II

Salve, oh martyr, coroado

Dos espinhos da paixão;

N'uma nova cruz pregado

D'uma nova redempção!

O teu Golgotha foi este.

Aqui te cobre um cypreste

Muita gloria e muita dôr;

Aqui teus mares plantaste;

Vencido, aqui triumphaste

De ti mesmo vencedor!

O calix já trasbordava:

Bebeste-o. Foi Deus que o quiz!...

Deu a vida á Italia escrava,

E a sua alma ao seu paiz.

Não dobra a fronte suprema:

Impondo o pó no diadema

Dos extranhos foge á lei,

E, holocausto derradeiro,

Expia a dor do guerreiro

Na sepultura do rei!

Foi longa aquella agonia!

Foi curta aquella afflicção!

Desceu rapida n'um dia

Da cabeça ao coração.

Entre as balas despedidas,

Entre as phalanges caídas,

Ficou tranquillo e de pé,

Como o cedro da montanha,

Que, da tormenta na sanha,

As selvas prostradas vé!

Pela Italia, Hespanha e França

Depois, calado, galgou;

E por momentos descança

Onde o somno lhe faltou!

Chega, observa, scisma e pára.

O soldado de Navára

Quer ter por leito final,

Quer por leito das batalhas

Este berço de muralhas

Que fez livre Portugal;

Onde a nossa liberdade

Martyr, heroica nasceu,

Pela sua magestade

Heroica e martyr morreu.

Das glorias tuas, oh Douro,

Accrescentaste o thesouro

O que é ligando ao que foi,

Cingiu teu braço robusto

D'um heroe ao resto augusto

A memoria d'outro heroe!

Ambos firmes combateram

Para a patria libertar;

Ambos do throno desceram,

Para a vida á patria dar;

Ambos reis, ambos soldados,

Ambos fieis a seus fados,

Mostraram que no provir

Podem ambos muitas vezes,

No triumpho ou nos revezes

Eguaes da historia surgir.