GOSO E DOR
Se estou contente, querida,
Com esta immensa ternura
De que me enche o teu amor?
—Não. Ai, não! falta-me a vida,
Succumbe-me a alma á ventura:
O excesso do goso é dor.
Doe-me alma, sim; e a tristeza
Vaga, inerte e sem motivo
No coração me poisou.
Absorto em tua belleza,
Não sei se morro ou se vivo,
Porque a vida me parou.
É que não ha sêr bastante
Para este gosar sem fim
Que me inunda o coração,
Tremo d'elle, e delirante
Sinto que se exhaure em mim
Ou a vida—ou a rasão.
Almeida Garrett, Folhas Cahidas, pag. 153.