DESTINO
Quem disse á estrella o caminho
Que ella hade seguir no céo?
A fabricar o seu ninho
Como é que a ave aprendeu?
Quem diz á planta: florece!
E ao mudo verme que tece
Sua mortalha de seda
Os fios quem lh'os enreda?
Ensinou alguem á abelha
Que no prado anda a zumbir
Se á flôr branca ou á vermelha
O seu mel hade ir pedir?
Que eras tu meu sêr, querida,
Teus olhos a minha vida,
Teu amor todo o meu bem...
Ai! não m'o disse ninguem.
Como a abelha corre ao prado,
Como no céo gira a estrella,
Como a todo o ente o seu fado
Por instincto se revela,
Eu no teu seio divino
Vim cumprir o meu destino...
Vim, que em ti só sei viver,
Só por ti posso morrer.
Almeida Garrett, Folhas
Cahidas, p. 151.