FALA A ORDEM

Pequeno, d'onde vens cantando A Marselheza?

Da barricada infame? ou d'outra vil torpeza?

Que esplendido porvir! Do nada apenas saes,

Começas a morder as purpuras reaes,

Oh filho trivial da livida canalha!

E, vamos! deixa ver... guardaste uma navalha?

Não tremas, que eu bem vi! que trazes tu na mão?

Intentas já limar as grades da prisão,

Fazendo scintillar um ferro contra o solio,

Archanjo que adejaes nos fumos do petroleo?...

Mas, vamos! abre a mão; não queiras que eu te dê.

Bandido, eu bem dizia!—A carta do A B C...

Guilherme de Azevedo, A Alma nova, p. 37. Lisboa, 1874.


Ó machinas febrís eu sinto a cada passo,

Nos silvos que soltaes, aquelle canto immenso,

Que a nova geração nos labios traz suspenso

Como a estancia viril d'uma epopêa d'aço!

Emquanto o velho mundo arfando de cansaço

Prostrado cae na lucta; em fumo negro e denso

Levanta-se a espiral d'esse moderno incenso

Que offusca os deuses vãos, annuviando o espaço!

Vós sois as creações fulgentes, fabulosas

Que, vibrantes, crueis, de lavas sequiosas,

Mordeis o pedestal da velha Magestade!

E as grandes combustões que sempre vos consommem

Começam, n'um cadinho, a refundir o homem,

Fazendo resurgir mais larga a humanidade.

Guilherme de Azevedo, Ib. p. 69.