DILEMMA

Eu, quando aos labios teus o pejo assoma

Como no céo a nuvem matutina,

Ou, quando esse rubor que te illumina

Occultas entre as ondas da aurea cóma,

Parece que estou vendo, n'esse pejo,

A timidez da pomba que tem medo

Do mais leve sussufro do arvoredo,

Cuidando que o rumor lhe pede um beijo

A ti também, meu Deus! tudo te assusta!

Que medo podes ter quando eu te fallo?

Porque córas assim quando me calo?...

Parece que até mesmo a olhar te custa!

Se te fallo de amor não me respondes,

Se te tento beijar, sorris córando;

E concedes o beijo, mas, curvando

A fronte ao seio aonde tu a escondes.

Esconde; olha, eu por mim não me arrenego;

O que te digo é que esse teu receio

Faz ás vezes com que eu te beije o seio

Como errando o caminho... se estou cego!...

Desterra para longe esse embaraço!

Vamos, olha para mim, mas sem tal pejo!...

Vamos, se não córares dou-te um beijo,

Se córares... então dou-te um abraço.

Alexandre da Conceição, Grinalda, vol. V, p. 29.