as trevas de um passado escuro,

E vão depôr nas aras do futuro

As—palmas victoriosas.

Vêm terminar a noute dos horrores,

E hão de sair altivos, vencedores,

Da luta contra a velha realeza;

Ha de unil-os o braço da Egualdade,

E inundal-os a luz da Liberdade,

Ao som da Marselheza.

.....................................

Mas percorra-se, breve, a longa senda,

Conquistemos os louros da contenda,

Abram-se agora as jaulas imperiaes;

Á luta! irmãos! á luta!... «Democratas,

Poisae o pé sobre as cabeças chatas

Das viboras reaes!...»

A. Bettencourt Rodrigues.