EU, ANTÃO VERISSIMO E A MOSCA

(Parabola)

Eu tive um condiscipulo amantissimo

Que era um santo rapaz, e nada cábula,

Trasmontâno: por nome Antão Verissimo,

E, como eu, estudava para rábula.

Tinha por vil a herdada vida agricola,

E rindo-se, assignava na matricula.

Sapato engraixadinho, e meia fina

Substituiu á tamanca costumada;

Á véstea de burel—capa e batina,

Gôrro ao grosso chapéo, Paschoaes á enxada;

A senhoria ao tu, á brôa o trigo...

E um viver novo ao seu viver antigo.

Se o habito por si fizesse o monge,

Sem precisar disposições internas,

Se para um côxo em pouco tempo ir longe

Lhe bastasse o cuidar que tinha pernas;

Sem duvida seria Antão Verissimo

Estudante, e estudante chapadissimo.

Como lavrando desbancava a mil,

Suppoz, que estudar leis e segar erva

Seria o mesmo, não sabendo o: nil

Invita dices, faciesve Minerva;

E um Canon de Genuense (que diz muito!):

Não tentes o que excede o teu bestunto.

Os termos de Paschoal e Cavallario

Gastava a procurar o dia inteiro

No martyr, descosido diccionario;

E á noite decorava ao candieiro.

Ir á aula, almoçar, jantar, cear,

Só tinha vago; o mais era estudar.

Dizem, que—quem porfia mata caça;

Julgo proverbio de cabeça tôsca.

Vamos á historia: Um dia na vidraça

Viu o nosso doctor azoada môsca

Esvoaçar, zunir, andar marrando,

Passagem pelo vidro procurando.

Pôz de parte um momento a Lei Mental,

E co'os olhos no insecto, exclama assim:

«Oh! que teimoso e estupido animal!

Embora teimes, teimarás sem fim:

Por entre ti e o sol não vês que está

Um vidro, que passagem te não dá?

«Segue o exemplo das mais, que andam com gosto

A dançar sobre aquelle assucareiro;

Do amigo que ali dorme chucha o rosto,

Depois esmóe a andar no travesseiro.»

Eu, que dormir fingia, e não dormia,

Da tal offerta em troco assim dizia:

—Déste á môsca um conselho prudentissimo;

Tão bons os dês tu sempre em sendo rábula!

Mas és qual Frei Thomaz, Antão Verissimo,

Ou como o homem da tranca, na parabola,

Dez vidros furaria esse animal

Antes que entendas uma Lei Mental.

Entre ti e a sciencia ha vidros baços;

Nem tu, nem cem de ti os romperiam;

Vende o candieiro, a lôba, os calhamaços,

Torna-te ás terras que batatas criam.

É melhor ser um farto lavrador,

Do que um mirrado e estupido doctor.

Manda ao inferno os livros sybillinos,

Vem para a cama conversar commigo;

De Horacio eu fallarei, tu de pepinos,

Depois eu de Virgilio e tu de trigo.

Tire das leis com que dar uso aos queixos

Quem póde; e cada qual gire em seus eixos.—


N'esta fabula historica se intíma

O que ninguem ignora e não se observa:

A tal sentença velha, obra mui prima

Do: Nada faças, se o não quer Minerva.

Isto é, que um genio, que nasceu de encôlhas

Não vá metter-se a redactor de folhas:

Que um mestre sapateiro afreguezado,

Não vá ser na tragedia actor primeiro,

Que em transportes de principe ultrajado

Ralhará como mestre sapateiro;

Quem nasceu para chufas e chalaça

Nem epopêas, nem tragedias faça;

Que aquelle que nasceu para ladrão,

Seja ladrão de estrada e não juiz;

Procurador, letrado ou escrivão;

Que um bóde se não metta a ser derviz,

Nem um burro a academico; nem... nem...

Exemplos d'isto numero não têm.

A. F. de Castilho, Excavações Poeticas, p. 138. Lisboa, 1844.