SIC TRANSIT...

Um dia frei Manuel das Bentas Chagas

Limpava ás sujas mangas da batina

Do seu teimoso pranto as grossas bagas,

Sentado á sombra de uma velha ruina.

Ruíra, ha muitos annos o convento,

Onde lédo passara a mocidade,

E vinha agora alí, por seu tormento

Curtir as agras dores da saudade.

«Frei Manuel, (lhe pergunto) que pezares

Turvam teu rosto que em tal pranto lavas?

Tens culpa que ruissem os altares

Do templo, onde ao Deus vivo celebravas?

Não tens culpa, bem sei, choras os damnos

Da santa religião, pois viste um dia

O que fôra trabalho de mil annos

Cair ás mãos da ignara hypocrisia?»

Frei Manuel me responde:—Esse tão bello

Tempo da vida asceta não lamento;

Choro, sim, mas por vêr o carmatello

Não respeitar a adega do convento.

J. Simões Dias.