CASCAES
Acabava alli a terra
Nos derradeiros rochedos,
A deserta árida serra
Por entre os negros penedos
Só deixa viver mesquinho
Triste pinheiro maninho.
E os ventos despregados
Sopravam rijos na rama,
E os céos turvos, annuviados,
O mar que incessante brama...
Tudo alli era braveza
De selvagem natureza.
Ahi, na quebra do monte,
Entre uns juncos mal-medrados,
Sêcco o rio, sêcca a fonte,
Hervas e matos queimados,
Ahi n'essa bruta serra,
Ahi foi um céo na terra.
Alli sós no mundo, sós,
Sancto Deus! como vivemos!
Como eramos tudo nós
E de nada mais soubemos!
Como nos folgava a vida
De tudo o mais esquecida!
Que longos beijos sem fim,
Que fallar dos olhos mudo!
Como ella vivia em mim,
Como eu tinha n'ella tudo,
Minh'alma em sua razão,
Meu sangue em seu coração!
Os anjos aquelles dias
Contaram na eternidade:
Que essas horas fugidias,
Seculos na intensidade,
Por millennios marca Deus
Quando as dá aos que são seus.
Ai! sim, foi a tragos largos,
Longos, fundos que a bebí
Do prazer a taça:—amargos
Depois... depois os senti
Os travos que ella deixou...
Mas como eu ninguem gosou.
Ninguem: que é preciso amar
Como eu amei—ser amado
Como eu fui; dar e tomar
Do outro sêr a quem se ha dado,
Toda a razão, toda a vida
Que em nós se annulla perdida.
Ai, ai! que pesados annos
Tardios depois vieram!
Oh! que fataes desenganos,
Ramo a ramo, a desfizeram
A minha choça na serra,
Lá onde se acaba a terra!
Se o visse... não quero vel-o
Aquelle sitio encantado;
Certo estou não conhecel-o,
Tão outro estará mudado,
Mudado como eu, como ella,
Que a vejo sem conhecel-a!
Inda alli acaba a terra,
Mas já o céo não começa;
Que aquella visão da serra
Sumiu-se na treva espessa,
E deixou núa a bruteza
D'essa agreste natureza.
Almeida Garrett, Folhas Cahidas, p. 177.