MEU ANJO, ESCUTA...
Meu anjo, escuta: quando junto á noite
Perpassa a brisa pelo rosto teu,
Como suspiro que um menino exhala;
Na voz da brisa que murmura e falla
Brando queixume, que tão triste cala
No peito teu?
Sou eu; sou eu; sou eu!
Quando tu sentes luctuosa imagem
D'afflicto pranto com sombrio véo,
Rasgando o peito por acerbas dôres;
Quem murcha as flores
Do brando sonho?—Quem te pinta amores
De um puro céo?
Sou eu; sou eu; sou eu!
Se alguem te accorda do celeste arroubo,
Na amenidade do silencio teu,
Quando tua alma n'outros mundos erra,
Se alguem descerra
Ao lado teu
Fraco suspiro, que no peito encerra;
Sou eu; sou eu; sou eu!
Se alguem se afflige de te vêr chorosa,
Se alguem se alegra co'um sorriso teu,
Se alguem suspira de te vêr formosa
O mar e a terra a enamorar o céo;
Se alguem definha
Por amor teu,
Sou eu; sou eu; sou eu!
Gonçalves Dias, Ultimos Cantos, p. 378.