UM HEROE

É dia de batalha! Em fumo suffocados

Desde o romper do sol, duzentos mil soldados

Luctam a ferro e fogo.

Um d'elles,—um dragão

Curvado no selim, e em frente do esquadrão,

Como racha uma cunha os tóros de um pinheiro,

Embebe-se feroz n'outro esquadrão fronteiro,

Fazendo-o rebentar em rotos vagalhões.

Qual se na mão vibrára um raio, as multidões

Vergam, fundem-se á luz do aço de sua espada.

Apoz o lampejar de cada cutilada

Chovem jorros de sangue em meio d'essa mó

Que aos pés do seu cavallo, e em turbilhões de pó,

Desenlaça os cordões do seu dobar confuso.

Incendeia-lhe a raiva o torvo olhar diffuso

Por tudo o que inda vive! e do seu labio á flor

Fuzila a imprecação, se o fatigado açor

Da morte, um só momento, encolhe a garra curva.

Depois a noite desce, enregelada e turva,

Co'as brumas d'esse mar de sangue. Desde então

Findára a lucta horrenda; e o esplendido dragão,

O grande heroe do dia, após tão bom regalo,

Limpa tranquillo a espada ás clinas do cavallo.

De repente uma voz interrogal-o vem,

Qual se de dentro d'elle a voz partira:

«Quem

Venceu n'esta batalha em que mataste tanto?

Que salvadora ideia, ou que principio santo

No sangue baptisaste? e, cego de furor,

Porque te foi prazer a ancia da alhêa dôr?

Das lascas do metal dos elmos, que partiste,

O que forja a victoria? aguda lança em riste

De encontro aos peitos nús de alguns de teus irmãos?

Ou martello que parta os ferros em que as mãos

Lhes roxeiam no cêpo, ambas acorrentadas?

Que lumes surgirão do choque das espadas,

Em que se aqueça mais a cinza do teu lar,

Quando—volvido á choça onde te foi buscar

A guerra—em torno a ti pedirem as crianças

Calor, abrigo, e pão? Que férvidas vinganças

Reclamarás de quem, pela primeira vez,

Tu viste hoje e que ainda, ha bem pouco, talvez

A mil leguas de ti, em vez de humanas vidas

Ceifava, como tu, as messes resequidas

Á luz do sol do céo e do outro sol da paz?

De que lado partiu o desafio audaz?

Da força do direito, ou do empuxão da força?

O que faz com que o ferro esmague, quebre e torça

Armas e corações em funebre tropel?

Que sabes tu, que sabe o teu feroz corcel

De mappas ou de leis, de imperios ou de raças,

Para que, contemplando os rombos das couraças

D'onde sae pingo a pingo a vida a gottejar,

Tranquillo o coração e indifferente o olhar,

Escutes o estertor e as ancias da agonia

De uns pobres como tu?»

O grande heroe do dia

Os hombros encolheu em frente á mortal grei,

Sorriu bestialmente, e respondeu:

«Não sei!»

Claudio José Nunes. Scenas contemporaneas, p. 73. Lisboa, 1873.