AO SOL

Que te importam a ti, astro fecundo,

Essas mil gerações de fragil barro,

Que vês, qual denso pó, brotar no mundo

Sob as ardentes rodas do teu carro?

Quando, nuncio da vida, a mão do eterno

Te fez brilhar no espaço a vez primeira,

Medonhas sombras, e continuo inverno

Cobriam a teus pés a terra inteira.

Mas apenas a luz doirando os ares,

Veiu annunciar-lhe, oh sol, o teu destino,

O gelo róla convertido em mares,

E a terra sólta da existencia o hymno,

Que mais querias tu? No immenso grito

Que exhalava, acordando, a natureza,

Nas ondas, nas florestas, no infinito

Vias gravado, oh sol, tua grandeza.

E disseste comtigo:—A vida e as flores

São o rastro que deixo em meu caminho,

Quando, cingido d'immortaes fulgores,

Em mortas solidões rólo sósinho.

Disseste; e proseguindo o immenso trilho,

N'outras regiões entraste socegado,

E em cada globo a que chegou teu brilho,

D'um novo genesís ouviste o brado.

Que te importava o mundo? Á luz immensa

De teus lucidos mantos desprendida,

Já o verme infeliz que vive e pensa

Para te festejar saudára a vida;

E se acaso de novo, oh sol fecundo,

Encontrasses a terra erma e gelada,

D'entre as ruinas fataes do antigo mundo

Fizeras mil nações surgir do nada.

Que tinha, pois, comtigo a obscura raça

Que só diz grande, e bella e omnipotente,

Mas que, envolta no pó, sussurra e passa,

Sem jámais encarar teu brilho ardente?

Deus o mandou, oh sol. Ás tuas plantas

Nunca da terra o passageiro grito

Irá turbar as harmonias sanctas

Das espheras que vagam no infinito.

Não! Embora as nações caiam por terra

Com seus templos, suas leis, seus monumentos;

Tu passarás tranquillo, á luz da guerra,

Por cima dos cadaveres sangrentos.

Rica de magestade, á flôr dos mares,

Bella n'outr'ora a Atlantida reinava,

Casando o torvo som d'impios folgares

Do rude oceano á voz ruidosa e cava.

Debalde em torno d'ella a tempestade

Soltava, ás noites, infernal lamento...

Deus mandava-lhe ignota mocidade

No rugir dos trovões, na voz do vento,

E ella rindo vaidosa, á luz errante

Que o céo, a terra, e as ondas accendia,

Clamava ao mar revolto:—«Eia, oh gigante,

Repete a voz de Deus, responde á orgia.

Que tens? Porque deitado ao pé das fragas,

Gemes a custo em vil torpor submerso?

Brinca tambem, oh mar, enrola as vagas,

E vem se pódes embalar meu berço.»

Mas um dia fatal, em torno d'ella,

A sombra d'Elohim pairou nos ares,

E ao som ruidoso de infernal procella,

Passou rente c'o a terra erguendo os mares.

E ella, qual flôr secca e mirrada,

Que a lava arroja em turbilhões de fumo,

Sentiu metter-lhe os hombros a rajada,

E arrastal-a no chão sem lei, sem rumo.

E hoje, que é d'ella, oh Sol? N'essas paragens

Ainda em pé, na gavêa, o marinheiro

Ergue altivo seus canticos selvagens

Procurando um albergue hospitaleiro:

Mas em torno de si, no mar deserto,

Só vê mil rolos de fervente espuma,

E a gaivota que fende em giro incerto

Do horisonte longinquo a densa bruma.

E tu, oh sol, tu passas como d'antes,

Sereno, magestoso e solitario,

Doirando as vastas solidões fluctuantes,

Que são da pobre Atlantida o sudario.

Deus creou-te immortal. Seu braço immenso

Gravou no teu clarão: Gloria e mysterio.

E entre nuvens de canticos e incenso

Deu-te de ignotas solidões o imperio.

Eia, caminha pois—esparge ufano

N'esses ermos sem fim teus mil fulgores,

E deixa o homem levantar insano

D'um orgulho infundado os vãos clamores.

Eu já li nas canções de antiga raça

Que um dia cahirás do excelso throno,

Como as penhas, que o raio despedaça,

Ou como as folhas que desprende o outono.

E ri-me. O vérme insano, o rei obscuro

Por suas mãos em farça vil coroado,

Imaginar-se um deus, lêr no futuro,

E erguer aos astros pavoroso brado!

Elle, que ao teu clarão surgindo ufano

Do seio inerte da brutal materia

Nem vê nos céos, nos montes, no oceano

De seu fadario horrivel a miseria!

Elle julgar-se um deus!... Mas n'outra edade

Também eu te bradei louco d'amores:

—A ti, a ti, oh sol, a immensidade,

Mas a nós... as paixões, a crença e as flores.—

Doido! Que importa caminhar na terra

Ebrio de amor, d'aspiração e gloria,

Se tudo, tudo que este mundo encerra

Tem de esquecer por fim nossa memoria?

Que vale, oh sol, n'um extasis profundo

Crear mil sonhos de immortal belleza,

Se nem um élo, um só, nos prende ao mundo?

Se nada tem comnosco a natureza?

Segue, segue o teu curso, astro bemdito,

Que entre milhões de sóes vaidoso passas

Derramando nos seios do infinito

O ardente germen de futuras raças.

Tu, sim, és immortal.—Na tua frente

Reluz etherea, inextinguivel chamma,

Que sempre, sempre, á voz do omnipotente,

De novas éras o raiar proclama.

Tu sim, és immortal. Embora o dia

Perdido, ao longe, na veloz carreira

Deixes de novo a terra arida e fria

Buscando n'outros céos a errada esteira;

Embora; ao teu clarão todo o universo

Clamará ao Senhor: «Senhor, piedade!»

E elle fendendo os céos em luz submerso,

Te mostrará de novo a immensidade.

1854

Alexandre Braga, Grinalda, t. II, p. 134.