HYMNO Á LUA

Levanta-te! surge, rainha modesta,

Que vens pudibunda da noite na festa

Teu sceptro tomar;

De traz das montanhas, o que é que tu sondas?

O sol? não o temas, que ha muito nas ondas

Se foi occultar.

E a noite é tão triste sem ti, meiga lua!...

Sem ti o regato perdido fluctúa,

Não sabe onde vae;

Pratêa-lhe as aguas co'a luz argentina,

E as margens lhe alegra, que a densa neblina

Ao ver-te, se esvae.

A noite é bem triste sem ti, astro lindo;

Mas quando apparecer, das nuvens abrindo

Os pallidos véos,

Tão linda e tão seria, teu gesto profundo

Parece o de virgem que vaga no mundo,

Mas scisma nos céos.

Sem ti as montanhas que ondeam distantes

No pardo horisonte, não tem habitantes,

Ninguem móra lá;

Mas quando as envolve de candidos mantos,

Visões namoradas de aérios encantos

Teu brilho lhes dá.

Eu amo-te sempre! quer brilhes entre ondas,

De nuvens gigantes, que timida escondas

O casto fulgor;

Bem como o futuro que sonha o poeta,

Nos sonhos incertos, de mente inquieta

Já gôso, já dor.

Ás vezes amiga das velhas ruinas,

O antigo mosteiro calada illuminas

Beijando-lhe a cruz;

E a cruz mutilada, já meio pendida,

Ao ver-te, remoça; que tu lhe dás vida

Co'a magica luz.

Ás vezes espreita por entre cyprestes

A estancia dos mortos, e os tumulos véstes

Com mantos de dó;

Alli surprehendes a virgem que, leda

Se crê isolada... e um nome segreda,

Que tu ouves só.

E o homem não ama teus palidos mantos;

Á vida aspirando, dedica seus cantos

Do sol ao fulgor;

Mas quando são findos os sonhos da vida,

Quem vem afagal-o na extrema guarida?

Teu mystico amor.

Eu não, eu não gosto da luz orgulhosa

D'esse astro que alegra co'a chamma pomposa

Da vida o festim...

O sol! não é elle que pinta os martyrios,

Nem roxos amores, nem candidos lyrios;

Mas tu, lua, sim.

Que digam os sabios, que o sol sempre ardente,

Se para nós surge n'um outro occidente

Sumir-se lá vae...

Mas eu, n'este mundo tambem passageiro,

Quero antes a lua modesto lazeiro,

Que vive e se esvae.

J. S. da Silva Ferraz, O Novo Trovador, p. 163. Coimbra, 1856.